ENTRE A CEGUEIRA E O CONFORMISMO

Il faut toujours dire ce que l’on voit.

Surtout il faut toujours, ce qui est plus difficile,

voir ce que l’on voit.

Charles Péguy

 

. Dir-se-ia que as lições a tirar destes últimos meses do Verão de 2026 relevam da maior evidência, seja no registo climático, seja na dimensão política, internacional como nacional. E, no entanto, tudo vai indicando precisamente o contrário, que aquelas lições chocam, ora numa granítica cegueira, no primeiro caso, ora num cocktail de impotência, irresponsabilidade e conformismo, no segundo caso.

. A ONU publicou há dias um relatório sobre a gravidade do aquecimento global do planeta, em que salienta que, para o manter nos 1,8 graus – já não nos 1,5 decididos no Acordo de Paris, de 2015 -, será necessário, até 2035, reduzir as emissões globais a metade, o que será impossível continuando na “procrastinação climática” em que se tem vivido. Com efeito, nunca como nestes meses as consequências das alterações climáticas se tinham feito sentir, e ver, com tanta frequência e intensidade por todo o mundo, tornando plausíveis as especulações catastrofistas do famoso livro de ficção científica The Ministry for the Future de Kim Stanley Robinson. Mas tal não foi suficiente para que os líderes políticos pusessem nas suas mais urgentes prioridades qualquer tipo de resposta política a esta situação, tudo se resumindo sempre a uma retórica encantatória, de que infelizmente a União Europeia é um constante e eloquente exemplo.

 DO ESPECTÁCULO À INVISIBILIDADE

. Como compreender esta situação? Tratar-se-á, como F. Samama sugere em The Enigma of Climate Inaction, de um enigma? Não creio, pelo menos na formulação que ele propõe. Porque, por um lado, a quantidade de dados sobre a crise climática cresce todos os dias, invade todos os tipos de informação, declina-se em inúmeros fenómenos que enchem os écrans: canículas, cheias, furacões, secas severas, desabamentos, degelo dos glaciares, etc., etc. Mas, por outro lado, o que passa é que isso acontece dando-se-lhes sempre a forma de eventos espectaculares, como se fossem meras séries que se vão desdobrando em cadenciados episódios, encapsulados num presentismo tão “voyeur” como angustiado, como se na sua origem não houvesse causas materiais.

. Ou seja, o frenesim informativo conduz, não à acção mas à inacção. E o que ele suscita, é uma inédita invisibilidadedaquilo mesmo que exibe, como se fosse algo que ocorre nos écrans, mas não acontecesse na realidade. Abre-se assim um abismo cada vez maior entre o que se vê e o que se sabe, entre a consciência e o saber, entre o que se conhece e aquilo em que se acredita, entre os consensos científicos e as convicções colectivas. Toca-se aqui num “paradoxo” central dos nossos dias:  os saberes difundem-se, mas não se transformam em convicções colectivas, como se a um conhecimento cada vez mais total e global correspondesse uma consciência cada vez mais limitada, minimal, quase inexistente.

. Algo que Ulrich Beck já tinha detectado no clássico A Sociedade do Risco, em 1980, ao alertar para o frequente equívoco de identificar o diagnóstico sobre um problema com a sua resolução. Intuição que, mais tarde, Jean-Pierre Dupuy aprofundou com a sua teoria do catastrofismo iluminado, que consiste em afirmar que, uma vez que hoje sabemos que a catástrofe é possível, mas não acreditamos efectivamente nessa possibilidade nem agimos de acordo com ela, a única solução será a de proceder como se a catástrofe já tivesse acontecido. Dito de outro modo, procurando contrapor à passividade da negação do “que se sabe”, a actividade de uma lúcida e exigente racionalidade.

A FÁBRICA DE IGNORÂNCIA

. Esta inteligente abordagem é contudo uma via difícil para combater a invisibilização a que acima me referi, de que se constantemente se multiplicam os indícios e os sinais, nomeadamente na linguagem política, com o recurso à retórica dos oxímoros (“crescimento sustentável”, etc.) ou à multiplicação de metáforas sobre a “transição energética”, que na verdade nunca acontece, mantendo-se sempre o regime da sua acumulação sucessiva, como Jean-Baptiste Fressoz detalhadamente explicou, no  seu livro Sans transition – une nouvelle histoire de l’énergie.

. De tudo isto decorre, a meu ver, que a invisibilidade se transformou nos dias de hoje no dispositivo central de uma contínua produção de ignorância da realidade, de incompreensão dos seus problemas e de bloqueio de qualquer solução que eles possam suscitar. Fenómeno a que já tenho aludido, na linha do que foi teorizado sob a designação de agnotologia (do grego agnōsis, “sem conhecimento”) por Robert Proctor, da Universidade de Stanford, para compreender esse tão descurado fenómeno que é a intencional produção de ignorância. Produção que pode tomar várias, desde a hábil transformação de sólidos consensos científicos em agitadas controvérsias públicas até à hoje cada vez mais frequente saturação mediático-reticular, que transforma a crise do clima e as suas consequências num mero carrossel de episódios espectaculares, sempre – ponto que é decisivo – desligados da exposição ou análise das suas causas.

SEM RETORNO

. Encontramos aqui mais uma das múltiplas astúcias que é vital reconhecer ao capitalismo, que percebeu que a sua continuidade e expansão dependem cada vez mais do dispositivo que garante a invisibilização das suas estratégias, dos seus dispositivos e procedimentos, separando a torrencial espectacularização dos acontecimentos da compreensão das suas diversas causalidades. E, assim sendo, a impotência e a inacção políticas de que todos se queixam não seria afinal um impasse do “sistema”, como tantas vezes se diz, mas antes a prova da sua enorme eficácia, num trajecto que se vai revelando sem retorno.

. A segunda lição a tirar fica para outra ocasião, mas não sem sinalizar o modo como o conformismo se vai generalizando, entre sofismas de irresponsabilidade e lamentos de impotência, crescendo tudo isto  à medida que a hipnocracia, nacional e  internacional, se consolida, propagando as formas de impunidade  dos vários poderes, estimulada pela permanente guerra de atrito entre os políticos e os media, com muitos deles a  comportarem-se cada vez mais como autênticas máfias, à luz de cujo modelo actual – se seguirmos a perspicaz análise de Roberto Saviano – parecem evoluir,  instaurando um espaço caótico em que os cidadãos, atordoados, oscilam entre a indignação mais colérica  e a indiferença mais atávica, como se tratasse das duas faces da mesma moeda.

. Talvez tudo sem retorno, também aqui.

30 ANOS DEPOIS, A GRAVURAS DO CÔA DE NOVO EM PERIGO?

Bem ao contrário das inócuas, mas irresponsáveis, palavras que o Presidente da República proferiu no 30ª aniversário da abertura do Parque Arqueológico do Vale do Côa, no passado dia 10, a situação em que actualmente se encontram as gravuras do paleolítico é de uma enorme, extrema gravidade. 

Foi essa situação que me levou a escrever, com o Professor João Zilhão, responsável pela criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa, em 1996, o artigo que foi ontem publicado pelo Expresso/Revista, e que  – interrompendo a “pausa de Verão” da newsletter Pensar o Mundo – a seguir se insere, reforçando a recente e oportuna reportagem que o jornalista Nuno Gudes fez para a TVI.

 * * *

. No dia 24 de Novembro de 1995, depois de o Conselho de Ministros ter tomado a decisão de suspender a barragem do Côa e de preservar o rico e extenso património de arte paleolítica ao ar livre que a barragem iria submergir, único no mundo, foi afirmado no Parlamento (por um dos autores deste texto) que o que até então se tinha passado “revelava uma insensibilidade cultural que se traduzira na completa indiferença pelo nosso património mais raro”.  O que nos leva a escrever este texto é o receio que se esteja a regressar a uma nova época de indiferença, com danos irreversíveis para o património arqueológico do Vale do Côa.

. Tomada a decisão, tudo mudou: o trabalho no tereno avançou, as equipas de arqueólogos organizaram-se, com a importante colaboração de peritos internacionais, e o Parque Arqueológico do Vale do Côa (PACV) fez-se, tendo sido inaugurado a 10 de Agosto de 1996 — faz agora justamente 30 anos —, equipado com o material necessário às visitas às gravuras: viaturas, guias formados para o efeito, material informativo, centros de informação, etc. E, paralelamente, o governo da época trabalhava num plano de desenvolvimento integrado para a região, o “Procôa”, que a tornasse mais atractiva em termos culturais e económicos, turísticos e sociais.

. Foi certamente por tudo isto que, em 1995, a escolha do semanário Expresso para “Acontecimento Nacional do Ano” recaiu na preservação das gravuras paleolíticas do Vale do Côa. Passados 30 anos, a UNESCO ainda hoje continua a referir regularmente esta opção como um caso exemplar, e único, de defesa do património e, em Portugal, não há já quem duvide da justeza da decisão de se ter abandonado o projecto da barragem. O valor da arte, cabalmente confirmado pela sua rápida inclusão, em Dezembro de 1998, na Lista do Património Mundial da UNESCO, é inquestionável. E o impacto positivo que a criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa tem tido no desenvolvimento da região é sublinhado por todos os agentes envolvidos — económicos, políticos ou culturais. Não há aliás melhor ilustração do significado que o desenlace da controvérsia do Côa representou para a ideia que o país tem de si próprio, e transmite ao resto do mundo, do que a imagem que o Estado português escolheu para ilustrar os nossos passaportes: precisamente uma das principais gravuras da Penascosa.

. Sendo apenas a parte visível de um conjunto muito maior de gravuras — conjunto este mais amplamente revelado quando, por razões de manutenção, a albufeira da barragem do Pocinho tem de ser esvaziada —, as rochas gravadas do Côa permanentemente visíveis conformam ainda assim um monumento grandioso. No total, estão actualmente catalogadas 1615 rochas gravadas, distribuídas por 104 núcleos, quatro dos quais (Canada do Inferno, Fariseu, Ribeira de Piscos e Penascosa) abertos para visitas de grupo organizadas.

Os numerosos estudos sobre o estado de conservação das gravuras realizados ao longo dos anos têm confirmado que, realizada com o devido acompanhamento por guias qualificados, a abertura ao público destes sítios não põe em causa nem a conservação das gravuras nem a do seu envolvimento paisagístico. É para garantir essa conservação que há limitações ao número diário de visitantes admitidos que, no essencial, seguem critérios que nos grandes museus do mundo inteiro se vão tornando regra geral, para fazer face às pressões do turismo de massas.

 . Tudo isto corre hoje, contudo, um sério e iminente risco de se alterar. É que a preservação de todo este conjunto depende de outro factor que os mesmos estudos sobre a conservação das gravuras têm considerado crucial: a manutenção das condições de estabilidade das vertentes do vale. Ao longo das últimas dezenas de milhares de anos, essas condições pouco se têm modificado, o que se explica pela verticalidade das paredes e pela sua génese: o desmoronamento de massas paralelepipédicas da rocha de base, deixando expostos planos de falha cobertos de uma película siliciosa de grande dureza. À escala geológica, de muitos milhões de anos, tais desmoronamentos ocorrem com uma frequência suficiente para gerar a paisagem de vertentes densamente salpicadas de paredes verticais que hoje observamos no Baixo Côa. À escala da história da Humanidade, das dezenas ou das poucas centenas de milhares de anos, eles são, porém, muito raros. Conjugado com a dureza das superfícies, é este o outro factor que explica a sobrevivência até aos nossos dias de gravuras feitas há mais de 20.000 anos, idade que é a da maioria das gravuras paleolíticas do Côa.

. Porém, no fundo do vale, abaixo da cota de 135 metros, que é onde encontramos a grande maioria das gravuras e é onde estão situados os núcleos incluídos nos circuitos de visita pública, estas condições de estabilidade são muito significativamente impactadas pela ocorrência de grandes cheias.  Quando isso acontece, há abrasão das superfícies gravadas (devido ao arrastamento de partículas em suspensão), remoção dos sedimentos de vertente que calçam as paredes verticais (devido à energia das águas em movimento), e acumulação sobre as paredes gravadas de lodos (transportados pela cheia e depois deixados pela retracção do rio para o nível normal). Além disso, dão-se

processos de expansão e contracção relacionados com o embebimento e secagem da rocha, aumenta a carga dinâmica a que qualquer parede vertical enterrada fica exposta, e produz-se acumulação de terra nas pequenas fissuras e falhas que sempre existem nessas paredes, com a consequente penetração por raízes. O que estes processos podem implicar para a integridade das “telas” que suportam a arte do Côa compreende-se facilmente tomando como termo de comparação algo que todos conhecemos por experiência: o efeito que sobre os muros velhos têm a chuva, a vegetação e o peso das terras que eles suportam.

. Com a construção da barragem do Pocinho, o fundo do vale passou a ser afectado por processos como estes, mas como o nível da respectiva albufeira é muito estável — oscila entre os 124 e os 125,5 metros de cota — isso apenas foi acontecendo numa estreita banda. No entanto, desde que a obra da barragem do Côa foi abandonada, as grandes cheias, as que alcançam ou ultrapassam a cota de 135 metros e que até então haviam sido seculares, passaram a tornar-se regulares. Os números não deixam dúvidas: nos vinte anos entre 1996 e 2016, para os quais o PAVC dispõe de registos detalhados, houve 209 eventos durante os quais a situação de cheia se prolongou por muitos dias, atingindo um máximo de 44 dias em 2002-2003.

. A causa desta situação é dupla: por um lado, apesar de a obra ter sido abandonada, manteve-se intacta a ensecadeira (uma pequena barragem, de natureza transitória) construída a montante, cuja cota de coroamento é de 135 metros; por outro, o canal de derivação escavado para escoar o caudal do Côa para a albufeira do Pocinho foi calculado para caudais normais, não para cheias excepcionais. É aqui de referir que a resolução do problema colocado por esta ensecadeira estava prevista no âmbito de um projecto de regularização do troço do rio afectado pelas obras, associado à ideia que inicialmente havia para o Museu do Côa: construí-lo na área que já havia sido escavada para receber o encosto da barragem. Esse projecto foi abandonado pelo governo de Durão Barroso e substituído pelo que deu origem ao actual Museu, construído no planalto, sobranceiro à confluência com o Douro. E a ensecadeira foi desde então esquecida, com consequências que vão sendo cada ano que passa mais agressivas para a conservação das gravuras.

. É esta situação que hoje ameaça a arte rupestre do Vale do Côa. Para além de pôr em causa a integridade física dos painéis gravados, ela faz ainda com que, ciclicamente, as visitas públicas tenham de ser canceladas, enquanto as águas não baixam e se limpam ou repõem as rochas gravadas, os caminhos de acesso e outras estruturas de apoio. Há aqui, portanto, um claro incumprimento das obrigações assumidas pelo Estado português no quadro do processo de classificação da arte do Côa como Património Mundial pela UNESCO. E, a prazo, o prolongamento desta situação obrigará certamente a algo de todo indesejável, que envergonhará o país: à sua inclusão numa outra lista da UNESCO, a do Património Mundial “em perigo”.

. O arrastamento desta situação é tanto mais incompreensível quanto a ensecadeira, que tantos danos causa em períodos de cheia às gravuras do Côa, está há muito incluída na lista das obras hidráulicas “obsoletas”. No seguimento do proposto no Relatório do Conselho Nacional da Água de Março de 2017, sobre “Remoção de Infraestruturas Hidráulicas Obsoletas”, aguarda-se desde então que a Agência Portuguesa do Ambiente proceda à sua remoção ou desmantelamento.

. Em suma: as gravuras paleolíticas do Vale do Côa, únicas no mundo, classificadas como Património Mundial pela UNESCO desde 1998, correm perigo. O alerta aqui fica. O Governo português tem a obrigação de resolver este problema com urgência, mas também de dotar o Parque Arqueológico do Vale do Côa dos meios estratégicos, logísticos e financeiros que constavam do compromisso assumido junto da UNESCO na candidatura a Património Mundial, em 1998, meios que há anos lhe são prometidos, sem nunca terem sido efectivamente concretizados.

PÃO E CIRCO

(Em Julho e Agosto o blogue PENSAR O MUNDO suspende a sua publicação,

que será retomada em Setembro)

. “Os romanos tinham 182 dias por ano de «pão e circo», ou seja, de espectáculo para os distrair dos seus verdadeiros problemas. Nós temos certamente o dobro, o que na verdade significa o ano todo. E com uma intensidade e variedade tais, que se torna muito difícil não só a atenção ao mundo, mas também a compreensão a acção que a deviam acompanhar. Vivemos tempos em que as notícias mais parecem mosquitos de Verão que nos atacam por todos os lados, do que informação que nos permita olhar com algum discernimento para o País. O resultado é uma sociedade cada vez mais atordoada, desvitalizada e rebocada: atordoada pela confusão, desvitalizada pela decepção, rebocada pela rotina.

. Se calhar, o melhor é mesmo seguir o conselho de Rolf Dobelli, que recentemente sugeriu, num estimulante texto publicado no The Guardian, que «news is bad for you – and giving up reading it will make you happpier» (12.04.2013). A ideia central é que, nos dias de hoje, as notícias se tornaram tão tóxicas para a mente, como o açúcar se revelou ser para o corpo. E propõe, em apoio desta corajosa analogia, dez pontos em que vale a pena reflectir. Esses dez pontos são, na sua perspectiva, que as notícias enganam, são irrelevantes, não explicam, são tóxicas para o organismo, aumentam os erros cognitivos, impedem de pensar, funcionam como uma droga, fazem perder tempo, tornam-nos passivos e matam a criatividade.

. As notícias enganam, porque focam sempre o mais pitoresco ou o mais anedótico em qualquer acontecimento, em prejuízo do fundamental. As notícias são irrelevantes porque, se pensarmos nas cerca de dez mil novas histórias que elas passaram nos últimos doze meses, somos incapazes de indicar uma única que nos tenha ajudado a tomar uma boa decisão na nossa vida. Quando toda a gente vive em competição, elas são uma desvantagem competitiva. As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas e quanto mais prendem a nossa atenção, mais incapazes nos tornam de compreender verdadeiramente o que se passa e mais insensíveis nos tornam ao que de facto conta. As notícias são tóxicas para o nosso corpo, elas interferem com o nosso sistema límbico (que é o responsável tanto pelas nossas emoções como pelos nossos comportamentos sociais), podendo alterar a produção de glicocorticóides, desregulando o sistema imunitário, afectando o crescimento e induzindo diversos problemas de saúde.

. As notícias funcionam como uma droga, elas estimulam os circuitos neuronais de skimming e multitarefas, bloqueando outros, nomeadamente os da leitura e do pensamento focado. O que, com o tempo, acaba por alterar a própria estrutura física do cérebro. As notícias aumentam os erros cognitivos porque em geral valorizam a confirmação e a repetição do que se sabe, ou se pensa que se sabe, em detrimento de tudo o que é diferente e surpreende. As notícias inibem o pensamento, porque este requer um tempo de concentração que exige uma atenção contínua. Mas também porque elas afectam a memória, sujeitando‑a a um fluxo ininterrupto de distracções e de insignificâncias. As notícias são uma perda de tempo. Todos sabemos, por experiência, que na verdade bastam uns minutos por dia para nos manter informados, o resto é repetição e ruminação que apenas visam alimentar o «infotretenimento». As notícias tornam-nos passivos, elas valorizam tão intensamente o que está fora do nosso alcance, que só podem conduzir à resignação e ao conformismo.

. Por fim, as notícias matam a criatividade. Não há «notícia» de um único criador, seja em que domínio for, que seja um dependente, um obcecado ou um viciado em notícias. As notícias são inimigas da criação, elas colam-nos às ideias gastas e às velhas soluções, à sua banalidade e inutilidade. O argumentário é, como se vê, sugestivo. O leitor pode conhecer melhor a «lente» com que Rolf Robelli revê o mundo lendo A Arte de Pensar com Clareza52 erros de raciocínio que não deveríamos cometer (Ed. Temas e Debates, 2013).

O que R. Dobelli – muito inspirado por N. N. Taleb, o autor do famoso êxito O Cisne Negro – defende neste livro é uma abordagem fria da racionalidade, que valoriza não só a propensão para o erro no comportamento humano, mas também o seu carácter sistemático. As notícias são, por isso, para ele, um excelente material para testar as consequências desta perspectiva, porque «a comunicação social é o meio onde a tendência para acreditar no relato se dissemina como uma doença contagiosa» (p. 62), tornando frequente o paradoxo de ser melhor a explicar do que a compreender. Eis pois um bom programa para férias: esquecer as notícias – e, já agora, aproveitar para conversar.

Aqui, o autor a seguir é Theodore Zeldin, que escreveu um fantástico Elogio da Conversa, editado pela Gradiva. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento, a criatividade, desintoxicar a mente e explorar as ressonâncias com o mundo. Como diz Zeldin, a conversa é, entre coisas, uma actividade que se situa entre o jogo e o puzzle, e que pode «modificar não só a maneira de ver o mundo, mas também o próprio mundo» – ora, não é isto mesmo que todos queremos hoje?”

                                                          NOTA INTEMPESTIVA – 4

                              (In PENSAR O QUE LÁ VEM, 2021 – 1ª edição 2015 -, pp. 93-94)

O PONTO CEGO DA EUROPA

“Burocracia, declínio, impotência – eis as três grilhetas que definem, hoje a União Europeia”

. “Nunca se resolveu nenhum problema recorrendo às causas que o provocaram”, afirmou há muito Einstein. Mas a Europa teima em contrariar esta evidência com mil estratagemas, numa permanente desorientação entre a recauchutagem de velhas ilusões e o recurso a proféticas miragens. Os actuais conflitos, na Ucrânia e no Médio Oriente, apenas vieram pôr a nu o brainrot, a cada vez mais intensa degenerescência estratégico-política da União Europeia, que na verdade inviabiliza qualquer análise séria, efectiva, dos seus problemas, situação a que é urgente contrapor perspectivas e ideias claras, ou seja, hipóteses e teses que possam ser racionalmente argumentadas e abertamente discutidas, longe da tagarelice mediático-reticular dominante.

. Avanço três:  a primeira é que, para lá da maior ou menor capacidade ou qualidade das lideranças europeias, é o próprio design, a própria configuração institucional da União Europeia, que a bloqueiam politicamente. Ela foi concebida num contexto que se transformou completamente no decurso das últimas décadas, mas com uma rigidez que agora a paralisa quase catatonicamente. A sua história ajudou, e isso vê-se sem equívocos, quer pelo que fez, por exemplo, o imprudente alargamento de 2004, à revelia do reiterado compromisso de que não haveria “alargamento sem aprofundamento”, ou o Tratado de Lisboa a camuflar o plebiscitariamente rejeitado (pela França e pelos Países Baixos) projecto de Constituição Europeia, aumentando a já forte ideia de défice democrático de que ela padecia.

. Quer pelo que não fez, como aconteceu com a Estratégia de Lisboa, de 2000, cujo objectivo era transformar a União Europeia, e cito, «na economia do conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo, antes de 2010, capaz de um crescimento económico duradouro acompanhado por uma melhoria quantitativa e qualitativa do emprego e uma maior coesão social». Como também aconteceu com a unificação do mercado de capitais, com as prometidas alterações à regra da unanimidade, com a conclusão da união bancária, com o estímulo à criação de um espaço público europeu que, combinado com uma maior legitimação popular, desse consistência à existência de um “povo europeu”. Tudo isto, e muito mais, a evidenciar que a União Europeia vive num regime, não de acção mas de inércia, que a sua natureza é cada vez mais burocrática e menos democrática, que o seu brainrot é, sejam quais forem as lideranças do momento, intrinsecamente institucional.

. A segunda, é que esta situação, a de um avolumar de problemas que se acumulam sem solução, é justamente o que em geral define o declínio. Declínio que se tenta ocultar sob a capa de sucessivas ilusões e miragens, mas que os números revelam sem piedade. Basta um: o PIB europeu passou, entre 2008 e 2025, de 30% para 17% do PIB mundial. Anne Applebaum traça bem o percurso que nos trouxe aqui, mas revela-se vaga quando se trata de, como diz, pensar a Europa depois da América, e apostar num “momento europeu”. E Mario Draghi, no discurso que fez recentemente, a 14 de Maio, ao receber o Prémio Carlos Magno, insiste num federalismo pragmático de que, contudo, ninguém vê o motor, num tom de cada vez maior resignação com a irreversibilidade do declínio europeu.

. A terceira aponta para outro elemento, talvez o mais decisivo, que amarra a Europa à frase de Einstein que comecei por citar, e que é o da identificação genética do projecto europeu com a estratégia de uma assumida impotência, estratégia que se veio a revelar fatal, que corrói os interstícios do projecto europeu, apesar das recentes declarações em sentido diverso de vários responsáveis europeus. Como há anos escreveu o director do Institut d’ Études de Securité da União Europeia, “a União Europeia tem por fundamento a rejeição da política de potência” (puissance), que “esse fundamento é o garante da sua sobrevivência”, alimentando a ilusão de uma exemplaridade que vergasse a força.

. Claro que na retórica muita coisa mudou entretanto, tinha de mudar, mas na acção a impotência continua a imperar, ela traduz-se num corrupio de reuniões atrás de reuniões, num fluxo de anúncios atrás de anúncios, tudo inconclusivo – e, sobretudo, inconsequente e inactivo! Burocracia, declínio, impotência – eis as três grilhetas que definem hoje a União Europeia. São elas explicam que, por mais relatórios que se elaborem, como o de Enrico Letta ou, sobretudo, o de Mario Draghi atrás referido, pouco ou nada se faça.

. Os hiperbólicos elogios que eles suscitam revelam-se como que a outra face do verdadeiro ponto cego, de um impensável intersticial, em que na realidade vive a União Europeia. Isto num momento em que o que se exige seria, não uma panóplia de remendos ou de “reformas” ad hoc, mas uma verdadeira refundação que, sejamos realistas, parece cada vez mais improvável à medida que o tempo passa e a nomenclatura burocrática europeia se entrincheira. Como se a União Europeia fosse, nas palavras de Eric Lombard, antigo ministro francês da economia, o produto de uma profecia falhada,  de um torpor, de uma vassalização lúgubre com que, defende ele – e bem – é urgente cortar.

A FUTEBOLIZAÇÃO DOS ESPÍRITOS

 Não é difícil antecipar o mês que aí vem. Será um mês em que se vai entrar em completa claustrofobia colectiva, como se vivêssemos numa campânula dentro da qual não se pode falar, conversar ou discutir nada, que não seja futebol.

. Desde que, em 1966, a televisão transmitiu o primeiro campeonato do mundo de futebol, conseguindo então seiscentos milhões de espectadores, que a excitação à volta deste acontecimento se tem intensificado cada vez mais, impondo um regime emocional de arrebatamento constante, de obsessão focalizada e de fanatismo intermitente, que conduz — como recentemente dizia o autor de uma notável história do futebol, Paul Dietschy — a uma verdadeira futebolização dos espíritos.

. São ocasiões que revelam bem a dimensão simultaneamente invasiva e estruturante do desporto na vida contemporânea. Mas são sobretudo ocasiões que convidam a que se procure reflectir, pensando sem preconceitos sobre um tal fenómeno que, em boa medida, vive da renúncia ao pensamento. Retomo por isso três ideias que já tenho exposto, e que continuam a parecer-me centrais.

. A primeira é que o desporto, na forma que hoje conhecemos, só surge no século XIX, tendo-se desde então tornado um fenómeno só comparável à religião, nomeadamente pelo modo como se impôs como uma referência global incontornável a todos os povos, sexos e idades. O próprio tempo lhe pertence cada vez mais, o calendário desportivo fixa hoje uma liturgia que condiciona todas as outras temporalidades: políticas, sociais ou escolares. Nada lhe escapa: a sua força tornou-se tal que pretender fazê-lo pela crítica, pela ironia, ou mesmo só pela indiferença, se tornou uma atitude logo considerada blasfematória.

. A segunda ideia é que desde as últimas décadas do século XX o desporto, e nomeadamente o futebol, ao mesmo tempo que destruía os valores que tradicionalmente se lhe associavam (a camaradagem, o espírito lúdico, o respeito pelo adversário, a valorização pessoal, a abnegação, etc.), passou a consagrar um único valor como valor absoluto, o da performance. Valor que impôs associado a uma implacável lei do mais forte e a uma devastadora lógica mercantilista, de que todos os dias temos lamentáveis exemplos, que excedem a mais fértil das imaginações.

. Não tenhamos ilusões: o desporto, como riquíssima intermediação entre povos diversos, histórias autónomas, pessoas diferentes, tradições específicas, valores contrastantes, desapareceu. Evaporou-se, na consagração desta sua nova prática massificadora, inteiramente encapsulado num ciclo de euforia/abatimento, que é o ciclo do eterno retorno que anima o actual espírito desportivo. E, entretanto, o futebol tornou-se um fenómeno inseparável do culto da cupidez, do dinheiro fácil, do sucesso que não olha a meios, da matriz de irresponsabilidade impune, factores que têm conduzido as nossas sociedades aos dilacerantes problemas que hoje vivemos.

. É pois bom que se pense na sociedade que se está a construir, quando os exemplos que se incensam até ao delírio são os de indivíduos que vivem numa abracadabrante ostentação, como se fossem deuses de um novo circo, gastando dezenas de milhares de euros numa noite de discoteca, exibindo um permanente carrossel de scort girls de luxo, circulando em automóveis de centenas de milhares de euros que estoiram sem um ai. Ao mesmo tempo que, na maior parte dos casos, raramente são capazes de uma iniciativa filantrópica, de um projecto mecenático, de um gesto solidário. Ou mesmo, quantas vezes, de uma simples frase com sentido… Por isso, a identificação das seleções e dos seus resultados com qualquer tipo de desígnio nacional não passa, na verdade, de um ritual mais ou menos oportunista e sem qualquer consistência. Que dá, todavia, um bom retrato da estatura daqueles que a promovem, que de resto não enganam ninguém com isso – a não ser, talvez, a si próprios!

.  Por fim, a terceira ideia é que o desporto condiciona hoje em todo o planeta o imaginário dos povos, impondo-lhes um conjunto uniforme de representações a partir das quais eles concebem quase toda a existência. Como diz um dos melhores intérpretes deste fenómeno, Robert Redeker, é no desporto que se concentram em mais alto grau os factores de uma tal uniformização: consumo desenfreado, fetichismo das marcas, pressão publicitária, culto dos ídolos, submissão aos media, sloganização da linguagem, histerização das multidões, fanatismo da performance. Convergência que torna o desporto, e particularmente o futebol, no catalisador de uma humanidade cada vez mais unidimensional. Não ver isto é não ver nada. Ou melhor, é ver só futebol…

                                                             NOTA INTEMPESTIVA – 3

                                             (In PENSAR O MUNDO – vol. II, pp. 559-561)

MÁSCARAS IMPERIAIS: DE TUCÍDIDES A TODD

. Foi uma bela ocasião perdida, por Donald Trump, quando, na sua recente viagem à China, Xi Jinping esconjurou a “armadilha de Tucídides”, como se ela pudesse vir a ser favorável à posição chinesa. É um tópico que tem sido exaustivamente repetido, na esteira da expressão cunhada em 2012 por G. T. Allison, para referir a armadilha em que Esparta, a potência dominante no mundo grego, teria caído, ao iniciar uma guerra com Atenas, então uma potência em rápida ascensão.

. E foi uma “bela ocasião perdida”, pois um rudimentar conhecimento histórico por parte de Trump – ou de algum dos seus assessores – sobre a Guerra do Peloponeso, ter-lhe-ia permitido lembrar a Ji Xinping que a vitória final não foi de Atenas, mas de Esparta, que pôs fim ao império marítimo de Atenas, impondo-lhe um governo oligárquico, o dos “30 tiranos”. Mais – e este ponto teria suscitado algumas analogias incómodas – , que Esparta impôs então a Atenas, entre outras medidas draconianas, a destruição das suas próprias muralhas (as chamadas “Longas Muralhas”, determinantes para a sua defesa), que Xenofonte conta ter sido acompanhada ao som de flautas, que celebravam o acontecimento.

. Terá sido uma “bela ocasião perdida”, mas na verdade ela teria tido um efeito meramente retórico, no âmbito da encenação do encontro entre os dois presidentes, dos EUA e da China. Isto porque, na verdade, ao contrário dos estereótipos tão insistentemente referidos, não se trata hoje de nenhuma “armadilha de Tucídides”, uma vez que nem a situação global nem a disputa EUA-China se enquadram na teoria de G. T. Allison.

. Com efeito, a nova ordem que se tem vindo a impor no mundo desde o começo deste século é de outra natureza, trata-se de uma ordem pós-liberal, como bem sugeriu Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, quando denunciou no seu discurso de Davos em Janeiro passado, a ficção – a expressão é dele – de uma imutável e intemporal ordem mundial. E nesta nova ordem mundial que caracteriza o século XXI, os factores que contam são outros, sobretudo três: a força em prejuízo do direito, o crescimento do poder oligárquico e a impunidade da predação. E neste tabuleiro há que contar com o que Zaki Laïdi e Yves Tiberghien designam, num estimulante livro recente, The Hedgers, que de certo modo são hoje algo de análogo ao que foram os países não alinhados no século passado, combinando-se assim a actual bipolaridade EUA-China com uma nova multipolaridade em construção, num contexto em que, claramente, o modelo liberal-democrático perdeu atractividade para grande parte do mundo

. O facto é que a situação actual global revela o total colapso das ideias geopolíticas dominantes nas últimas décadas, em muitos casos revelando os logros em que elas se ancoravam. Neste ponto a situação da Europa é talvez a mais dramática, o seu apagamento político, a sua irrelevância geopolítica e a sua impotência estratégica são hoje a prova evidente dos equívocos e das ilusões em que tem vivido – e, infelizmente, persistido. Situação que já se tinha evidenciado com a guerra da Ucrânia, e se tem repetido e agravado com o conflito do Médio Oriente, reacendido a 7 de Outubro de 2023 pelo Hamas, com consequências que Israel e os EUA tornaram tão inaceitáveis quanto brutais.

. Gostaria de chamar a atenção para dois pensadores que de facto ajudam a pensar o nosso mundo, longe dos ventríloquos mediático-reticulares que – com raríssimas excepções – asfixiam hoje o espaço público com uma vazia, contínua e globalizada liturgia. Trata-se de Emmanuel Todd e de Peter Turchin.  Falarei deste último numa próxima ocasião, trata-se de um pensador que, no livro End Times, aborda de uma forma extraordinariamente pertinente e inovadora a “crise do mundo ocidental”, colocando no seu cerne uma combinatória explosiva: a progressão das desigualdades, o bloqueio de qualquer contrato social e a sobreprodução de elites.

. Hoje referirei apenas Emmanuel Todd, que em 2024 publicou o livro La Défaite de l’Occident – oportunamente traduzido em 2025 para português pela Principia Editora -, onde propõe um conjunto muito consistente de hipóteses que sustentam a tese do título, nomeadamente a do modo como o neoliberalismo, na era da globalização, conduziu a uma generalização do nihilismo que, de modos diversos, atingiu todo o Ocidente, mas colocou os EUA na “vanguarda” desse processo, que Todd, a partir de dados muito variados, mas sempre  objectivos, considera irreversível.

. Sendo uma obra impossível de sintetizar no quadro de uma newsletter, direi que as suas ideias nucleares são que o Ocidente, com os  EUA  à cabeça, vive um processo de decomposição interna que se traduz em fenómenos como a agudização da polarização interna, o crescente descontrolo financista, a perda da coesão nacional ou a fragilização institucional, em simultâneo com uma desindustrialização generalizada e sem alternativas reais, que tomou formas mais agudas nos EUA, tudo isto apontando, não para uma crise episódica, mas para uma autêntica transformação civilizacional, o que as elites ocidentais, confundindo narratretas morais com análise estratégica, têm sido incapazes de compreender.

. Neste quadro a situação da Europa torna-se particularmente grave, refém da sua vassalização face aos EUA, que a leva a, paradoxalmente, agir frequentemente contra os seus próprios interesses. E aqui é preciso ver que a configuração burocrática da União Europeia, cada vez mais longe dos imperativos democráticos que proclama, é um factor decisivo da sua inércia e impotência políticas. Bem como, penso, de resignação à sua progressiva “saída da história”. Os últimos anos têm sido um completo desastre para a União Europeia, conduzida pela incompetência autoritária da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen,  e pelo demissionismo irresponsável do Conselho Europeu, dos seus membros e do seu presidente, correntemente designado nos bastidores do Conselho como o seu “majordome”…

. Publicado antes da guerra do Irão, Todd considera que este conflito veio confirmar os seus diagnósticos e prognósticos, tendo ele entretanto salientado, em diversas intervenções, que se trata sobretudo da intensificação e da aceleração dos processos analisados no seu livro de 2024, classificando Donald Trump como o “presidente da derrota” – algo que, ao perfazerem-se agora três meses sobre a invasão do Irão, se revela cada vez mais como uma quase inquestionável evidência. É isso que leva Donald Trump a hiperbolizar constantemente o seu poder económico e militar – na verdade, tão inegável como declinante -, assim como as múltiplas dívidas da Europa (e não só) em relação aos EUA, numa parafernália de ininterruptas intervenções histriónicas, procurando criar “realidades alternativas” que, contudo, não passam de máscaras que revelam sempre o contrário daquilo que enunciam.

PROGRESSOS DA ESTUPIDEZ

. É surpreendente a escassez de interesse e de bibliografia que certos temas suscitam, a quase clandestinidade a que as formas da nossa cultura os votam apesar do papel que desempenharam no decurso dos tempos e da relevância que, individual e coletivamente, continuam a ter. Um deles, e dos mais significativos, é o da estupidez. Trata-se, penso, de algo de que todos temos experiência pessoal e social, contemporânea e histórica, real e ficcional: e, contudo, ela permanece sempre, um pouco como acontecia com o sexo antes de Freud, do lado de lá do analisável — ou mesmo do dizível.

. Há, aqui, alguma responsabilidade da filosofia, que insistentemente traçou um quadro das faculdades humanas em que a estupidez não tinha qualquer lugar. Sendo as faculdades – a razão, a vontade, a imaginação, etc. – os vários modos de exercício do pensamento, era deste que logo se excluía a estupidez, como se se tratasse de um pensar que não pode ser pensado, traçando-se nesta impossibilidade a negatividade radical do próprio pensamento.

 (…)

. Poder-se-á pensar que algo está a mudar ao ler-se, por exemplo, a Teoria Geral da Estupidez (Livros Horizonte) de V. J. Rodrigues ou As Leis Fundamentais da Estupidez Humana (Celta Editora) de C. M. Cipolla. V. Rodrigues pretende lançar as bases da estupidologia, ou seja, da ciência da estupidez, entendida esta não como falta de inteligência, mas como resistência à inteligência, como uma faculdade que tem por essência o que ele designa como estreitamento mental: o estúpido, diz, é «precisamente alguém que, para resistir à inteligência, estreita a mente, ignora informação, fecha-se em si mesmo. Retrai-se perante toda a dilatação de horizontes induzida pela inteligência» (p. 15). Concepção que, afinal, se combina facilmente com o lastro de exclusão e de negatividade a que a tradição nos habituou, apenas beliscado pelo empenho fenomenológico do autor na descrição de várias formas de estupidez.

. Menos ambicioso, mas, sem dúvida, mais pertinente é o esforço de Cipolla para definir as leis da estupidez. Ele abandona o ponto de vista das faculdades, interessando-se antes pelo comportamento estúpido e pelos tipos que ele induz. Assim, temos cinco leis que estabelecem: que é geral a subavaliação que se faz do número dos indivíduos estúpidos, que a probabilidade de alguém ser estúpido não tem nada a ver com outras características da pessoa considerada, que estúpido é aquele que prejudica os outros sem obter benefícios para si, que a nocividade da estupidez é devastadora e que este aspeto é sempre desprezado pelos… não-estúpidos, pelo que o perigo que os estúpidos representam é, de facto, imenso. E estas leis conduzem, de acordo com o comportamento que descrevem, à consideração de quatro tipos humanos: o crédulo, que, ao promover ganhos alheios, sofre perdas com a sua ação; o bandido, que, pelo contrário, assegura ganhos próprios prejudicando outrem; o inteligente, que, ao conseguir vantagens para si as alarga também aos outros; o estúpido, que, provocando danos a outras pessoas, não tira disso qualquer vantagem podendo mesmo, ainda, recolher prejuízos.

. O mais interessante, no breve ensaio de Cipolla, é o modo como dessubstancializa a estupidez mostrando como ela irrompe na teia da acção humana como um dos seus factores, ou mais exatamente, como uma das suas consequências. Ao fazê-lo, ele convida-nos a pensar as faculdades apenas como o nome que damos à orientação das várias articulações possíveis das disposições humanas, conforme os meios de que se dispõe e os propósitos que se pretendem atingir.

. De outro modo: o que se deve é abandonar a concepção do pensamento como resultado da convergência de várias faculdades, substituindo-a pela perspectiva de uma atividade atravessada por várias paixões. Não a paixão singular dos românticos, mas a paixão plural (a calma e a cólera, a vergonha e a indignação, o desprezo e o temor, etc.; lembremos que Aristóteles enumerava catorze paixões na sua Retórica) com que permanentemente nos definimos ao exprimirmo-nos. É a expressão da nossa passionalidade que está na base da intersubjectividade: as paixões, na sua multiplicidade e mobilidade, caracterizam melhor o homem do que as faculdades; e elas traduzem de um modo notável as combinatórias das capacidades da espécie, das disposições dos indivíduos e dos propósitos que dão forma à vida dos homens. A alternativa que, na linha de Cipolla, se pode esboçar, é não só de ordem pragmática uma vez que valoriza o registo da ação e a avaliação das suas consequências, mas também de índole topológica, uma vez que sustenta que a estupidez não deve ser pensada como o negativo do exercício do pensamento, mas como um dos seus efeitos: aquele em que se instala uma total opacidade entre o sujeito e os efeitos da sua própria ação.

. É sobre este fundo que melhor se pode compreender o que Kundera disse em 1985 no seu «Discurso de Jerusalém», onde afirmou que o século XIX não foi só o século da invenção da locomotiva ou da descoberta, por Hegel, do espírito da história, mas também o da descoberta, que se deve a Flaubert, da «bêtise» humana, vista não como uma característica psicológica ou cognitiva, mas como um dos mais significativos resultados da combinatória passional que define o homem contemporâneo, como algo «que não se apaga face à ciência, à técnica, ao progresso, à modernidade; que, pelo contrário, com o progresso, também progride».

. É este o ponto. Se a noção de um progresso linear, constante e direcionado para um mundo melhor faz já, em boa medida, parte das ilusões que o século XX foi abandonando, é, todavia, ainda obscuro o modo como alguns dos seus corolários sobrevivem, como lapas, no discurso e no pensamento do nosso tempo. Compreender que a estupidez aumenta com a inteligência permite sem dúvida sacudi-los e, mais do que isso, conduz-nos a uma outra compreensão da contemporaneidade que aposta não nas contradições entre os seus elementos e nas suas redentoras superações, mas no poder dos paradoxos e nas suas imprevisíveis metamorfoses: é a televisão que embute o espírito mas que também aumenta o sentido crítico, é a escola que bestializa e instrói, é a democracia que aumenta a intervenção dos cidadãos limitando a sua participação, é a cultura que enriquece pela diversidade que oferece e raquitiza pela passividade que suscita, é a informação que se anula ampliando-se sem cessar.

. O nosso tempo não é certamente o tempo do triunfo da inteligência, como ainda pensam alguns apóstolos do iluminismo. Mas também não é, como repetem os crispados discursos apocalípticos, o da vitória da estupidez. E simplesmente o tempo dos paradoxos que, entre uma e outra, se tecem, desafiando permanentemente o sentido que se atribui à vida, ao tempo, à história. Porque um paradoxo é algo que, precisamente, instaura a suspensão do sentido do que se afirma. E talvez seja esse todo o seu sentido: parece estúpido, mas não é.

                                              NOTA INTEMPESTIVA – 2

                               (In PENSAR O MUNDO, Vol. I, pp. 651-653)

CONTRA O ANONIMATO, PELA RESPONSABILIDADE

A GUERRA DOS SEXOS

 . Vivemos uma época em que quase todos os temas se definem, e cada vez mais, não pelas ideias em que se baseiam ou pela argumentação que desenvolvem, mas pela polarização que suscitam, pelo atrito que provocam, pelos conflitos que alimentam, dando origem a formas inéditas de sociedade, a – como diz Jonathan Curiel – sociedades histerizadas.

. É no quadro deste processo que frequentemente se coloca o tema da “guerra dos sexos” nas sociedades ocidentais contemporâneas, assumindo ele formas extremas justamente numa época em que –  e o paradoxo merece uma cuidada análise – a igualdade os sexos nunca foi tão grande, o que infelizmente não impede que se continuem a tricotar  conversas de uma indigência cínico-pueril, como ainda há dias se podia ler no jornal Público.

. É este o tema da próxima sessão do BEIRA / Observatório de Ideias Contemporâneas Azeredo Perdigão, que ocorrerá em Viseu, no próximo sábado, dia 23. A “Conferência de Abertura” será proferida por uma das mais notáveis sociólogas contemporâneas, Nathalie Heinich, e será seguida por um debate de diversos “pontos de vista”, moderado por Henrique Monteiro e com a participação de Catarina Marcelino, Manuel S. Fonseca e Raquel Abecasis. (*)

A SOCIEDADE DA POLARIZAÇÃO

 . A “guerra dos sexos” é, sem dúvida, um dos mais evidentes exemplos de polarização das sociedades histerizadas  em que vivemos, em que a negociação das distâncias – que está na base de todas as formas de convivialidade, seja ela pessoal, social ou profissional – tem progressivamente desaparecido, substituída pela espiral das invejas e dos ressentimentos, dos ódios e rancores, que cada vez mais caracterizam as nossas sociedades e a sua obsessiva necessidade de produzir inimigos,  apostando na vacuidade dos slogans e diabolizando a coragem da nuance.

. Espiral que, por sua vez, é alimentada por um despótico paradigma da dominação que se tem procurado impor como a grelha única de interpretação e análise das complexas sociedades actuais, nomeadamente com a electrização dos conflitos entre “eles” e “nós” ou entre as vítimas e os carrascos, com a torrencial multiplicação de bodes expiatórios ou a generalização do wokismo, etc. Tudo estratagemas de redução das várias formas de identidade e de diferença, de igualdade e de desigualdade, de singularidade e de conformismo, a modalidades de um permanente, intenso e incontornável confronto, que visa sempre impor uniformizações de matriz totalitária, com um progressivo empobrecimento, não só da actividade crítica como da própria linguagem, cada vez mais estrangulada por estereótipos de intencional embrutecimento mental.

 O ANONIMATO

. Processo naturalmente apoiado e alavancado pelas poderosas redes mediático-reticulares (isto é, pela convergência dos media tradicionais com as redes sociais e as plataformas tecnológicas), que se ocultam cada vez mais, e de modos cada vez mais sofisticados, atrás dos biombos de irresponsabilidade e de cobardia que só cederão quando houver coragem política – porque é disso que se trata – para, neste âmbito, acabar com o anonimato, permitindo naturalmente o uso legítimo, e minimamente regulado, do “pseudonimato”.

. Dito de outro modo, pseudónimo sim, anonimato nunca. A não ser – e aqui a excepção justifica-se inteiramente – em situações em que não exista liberdade de expressão, como acontece nas ditaduras e nos regimes autoritários, quando o anonimato se revela uma arma legítima de protecção individual e de combate pela liberdade e pela democracia. A não ser neste âmbito, o anonimato não deve ser permitido, porque ele é simultaneamente o instrumento intensificador e o carburante passional de todas as modalidades de conflitualidade, de todas as suas patologias e dos seus derivados: do ressentimento à cólera, da inveja à calúnia, etc. E consegue fazê-lo imunizando-se contra quaisquer exigências de responsabilização, mesmo as mais elementares, criando assim um mundo em que qualquer um pode reinar com a mais completa impunidade.

 – – – – – –

 (*) – As iniciativas sazonais do BEIRA prosseguem a 12 de Setembro, com o tema “O Ocidente, a Guerra e a Paz”, a cargo de Nicole Gnesotto, e a 7 de Novembro, com o tema “Inteligência Artificial – Substituição ou Complementaridade?”, com Luc Ferry.

VIVEMOS ASSIM, MAS NÃO DEVÍAMOS! (*)

. Vivemos como se fosse possível que as causas da crise se pudessem recombinar milagrosamente, de modo que elas próprias resolvessem os problemas que provocaram.

. Vivemos na ilusão de que as sociedades ocidentais tivessem, por um misterioso privilégio, saído da História e pudessem planar naturalmente acima de todas as contingências e vicissitudes, deixadas aos outros.

. Vivemos o imperativo da mudança sob o signo de uma modernidade cada vez mais vazia, até descobrirmos que afinal quem mudou foram os outros. E que tudo mudou tanto, que nós agora queremos é conservar o que temos. Nós falávamos de mudança, mas foram os outros que a fizeram.

. Vivemos como se de repente descobríssemos pertencer a uma espécie de aristocracia condenada. Que, talvez pela primeira vez na História, não tem a mais pequena ideia de quem, ou do que, se lhe seguirá.

. Vivemos desde a transição do século agarrados a um mundo que, por mais que se critique, na verdade ninguém quer trocar por aquilo que se pressente no horizonte.

. Vivemos sem acreditar naquilo que sabemos, e sem verdadeiramente conhecermos aquilo em que acreditamos. As nossas informações, convicções, sentimentos e conhecimentos não combinam nem convergem, produzindo um pequeno caos quotidiano na cabeça de todos.

. Vivemos numa sociedade de ficção que reduz o coletivo ao mercado, o indivíduo ao consumidor, que deixou de se querer aperfeiçoar e apenas quer durar. Em que todos os valores têm cada vez mais um traço comum, o de não terem valor nenhum.

. Vivemos entre a excitação e o medo, entre o arrebatamento dos futebóis e a estupefação vulcânica, entre os imperativos do vício consumista (sempre mais e mais vezes) e a multiplicação dos princípios de precaução que transformaram a vida na antecâmara de todos os pânicos.

. Vivemos com líderes que trocaram o conhecimento da História e a visão do futuro pelo «curto-prazismo», entre anúncios sem efeito e fugas em frente pelas quais depois ninguém responde.

. Vivemos mais, na Europa, à procura de bodes expiatórios do que da raiz dos nossos problemas. Vivemos a queixar-nos da Alemanha, sem querer ver que, se há aqui arrogância, ela não é senão a outra face da desorientação europeia e da sua incapacidade estratégica.

. Vivemos sem querer apurar as causas, nem as consequências, do nosso tísico crescimento, comparado com a vitalidade que vai pelo mundo emergente. E sem assumir que, além das óbvias vantagens, a moeda única trazia consigo responsabilidades e constrangimentos. E sem querer reconhecer que, até hoje, nenhuma união monetária sobreviveu sem união orçamental e política.

. Vivemos cegos ao facto de que as dinâmicas da globalização e da moeda única dificilmente não se tornariam divergentes e que, como Emmanuel Todd avisou com uma fórmula forte em 1998, no seu notável L’illusion économique, o «euro se podia tornar no protecionismo dos imbecis».

. Vivemos, enfim, no labirinto que criámos: perdemos os élans nacionais sem nos dotarmos de um sentimento comum. Perdemos soberania sem perceber para onde ela foi ou vai: para a Comissão, o Parlamento Europeu, o Conselho, a Presidência tricéfala ou mesmo o governo económico de que tanto se fala, mas não aparece. Perdemos as fronteiras, sem que se consiga compreender onde ficam os limites da Europa, ou mesmo se há, ou alguma vez vai haver, limites. E cada dia que passa, tudo é menos projeto e mais nostalgia.

. Vivemos assim – mas não devíamos!

                                                      (In PENSAR O MUNDO, Vol. II, pp. 518-519)

                                                                                      – – – – – – –

                                                     Inicia-se hoje neste blogue uma categoria,
                                                                  “Notas Intempestivas”,
                                 onde se republicarão irregularmente textos do livro PENSAR O MUNDO,
                                           que poderá ser interessante ler no momento presente.

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TRUMP NA ESPIRAL FATAL DO IMPROVISO

                                    “Só a estratégia transforma a força em potência”

 

 O BOOMERANG

 . Muito se tem falado do perigo do eventual poder nuclear em mãos iranianas – mas será que, pelo que diariamente temos visto, devemos estar mais tranquilos com o facto de o poderoso arsenal nuclear americano estar nas mãos de alguém com as características político-psicológicas de Donald Trump?

. É altura de se ignorar a lengalenga globalizada do impensar mediático-reticular dominante que, afinal, tem sido um dos maiores “compères” do trumpismo, e de se avançar sem tabus com as perguntas mais difíceis, que são as únicas que verdadeiramente interessam e fazem pensar.  Sobretudo agora, quando tudo parece indicar que a situação que Donald Trump criou com a sua espiral de improvisação caótica começa a transformar-se no boomerang que lhe pode ser fatal.

A HISTÓRIA

. Convém, para abordar com lucidez o que se passa com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, retomar alguns fios da história. E lembrar que as conturbadas relações dos EUA com o Irão, que remontam a 1979, conheceram uma promissora pausa em 2015 quando, sob a liderança de Barak Obama, se concluiu um acordo, o Plano de Acção Conjunta Global (Joint Comprehensive Plan of Action), conhecido pela sigla JCPOA, negociado entre o Irão e os Estados Unidos, com a participação do Reino Unido, da França, da Alemanha, da Rússia, da China, e a presença da União Europeia.

. O JCPOA tinha como objectivo impedir que o Irão viesse a desenvolver a arma nuclear, tendo-se aprovado então alimitação do nível de enriquecimento de urânio, a redução do stock de material nuclear, a realização de inspeções regulares pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) e o compromisso do Irão de não desenvolver armas nucleares. Tendo o Irão obtido, por sua vez, o levantamento de sanções económicas internacionais e a sua reintegração na economia global. Foi este importante acordo que Trump I, em mais um cego impulso anti-Obama, denunciou em 2018, tendo retirado os EUA do acordo de 2015 e reactivado as sanções ao Irão.

.  E porquê? Bom, é bem conhecido o facto de Israel – que, note-se, tem armas nucleares, calcula-se que 90, não assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, nem permitiu alguma vez qualquer controlo do seu “estaleiro” nuclear por parte da AIEA – se ter sempre oposto ao acordo de 2015, tendo Benjamin Netanyahu feito pressão sobre B.Obama, D.Trump I e J.Biden para o rasgar e atacar o Irão. Só teve, contudo, sucesso com Donald Trump, que como referi abandonou unilateralmente o acordo em 2018.

. Seria só em Fevereiro deste ano que Netanyahu – que, com pequenas intermitências, tem mais de 15 anos de liderança de Israel (1996/7, 2009/2021 e desde 2022) – conseguiu de Trump o que há muito ambicionava. Apoiado no bárbaro ataque do Hamas a Israel de 7 Outubro de 2023, e percebendo que Trump estava, por um lado, enfraquecido pelos resultados económicos internos e abalado pelo desaire das suas ambições em relação à Gronelândia, mas, por outro lado, se encontrava em júbilo com o lance conseguido na Venezuela com a “Operação Maduro”, Netanyahu procurou convencer Trump a repetir a façanha no Irão, e conseguiu. Sabendo ele bem que isso seria impossível, mas também que, depois de lançado na aventura iraniana, Donald Trump não teria margem de recuo, o que se tem confirmado. (Sobre tudo isto, leia-se o excelente artigo de Jonathan Swan e Maggie Haberman, “How Trump Took The U.S. To War With Iran”, publicado no The New York Times de 07.04.2026. Jornalistas que anunciam para o próximo mês de junho um desenvolvido livro sobre o tema, cujo título promete: Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump).

. Os pretextos para o início da guerra foram sendo diversos, todos a combinar equívocos intencionais e falsidades várias, ora se tratava de apoiar os manifestantes anti-regime, ora de provocar uma efectiva mudança de regime – umas vezes anunciada como estando para breve, outras como já efectivada – , ora  impedir o enriquecimento do urânio que capacitasse o Irão a fabricar a bomba atómica, tudo numa trapalhada de versões a lembrar o falso argumentário utilizado pelos EUA na invasão do Iraque, em 2004, tendo o último pretexto referido sido categoricamente contestado pela Agência Internacional de Energia Atómica, facto que não se pode ignorar.

. Mas foi ignorado, e  porquê? Para Trump poder pôr em marcha, mesmo contra o insistente parecer da maioria dos chefes militares americanos, uma invasão que antecipou como uma repetição da “Operação Maduro” na Venezuela: em vez de raptar, agora o objectivo era liquidar toda a liderança iraniana, o resto desmoronar-se-ia por si, rapidamente, sob o controlo dos EUA e de Israel. E Trump não hesitou em fazê-lo, cínica e deslealmente, a meio das negociações com o Irão, então mediadas por Omã.

. O resultado é conhecido, e estamos longe do fim: um fiasco em toda a linha a revelar uma colossal ignorância sobre as realidades política e militar iraniana, uma completa ausência de estratégia, a traduzir-se num voluntarismo errático, um impasse de meses quando tinha garantiu uma operação militar rápida – uma “excursão”, disse então Trump -, tudo isto com, com pesadíssimas custos e consequências para a economia mundial, que se farão sentir durante anos. Fiasco que Trump procurou incessantemente disfarçar com um discurso contraditório e delirante, algo entre a alucinação psicotrópica e um compulsivo narcisismo balofo que – consta cada vez mais insistentemente – terá mesmo levado à produção de um video-fake (tipo “deepfake”) do resgate, entre 4 e 5 de Abril, de um militar americano que, contudo, até hoje ninguém viu, e de quem nada se sabe. E a ver vamos se o fiasco não conduziu, como tudo indica, a um “golpe de estado” no Irão, a garantir a supremacia do poder dos Guardas da Revolução.

A BOMBA

. Recuando agora um pouco, façamos uma outra pergunta: mas afinal, para lá de tudo o que ficou dito, qual é o problema de o Irão ter urânio enriquecido a mais de 60%, o que eventualmente lhe permitiria fabricar armas nucleares? Não é credível que se tema verdadeiramente o seu uso, uma vez que, se tal acontecesse, isso ignificaria não só a destruição do seu alvo, mas também, e imediatamente, a de quem a usasse, conclusão a que, em situação similar, a Coreia do Norte chegou rapidamente. Será, como afirmam alguns idiotas-úteis, por o Irão ter na sua Constituição como objectivo a destruição de Israel? Bom, nós também temos na Constituição Portuguesa o objectivo “de abrir caminho para uma sociedade socialista” … Será devido à razão “existencial”, que Israel invoca? Mas todos os beligerantes o fazem, a “existência” é tão vital como para os outros. Ou será antes para consagrar Israel como a grande potência do Médio Oriente, e a única a dispor, e sem qualquer controle ou escrutínio independentes, de armas nucleares?

. Tudo aponta hoje, com grande evidência, para que o acordo de 2015 era de facto o caminho certo, numa perspectiva de equilíbrio de poderes no Médio Oriente e de pacificação entre os seus diversos países. Era um acordo realista, viável, e que enquadrava e controlava o regime iraniano. E a comprová-lo está o facto de, agora, o que se pretende ser, no essencial, retomar o que dele constava. Quanto ao mais, penso que é tempo de deixar os problemas internos de cada país serem resolvidos internamente, conforme estabelece o princípio de não-ingerência da Carta da Nações Unidas, no seu art.º 2º, reforçado pela resolução de 24.10.1970. Princípio que só admite excepções – a de um controverso “direito de ingerência” – com mandato explícito da ONU, excepções que foram objecto de várias resoluções entre 1988 a 1999.

LIÇÕES

. Do caótico imbróglio criado por Trump, são várias as lições a tirar. Destaco apenas três: a primeira, é nunca se deve iniciar uma operação militar sem se estar muito bem preparado para o fazer, o que inclui acomodar a possibilidade de o pior poder acontecer. Ou seja, ter uma estratégia bem definida, porque só a estratégia transforma a força em potência.

. Seguidamente, que as relações de forças, com a globalização e a generalização da interdependência entre as economias e os Estados, não se situam hoje onde tradicionalmente se encontravam em termos de território, de pontos de atrito, etc., mas nos locais ou situações onde as interdependências são mais intensas e incontornáveis – basta, para compreender isto, pensar no que aconteceu no Estreito de Ormuz.

. Por fim, que a potência tem de ser pensada na base da sua assimetria, seja de dependências, de alianças, de pontos fortes e fortes, etc. Não o fazer tem como consequência transformar o ponto forte do mais fraco no ponto cego, eventualmente fatal, do mais forte: é precisamente o que temos visto nesta guerra dos EUA contra o Irão.

A NORMALIZAÇÃO DO GROTESCO

A NORMALIZAÇÃO DO GROTESCO

. Era uma experiência que nos faltava, a da liquidação à distância dos líderes adversários políticos, seguida da glorificação pública do feito por parte de chefes de Estado, que depois enunciam, publicamente e um a um, os assassínios cometidos. A civilização está assim a sofrer golpes colossais, às mãos do belicismo de Netanyahu, de Donald Trump e dos seus acólitos, em que se destaca a criatura primária e abjecta do ministro da Guerra americano, Pete Hegseth. O combate ao terrorismo – porque o Irão vive de facto sob um regime brutal que o fomenta há décadas aparece assim conduzido por um terrorismo de certo modo simétrico, agora assumidamente “de Estado”, e por um Estado que era até há pouco uma referência democrática no mundo civilizado.

 . Como chegámos aqui? Sem uma resposta a esta pergunta não conseguiremos sair do medonho labirinto a que Donald Trump conduziu o mundo – e, de que, de momento, ninguém sabe como sair.  Mas enquanto não se alcança esse “fio de Ariana”, fixemo-nos em alguns dados que, quem sabe, talvez ajudem a chegar lá. Ora vejamos. Olhando para a realidade que as fanfarronices de Donald Trump procuram “obliterar” constantemente, a verdade é que a guerra que os EUA desencadearam no passado dia 28 de Fevereiro se saldou, até ao momento, num arrastado fracasso em todos os planos, seja eles o militar, o económico ou o político. Desencadeada traiçoeiramente, a meio de negociações que, com a mediação de Omã, estavam então em curso, a guerra dos EUA – e de Israel – contra o Irão, conduziu até ao momento ao seguinte:

a) – à subida do preço do barril Brent do petróleo, de 72 dólares para cerca, certos dias bem mais, de 100 dólares;

b) – ao fim da estabilidade dos países do Golfo Pérsico (sobretudo do Kuwait, da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos), que levará anos a recuperar;

c) – à traição à anunciada ajuda à “libertação” do povo iraniano (“vamos a caminho”, garantiu Trump aos manifestantes, em Janeiro), que em vez disso sujeitou a um indiscriminado bombardeamento e, mais tarde, à ameaça de liquidar integralmente a civilização iraniana;

d) – ao prolongado bloqueio do Estreito de Ormuz e ao seu controlo pelo Irão, com consequências tremendas para a economia mundial;

e) – à alteração das dinâmicas políticas internas no Irão, incentivando cada vez mais a sobreposição de um sentimento de defesa nacional ao de oposição ao regime;

f) – ao aprofundar do fosso que se tem vindo a cavar entre os EUA e os seus aliados tradicionais, nomeadamente com a Europa, e com a NATO, abrindo caminho à quase inevitável implosão a prazo desta organização;

g) – ao forte reforço da aliança CRIC, que se solidifica entre a China, a Rússia, o Irão e a Coreia do Norte, decisiva para a concretização da comum ambição de avançarem no sentido da des-dolarização da economia mundial, bem como à consagração cada vez mais evidente da China como a superpotência do século XXI.

. Bastam estes factos – a que é indispensável acrescentar o pesado descrédito global que tudo isto lança sobre a própria ideia de democracia – para, não só se avaliar a dimensão do fiasco em que se tem traduzido a guerra iniciada a 28 de fevereiro, como para se perceber o alucinado voluntarismo político, a evidente impreparação estratégica e o imenso desconhecimento histórico  que estiveram na sua origem, num novelo de causas que resultam do chamado efeito  Dunning-Kruger, isto é, do estado em que a ignorância, sobre um assunto ou uma situação, dá mais segurança a quem fala ou age, do que o respectivo conhecimento. Note-se que é também este poderoso efeito que alimenta o “comentariado” quotidiano sobre esta guerra (e não só…), dominante nos canais de informação, onde – com raríssimas excepções – reina uma tóxica tagarelice de banalidades, que é vital para anestesiar o pensamento crítico e alimentar a sideração quotidiana do caos trumpista, como se de um mero reality show se tratasse.

. Tudo aponta assim, com esta guerra, para a normalização do grotesco, guerra cujos objectivos começaram por ser ajudar à libertação do povo iraniano, depois passou a ser a liquidação da liderança mollah, a seguir foi o enriquecimento de urânio e a questão nuclear, no mínimo para encontrar os supostos 400 kg de urânio enriquecido – a propósito, vale a pena lembrar as idênticas ameaças de Trump em Agosto de 2017, no seu primeiro mandato, à Coreia do Norte, que enfrentaria um ataque “com fogo e fúria jamais visto no mundo” – tudo, como se sabe, sem qualquer efeito posterior, a Coreia do Norte é hoje uma potência nuclear.

. Mais tarde foi a mudança de regime, por fim impôs-se o desbloqueio do Estreito de Ormuz, cuja soberania os EUA, na sua espiral belicista, ofereceram ao Irão, que fez dela…a sua bomba atómica. Embora referindo sempre, cínica e simultaneamente, que há “negociações em curso”, que “correm muito bem”, e outas tretas do género, é de resto nisso que estamos agora, a 10 de abril, enrolados nem singular acordo de versões “desacordadas”, a anunciar uma surpreendente, embora talvez  precária, vitória do Irão – e de Israel -, mais do que dos EUA.

. Foi precisamente o tipo de comportamento de D.Trump que, recorrendo a uma expressão de Alfred Jarry, Michel Foucault designou como grotesco, para caracterizar “a maximização dos efeitos do poder a partir da desqualificação de quem os desencadeia ou induz”. Não é possível caracterizar melhor o ímpeto belicista do trumpismo a que temos assistido e, de um modo mais geral, tudo o que temos visto desde o dia 20 de janeiro de 2025, com a posse do novo Presidente dos EUA, que inaugurou nesse dia – como já tenho dito e creio ser decisivo compreender – um inédito regime de poder, a hipnocracia, perspectiva que permite  cortar com as estereotipadas interpretações psico-patologizantes de Donald Trump que tanto se têm vulgarizado, mas que na verdade não passam de uma outra face do próprio dispositivo político do trumpismo.

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. Um breve apontamento final, mais conexo do que pode parecer com os tópicos atrás referidos. É sobre o wokismo, tema da entrevista publicada na última newsletter, onde sublinho o equívoco – na verdade, o embuste – que consiste em falar de wokismo “de direita”.  Como José Pacheco Pereira voltou a invocar essa noção (cf. Público, 28.03.2026,  entretanto “acompanhado” por textos de Manuel Carvalho e de Irene F. Pimentel), limito-me a transcrever o que então afirmei: “Não partilho da ideia segundo a qual se poderia ver no trumpismo um novo wokismo, desta vez «de direita» (…) Tal interpretação amalgama tudo e conduz, parece-me, a um duplo mal-entendido: por um lado, tende a branquear os traços censórios e persecutórios do wokismo da última década e meia; por outro, impede a compreensão daquilo que é realmente inédito no trumpismo – compreensão que me parece, no entanto, cada vez mais decisiva, mesmo vital.” Dito de outro modo, o uso da expressão wokismo “de direita” conduz a que se ignore, na sua especificidade, tanto a história como a actualidade. (A propósito, permito-me sugerir a leitura de dois livros muito esclarecedores: Trump again? How Could America Let this Happen?,(2025), de Sean Dempsey, e La France au Miroir de l’Amérique – Quand les progresistes font triompher le populisme, de Aquino Morelle, publicado no início deste ano.)

ENTREVISTA AO “OBSERVATOIRE D’ÉTHIQUE UNIVERSITAIRE”

                                         WOKISMO VERSUS TRUMPISMO

                                 PIERRE-HENRI TAVOILLOT ENTREVISTA MANUEL MARIA CARRILHO

                                               (OBSERVATOIRE D’ÉTHIQUE UNIVERSITAIRE, 20.03.2026)

                                              Links para versão original e para edição inglesa:

https://www.decolonialisme.fr/wokisme-vs-trumpisme-nouvelle-guerre-des-idees/

https://www.decolonialisme.fr/en/wokisme-vs-trumpisme-nouvelle-guerre-des-idees/

O mais recente ensaio, breve e incisivo, do filósofo Manuel Maria Carrilho, que foi o primeiro ministro da Cultura em Portugal (1995-2000), intitula-se A Nova Peste — da Ideologia de Género ao Fanatismo Woke. Trata-se de uma contribuição maior para a inteligibilidade do «wokismo» como ideologia coerente, a partir da sua génese filosófica. Mas esta obra distingue-se também pela preocupação de compreender as razões do «sucesso» do wokismo no quadro de uma modernidade «desnorteada». Procura igualmente – e é aí que reside a sua singularidade – pensar o seu devir na era do trumpismo. Espera-se uma tradução rápida em francês. Ela está anunciada. Pierre-Henri Tavoillot entrevistou-o no Porto para o Observatoire d’éthique universitaire.

PHT — Estaremos hoje condenados a um frente-a-frente algo desesperante entre o wokismo e o trumpismo, que alguns chegam a dizer ser um wokismo de direita? Uma das suas características comuns, diz, é a de «saturar» o espaço público.

MMC — Pode dizer-se que o trumpismo, tal como o wokismo, «satura» o espaço público — tal foi, com efeito, uma das principais características do wokismo —, mas trata-se, a meu ver, de dois fenómenos muito diferentes, e não penso que exista um wokismo «de direita». O wokismo da última década resiste, prossegue o seu caminho, doravante sem dúvida menos visível e menos explicitamente assumido, tendo em conta a amplitude mediática que o trumpismo adquiriu – ele que, como se sabe, o combateu. Mas o wokismo permanece vivo e operante enquanto concepção e instrumento fanático de censura e de cancelamento; ele continua fortemente incrustado, built-in, em múltiplos sectores e instituições do Ocidente.

Não partilho, portanto, a ideia segundo a qual se poderia ver no trumpismo um novo wokismo, desta vez «de direita» (cf., por exemplo, Guillaume Lancereau, Le Grand Continent, julho de 2025). Tal interpretação amalgama tudo e conduz, parece-me, a um duplo mal-entendido: por um lado, tende a branquear os traços censórios e persecutórios do wokismo da última década e meia; por outro, impede a compreensão daquilo que é realmente inédito no trumpismo – compreensão que me parece, no entanto, cada vez mais decisiva, mesmo vital. E, se me permite, gostava de desenvolver um pouco este último ponto, antes de regressar ao wokismo.

PHT – Claro, é da maior importância, continue.

MMC – Muito sinteticamente, penso que a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de novembro de 2024 traduziu uma dupla consagração: por um lado, o colapso do político como espaço de deliberação fundado no confronto e no debate de ideias e de propostas em torno dos problemas e das expectativas dos cidadãos e das sociedades, assim como das suas eventuais soluções. E, por outro lado, o apogeu da política como espectáculo, num espectro que vai do entretenimento mais anódino à exibição mais grotesca. Esta dupla consagração, aparentemente paradoxal, tem, contudo, origens longínquas. Resulta de um processo muito complexo, iniciado há muito tempo, mas que me não é possível desenvolver no quadro desta entrevista.

Ora, este «regresso do trumpismo» foi vivido pelos seus adversários (e não só por eles!) como um verdadeiro choque traumático, com três consequências: como algo que bloqueia a visão, que impede a compreensão e que paralisa a acção. E que favorece, como reacção, uma postura defensiva e sobretudo de negação, aspirando – ainda que inconscientemente – ao regresso à normalidade e ao conforto que, a todos os níveis, um tal regresso proporcionaria.

Acontece que o traumatismo, pela sua natureza sísmica, torna quase impossível toda a compreensão entre o antes e o depois, que é — como ensinam filósofos como Bergson ou Deleuze — precisamente a chave do acontecimento. Porque um acontecimento não é um simples facto, mas aquilo que marca uma ruptura, uma diferença na ordem dos factos entre o antes e o depois. Ele é a própria mudança em devir, aberta, impondo um confronto com o desconhecido, a descontinuidade, em suma, com a contingência. E é precisamente aí que a Europa se encontra desde janeiro de 2025: paralisada na ordem dos factos, entrincheirada atrás do ecrã da retórica, incapaz de compreender o acontecimento «trumpismo», que, no entanto, não cessa de nomear, num penoso ritual de exorcismo político-mediático. Uma Europa que adormeceu durante a presidência de Joe Biden, cuja vitória, em 2020, foi erradamente interpretada como o enterro definitivo do trumpismo.

A isto é preciso acrescentar um outro ponto que também considero decisivo na vitória de Donald Trump, e posteriormente no seu mandato, como vemos todos os dias: trata-se da sua estratégia inédita de propaganda e de ação política. Enquanto os jornalistas, os comentadores e os seus adversários se perdiam no labirinto dos factos alternativos e das controvérsias da pós-verdade, Trump enveredou por outra via, tornada possível e propulsionada pelas plataformas digitais e pelas redes sociais: a do condicionamento manipulador da própria perceção da realidade, sobretudo pela cascata torrencial de factos e de versões, da sua repetição e contradição constantes, e pela irresistível expectativa de novas transgressões da sua parte, num ritual tão atordoante quanto estereotipado, que aprisiona a consciência colectiva num registo que proponho designar por um verbo, impensar, um verbo que configura uma forma inédita da consciência contemporânea. Interrogo-me se se terá dado bem conta das consequências do facto de que, à exceção do «interregno papal» – morte do Papa Francisco e eleição do Papa Leão XIV -, Trump esteve, desde janeiro de 2025, presente todos os dias em todos os media do Ocidente… e muito para além dele…

PHT – Para si, a emergência do wokismo deve ser compreendida no quadro daquilo a que chama o «paradigma do ilimitado», isto é, a extensão de quatro dimensões da «hipermodernidade»: o individualismo, a financeirização, a globalização e a tecnologia. Em que é que estes quatro fenómenos convergem para produzir o wokismo?

MMC – Se o wokismo é uma doutrina – ou uma ideologia – que emergiu no quadro daquilo a que chamo o «paradigma do ilimitado», é porque atribui um poder sem desmesurado, sem limites, por um lado à linguagem, por outro à identidade. Este paradigma permite, a meu ver, caracterizar e compreender o mundo contemporâneo a partir daquilo que considero serem os seus quatro eixos fundamentais: a globalização, o hiperindividualismo, o financismo (ou a financeirização, última metamorfose do capitalismo) e o conjunto daquilo que se tem chamado as «novas tecnologias», cada vez mais articuladas com as plataformas digitais e com os desenvolvimentos da I.A.

Ora, estes quatro eixos – e este ponto é decisivo – convergem de uma maneira inédita, quase sem grandes fricções entre si. Pelo contrário, eles reforçam-se mutuamente, numa espiral de ilimitação que, na verdade, ninguém controla, alimentando a ideia de que nada tem limites: nem o consumo, nem a energia, nem a dívida, nem o crescimento, nem os direitos individuais, nem sequer a vida, como sustenta um certo pós-humanismo. Nem a Europa, permitam-me acrescentar, com a sua inexistência de fronteiras… E, no entanto, o que é certo é que todos estes domínios têm, cada um à sua maneira, limites intransponíveis.

É precisamente este paradigma que, a meu ver, alimenta o wokismo, tanto nas suas ambições ideológicas globais como nas suas variantes mais específicas, facilitado pelo motor que é o eixo do individualismo, o qual conheceu uma aceleração brutal desde meados do século XX, culminando na afirmação de uma subjectividade soberana, operando por uma forma inédita de performatividade, na realidade alucinatória, fundada na proclamação, que rapidamente se tornará slogan: «sou aquilo que digo que sou!».

É neste quadro que o wokismo aparece como uma idceologia – isto é, um discurso dogmático que pretende explicar tudo, impermeável a toda a objecção ou crítica -, fundamentalmente reactivo (sempre «contra», nunca «a favor» do que quer que seja), adoptando formas de pensamento e de acção essencialmente fanáticas: conflito, confrontação, hostilidade, denúncia, vitimização, agressividade, visando substituir, nas sociedades democráticas contemporâneas, todas as formas de diálogo, de argumentação e de convivialidade que caracterizaram globalmente o Ocidente.

PHT – Considera que o feminismo identitário ou a ideologia de género constitui a matriz do wokismo, no sentido muito preciso, diz, «em que ela transforma a subjectividade humana numa entidade dotada de poderes ilimitados». É esse, para si, o eixo central dessa ideologia?

MMC – Sim, mas aqui é importante estabelecer, antes de mais, uma distinção prévia entre a «ideologia» de género e a doutrina, ou teoria, do género. Foi a dissolução desta distinção que tornou possível a transformação a que alude: a da «subjectividade humana numa entidade dotada de poderes ilimitados». Esta dissolução é simultânea da adopção de uma noção que se encontra no cerne do wokismo: a noção de performatividade. Adopção que foi, na verdade, uma profunda distorção desta noção, tal como fora proposta pelo filósofo John Austin no seu livro How to do Things with Words, onde introduziu a distinção entre dois tipos de enunciados: os performativos e os constatativos.

Se analisarmos atentamente um certo tipo de enunciados – por exemplo: «juro ser-te fiel», «a sessão está aberta», «baptizo este avião Fernando Pessoa», «nomeio-te ministro da Educação» -, compreende-se facilmente que se trata de frases que não é possível dizer verdadeiras ou falsas. Um critério positivista rigoroso recomendaria, neste caso, declará-las «sem sentido», apesar do evidente absurdo de tal afirmação. Ora, diz Austin, o que acontece é que, com estes enunciados, não se descreve um acto, executa-se realiza-se uma acção.

Ora o conceito de performativo vai adquirir um sentido completamente diferente no quadro do neofeminismo, nomeadamente com Judith Butler. Ele vai tornar-se o conceito-sintoma do sistema butleriano, procedendo, como muito bem o disse Éric Marty no livro Le Sexe des Modernes, a uma extensão ilimitada do conceito de performativo. O que vai, entre outras coisas, permitir negar o carácter biológico da diferença sexual, assim como validar a hipótese de uma fabricação social dos géneros. Estamos, portanto, perante um verdadeiro salto epistemológico: a performatividade, de fenómeno particular do uso da linguagem corrente, que se manifesta nas ações que a própria linguagem realiza, como uma promessa, uma nomeação, etc., transforma-se num operador mágico de um uso da linguagem capaz de tudo transformar em… realidade.

PHT — A questão dos limites é um ponto decisivo do nosso tempo contemporâneo: eles parecem apagar-se por todo o lado, suscitando uma forma de angústia. Mas, em certos aspectos, todo o projecto do humanismo moderno consiste em alargar os limites, em nome de um homem «infinito». De quem Pico della Mirandola dizia (Da dignidade do homem, 1486) que fora dotado por Deus do poder de «se modelar e de se moldar a si mesmo» sem qualquer restrição. O wokismo ou o transumanismo não serão, no fundo, os frutos desse pensamento? E como conceber o critério que separa a perfectibilidade benéfica da hybris destrutiva?

MMC — Não penso que seja possível estabelecer um critério que permita traçar essa distinção de maneira estável, digamos intemporal, porque se trata de dimensões da vida humana que dependem fundamentalmente do contexto histórico, social e cultural que se considere. Hoje em dia, os limites parecem, como diz, «apagar-se por todo o lado», e é efetivamente isso que sucede. Isso suscita um sentimento de angústia – ou antes, de «atordoamento» – largamente difundido. A ausência de limites, qualquer que seja o domínio considerado, engendra um sentimento de irreversibilidade generalizada. É uma ideia que desenvolvi num outro livro, Sem Retorno, publicado em 2022, e à qual tenciono voltar.

PHT — No final do seu livro, apresenta a tábua dos «10 mandamentos woke»: que são interditos, ou até fatwas, contra o universalismo, as Luzes, a racionalidade, a ciência, a cultura e a história, a igualdade, a liberdade de expressão, o direito e a imparcialidade, a presunção de inocência, a democracia liberal. É isso que o leva a identificar o wokismo como um fanatismo, mais do que como um totalitarismo? E como compreender esta paixão da inquisição num Ocidente (bastante) pacificado e secularizado?

MMC — Dir-se-ia uma paixão masoquista… mas as suas raízes são muito profundas. Hesitei durante muito tempo sobre este ponto, e acabei por optar por considerar o wokismo, não como um totalitarismo, mas como uma modalidade de fanatismo. Sabe, mantenho-me muito fiel ao sentido específico que Hannah Arendt deu ao conceito de «totalitarismo», bem como ao elo que ela estabeleceu entre ele, o poder do Estado e o uso do terror. Ora não é esse, de todo, o caso do wokismo.

Optei, pois, pela linhagem que, apesar das suas muitas nuances, vai de Voltaire a Nietzsche, e que me levou a considerar o wokismo como um fanatismo, com base em quatro pontos: o primeiro está na sua pretensão de dispor, em toda e qualquer circunstância, de uma explicação global e dogmática, aplicável a todos os domínios, sejam eles sociais, sexuais, educativos, etc. O segundo decorre do seu estratagema de transformar toda a crítica que lhe é dirigida em motivo de acusação contra o seu autor. O terceiro consiste na sua natureza minoritária, seja à escala nacional ou mundial. E o quarto está na criação, digamos, de um «mundo paralelo», que tenta impor pela força, não apenas pela força do poder institucional – que não negligencia -, mas sobretudo pela do novo primeiro poder, aquele que hoje se pode qualificar como mediático-reticular (isto é, a convergência dos media tradicionais com as redes sociais e as diferentes plataformas digitais), poder que escapa a toda a regulação institucional ou controlo democrático. E se, como penso, for de facto assim, é enquanto forma de fanatismo que o wokismo deve ser considerado.

PHT — Como perspectivar o futuro, ou mesmo o fim do wokismo? Alguns assinalam o seu enfraquecimento; outros, a sua reconfiguração. Qual é o seu prognóstico a este respeito?

MMC — Creio que tudo conduz mais à sua reconfiguração do que ao seu enfraquecimento. Digo-o tendo presentes as imensas transformações civilizacionais e geopolíticas, sociais e culturais, que tem alterado profundamente todos os parâmetros do mundo actual, e que me parecem configurar um quadro propício à sua reconfiguração: quer se trate da progressiva fragmentação social, do descrédito da política, do esboroamento das grandes ideologias, do hiperindividualismo, da perda de todo o sentimento de pertença colectiva, da irrupção do homo fragilis, da judicialização generalizada das sociedades, da alucinação igualitária ou ainda do conformismo dos cidadãos. Mas talvez eu esteja enganado.

A SUPER-IMPOTÊNCIA AMERICANA

                            “Ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, mas ser seu aliado pode ser fatal”

                                                                         Henry Kissinger

“Avançar às arrecuas” – esta expressão idiomático-popular tem-me ocorrido como a que melhor descreve o comportamento de Donald Trump, sobretudo desde que ele decidiu há 20 dias, em coligação com Israel, iniciar uma guerra contra o Irão, anunciando que a concluiria rapidamente, com a habitual fanfarronice que a mediocracia dominante tem transformado num … estilo político! Mas se de estilo se pode falar, é no “avanço às arrecuas” que ele se encontra, no modo como ele tem lidado com os carrosséis de tarifas, com as suas ambições de territoriais (Gronelândia, Canal do Panamá, Canadá, Cuba, etc.) ou com as diversas guerras em curso. Tudo avança, para depois recuar, tudo garante para depois hesitar, transformando as melhores expectativas em verdadeiras fraudes, como se viu na Venezuela. Os media gostam, claro, Donald Trump oferece-lhes um inédito, permanente e gratuito reality show.

. Contudo, mais depressa do que muitos teriam pensado, Donald Trump começou a revelar-se, não como um grande vencedor, mas cada vez mais como o rosto do fim do império americano. O que não admira, porque por trás da imensa retórica MAGA, foi sempre um inconfessável pânico face ao declínio do poder e influência dos EUA no mundo, o que na verdade esteve na origina do trumpismo.  A sua verdadeira mola foi – juntamente com a imigração e com o wokismo – o inesperado boomerang de uma globalização tão gananciosa nas suas ambições como cega na avaliação das suas consequências.

 . Aliado a um primeiro-ministro de Israel que, em fuga à justiça, conseguiu pôr quase todo o mundo contra a causa judaica, Donald Trump – ao arrepio de todas as suas promessas,  feitas vezes sem conta, de cortar com o intervencionismo militar americano no mundo – avançou contra o Irão movido por uma húbris cada vez mais alucinada, fugindo ao Congresso, mentindo a todos, abrindo uma guerra no Médio Oriente de tremendas consequências globais.. E fê-lo sem qualquer estratégia clara, sem timings definidos, sem ponderação de alternativas, como se de um incontrolável capricho hiper-narcísico se tratasse – e tal bastasse, à luz do que diz ser a sua “moral”! E não foi a primeira vez que o fez, como por vezes se diz, é bom ter presente que este não-intervencionista já desencadeou nove operações militares, seis das quais no Médio Oriente!

. Há, contudo, que perguntar como é que o exército mais poderoso do mundo, aliado a um fortíssimo exército como é o de Israel, não conseguiu ainda dominar um país cujas lideranças foram quase todas decapitadas e é ininterruptamente bombardeado há três semanas? São muitas as respostas possíveis, mas todas convergem para o crepúsculo do império americano. E se o seu poder nos ares continua indiscutível, tal já não acontece com o poder nos mares, de que a situação no Estreito de Ormuz tem sido uma cabal ilustração. Com cerca de 300 minas (que representam cerca de 5% do seu arsenal), o Irão bloqueou a navegação através daquele estreito, vital para a economia mundial, impondo aos EUA, pela primeira vez no último século, a perda do domínio dos mares.

. Manipulando os americanos e o mundo com as suas performances mediático-circenses, pretendendo assim alardear e reafirmar o poderio dos EUA como super-potência mundial incontestável, Donald Trump conseguiu o contrário: fazer prova de que os EUA  são, de uma forma cada vez mais evidente aos olhos de todo o mundo, uma super-impotência que exporta a sua instabilidade para todo o lado, que chega a implorar ajudas aos países que afirma desprezar, a ameaçar abandonar organizações que garantiu defender, e a preparar uma intervenção militar no terreno ( é o que acontece no momento em que escrevo, com a invasão da ilha de Kharb), que, a concretizar-se,  lançará os EUA num novo pântano de que será difícil sair. Até porque, agora são os iranianos que se recusam a suspender o combate, deslocando-o do plano militar para o económico e generalizando-o a vários países da região. O desnorte tornou-se total, confirmando a máxima militar que diz que “quem começa com vitórias tácticas acaba com derrotas estratégicas”, situação que  certamente os americanos não deixarão de avaliar nas eleições intercalares do próximo mês de Novembro.

. Neste contexto, o que é preciso compreender – e a Europa, que além da retórica de ocasião, tem dado constantes provas da mais completa indigência política, tem de o fazer urgentemente – é que transitámos já para um outro mundo, que pouco tem a ver com o que herdámos do século XX, quer em termos económicos, quer em termos políticos.  Politicamente, basta olhar para a recente e contínua progressão no mundo do número de regimes autoritários, por um lado, e para a decomposição das democracias, por outro lado. Como ainda há dias o destacou o Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo, que há muito segue o tema, ao assinalar a veloz desclassificação dos EUA, num só ano, de democracia liberal para os mínimos do que designa como democracia eleitoral (patamar que se aproxima do autoritarismo, e que é, note-se, onde também coloca Portugal). E em termos económicos, em que são inúmeros os factores de instabilidade e disrupção, e aqui o mais decisivo é compreender as consequências do processo de globalização – ou seja, a irreversível desindustrialização, o brutal desequilíbrio dos rendimentos, o consumismo sem freio, etc. -, globalização que passou, em escassos 20/30 anos,de milagre a desastre, condenando a América, mas também o Ocidente em geral, ao declínio, ao mesmo tempo que viabilizava a aspiração chinesa de regresso a um estatuto imperial no decurso do século XXI.

. São outros os tempos que vivemos, são os tempos do capitalismo de apocalipse (Quinn Slobodian), são sobretudo, a meu ver, os tempos do capitalismo de finitude (Arnaud Orain). E, também, o tempo das previsões de Emmanuel Todd, a revelarem-se no essencial certeiras no seu La Défaite de l’Occident. São ainda tempos em que cresce o perigoso abismo entre a despolitização dos dirigentes políticos e novas formas de politização das sociedades, um abismo onde se multiplicam as maiores incógnitas sobre o nosso futuro.

PARADOXOS DO PODER

. Se há traço que marca hoje a política, é o das constantes exigências, tão imperiosas como contraditórias, que a atravessam, com uma frequência e intensidade que se revelam inversamente proporcionais à consciência que se tem de uma tal situação. O poder é um dos melhores exemplos desta situação, cada vez mais refém de um verdadeiro nó cego de paradoxos, que decorre de ele ser a instância a quem se pede tudo, em termos de segurança, de educação, de saúde, etc., ao mesmo tempo que ele se vê acusado de tudo, em termos de indiferença, de incapacidade, e sobretudo de impotência. Em suma, a política é hoje vista pela generalidade os cidadãos como baloiçando entre o poder, sempre concebido como imenso, e a impotência, sempre considerada como incompreensível.

. E não creio que isso vá mudar com nenhuma operação de “Epic Fury”, que certamente alterará muitas outras e substanciais coisas, que teremos ocasião de abordar proximamente. Seja como for, foi esse o tema há muito escolhido pelo BEIRA/Observatório de Ideias Contemporâneas Azeredo Perdigão (entidade que foi criada em Viseu, em tributo a este notável viseense, e que tem como seus membros fundadores a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal se Viseu), para a sua sessão de Inverno, que ocorre precisamente agora, dia 7 de março, em Viseu.

. Realizando uma sessão por cada estação do ano, as actividades do BEIRA iniciaram-se em 2024, tendo-se dedicado nesse ano a temas como A democracia – impasses e desafios (com Daniel Innerarity), Inteligência Artificial e inteligência Natural (com Maurizio Ferraris), Os novos fanatismos na era do hiperindividualismo (com Gilles Lipovetsky), As ideologias – em crise ou em desaparecimento? (com M.Poiares Maduro). O ano de 2025 começou com uma sessão sobre O transumanismo e os novos desafios à natureza humana (com Jean-Michel Besnier), seguindo-se sessões sobre As múltiplas crises da Europa (com Josep Borrell), Os novos Populismos- a caminho da populocracia? (com Ilvo Diamanti) e  As metamorfoses do espaço público (com Valeria Martino).

. O 3º ano das sessões do BEIRA começam agora, com uma intervenção do filósofo Pierre-Henri Tavoillot, que justamente abordará o tema que acima referi, “A política, entre o poder e a impotência”, que será seguida – como sempre acontece em todas as sessões sazonais do BEIRA – por um debate de diversos “pontos de vista” sobre o mesmo tema, desta vez com José Miguel Júdice, Helena Matos e Adalberto Campos Fermandes.  E estão já definidas as próximas sessões, a 23 de maio o tema do BEIRA/Primavera será A guerra dos sexos continua? – feminismo versus masculinismo, com Nathalie Heinich; o BEIRA/Verão será sobre O Ocidente, a Guerra e a Paz, com Nicole Gnesotto, a 12 de setembro; e o BEIRA/Outono debruçar-se-á, a 7 de novembro, sobre a problemática da Inteligência Artificial – Submissão ou Complementaridade?, com Luc Ferry.

. Poder-se-ia dizer que os paradoxos do poder atravessam, certamente de formas diversas, todos os temas de 2026. Mas é sobre o modo como eles marcam o campo político que, tendo presente o primeiro tema do ano, quero acrescentar três breves notas. A primeira, para destacar o modo como a espiral do individualismo atingiu uma intensidade tal que inviabiliza a compreensão, ou mesmo o simples reconhecimento, das suas próprias condições de possibilidade, isto é, a existência da dimensão colectiva – seja via sociedade, seja via Estado -, sem a qual o individualismo nunca se teria imposto com o pôde fazer. Embora vivamos no permanente recalcamento desta evidência, a verdade é que, se somos cada vez mais autónomos e mais livres como indivíduos, é porque o Estado providencia, nas suas várias modalidades, as excepcionais condições que tornam isso possível.

. A segunda nota é sobre a globalização, porque entretanto se tornou claro que aquilo que eram as suas vantagens, nomeadamente o baixo custo de produção, se tornaram num gigantesco problema, sobretudo na crescente ameaça de uma irreversível desindustrialização dos países que a tinham promovido, com as consequências sociais que tal facto acarreta.   O neoliberalismo é o hoje o resultado da convergência destes dois processos: por um lado, da desterritorializaçãoeconómica operada pela globalização e, por outro lado, do hiperindividualismo que transforma as comunidades humanas em meras sociedades “de indivíduos”, privando-as do sentimento colectivo que é sempre a indispensável condição de qualquer acção política consequente e eficaz.

E a terceira nota, retomando o que escrevi na anterior newsletter, é a crescente diluição da política, ora numa inércia conformista, ora num agitacionismo sem estratégia, que são a outra face da crescente despolitização dos indivíduos e das sociedades. E é nisto que estamos, agora num inédito contexto geopolítico global, que é previsível – para não dizer certo – que agravará todos os paradoxos do poder que têm marcado os últimos tempos.

A PACTOMANIA

. A pactomania vem-se tornando numa patologia para as democracias. E tal acontece porque, ao contrário do que em geral se diz, o apelo ao estabelecimento de pactos – na saúde, na justiça, na educação, etc. – aparece sobretudo quando se quer evitar o confronto com problemas difíceis, por vezes mesmo impossíveis, de solucionar, quando eles se impõem como tal, na sua – como diria Maquiavel – “realidade efectiva”.

. A ideia parece decorrer de uma evidência – quem recusaria um pacto que pusesse fim, ou atenuasse significativamente, os graves problemas que existem, por exemplo, nos sectores atrás referidos, na saúde, na justiça ou na educação? Ninguém, tal como ninguém rejeitaria um seguro de vida, uma garantia de bom tempo, uma promessa de emprego ou sorte na lotaria. Esta analogia de evidências irrecusáveis talvez ajude a compreender as razões que me levam a dizer que a pactomania alimenta (como de resto já escrevi há muito, cf. Pensar o Mundo, vol. II, p. 160) alibis e ilusões, revelando-se uma estratégia funesta, e perversa, para lidar com as maiores dificuldades da governação, seja no governo ou na oposição.

. Dito de outro modo: a evidência dos pactos, a sua reclamada urgência, impõem-se ao mesmo tempo que se ilude ou esconde um conjunto de problemas difíceis de resolver, quando na verdade elas não passam de panaceias para a persistente ausência de soluções. Vejo por isso o apelo aos pactos como um modo ardiloso de ignorar os problemas mais difíceis, que assim se diz querer resolver, mas que na verdade apenas se vão – utilizando uma expressão popular – “empurrando com a barriga”.

. E assim se percebe bem o paralelo que sempre existe entre o imperativo dos pactos e o elogio do consensualismo: ambos visam esconder o mais importante, que é a incapacidade do poder e a impotência da política, sejam elas endógenas(oriundas da suas características actuais) ou exógenas (impostas por força externas, nomeadamente de índole financista ou tecnológica). E é neste dispositivo que se origina o que tenho designado como o extremo-centro, posição política que substitui a radicalidade das suas congéneres de direita e de esquerda pela incontornabilidade das suas opções, bem expressa no acrónimo TINA, There Is No Alternative. A ideologia europeísta é, cada vez mais, um bom exemplo desta situação e dos impasses a que ela conduz.

. Importa ainda referir que a pactomania releva de uma visão apolítica das sociedades e da vida pública – seja ela de natureza mais ou menos empresarial -, ignorando a lição aristotélica que a política é, por excelência, o lugar da diferença e do conflito, com que se deve lidar com frontalidade e sagacidade argumentativa, pois só assim se consegue dar uma forma consistente e um conteúdo colectivo às sociedades, bem como negociar e definir acordos efectivos que viabilizem opções de futuro, que são uma condição sine qua non da vida das comunidades humanas.

A SEPARAÇÃO DE PODERES

. Este foi um tema muito referido a propósito da nomeação do novo ministro da Administração Interna, com uma frequência que impõe uma pergunta: a que propósito se fala de “separação de poderes” (que são o legislativo, o executivo e o judicial) quando a situação em causa se situa no campo do mesmo poder, neste caso do executivo? A confusão nesta matéria é bastante comum, pelo que talvez seja aconselhável – a propósito deste caso, mas não só… – que se leia mais e melhor o livro Do Espírito das Leis, de Montesquieu, apesar de tal expressão nunca surgir nessa sua obra, mas tão só, talvez, a ideia dela. E fazê-lo em termos que, dados os 250 anos que, entretanto, passaram desde a sua publicação – e como não se trata de um dogma teológico, mas de uma ideia política -, conduzissem à sua discussão informada, à sua avaliação ponderada e à sua reformulação mais rigorosa.

 O PROVINCIANISMO LUSITANO

Fernando Pessoa escreveu que o provincianismo decorre da ilusão de “pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento dela, em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.” Esta caracterização ocorreu-me ao seguir a querela lusitana que surgiu a propósito da manutenção, ou não, da designação em inglês do nome de uma Faculdade da minha Universidade, a Universidade Nova de Lisboa. Sobre o assunto, talvez seja de consultar os sites de algumas grandes Universidades europeias, como a Sapienza Università di Roma, a Sorbonne Université de Paris, a Humboldt Universität zu Berlin, a Universidad Complutense de Madrid, a Université Libre de Bruxelles ou ainda, em Atenas, a Εθνικόν και Καποδιστριακόν Πανεπιστήμιον Αθηνών. Todas, e todas as suas unidades, se designam na língua nacional, aparecendo o inglês sempre em segundo plano, ou como uma opção sinalizada para quem a quiser activar. Assim se vê que, lamentavelmente, nem a Universidade escapa ao atávico provincianismo lusitano, ele está mesmo…built-in!

A TENAZ DEMCRÁTICA

                                     “Sem um claro sentimento colectivo nenhum futuro é concebível

 

 A ERA DA HIPERPOLÍTICA

. As catástrofes revelam bem um dos traços mais comuns do atordoamento em que vivem as sociedades contemporâneas, que consiste em acusar sistematicamente a política de tudo, ao mesmo tempo que se lhe pede… igualmente tudo! Vale a pena aproveitar esses momentos para pensar nas metamorfoses que marcam hoje as relações dos cidadãos com a política, que ora é concebida em termos de poder, sempre considerado excessivo, ora de impotência, sempre vista como incompreensível.

. É uma situação que, num livro recente, Anton Jager designou como a “era da hiperpolítica”, acrescentando ao título, Hyperpolitics, o sub-título “Extreme Politization without Political Consequences”. A ideia é interessante, ela parte da constatação da enorme efervescência política que, contrariando um crescente apoliticismo das últimas décadas do século XX, começa no fim da primeira década deste século, a seguir à chamada crise do subprime, traduzindo-se não só em constantes manifestações e em violências diversas, mas também em mais iniciativas e numa maior participação política dos cidadãos, como aconteceu, entre muitos outros exemplos, com os movimentos  “Occupy  Wall Street”, nos EUA, os “Indignados” de Puertas del Sol, em Espanha, os “Hong Kong protests” ou os  “Gillets Jaunes” em França.

DO COLAPSO DO COLECTIVO AO DO FUTURO

 . Mas o que a abordagem de A. Jager tem de mais interessante é o facto de sublinhar que, apesar deste frenesim contestatário – nunca houve, diz ele, tantas manifestações como no período que vai de 2008 a 2025 -, e da correspondente intensificação tanto dos comportamentos adoptados como da linguagem usada, tudo isto ter acabado por se revelar inócuo, sem relevantes consequências práticas. Ou seja, que a conflitualidade política aumentou significativamente, sem que isso na verdade tenha afectado o curso da normalidade, das rotinas políticas. A explicação que este professor de Oxford propõe aponta para o facto de, neste mesmo período, ter ocorrido a erosão, por vezes até ao seu desaparecimento, das instituições que tradicionalmente acolhiam e alavancavam as reivindicações e os protestos dos cidadãos – nomeadamente os sindicatos, os partidos políticos, diversos tipos de associações a eles ligadas, etc. -, que tinham sido quem, até então, estruturava a conflitualidade política das sociedades, fazendo com que ela tivesse de facto consequências.

. A crise destas instituições foi, note-se, paralela ao agudizar de uma outra crise, a da representação política, agudizar que o movimento francês dos “Coletes Amarelos” ilustrou bem ao passar da crítica da representação – até então um dos tópicos mais centrais da contestação política, fosse em nome de uma melhor representação, de novas formas de deliberação ou de exigências participativas – para uma rejeição da própria representação, considerada uma pretensão política  ilegítima, a dissolver em formas de agitação que se pretendia que fossem permanentes e dessem origem a novas modalidades de organização política das sociedades.

. Mas se a “era da hiperpolítica” caracteriza bem a contradição entre a espiral contestatária e a sua ausência de consequências, não penso que tal se deva apenas, por importante que ela seja, à ausência de instituições capazes de articular essas duas dimensões, dando-lhes um efectivo sentido e alcance políticos. A esta explicação impõe-se acrescentar pelo menos mais dois pontos, que penso serem decisivos: o primeiro, é o esbatimento do sentimento colectivo,esmagado pelo apogeu do multifacetado individualismo contemporâneo e dos seus cada vez mais numerosos e imperativos direitos. O segundo – e aqui é muito estimulante a leitura de In the Long Run, de Jonathan White -, é o apagamento do sentimento de futuro, sem o qual nenhuma acção consegue motivar energias, ganhar lastro, conceber estratégias, alcançar objectivos.

. É esta, na verdade, a tremenda tenaz em que se encontra hoje a política, na sua forma democrática de “sociedade de indivíduos”, porque sem um claro sentimento colectivo nenhum futuro é concebível, o que condena as sociedades às mais diversas patologias do presentismo e do curto-prazismo – e é talvez aqui que reside a principal razão do impasse democrático em que hoje nos encontramos.

 UMA “IDEIA DE EUROPA”

 . Ao contrário do que escreve Teresa Violante (Expresso, 13.02.2026), o que falta é mesmo “uma ideia de Europa”. A não ser, claro, que se continue – como tem acontecido até aqui e com as consequências que estão bem à vista – a alimentar a ilusão que essa ideia se encontra no formalismo dos tratados e na jurisprudência que deles decorre. E a prova da ausência dessa ideia é que, se ela existisse, a alternativa “clara” que Teresa Violante refere, entre a democracia pós-nacional ou o regresso ao Estado nação, não se traduziria no catatónico impasse em que há anos vive a União Europeia, atolada numa retórica que fez do europeísmo, como bem escreveu Tony Corn, o “ópio dos europeus”. O que é preciso é pensar a Europa a partir das lições que esse impasse evidencia, não em ignorá-las ou em negá-las. Começando por compreender que nunca uma burocracia aceita transformar-se numa democracia – ou seja, ser despojada dos seus privilégios e dos seus dogmas – a não ser que a isso ela seja obrigada. É esta, na verdade, a raiz do problema europeu, qualquer vislumbre de uma efectiva e mobilizadora “ideia de Europa” passa por aqui.

TRÊS NOTAS

1 – SEM THYMÓS

. O meu voto amanhã será, como creio que será o da maioria dos portugueses, um voto óbvio. Mas esta evidência não resulta, como seria desejável, de qualquer entusiasmo, mas de uma resignação conformista – em grego, diria sem thymós. Na verdade, Portugal continua – digo-o há anos – um país desvitalizado, rebocado, sem qualquer estratégia. Que vive os seus graves problemas sem uma bússola que lhes dê sentido, e sem qualquer magnetismo que impulsione a sua resolução. Um país que vive atordoado por uma crise cuja natureza e amplitude não quis, ou não soube, prever e compreender – e que, agora, não vislumbra como enfrentar e superar. E como se vive a folhetinizar todos os acontecimentos, entre catástrofes e efemérides, escândalos públicos e vidas privadas, escapa­‑lhe tanto o sentido da história que explica, como o pressentimento do futuro que mobiliza. Estamos nisto! Quanto ao mais, já disse o que penso no meu recente texto “Um Nihilismo Presidencial”.

 2 – TRUMP ESTARÁ LOUCO?

 . Depois desta breve “nota do dia”, passemos ao que mais interessa e que, como Miguel Monjardino tem insistido nas suas crónicas no Expresso, passa completamente ao lado dos responsáveis políticos nacionais, de todos eles, num provincianismo político que é a outra face do nosso consolador estatuto de protectorado euroamericano, que persiste na “recusa em compreender que a bifurcação na ordem internacional já aconteceu, é irreversível e terá importantes implicações para os nossos interesses permanentes”, Expresso, 30.01.2026) .

. Alteração que os lideres europeus continuam a viver como um trauma e não como um acontecimento, e que agora tem vindo a suscitar uma leitura do trumpismo de tipo psi, entre o psicológico e o psiquiátrico.  Os rumores são já de há muito, mas foi um texto publicado recentemente, em janeiro, no conceituado site POLITICO que, com dados aparentemente credíveis, os trouxe para a ribalta, de onde é de prever que não mais deixará de ir aparecendo regularmente. Até porque ele traz já um forte lastro do primeiro mandato de Donald Trump, como o confirmam as análises publicadas nas 544 páginas do livro The Dangerous Case of Donald Trump, publicado em 2017, com o sub-título “27 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President”. Análises que foram retomadas e desenvolvidas mais recentemente, em 2024, em The More Dangerous Case of Donald Trump, agora com o sub-título “40 Psychiatrists and Mental Health Experts Warn Again”.

. A esta abordagem juntou-se agora a psicanalista Elisabeth Roudinesco, a quem – a propósito do burlesco episódio em que Trump exibe a medalha de Maria Corina Machado como se fosse o “seu” Nobel – Gilles Gressani, no site Le Grand Continent, perguntou se considerava que “Trump está louco”. E. Roudinesco afirmou ver neste episódio, à imagem de muitos outros, a expressão de um delírio, com traços shakespeareanos (referia-se ao Rei Lear, suponho), delírio que ela situou na linha limite do habitual comportamento de Donald Trump, linha que instala uma realidade paralela que se desdobra numa multiplicação de delírios grotescos, em geral delírios de grandeza, que se baseiam num permanente culto hiper-narcísico do seu ego. Mas, acrescento eu, lembrando Freud, de um ego tão colossal como vazio, que é onde se esconde a fragilidade deste tipo de força, e que o leva a depender de uma permanente confirmação dos outros, seja do seu círculo mais próximo, seja do “auditório” global.

.  Pode dizer-se que Trump assume, como ninguém numa democracia desde meados do século passado, a ambição política do ilimitado em todas as suas vertentes, recusando todos os limites, insinuando ou concretizando todas as transgressões, de linguagem e de gestos, de actos e de decisões, seja qual for o seu registo: sexual, político ou geopolítico. Encontra-se aqui, diz E.Roudinesco, o verdadeiro perigo deste comportamento, uma vez que põe o imenso poder dos EUA ao serviço de uma inédita egopolítica – para usar a inspirada designação de J.P.Teixeira Fernandes, cf. Público, 22.01.2026 -, o que levanta a questão mais importante, talvez, como ela diz, “a mais estrutural: porque é que todo o sistema aceita funcionar no modo do delírio narcísico de Trump?” Ou, dito de outro modo, como é que as estruturas políticas, as mais diversas instituições americanas, mas não só – lembremos os vários e repetidos momentos de vassalização europeia – tornam esta “loucura” possível? É esta, a meu ver, a pergunta que mais nos interpela hoje, esboçando um sinistro retrato do que lá pode vir…

3 – DE VOLTA AO TEMA DA CONFEDERAÇÃO

. Deixei na última newsletter uma alusão final ao tema da confederação, como alternativa ao que considerei o “impossível” federalismo europeu. É um tema cada vez mais discutido, mas ele não é novo, ele vem já de longe e já foi analisado por múltiplos autores, tendo sido ele que esteve, embora de um modo tão discreto como confuso, na origem da Iniciativa Europeia de Intervenção (IEI) que, orientada para o sector da defesa, juntou 9 países em 2018 (entre os quais Portugal), assim como da sugestão de criação da Comunidade Política Europeia, avançada por Emmanuel Macron em Maio de 2022 e concretizada ainda nesse ano.

. Muitas coisas se têm passado entretanto, impossíveis de sintetizar aqui.  Por isso quero apenas referir, pela sua importância no contexto que actualmente vivemos, a desenvolvida e muito fundamentada obra de Christian Saint-Étienne que, na senda de múltiplos trabalhos que publicou nos últimos anos, apresentou recentemente, no livro Trump et Nous – Commemnt Sauver la France et l’Europe, uma proposta de cooperação de tipo confederal, de 9 países europeus ( nos quais inclui Portugal ), que representam 12,8% do PIB mundial, 74% do PIB chinês e 56% do PIB americano, e que, diz C. Saint Étienne “ se tornaria num dos três grandes actores geoestratégicos mundiais.”(p.174)

. E que o tema está mesmo na ordem do dia prova-o a apresentação do “Plano Klingbeil” (é o nome do ministro alemão das finanças), feita há pouco, no passado dia 27 de Janeiro, que visa, no quadro de uma Europa assumidamente a duas velocidades, a constituição de uma “Europa dos 6” (França, Alemanha, Espanha, Polónia, Países Baixos e Itália), que representa 70% do PIB europeu. Distanciando-se da apatia e lentidão da Comissão Europeia,  Klingbeil defende que se avance rapidamente, tendo sido claro nas declarações que fez ao jornal Die Welt: “Nós os 6 queremos passar a ser o motor” da União Europeia. Aguardemos… será desta vez que alguma coisa muda?

TARDE DEMAIS?…

UM PRESENTISMO FATAL

 . Para compreender o que acontece, o lance mais decisivo é sempre o de relativizar o presente, analisando-o na sua contingência. E isto é particularmente verdade no domínio da política, nacional ou internacional. Sem esse passo, e as perspectivas que ele abre, o presente torna-se tão opressivo como opaco, ele fica refém de uma falsa necessidade e dessa “paixão triste” que sempre a acompanha, a da fatalidade.

. Fatalidade que é precisamente o que hoje alimenta o torrencial infotretenimento quotidiano, oleando as narratretas dos reality shows das “actualidades” em que elas encapsulam, quase sem excepção, todos os acontecimentos, num presentismo de vocação totalitária, que anestesia as sociedades, privando-as de facto da liberdade que deveria marcar o pensamento, bem como a acção humana no mundo.

. Vem isto a propósito da actual situação da União Europeia, cujo principal obstáculo se encontra na sua incapacidade de assumir que o mundo em que ela nasceu, cresceu e viveu até aqui, desapareceu. Sim, desapareceu na enorme voragem de uma inversão geopolítica que a história sugeria como possível, talvez provável, mas sem dúvida imprevisível, situação essa em que o direito da força se impôs, uma vez mais, à força do direito.

. Mais: em que não só desapareceu o conforto com o proteccionismo americano quanto à sua segurança, como desapareceram também a fonte de energia acessível oriunda da Rússia ou o fácil acesso ao mercado da China para muitos dos seus produtos. Tudo isto implica transformações imensas, que se pressentiam há muito, mas que se aceleraram bruscamente devido ao facto de Donald Trump ter erigido como objectivo estratégico dos EUA o domínio territorial de todo um hemisfério (e não só…), a par com o controlo dos seus mercados, ao mesmo tempo que trocava as tradicionais formas de cooperação com a Europa por agressivas modalidades de ameaça e de predação.

. É disto que agora se trata, e é isto que é preciso compreender. A leviana facilidade com que o sistema político-mediático tem vindo a falar de um novo imperialismo, para caracterizar a política de Donald Trump, induz em vários equívocos, ela revela bem não só a ignorância histórica e geopolítica dominante, mas sobretudo a sua evidente incapacidade para analisar o ineditismo da situação actual, numa confusão frustre de duas coisas muito distintas: o comportamento imperial do Presidente americano, por um lado e, por outro lado, a política imperialista de uma potência, de que se conhecem muitos exemplos históricos, de que os mais recentes terão sido o nazismo e a URSS.

. Os EUA eram e são ainda uma superpotência, mas é justamente esta sua dimensão que as últimas décadas têm vindo a pôr em causa, fundamentalmente em consequência do processo de globalização que os próprios EUA desencadearam nas últimas décadas do século passado. Se, como sugeriu Marcel Gauchet, há um “momento Trump” na recente política dos EUA, esse momento é o de um despertar ofensivo da potência americana face à evidência crescente de um mundo que lhe escapa, facto que é precisamente o que a patológica fanfarronice trumpiana procura constantemente escamotear e iludir.

. É neste contexto, nesta complexa conjuntura internacional que se foi tramando desde a posse de Donald Trump no começo do ano passado, que se têm multiplicado os cada vez mais pungentes apelos a que a Europa resista, ou melhor, reaja, se afirme, se bata. O último, e sintomático, apelo nesse sentido veio esta semana de Davos, e de um americano, o governador da Califórnia – e pressentido candidato democrata às eleições presidenciais de 2028 – Gavin Newsom, que admoestou duramente a falta de coragem dos líderes europeus face a Donald Trump. Trump que também foi a Davos fazer mais um patético número de brutalismo político-mediático, mentindo sem escrúpulos, inventando “acordos infinitos” sobre a Gronelândia, sem documentos nem parceiros, atacando “à Vance” a Europa, tudo isto perante uma plateia siderada por tal tresvario.

. Mas esses apelos já vinham de trás, eles intensificaram-se com o momento de  vassalização protagonizado por Ursula von der Leyen em Turnberry, na Escócia, em 27 de julho do ano passado, onde assinou um ignóbil acordo com Donald Trump, ele ampliou-se com o espectáculo de submissão dos principais  lideres europeus na Casa Branca, a 18 do mês seguinte, agudizou-se com as constantes tergiversações de  Trump em relação à Ucrânia, processo que continuou com a captura de Nicolas Maduro em Caracas e a sua prisão nos EUA.

. O mais patético, em relação a este último acontecimento – e aqui prefiro ignorar o grotesco imenso do que se passou à volta do Nobel da Paz, com a inclassificável cumplicidade de Maria Corina Machado -, foi a insistência dos líderes europeus em que o rapto de Maduro fosse acompanhado por uma sem dúvida imperativa  “mudança de regime” na Venezuela. Quando o que na altura o que eles deviam ter percebido, era que a “mudança de regime” mais importante já estava em curso, não na Venezuela, mas em Washington… Só com as ameaças em relação à anexação da Gronelândia pareceram começar talvez a percebê-lo, a ver vamos…, as conclusões do Conselho Europeu desta última 6ª feira ficam muito longe do que a situação exigia, a exemplo do que fez em Davos o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, assumindo corajosa e inspiradamente a irreversibilidade das rupturas em curso, e apelando à construção de outra ordem internacional, de cooperação de potências médias.

 UM IMPOSSÍVEL FEDERALISMO

. A verdade é que ninguém diz o que é que a União Europeia deveria fazer, que iniciativas políticas ou medidas concretas ela deveria tomar. A única ideia que nestas ocasiões acaba sempre por surgir, é a do federalismo. É uma que ideia parece uma evidência, que se avança como se de uma palavra mágica se tratasse, mas que na verdade não passa de uma ilusão. E a prova disso é que nunca se diz como, nem com quem, é que esse federalismo se poderia concretizar. Ora, sem se avançar no como e no com quem, é o mesmo que nada dizer, ou melhor, é como pedir a um amputado que caminhe…

. O federalismo europeu nunca foi uma ideia fácil, contudo ela teve o seu tempo, a sua janela de oportunidade, que a meu ver se situou nos finais do século passado, quando a sua urgência chegou a ser um tema recorrente entre alguns líderes europeus. Mas apesar do ritual garantia mil vezes repetida que “sem aprofundamento não haveria alargamento”, foi justamente esse o caminho seguido para dobrar a União Europeia às pressões americanas a partir de 2002, como referi na última newsletter. Só um cego não percebia então que o alargamento era a tranca definitiva contra quaisquer aspirações federalistas: se o consenso sobre a dificuldade de governar a U.E. a 15 membros era já um facto, a 28 tal tornar-se-ia – como penosamente se tem visto – numa paralisante cacofonia. E ainda há quem fale em continuar…

. E é nisto que estamos agora, numa armadilha que objectivamente impede qualquer acção eficaz conjunta dos membros da União Europeia, entalada entre “impérios” e sem margem de acção eficaz, para lá do registo …simbólico! A tudo isto é preciso ainda acrescentar um outro ponto muito importante, que é o de que o design, a configuração  institucional da União Europeia, nas suas metamorfoses desde 1958, não só não a ter preparado para as contingências que hoje enfrenta, como – o que é ainda mais grave – a ter manietado num colete de forças feito de ilusões sobre a paz, a democracia, o direito, a ordem internacional, sem a prudência que tudo, na sua história, vivamente aconselhava, nomeadamente em relação à fragilidade estrutural de todas aquelas ilusões.

. Tudo isto desabou. É talvez tarde demais para isso, mas só assumindo na sua integralidade este facto é que se pode ainda vislumbrar algum futuro à União Europeia, e o único – e muito estreito – caminho que permanece aberto é, não o do federalismo, mas – o que é bem diferente – o da confederação. Confederação que só pode nascer da visão do “núcleo duro” de alguns países – entre 9 e 12 -, que decidam cortar com o garrote actual e avançar em conjunto multiplicando e aprofundando alguns parâmetros comuns fundamentais (moeda, segurança,  cultura, tecnologia, produção), apostando nos domínios onde, como há dias lembrava Jacques Attali, a Europa é forte, e assumindo rapidamente aqueles em que incompreensivelmente ela se deixou ficar para trás, nomeadamente no plano tecnológico, onde um esforço de recuperação é de absoluta urgência.

. Uma confederação que seja mais democrática do que é hoje a União Europeia, nomeadamente sobrepondo à importante defesa dos direitos individuais, os direitos decorrentes da soberania dos povos e dos seus poderes colectivos. Voltarei, em breve, a este delicado, mas decisivo, tema.

FICÇÕES OCIDENTAIS, E NÃO SÓ…

“Uma divindade trágica que detém o poder absoluto, mas que carece de compreensão, foi nisso que nós, seres humanos, nos tornámos no século XXI. E se esse é o nosso Deus, estaria explicado porque é que o caos e a irracionalidade se transformaram, de repente, em caminhos para entrarmos no mundo.

                                                                Benjamín Labatut

 . As ficções existem. E elas são decisivas, seja como expectativas das nossas ambições, seja como ideias reguladoras do nosso comportamento, individual e colectivo. Bons exemplos disso são, no primeiro caso, o progresso ou o crescimento, e no segundo a paz ou a democracia. Cada época tem as suas ficções dominantes – as ideologias, no fundo, foram e são apenas ficções mais estruturadas, resistentes e mobilizadoras -, que duram o que durarem os factores que as fizeram surgir e que as alimentam. Mas como acontece com tudo, elas têm um fim, ora como metamorfose ora como colapso.

. Este é um corolário central da  hipnocracia, que é a  melhor teoria e o mais eficaz instrumento de que hoje dispomos para sairmos do impensar dominante. O pós-guerra produziu, a partir de 1945, ficções poderosas, todas contribuindo para a consolidação de uma ideia de Ocidente como ficção-mestra desse período: a da eternidade do comunismo – e, em paralelo, a da Guerra Fria -, a generalização da democracia como consequência do progresso e do seu feliz acasalamento com o mercado, a ordem internacional e a conquista de uma paz “perpétua”, entre diversas outras. Todas estas ficções decorreram da ficção-mestra de um Ocidente coeso e homogéneo – no essencial formado pelos EUA e pala Europa, com mais alguns apêndices pelo mundo -, coesão e homogeneidade muito impulsionadas então pela existência de um inimigo comum, a URSS e o comunismo, que também se alargou a outras áreas do planeta.

. Esta ficção-mestra rapidamente tomou a forma de um americanização global  do Ocidente, tanto pelo poder económico que ela assumia como, e determinantemente, pelo domínio conseguido sobre o imaginário dos povos: da música à moda, da alimentação ao cinema – e depois às séries -, do culto do dinheiro ao mito do self-made men, do politicamente correcto ao wokismo, num triunfo sem limites, imperialista, do american way of life.

. Naturalmente que estas ficções conheceram atritos e crises, sempre provocadas pelos desafios da dura realidade, que no século passado se acentuaram com o abalo cultural, social e societal dos anos 60, com a crise petrolífera dos anos 70, com o fim do comunismo entre finais dos anos 80  e começo dos anos 90, que é também o momento da eclosão e da expansão de uma nova globalização, que teve um momento decisivo com a entrada da China na OMC (Organização Mundial de Comércio) em Dezembro de 2001.

. Entretanto, o começo do século XXI trouxe consigo o desmoronar do mundo ficcional até aí dominante, desmoronar que faz lembrar a descrição da crise feita por Thomas Khun no seu famoso livro sobre A Estrutura das Revoluções Científicas. Na ciência é o paradigma dominante que deixa de ser capaz de resolver os novos problemas que surgem, aqui é a ficção-mestra que se revela incapaz de criar novas expectativas ou ideias-reguladoras capazes de enquadrar os novos acontecimentos do mundo, que cada vez mais lhe escapam.

. Foi o ataque às Torres Gémeas a mostrar a vulnerabilidade dos EUA; foi o aparecimento do euro, que para surpresa geral “nasce” mais forte do que o dólar; foi a reacção americana a esta situação investindo milhões de dólares na propaganda a favor do alargamento “mimético” da União Europeia, enxameando-a de antigos países do Leste que pouco ou nada tinham a ver com a sua matriz, tornando-a assim literalmente ingovernável; foi a sobranceria americana, mas também europeia, em relação a “derrotada” Rússia, reduzida por Barak Obama a mera  “potência regional”; foi a colossal ignorância dos líderes ocidentais sobre as riquíssimas histórias imperiais russa e chinesa, agora em luta pelo seu regresso à ribalta da História.

. E enquanto este caldeirão ficcional fervia, os Europeus continuavam a viver no mundo das velhas ficções da paz, da coesão, do multilateralismo, do consumismo, em suma, na ilusão do mais inebriante conforto. Os sinais de alarme foram muitos, mas sempre ignorados: a crise dos subprime em 2008, a crise do euro a partir de 2010, a crise da imigração em 2015, o Brexit em 2016, a eleição de Donald Trump nesse mesmo ano.E muitos foram também os alertas americanos de que o tempo do “chapéu de chuva” americano na segurança europeia estava por um fio: já com G.Bush Jr., mais com Barak Obama, decisivamente com Trump 1. Mas tudo foi ignorado por uma U.E. cada vez mais burocrática, mais tecnocrática e mais autoritária, incapaz de se enxergar nos seus escassos 1,2 mil milhões de habitantes, num mundo que já ultrapassa os 8 mil milhões, indiferente ao recuo do seu PIB mundial de 25% para 14 % nos últimos 40 anos.

. E, entretanto, uma nova ficção irrompeu e se impôs, a Word Wide Web, em 1989/90, com tudo aquilo que se sabe que se lhe seguiu, vindo a criar um mundo parametrizado pelo crescente potencial dos smartphones, pelas redes sociais de todo o tipo, pelo Youtube, por múltiplas e variadas plataformas digitais, por uma Inteligência Artificial em constante expansão.  E, aqui, os europeus nada viram, aconchegados no seu conforto, vivendo na fatal ilusão que lhes basta serem o “maior mercado do mundo”, quando na verdade já vivem quotidianamente sob a férrea ocupação tecnológica dos EUA e do seu imenso poder neste domínio.

.  São estes alguns dos elementos essenciais do grande conflito ficcional do nosso tempo, que se trava entre, por um lado, a ficção tecnológica de um poder libertário, sem regras nem limites, defendida por Elon Musk, Peter Thiel e diversos bloguistas marados do Dark Enlightenment, como Yvan Curtis, Nick Land, entre alguns outros. E, por outro lado, a ficção soberanista de Estados que ainda tentam viver de antigas, e  cada vez mais desamparadas e frágeis, ilusões (soberania, território, direito, etc.), como penso ser o caso de Donald Trump.

. É este, a meu ver, o núcleo da crise actual, que atingiu o seu pico com Trump II porque – e este é sem dúvida o ponto decisivo – ele se revelou totalmente incapaz de resolver (talvez mesmo de compreender) qualquer dos problemas em nome de cuja solução ele foi eleito: a re-industrialização dos EUA, o aumento do poder de compra, a solução da guerra da Ucrânia em dois dias, a completa recusa do intervencionismo militar americano, etc. Resta-lhe a imigração, é certo, e ainda assim parcialmente, mas é o fracasso em tudo o mais que o leva a recorrer à ficção da superpotência, permanentemente exibida, tanto externa como internamente.

. Acontece que a globalização é um processo histórico objectivo, que veda inteiramente a Trump qualquer possibilidade de concretizar o seu slogan “Make America Great Again”.  Há muito que tal facto se revelou fatal para a ganância ocidental, iludida no seu conformismo consumista, e é essa mesma fatalidade que exaspera actualmente o voluntarismo de Trump, levando-o à constante repetição das mais patéticas e inverosímeis litanias de grandeza.

. O que é importante compreender, é que a globalização, que foi uma iniciativa ocidental, se tornou na mais poderosa arma de des-ocidentalização em curso no mundo.  Agora o momentum é outro, ele pertence o Sul Global, aos BRICS, sobretudo obviamente à China, que tudo aposta num século de consagração mundial, com uma supremacia já indiscutível em múltiplos domínios decisivos, tendo como objectivo final uma prudente, mas determinada des-dolarização da economia mundial, equipando-se para o conseguir com ficções cada vez mais adequadas a esse objectivo, muitas delas recicladas do anti-colonialismo histórico.

. Enquanto isso, tudo leva a supor que o actual apogeu belicista dos EUA é a outra face do seu estertor histórico, num processo que poderá ser mais ou menos  lento mas é inexorável, e que muito provavelmente arrastará consigo a União Europeia, a não ser que ela sacuda a tempo a sua ignóbil vassalização face aos EUA  e a sua acefalia estratégica. Quanto à Rússia, ela continuará certamente a ser, depois de terminada a sua “aventura ucraniana”, uma potência média – nuclear, é bom não esquecer – mas cada vez mais condicionada e subalternizada  pela China. E não é impossível, bem pelo contrário, que, por paradoxal que tal agora possa parecer, venha a ser com ela que a Europa poderá ainda encontrar algum revigoramento no futuro: as ficções são assim, elas tecem teias capazes de acolher os mais inesperados acontecimentos.

DO RISCO À INCERTEZA

. Uma coisa é o risco, que aponta para o que é previsível. Outra coisa é a incerteza, que nos abandona às vagas da mais completa contingência – a clássica distinção de Frank Knight aplica-se bem ao ano de 2025, em que passámos da primeira para a segunda, com múltiplas e profundas rupturas em quase todos os planos. Há quem lhe chame o regresso da História, depois da miragem do seu termo em finais do século XX, e não andará longe da verdade…São por isso muitos os temas que se nos impõem, hoje escolhi dois.  O primeiro, cumprindo a promessa feita na minha penúltima newslettwer, é o dos riscos que a União Europeia corre de se estar a transformar numa oligarquia. O segundo, é o da consolidação de um inédito dispositivo de poder, um sistema político-mediático capaz de produzir incessantemente uma “nova” realidade que condiciona, e controla, quase todos os aspectos da vida das sociedades e dos cidadãos.

UNIÃO EUROPEIA – A CAMINHO DA OLIGARQUIA?

 . Esta é a questão vital, e tem de ser enunciada com frontalidade: a União Europeia não é uma democracia, apesar de cultivar alguns sinais exteriores de que o é, como é o caso do sufrágio para o Parlamento Europeu. Mas na verdade, se se olhar bem para o seu funcionamento, para a sua composição, para os seus privilégios, para a sua ineficácia, para as suas iniciativas, etc., rapidamente nos confrontamos com uma mera cosmética daquela pretensão.

. E se considerarmos o modo como a U.E. tem vindo a gerir o “dossier ucraniano”, logo se percebe que estamos cada vez mais sujeitos a um poder oligárquico: todas as decisões, por vezes da maior gravidade para os povos europeus – seja em termos políticos, financeiros ou estratégicos -, têm sido tomadas por um Directório sem legitimidade política, que se constituiu e impôs sem qualquer debate ou justificação, sem consulta a esses povos, quer directamente, quer através dos seus respectivos Parlamentos, o que seria um imperativo mínimo a esperar dos líderes europeus!

. E nem a recente confirmação do gigantesco polvo da corrupção ucraniana, a atingir brutalmente o coração do clã dirigente do presidente V. Zelensky, os fez parar e pensar para onde eles estão a arrastar os povos da União Europeia. Povos que agora ficaram responsáveis por um “empréstimo” de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, que evidentemente nunca recuperarão, garantindo o New York Times que um terço dos apoios financeiros à Ucrânia vai directamente para os bolsos… “do costume”! E é esta Ucrânia que, ao completo arrepio de todos critérios de adesão à U.E. (os “Critérios de Copenhague”, definidos em 1993), há quem pretenda integrar na U.E., havendo mesmo quem defenda que tal deve acontecer já em 2027?

. Mas o que faz o Directório, que ora aparece como um triunvirato – França, Inglaterra e Alemanha – ora se transfigura na liderança de uma irrelevante “Coligação de Vontades”? Na verdade, nada. Limita-se a reunir, falar, prometer, especular, nunca concretizando o que quer que seja, exibindo uma confrangedora ausência de estratégia – para não falar da sua cínica duplicidade em relação ao conflito no Médio Oriente -, bem manifesta nestes quase quatro anos do conflito, apenas abanada, aqui e ali, pelos lances de Donald Trump, que embora trazendo o caos à política mundial, teve pelo menos o mérito de confrontar finalmente o mundo europeu com a sua pesporrência, desorientação e impotência.

MUDAR DE LENTES

. Mas para compreender o que se passa é preciso mudar de lentes. E aqui talvez seja de lembrar e retomar a original tese de Peter Mair, que sugeriu, a partir de uma muito detalhada análise do funcionamento político da União Europeia – era ele então professor do Instituto Europeu de Florença – uma outra perspectiva sobre as razões das tão repetidas, e a seu ver fundamentadas, críticas ao funcionamento pouco ou nada democrático da União Europeia, que foram convergindo no diagnóstico de um forte défice democrático, ligado às questões da representatividade, da legitimidade, da “accountability, etc.. Tema oportunamente desaparecido do espaço público europeu, primeiro com a eclosão da pandemia do Covid, depois com a invasão da Ucrânia pela Rússia, tendo o tema do défice democrático dado lugar, e de um modo cada vez mais intenso, aos temas do medo e da insegurança, criando assim enormes margens de manobra para os poderes instalados.

. Mas Peter Mair foi mais longe, no livro Ruling the Void (2013) ele levantou o véu sobre a origem desta situação europeia, afastando como secundárias as questões formais ou de eventuais reformas, para a colocar em termos de uma intencionalidade estratégica. Ou seja, pergunta Peter Mair, não se terá mesmo, com a construção da União Europeia, querido criar, e com uma intenção bem clara, um dispositivo institucional que, justamente, permitisse contornar as tradicionais exigências democráticas, mas simulando sempre – com elucubrações de uma retórica por vezes impenetrável – o seu cumprimento?

. É uma hipótese forte, a que, todavia, o tempo tem vindo a dar cada vez mais força e credibilidade, nomeadamente com o aumento da letargia do Conselho Europeu, com a crescente irrelevância do Parlamento Europeu e com a bonapartização da Presidência da Comissão Europeia. E tudo isto ignorando sempre o grande problema de fundo, que nunca se quis pensar, ou melhor, que tudo se fez para ignorar, que é o da inexistência política de um povo europeu. Inexistência que, por si só, basta para tornar completamente inviável – para não dizer delirante! – a eventual constituição de um exército europeu, que seria na história o primeiro exército… sem povo!

O SISTEMA E A “NOVA REALIDADE”

. Mas esta ignorância acompanha o modo como, no Ocidente, a realidade tem vindo a desaparecer, como que subsumida num espesso, opaco e contínuo infotretenimento, que a aliança do mundo político com o dispositivo mediático-reticular tem vindo a constituir e a impor.  Se, como já referi atrás, no fim da década passada a Europa vivia com inusitada intensidade o debate sobre o seu “défice democrático”, com a pandemia do Covid, em 2020, e depois com a invasão da Ucrânia, em 2022, ele foi persistentemente varrido para debaixo do tapete, talvez com a esperança que ele assim desaparecesse de vez.

. E, ao mesmo tempo, foi-se instalando progressivamente um sistema político-mediático (sim, o sistema existe, o que não implica nenhuma forma de “conspiracionismo”) que se apodera de todos os acontecimentos, sobretudo dos bélicos e dos sanitários, como se de um novo reality-show se tratasse, impondo um fluxo torrencial de “actualidades”, animado – com meritórias, mas muito raras, excepções – por pivots aparvalhados e comentadores ignoro-ruminantes, que deste modo foram dando forma e consistência a uma realidade paralela, multiplicando terríveis perigos e ameaças iminentes – tudo imaginário, claro! –  com um único objectivo: disseminar o medo e a insegurança nos cidadãos, para assim garantir a sua servidão voluntária.

. O sistema pôs toda a gente, literalmente, a “viver na televisão”. E fê-lo substituindo o regime da controversa verdade política por outro regime: o da anestesiante narrativa mediática, oferecendo catadupas de narratretas e de debates onde nada, rigorosamente nada, se discute, o registo é sempre o da léria e o da conversa de café. Realidade que se deve  interpretar à luz da hipnocracia dominante, conceito de que já aqui falei no ano passado, e que ilumina como poucos a novidade da situação actual.

. Percebe-se bem que os líderes europeus estão paralisados, bloqueados entre três espectros: o de um trumpismo que os surpreendeu e com que não conseguem lidar a não ser num registo de vassalização. O de um putinismo tão impiedoso como imperial, que durante anos menosprezaram com uma negligência incompetente. E o de uma China estratégica, que transforma todas as fraquezas alheias num aumento da sua força e influência,  visando restaurar a sua imensa grandeza passada.

. E mais bloqueados poderão ainda ficar, quando enfrentarem os movimentos e as forças políticas que estão a varrer os poderes instalados por todo o lado, o que torna o próximo ano numa estimulante incógnita: depois das eleições municipais em França, já em Março, temos as legislativas na Hungria em Abril, as municipais em Inglaterra em Maio, as legislativas na Suécia em Setembro e na Dinamarca em Outubro, mês em que também haverá eleições legislativas em Israel e presidenciais no Brasil. E este ciclo fechar-se-á com as “midterm elections” americanas, em que, além de diversas eleições estaduais e de 36 governadores, estarão em disputa um terço dos lugares do Senado e a totalidade dos membros da Câmara dos Representantes. O ano de 2026 promete: haverá riscos que permanecerão, mas será a incerteza que vai dominar.