FICÇÕES OCIDENTAIS, E NÃO SÓ…

“Uma divindade trágica que detém o poder absoluto, mas que carece de compreensão, foi nisso que nós, seres humanos, nos tornámos no século XXI. E se esse é o nosso Deus, estaria explicado porque é que o caos e a irracionalidade se transformaram, de repente, em caminhos para entrarmos no mundo.

                                                                Benjamín Labatut

 . As ficções existem. E elas são decisivas, seja como expectativas das nossas ambições, seja como ideias reguladoras do nosso comportamento, individual e colectivo. Bons exemplos disso são, no primeiro caso, o progresso ou o crescimento, e no segundo a paz ou a democracia. Cada época tem as suas ficções dominantes – as ideologias, no fundo, foram e são apenas ficções mais estruturadas, resistentes e mobilizadoras -, que duram o que durarem os factores que as fizeram surgir e que as alimentam. Mas como acontece com tudo, elas têm um fim, ora como metamorfose ora como colapso.

. Este é um corolário central da  hipnocracia, que é a  melhor teoria e o mais eficaz instrumento de que hoje dispomos para sairmos do impensar dominante. O pós-guerra produziu, a partir de 1945, ficções poderosas, todas contribuindo para a consolidação de uma ideia de Ocidente como ficção-mestra desse período: a da eternidade do comunismo – e, em paralelo, a da Guerra Fria -, a generalização da democracia como consequência do progresso e do seu feliz acasalamento com o mercado, a ordem internacional e a conquista de uma paz “perpétua”, entre diversas outras. Todas estas ficções decorreram da ficção-mestra de um Ocidente coeso e homogéneo – no essencial formado pelos EUA e pala Europa, com mais alguns apêndices pelo mundo -, coesão e homogeneidade muito impulsionadas então pela existência de um inimigo comum, a URSS e o comunismo, que também se alargou a outras áreas do planeta.

. Esta ficção-mestra rapidamente tomou a forma de um americanização global  do Ocidente, tanto pelo poder económico que ela assumia como, e determinantemente, pelo domínio conseguido sobre o imaginário dos povos: da música à moda, da alimentação ao cinema – e depois às séries -, do culto do dinheiro ao mito do self-made men, do politicamente correcto ao wokismo, num triunfo sem limites, imperialista, do american way of life.

. Naturalmente que estas ficções conheceram atritos e crises, sempre provocadas pelos desafios da dura realidade, que no século passado se acentuaram com o abalo cultural, social e societal dos anos 60, com a crise petrolífera dos anos 70, com o fim do comunismo entre finais dos anos 80  e começo dos anos 90, que é também o momento da eclosão e da expansão de uma nova globalização, que teve um momento decisivo com a entrada da China na OMC (Organização Mundial de Comércio) em Dezembro de 2001.

. Entretanto, o começo do século XXI trouxe consigo o desmoronar do mundo ficcional até aí dominante, desmoronar que faz lembrar a descrição da crise feita por Thomas Khun no seu famoso livro sobre A Estrutura das Revoluções Científicas. Na ciência é o paradigma dominante que deixa de ser capaz de resolver os novos problemas que surgem, aqui é a ficção-mestra que se revela incapaz de criar novas expectativas ou ideias-reguladoras capazes de enquadrar os novos acontecimentos do mundo, que cada vez mais lhe escapam.

. Foi o ataque às Torres Gémeas a mostrar a vulnerabilidade dos EUA; foi o aparecimento do euro, que para surpresa geral “nasce” mais forte do que o dólar; foi a reacção americana a esta situação investindo milhões de dólares na propaganda a favor do alargamento “mimético” da União Europeia, enxameando-a de antigos países do Leste que pouco ou nada tinham a ver com a sua matriz, tornando-a assim literalmente ingovernável; foi a sobranceria americana, mas também europeia, em relação a “derrotada” Rússia, reduzida por Barak Obama a mera  “potência regional”; foi a colossal ignorância dos líderes ocidentais sobre as riquíssimas histórias imperiais russa e chinesa, agora em luta pelo seu regresso à ribalta da História.

. E enquanto este caldeirão ficcional fervia, os Europeus continuavam a viver no mundo das velhas ficções da paz, da coesão, do multilateralismo, do consumismo, em suma, na ilusão do mais inebriante conforto. Os sinais de alarme foram muitos, mas sempre ignorados: a crise dos subprime em 2008, a crise do euro a partir de 2010, a crise da imigração em 2015, o Brexit em 2016, a eleição de Donald Trump nesse mesmo ano.E muitos foram também os alertas americanos de que o tempo do “chapéu de chuva” americano na segurança europeia estava por um fio: já com G.Bush Jr., mais com Barak Obama, decisivamente com Trump 1. Mas tudo foi ignorado por uma U.E. cada vez mais burocrática, mais tecnocrática e mais autoritária, incapaz de se enxergar nos seus escassos 1,2 mil milhões de habitantes, num mundo que já ultrapassa os 8 mil milhões, indiferente ao recuo do seu PIB mundial de 25% para 14 % nos últimos 40 anos.

. E, entretanto, uma nova ficção irrompeu e se impôs, a Word Wide Web, em 1989/90, com tudo aquilo que se sabe que se lhe seguiu, vindo a criar um mundo parametrizado pelo crescente potencial dos smartphones, pelas redes sociais de todo o tipo, pelo Youtube, por múltiplas e variadas plataformas digitais, por uma Inteligência Artificial em constante expansão.  E, aqui, os europeus nada viram, aconchegados no seu conforto, vivendo na fatal ilusão que lhes basta serem o “maior mercado do mundo”, quando na verdade já vivem quotidianamente sob a férrea ocupação tecnológica dos EUA e do seu imenso poder neste domínio.

.  São estes alguns dos elementos essenciais do grande conflito ficcional do nosso tempo, que se trava entre, por um lado, a ficção tecnológica de um poder libertário, sem regras nem limites, defendida por Elon Musk, Peter Thiel e diversos bloguistas marados do Dark Enlightenment, como Yvan Curtis, Nick Land, entre alguns outros. E, por outro lado, a ficção soberanista de Estados que ainda tentam viver de antigas, e  cada vez mais desamparadas e frágeis, ilusões (soberania, território, direito, etc.), como penso ser o caso de Donald Trump.

. É este, a meu ver, o núcleo da crise actual, que atingiu o seu pico com Trump II porque – e este é sem dúvida o ponto decisivo – ele se revelou totalmente incapaz de resolver (talvez mesmo de compreender) qualquer dos problemas em nome de cuja solução ele foi eleito: a re-industrialização dos EUA, o aumento do poder de compra, a solução da guerra da Ucrânia em dois dias, a completa recusa do intervencionismo militar americano, etc. Resta-lhe a imigração, é certo, e ainda assim parcialmente, mas é o fracasso em tudo o mais que o leva a recorrer à ficção da superpotência, permanentemente exibida, tanto externa como internamente.

. Acontece que a globalização é um processo histórico objectivo, que veda inteiramente a Trump qualquer possibilidade de concretizar o seu slogan “Make America Great Again”.  Há muito que tal facto se revelou fatal para a ganância ocidental, iludida no seu conformismo consumista, e é essa mesma fatalidade que exaspera actualmente o voluntarismo de Trump, levando-o à constante repetição das mais patéticas e inverosímeis litanias de grandeza.

. O que é importante compreender, é que a globalização, que foi uma iniciativa ocidental, se tornou na mais poderosa arma de des-ocidentalização em curso no mundo.  Agora o momentum é outro, ele pertence o Sul Global, aos BRICS, sobretudo obviamente à China, que tudo aposta num século de consagração mundial, com uma supremacia já indiscutível em múltiplos domínios decisivos, tendo como objectivo final uma prudente, mas determinada des-dolarização da economia mundial, equipando-se para o conseguir com ficções cada vez mais adequadas a esse objectivo, muitas delas recicladas do anti-colonialismo histórico.

. Enquanto isso, tudo leva a supor que o actual apogeu belicista dos EUA é a outra face do seu estertor histórico, num processo que poderá ser mais ou menos  lento mas é inexorável, e que muito provavelmente arrastará consigo a União Europeia, a não ser que ela sacuda a tempo a sua ignóbil vassalização face aos EUA  e a sua acefalia estratégica. Quanto à Rússia, ela continuará certamente a ser, depois de terminada a sua “aventura ucraniana”, uma potência média – nuclear, é bom não esquecer – mas cada vez mais condicionada e subalternizada  pela China. E não é impossível, bem pelo contrário, que, por paradoxal que tal agora possa parecer, venha a ser com ela que a Europa poderá ainda encontrar algum revigoramento no futuro: as ficções são assim, elas tecem teias capazes de acolher os mais inesperados acontecimentos.

DO RISCO À INCERTEZA

. Uma coisa é o risco, que aponta para o que é previsível. Outra coisa é a incerteza, que nos abandona às vagas da mais completa contingência – a clássica distinção de Frank Knight aplica-se bem ao ano de 2025, em que passámos da primeira para a segunda, com múltiplas e profundas rupturas em quase todos os planos. Há quem lhe chame o regresso da História, depois da miragem do seu termo em finais do século XX, e não andará longe da verdade…São por isso muitos os temas que se nos impõem, hoje escolhi dois.  O primeiro, cumprindo a promessa feita na minha penúltima newslettwer, é o dos riscos que a União Europeia corre de se estar a transformar numa oligarquia. O segundo, é o da consolidação de um inédito dispositivo de poder, um sistema político-mediático capaz de produzir incessantemente uma “nova” realidade que condiciona, e controla, quase todos os aspectos da vida das sociedades e dos cidadãos.

UNIÃO EUROPEIA – A CAMINHO DA OLIGARQUIA?

 . Esta é a questão vital, e tem de ser enunciada com frontalidade: a União Europeia não é uma democracia, apesar de cultivar alguns sinais exteriores de que o é, como é o caso do sufrágio para o Parlamento Europeu. Mas na verdade, se se olhar bem para o seu funcionamento, para a sua composição, para os seus privilégios, para a sua ineficácia, para as suas iniciativas, etc., rapidamente nos confrontamos com uma mera cosmética daquela pretensão.

. E se considerarmos o modo como a U.E. tem vindo a gerir o “dossier ucraniano”, logo se percebe que estamos cada vez mais sujeitos a um poder oligárquico: todas as decisões, por vezes da maior gravidade para os povos europeus – seja em termos políticos, financeiros ou estratégicos -, têm sido tomadas por um Directório sem legitimidade política, que se constituiu e impôs sem qualquer debate ou justificação, sem consulta a esses povos, quer directamente, quer através dos seus respectivos Parlamentos, o que seria um imperativo mínimo a esperar dos líderes europeus!

. E nem a recente confirmação do gigantesco polvo da corrupção ucraniana, a atingir brutalmente o coração do clã dirigente do presidente V. Zelensky, os fez parar e pensar para onde eles estão a arrastar os povos da União Europeia. Povos que agora ficaram responsáveis por um “empréstimo” de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, que evidentemente nunca recuperarão, garantindo o New York Times que um terço dos apoios financeiros à Ucrânia vai directamente para os bolsos… “do costume”! E é esta Ucrânia que, ao completo arrepio de todos critérios de adesão à U.E. (os “Critérios de Copenhague”, definidos em 1993), há quem pretenda integrar na U.E., havendo mesmo quem defenda que tal deve acontecer já em 2027?

. Mas o que faz o Directório, que ora aparece como um triunvirato – França, Inglaterra e Alemanha – ora se transfigura na liderança de uma irrelevante “Coligação de Vontades”? Na verdade, nada. Limita-se a reunir, falar, prometer, especular, nunca concretizando o que quer que seja, exibindo uma confrangedora ausência de estratégia – para não falar da sua cínica duplicidade em relação ao conflito no Médio Oriente -, bem manifesta nestes quase quatro anos do conflito, apenas abanada, aqui e ali, pelos lances de Donald Trump, que embora trazendo o caos à política mundial, teve pelo menos o mérito de confrontar finalmente o mundo europeu com a sua pesporrência, desorientação e impotência.

MUDAR DE LENTES

. Mas para compreender o que se passa é preciso mudar de lentes. E aqui talvez seja de lembrar e retomar a original tese de Peter Mair, que sugeriu, a partir de uma muito detalhada análise do funcionamento político da União Europeia – era ele então professor do Instituto Europeu de Florença – uma outra perspectiva sobre as razões das tão repetidas, e a seu ver fundamentadas, críticas ao funcionamento pouco ou nada democrático da União Europeia, que foram convergindo no diagnóstico de um forte défice democrático, ligado às questões da representatividade, da legitimidade, da “accountability, etc.. Tema oportunamente desaparecido do espaço público europeu, primeiro com a eclosão da pandemia do Covid, depois com a invasão da Ucrânia pela Rússia, tendo o tema do défice democrático dado lugar, e de um modo cada vez mais intenso, aos temas do medo e da insegurança, criando assim enormes margens de manobra para os poderes instalados.

. Mas Peter Mair foi mais longe, no livro Ruling the Void (2013) ele levantou o véu sobre a origem desta situação europeia, afastando como secundárias as questões formais ou de eventuais reformas, para a colocar em termos de uma intencionalidade estratégica. Ou seja, pergunta Peter Mair, não se terá mesmo, com a construção da União Europeia, querido criar, e com uma intenção bem clara, um dispositivo institucional que, justamente, permitisse contornar as tradicionais exigências democráticas, mas simulando sempre – com elucubrações de uma retórica por vezes impenetrável – o seu cumprimento?

. É uma hipótese forte, a que, todavia, o tempo tem vindo a dar cada vez mais força e credibilidade, nomeadamente com o aumento da letargia do Conselho Europeu, com a crescente irrelevância do Parlamento Europeu e com a bonapartização da Presidência da Comissão Europeia. E tudo isto ignorando sempre o grande problema de fundo, que nunca se quis pensar, ou melhor, que tudo se fez para ignorar, que é o da inexistência política de um povo europeu. Inexistência que, por si só, basta para tornar completamente inviável – para não dizer delirante! – a eventual constituição de um exército europeu, que seria na história o primeiro exército… sem povo!

O SISTEMA E A “NOVA REALIDADE”

. Mas esta ignorância acompanha o modo como, no Ocidente, a realidade tem vindo a desaparecer, como que subsumida num espesso, opaco e contínuo infotretenimento, que a aliança do mundo político com o dispositivo mediático-reticular tem vindo a constituir e a impor.  Se, como já referi atrás, no fim da década passada a Europa vivia com inusitada intensidade o debate sobre o seu “défice democrático”, com a pandemia do Covid, em 2020, e depois com a invasão da Ucrânia, em 2022, ele foi persistentemente varrido para debaixo do tapete, talvez com a esperança que ele assim desaparecesse de vez.

. E, ao mesmo tempo, foi-se instalando progressivamente um sistema político-mediático (sim, o sistema existe, o que não implica nenhuma forma de “conspiracionismo”) que se apodera de todos os acontecimentos, sobretudo dos bélicos e dos sanitários, como se de um novo reality-show se tratasse, impondo um fluxo torrencial de “actualidades”, animado – com meritórias, mas muito raras, excepções – por pivots aparvalhados e comentadores ignoro-ruminantes, que deste modo foram dando forma e consistência a uma realidade paralela, multiplicando terríveis perigos e ameaças iminentes – tudo imaginário, claro! –  com um único objectivo: disseminar o medo e a insegurança nos cidadãos, para assim garantir a sua servidão voluntária.

. O sistema pôs toda a gente, literalmente, a “viver na televisão”. E fê-lo substituindo o regime da controversa verdade política por outro regime: o da anestesiante narrativa mediática, oferecendo catadupas de narratretas e de debates onde nada, rigorosamente nada, se discute, o registo é sempre o da léria e o da conversa de café. Realidade que se deve  interpretar à luz da hipnocracia dominante, conceito de que já aqui falei no ano passado, e que ilumina como poucos a novidade da situação actual.

. Percebe-se bem que os líderes europeus estão paralisados, bloqueados entre três espectros: o de um trumpismo que os surpreendeu e com que não conseguem lidar a não ser num registo de vassalização. O de um putinismo tão impiedoso como imperial, que durante anos menosprezaram com uma negligência incompetente. E o de uma China estratégica, que transforma todas as fraquezas alheias num aumento da sua força e influência,  visando restaurar a sua imensa grandeza passada.

. E mais bloqueados poderão ainda ficar, quando enfrentarem os movimentos e as forças políticas que estão a varrer os poderes instalados por todo o lado, o que torna o próximo ano numa estimulante incógnita: depois das eleições municipais em França, já em Março, temos as legislativas na Hungria em Abril, as municipais em Inglaterra em Maio, as legislativas na Suécia em Setembro e na Dinamarca em Outubro, mês em que também haverá eleições legislativas em Israel e presidenciais no Brasil. E este ciclo fechar-se-á com as “midterm elections” americanas, em que, além de diversas eleições estaduais e de 36 governadores, estarão em disputa um terço dos lugares do Senado e a totalidade dos membros da Câmara dos Representantes. O ano de 2026 promete: haverá riscos que permanecerão, mas será a incerteza que vai dominar.

UM NIHILISMO PRESIDENCIAL

. O estado do mundo, a imensa gravidade de tantas situações até há pouco inesperadas, mesmo impensáveis, e a sua constante multiplicação, tudo convida fortemente a ignorar a “choldra” lusitana, nomeadamente as chamadas “presidenciais”. Eleições que, dados os limitados poderes constitucionais do Presidente da República, bem podiam, como já tem sido sugerido, ser substituídas por uma eleição no Parlamento, poupando assim o país – este é o ponto mais importante – ao lamentável espectáculo de um ano da mais obstinada charlatanice político-mediática.

. Mas lá fui “picando” as notícias, para ter uma ideia do que se ia passando. E “picar” é a palavra certa, porque não ouvi nada que justificasse mais do que isso, não vi nenhum candidato revelar a menor consciência do mundo em que hoje vivemos, ou apresentar o que quer que fosse de novo para enfrentar os inextrincáveis problemas actuais do país e do mundo. Mais, em geral nem sequer vi que fossem capazes de levar um qualquer raciocínio até ao fim, repetindo ad nauseam “diagnósticos” com décadas, gargarejando  palavras, palavras e mais palavras…sempre acompanhados, claro, por idêntico ritual (às vezes bem mais longo!) por parte do “comentariado” televisivo, contratado para o efeito, bem rodado “compère” deste infotretenimento, em que já todos antecipamos o que se vai dizer…

. Acontece que, sendo as coisas o que são, penso ser esta a altura de dizer algo sobre o tema – e mais não direi até ao próximo dia 18 de Janeiro. Fundamental é perceber que,  ao contrário do que muitas vezes se diz e repete, Portugal não é – se é que alguma vez foi – nem o “labirinto da saudade” das viúvas de Eduardo Lourenço, nem o país do “medo de existir” dos acólitos de José Gil. E que a estas visões, a primeira romântico-literária, a segunda pseudo-histórico e pseudo-psicanalítica, são hoje meros anestésicos do conformismo e da incompreensão que domina o país, a que urge contrapor uma visão política do que é – ou pode ser – Portugal. E Portugal é, continua a ser, um país atordoado, desvitalizado e rebocado, isto é, um país sem qualquer estratégia para o seu futuro, vivendo o dia-a-dia de impulsos avulsos e de remendos de urgência, de desânimo, de casos e escândalos, sempre pendurado nos milagrosos fundos europeus. (Talvez por isso os portugueses estejam no topo europeu dos povos com mais animais domésticos, nomeadamente cães e gatos, do que crianças – atenção, 9 vezes mais! -, como há meses se dizia no site de Le Grand Continent).

. Mas vamos às “presidenciais”. Num regime constitucional como é o português, um candidato presidencial deve preencher uma de duas condições: ser uma personalidade de projecção nacional indiscutível – o que não exclui, pelo contrário, que seja controversa -, carismática, que se propõe ao voto dos portugueses numa base de conhecimento, ou mesmo de familiaridade, deles com a sua visão do país, não só com os seusprincípios, mas também – são elementos distintos – com os seus valores. Salvo a excepção de Ramalho Eanes (por razões bem conhecidas) foi esse o caso  de todos os Presidentes eleitos depois do 25 de Abril de 1974, Mário Soares, Cavaco Silva, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa.

. Ou – é a segunda hipótese e é este o caso das próximas eleições presidenciais de Janeiro de 2026 – trata-se de alguém que, não beneficiando de um carisma fundado numa história singular de impacto nacional, tem de apresentar duas características: ter a ambição política da função, por um lado, e ter uma visão substancial e diferenciadora do país a que se propõe presidir, por outro.

. Quer isto dizer que, dado o desenho constitucional português das funções presidenciais, esse candidato deve ser alguém que avance, não com medidas singulares, com sugestões pontuais, com propostas concretas, etc. – tudo isso é missão do governo – , mas com causas, que é exactamente onde os princípios e os valores sempre confluem, causas que devem ser mobilizadoras, e que para o serem têm de ser poucas, bem escolhidas e bem fundamentadas. O que, no caso português, não se afigura difícil, elas são de uma evidência imediata e – atrevo-me a dizê-lo – a toda a prova.

.  Em primeiro lugar, a justiça, o poder judicial no seu corporativo conjunto, que é o cancro mais grave da nossa democracia, cujas metástases ameaçam avassaladoramente tudo e todos, o que em recentes estudos de opinião é reconhecido por mais de 70% dos portugueses. É preciso enfrentar com coragem a impunidade em que este poder vive, a

todos os níveis e em todas as suas componentes, impunidade que ficou bem ilustrada nas situações de corrupção detectadas – e ao nível das suas mais altas instâncias – no Tribunal da Relação de Lisboa em 2020 e nos anos seguintes, e que tem sido quotidiana e ostensivamente evidente na inqualificável actuação do Ministério Público nos últimos anos.

. Depois, a soberania, causa maior e cada vez mais imperativa dado a “revolução” – sim, é disso que se trata – geopolítica que vivemos, que ameaça liquidar a União Europeia actual – na verdade e em boa medida, esse processo já começou -, sem se perceber de todo o que se lhe seguirá e como “o que lá vem” afectará as nossas vidas e as de todos os europeus. A União Europeia está hoje nas mãos de um Directório ilegítimoque reúne, anuncia, decide, etc., tudo sem dar satisfação a ninguém, parlamentos, povos ou cidadãos. Como é isto possível? Talvez porque a União Europeia viva já sob Ocupação Americana, o que, agora com ameaças directas de guerra (a anexação da Gronelândia, região autónoma da Dinamarca, país fundador NATO!…) e punições macarthistas ad hominem ( Thierry Breton, entre outras, já decretadas por Trump), não é possível continuar a ignorar, como todos os invertebrados líderes europeus teimam em fazer.

. Um “Directório” que rasteja perante as intoleráveis exigências e provocações de Donald Trump, sem que nenhum líder europeu tenha a elementar coragem de responder à altura e à letra. Só um exemplo: como é que, depois do intolerável discurso de J.D.Vence em Munique em Fevereiro deste ano, a União Europeia não foi imediatamente a Washington ou Nova York dar lá – sim, lá -, em público, uma lição aos americanos, a Trump e a Vance, sobre liberdade de expressão, sobre pluralismo, sobre não- interferência na política interna de outros Estados, etc., etc.? E como é que se hesita na resposta ao “cancelamento” de Thierry Breton, que bem podia ser a de dar de imediato um idêntico tratamento a Elon Musk no espaço europeu, em cuja política interna ele tanto gosta de interferir? A explicação encontra-se na vassalização europeia perante Trump e os EUA, que os líderes da U.E procuram esconder com a invocação/diabolização de uma cada vez mais inverosímil “ameaça russa”.

. E por fim, last but not least, a qualificação – palavra infelizmente tão gasta quanto esquecida na prática – das pessoas, das instituições e do território. É um dos domínios decisivos em que se cruzam a educação e a cultura, a formação e a economia, com problemas que não se resolvem com cosméticas do tipo das socráticas “novas oportunidades”, desgraçadamente continuadas desde então, com meras variantes de ocasião, por todos os governos.

. Seriam causas para um verdadeiro candidato presidencial. Que, se eleito, poderia mudar muitas coisas, se soubesse ser um político singular capaz de assumir a diferença que lhe confeririam os seus mais de 50% dos votos, perante partidos que andam em cerca de metade desse valor, ou mais abaixo, de traduzir essa diferença num talento político feito de autoridade e de engenho, que viabilizasse uma presidência inédita. Ou seja, um Presidente com capacidade de “pesar” de facto sobre o Governo e sobre o Parlamento, assumindo a avaliação e monitorização das causas em nome das quais teria sido eleito pela grande maioria dos eleitores. Capacidade que deveria ser reforçada com a ousadia de, de um modo regular, formal e frontalmente, dar conta ao país dessa sua avaliação, fazendo-o não com tagarelice de rua (à Marcelo), mas com uma persistência de estadista, de modo a reforçar a identificação dos portugueses com as causas em nome das quais teria sido eleito.

. Olhando e ouvindo os principais candidatos – ou seja, ignorando os que se apresentaram por mera servidão ou ambição partidária, BE, PCP, CHEGA, etc. – , o que constato é que temos uma panóplia de candidatos tão medíocres que nem sei como designar…Repetem vezes sem conta o que já ouvimos milhares de vezes, prometem o que sabem que não poderão cumprir, comentam todas as insignificâncias do quotidiano, prestam-se a todas as vassalagens popularistas, entregam-se a todas as querelas de “fait-divers”, não tendo nenhum conseguido até hoje identificar-se com qualquer causa maior do país, ou falar do país no mundo, tudo num magma do mais completo conformismo, mais parolo do que propriamente provinciano. Transformando assim esta (pré)campanha presidencial numa saga verdadeiramente zombie, a dar forma a um nihilismo presidencial nunca visto.

. É mau? É, mas o pior pode ainda estar para vir. É que o país corre o risco de – a acreditar nos estudos de opinião entretanto realizados e divulgados – se estar a caminhar para uma situação de graves consequências políticas, que pode ser a de eventual consagração nacional do pior (falso e rasca) perfil presidencial que se apresentou a estas eleições, que, indo à 2ª volta, transformará automaticamente a sua derrota na verdadeira vitória política das próximas presidenciais, remetendo o eventual vencedor final para a  irrelevância de uma vitória por arrasto, sem mérito, marcada pelo ferrete do mal menor, contribuindo assim para a continuação do processo de desintegração da instituição “Presidência da República”, processo iniciado e laboriosamente prosseguido por Marcelo Rebelo de Sousa nos dez anos do seu mandato.

. O ano de 2025 fecha-se assim, em Portugal, marcado por um entorpecedor nihilismo. Preparemo-nos – realística e lucidamente – para um 2026 que porá duramente à prova o anestesiante conformismo lusitano, num contexto de indigente vassalização europeia e de persistente crise mundial.

O MOMENTO DA VERDADE

                                            Sabemos que eles mentem, eles também sabem que mentem,

                                            eles sabem que nós sabemos que eles mentem,

                                            nós também sabemos que eles sabem que nós sabemos,

                                            e, no entanto, eles continuam a mentir.

                                                                                             Alexander Soljenítsin

LARVATUS PRODEO

. É uma evidência cada vez mais forte que estamos hoje a ser, em boa e significativa parte, governados por políticos psicopatas, e que a psicopatologia se vem declinando numa forma inédita de estilo político. E o mais grave é que a maior parte deles, talvez os mais perigosos, talvez não sejam os que todos identificamos e se exibem como tal, mas os que, como diria Descartes, “avançam mascarados”, sob uma trabalhada imagem de equilíbrio, de moderação e de boa-vontade.

. Nesta perspectiva, um bom caso de estudo é o do presidente francês Emmanuel Macron, que tem vindo a adoptar, sobre a guerra Rússia-Ucrânia, uma linguagem cada vez mais belicista, num desaustinado crescendo com que procura iludir o que tem sido o maior desastre político da Vª República francesa, que o atirou para uns máximos 12% de aprovação pública, enquanto cerca de 70 % dos franceses pedem a sua saída e a realização de novas eleições presidenciais.  Mas ele não é, longe disso, caso único, este tipo de líderes são hoje mato, no mundo como, lamentavelmente, na União Europeia.

 A TAGARELICE EUROPEIA

. Depois de quase quatro anos de tagarelice europeia em relação à guerra Ucrânia/Rússia, aproxima-se, todavia, o momento da verdade. E aqui é preciso reconhecer que, para lá da bazófia, tantas vezes patética, de Donald Trump, num ponto ele teve sempre razão – esta guerra, decorrente da brutal invasão da Ucrânia pela Rússia, podia e devia ter sido evitada, como de resto o disseram, entre outros, Henry Kissinger, Hubert Védrine ou Jeffrey Sachs. Podia e devia, e se tal não aconteceu, isso deveu-se sobretudo à incontinência belicista e à sobranceria geopolítica da equipa Biden, cuja raiz se encontrava já, no entanto, na liderança de Barak Obama quando, ao valorizar a China como principal adversário dos EUA, decidiu tratar, ao mesmo tempo, a Rússia como uma mera “potência regional”, entre outros mimos do género.

. Mas a guerra aconteceu, e se já há um perdedor claro neste conflito, esse perdedor é evidentemente a União Europeia, dirigida por um conjunto de (ir)responsáveis políticos mais preocupados com a defesa dos faustosos privilégios da nomenclatura instalada na “cidadela bruxelense”, do que com os problemas e o destino dos povos europeus, a quem – ponto que é da maior relevância – nem sequer se sentem obrigados de dar quaisquer satisfações ou explicações sobre as decisões que tomam, e muito menos a consultá-los sobre elas, como era sua elementar obrigação democrática, em certos casos até constitucional, fazê-lo.

. Afinal, quem é que os mandatou para tomarem as gravíssimas medidas que anunciam? Ninguém, mas a criação da espiral do medo está em curso como boia de salvação de muitos líderes políticos. Só isto pode levar a insinuar-se que Putin, cujo exército passa meses sem fim para conseguir conquistar algumas aldeias ucranianas, poderá estar em breve – em 2030, talvez mesmo já em 2028!… – às portas de Paris, como a mando de E. Macron veio afirmar, em cerimónia pública do maior impacto, o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Fabien Mandon.

A POLÍTICA É UMA RELAÇÃO DE FORÇAS

. Sempre assim foi e assim será: a política é uma relação de forças. Se se tiver esta evidência geopolítica e histórica presente, compreender-se-á a enorme facilidade com que o trumpismo se impôs no mundo ocidental, sobretudo numa Europa que hibernava há anos num misto de indolência estratégica e de pacifismo autoritário, a revelarem a sua progressiva irrelevância – para não dizer inexistência – política.

. O que Donald Trump veio lembrar, com uma grosseria muito mais comum nos EUA do que se imagina, foi que a política é sempre, como há muito ensinou Maquiavel, uma relação de forças – e que ela se mede em poder real, não em retórica alambicada. É esta perspectiva que está na origem dos seus “planos de paz”, por mais conturbados e fantasistas que eles se revelem. E é ela também que o leva a dizer que nunca a Ucrânia conseguirá derrotar a Rússia, nem recuperar um quilómetro dos territórios perdidos, a não ser que os EUA interviessem, “com botas no terreno”, a sério, nessa guerra, ao lado da Ucrânia.

. Que o façam os europeus, diz friamente o presidente americano, que é na Europa que se situa a Ucrânia, um Estado que o Banco mundial acaba de antecipar que entrará em falência completa em janeiro de 2026, a não ser que consiga 60 mil milhões de dólares até ao fim do ano. A conversa do “indefectível apoio” à Ucrânia, de António Costa, de Ursula von der Leyen e de Kaja Kallas – para já não falar da patusca “Coligação de Vontades” -, tem, pois, para ser levada a sério, que responder à questão de como é que a Europa, consumando-se o afastamento dos EUA do processo, vai concretizar esse apoio, que em média foi de cerca de 70 mil milhões de euros por ano desde 2022 (170 da U.E. mais 115 dos EUA).

. Sem meios financeiros para o continuar a fazer, a U.E. persiste na tentação do “saque” aos depósitos dos oligarcas russos depositados na Bélgica. Mas o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, em carta à presidente da Comissão Europeia que a revista Politico divulgou, recusa categoricamente esse estratagema, afirmando que “no caso muito provável de que a Rússia, no fim, não seja oficialmente a parte perdedora, ela irá, como a história já demonstrou noutros casos, reivindicar legitimamente a devolução dos seus activos soberanos” (Politico, 27.11.2025).

. E De Wever salientou ainda – com elementar prudência, diga-se – que um tal saque, ainda que na forma de um sempre pouco canónico “empréstimo, desencadearia o caos nos mercados financeiros da União Europeia e exporia os contribuintes europeus a terem de reembolsar o montante total caso os activos fossem devolvidos à Rússia.” E seguindo o que G.Sorgi escreveu nesse Politico da última 5ª feira, o primeiro-ministro belga foi mesmo mais longe, tendo sugerido que a Comissão Europeia, “em vez de recorrer às reservas russas, emitisse 45 mil milhões de euros em dívida conjunta para cobrir as necessidades financeiras da Ucrânia em 2026 – uma ideia impopular entre a maioria dos governos da U.E. porque implica o uso de dinheiro dos contribuintes”.

. Seja qual for a origem, ou o destino, das propostas do plano de Trump, é bom compreender-se que é desta situação que decorre a força dos EUA e o seu manifesto desprezo pela Europa: os seus líderes falam, falam, falam…, mas não fazem, não concretizam nada. Passam o tempo a saltar para o comboio quando Donald Trump o põe em marcha, para rapidamente ficarem fora dele num qualquer apeadeiro. E já se compreendeu que as suas bravatas não passam de lérias para consumo interno dos respectivos países, com que procuram compensar a sua crescente impopularidade e o seu descrédito.

A CORRUPÇÂO UCRANIANA

. Talvez nenhum ponto revele melhor a hipocrisia dos líderes europeus, e dos seus serventuários mediáticos, do que a sua recente reacção à exposição pública da corrupção ucraniana. Já em 2022, no meu livro A Democracia no seu Momento Apocalíptico, toquei nesse ponto (cf. cap. 4), que agora se confirma com a “operação Midas”, com a denúncia de um desvio na ordem dos 100 milhões de dólares, organizado pelo braço direito de Zelensky, Timur Mindich, e com a cumplicidade de vários outros altos dirigentes, inclusive ministros, ucranianos. E se falo de hipocrisia, é porque logo se desencadeou um processo de branqueamento da responsabilidade de Volodymyr Zelensky no caso, alegando que, depois dos protestos populares contra a decisão de amputação e controlo das duas agências ucranianas de combate à corrupção (a NABU e a SAPO), ele propôs ao Parlamento que se recuasse e deixasse cair essas medidas.

. O que assim se tem procurado esconder, é que tinha sido o próprio presidente Zelensky, a propor as tão contestadas medidas, alegando querer limpar aquelas agências da “influência russa”,  e impondo a sua subordinação a um Procurador-geral da sua confiança, antes – e certamente para a evitar – da publicitação das denúncias de corrupção entretanto conhecidas. E tudo se complicou agora ainda bem mais, com o anúncio que os serviços ucranianos de combate à corrupção estão, com base em elementos muito comprometedores, a investigar, Andriy Yerman, o chefe de gabinete de V. Zelensky desde 2020.

. Se a isto acrescentarmos o estrangulamento democrático em que vive a Ucrânia, em que todas as estações de televisão estão concentradas num único canal, sob férreo controlo governamental – o United News“Telemarathon”, de que os canais independentes ou de oposição foram, entretanto, excluídos – só se podem considerar como politicamente grotescas as tantas vezes repetidas afirmações de que na Ucrânia se jogaria o destino da.… democracia. Mas talvez o objectivo dessas declarações seja outro, nomeadamente o de não se ver como ela, a democracia, tem vindo a desaparecer da própria União Europeia. Mas isso abre outra conversa, lá iremos em breve.

O CRESCIMENTO, PARA LÁ DA MAGIA

. Deixando para outra ocasião o nihilismo presidencial em que o país vive submerso neste momento, com um quadro de candidaturas que inviabilizam a mais elementar esperança no aparecimento de um perfil que, depois dos histriónicos dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, pudesse resgatar a instituição “Presidência da República”, opto hoje por um tema que, apesar de marcar todos os discursos políticos e mediáticos, todos os imaginários sociais e todas as expectativas individuais do nosso tempo, na verdade nunca é seriamente abordado, sendo sempre reduzido a uma palavra-fétiche, a uma invocação mais ou menos mágica, cuja simples referência tudo pretende resolver: o crescimento.

. O tema foi-me suscitado por uma interessante crónica recente de Miguel Morgado no jornal Observador, sobre o que ele designou como a “questão essencial” – que seria precisamente a do crescimento -, que abordou invocando dois dos três premiados com o Nobel da economia deste ano, Philippe Aghion e Joel Mokyr. O primeiro, autor de várias ideias originais que há uma dúzia de anos pude destacar nas páginas do Diário de Notícias, quando publicou um livro importante, Repensar o Estado. O segundo, autor de uma extensa obra sobre A Cultura do Crescimento, publicada em 2017, onde ele procura explicar as raízes culturais da “questão essencial”, mas que – como Miguel Morgado reconhece – deixa, apesar das originais análises que propõe, a dita questão por esclarecer.

. Esclarecimento que, reconheça-se, não é fácil, mas que tem vindo a ser conseguido com talento por diversos pensadores. Destaco apenas dois: Jérôme Batout, que condicionou toda a sua investigação sobre o tema à mais difícil das perguntas: quando é que, na história, apareceu a “vontade de crescer”? Como, e quando é que, se fez do crescimento o valor central da democracia? Investigação cujas ideias centrais foram apresentadas no livro La Généalogie de la Valeur, em 2021, onde mostra como aquilo que ele designa como vontade de sustentação, que caracterizou durante séculos a vida da humanidade – em que a acção humana articulava necessidades e limites – se foi transformando, num processo de extrema complexidade, a partir de fins do século XIX, numa inédita vontade de crescimento, trazendo com ela um imperativo até então desconhecido: o de uma ambição que recusa todos os limites, uma ambição de índole verdadeiramente ilimitada.

. E mais: Jérôme Batout analisa o modo como esta vontade de crescimento se tornou, entretanto, e a todos os níveis, não só no motor das nossas sociedades democráticas, mas também no enquadramento das nossas representações sociais e das nossas expectativas individuais. Enquadramento que cedo se revelou, contudo, uma miragem alimentada por um sobe-e-desce estatístico-probabilístico de pequenas décimas, soçobrando face aos limites – até então nunca verdadeiramente pensados – de natureza energética, ecológica, demográfica, tecnológica, etc., que se lhe impuseram. Encontramos aqui, mais uma vez, o paradigma do ilimitado e os seus efeitos, que tem condenado a democracia aos impasses que hoje bem conhecemos, um ilimitado que conduz cada vez mais à frustração generalizada, que está na raiz da cólera que atravessa as nossas sociedades.

. O segundo é Robert J. Gordon, que avançou a ideia que, na história da humanidade, o crescimento – tal como hoje o entendemos – é algo extremamente recente, de que na verdade só se pode começar a falar a partir de meados do século XVIII, com a primeira revolução industrial, sobretudo com a invenção da máquina a vapor e a criação do caminho-de-ferro. Até então calcula-se que a evolução do PIB per capita tenha sido algo de incipiente, na verdade a produção de riqueza quase só crescia com o aumento da população. A grande mutação intensifica-se sobretudo com a segunda revolução industrial (com as novas energias do petróleo e da electricidade), entre meados do século XIX e meados do século XX, num processo contínuo que provocou uma das maiores transformações civilizacionais que a humanidade conheceu.

. Foi no decurso deste processo que ganhou cada vez mais sentido falar-se de crescimento, conceito que só surge em 1956, proposto pelo economista Robert Solow. Foi todo este processo que Robert J. Gordon analisou numa perspectiva muito inovadora e minuciosa no livro The Rise and Fall of American Growth, em 2017, onde pergunta se, ao contrário do que sistematicamente se insinua e diz quando se fala de crescimento –tendo sempre como referência implícita o de meados do século passado -, não se terá tratado então de um processo único, na verdade irrepetível, na história dos povos que o viveram. A questão merece a maior das atenções, sobretudo porque R.J.Gordon mostra como esse crescimento decorreu então, na verdade, de um concurso de circunstâncias absolutamente excepcionais: a substituição da força animal por uma tracção motorizada cada vez mais forte e mais rápida, a passagem das águas correntes para a água canalizada, o aparecimento dos esgotos, a troca da madeira e do carvão pelo petróleo e pelo gás, a substituição das velas pela lâmpada eléctrica, o aparecimento dos mais diversos aparelhos eléctricos que revolucionaram completamente as comunicações, os lazeres, a vida doméstica.

. E a tudo isto é ainda preciso acrescentar outros factores, para se ter a noção da gigantesca amplitude das mudanças que caracterizaram este processo: a contínua intensificação industrial, a enorme diminuição da população rural, o aumento da esperança de vida, a queda da mortalidade infantil, a generalizada e intensiva urbanização, a emancipação feminina e a entrada massiva das mulheres no mercado do trabalho. Foi isto o crescimento, diz Robert J.Gordon: ele consistiu no resultado, na convergência histórica desta vasta e inédita multiplicidade de factores, mudando completamente as condições de vida dos indivíduos e das sociedades.

. É por isso que o período que mais interessa analisar para se compreender realmente o crescimento, é o de meados do século passado, quando na Europa do pós-guerra se descobre que as políticas desenvolvidas sob o impulso do Plano Marshall tinham levado o PIB a crescer 30% em quatro anos, entre 1947 e 1951. (PIB que, note-se, beneficiava ainda então, como medida do crescimento, dos equívocos que o Relatório Stieglitz desmontou detalhadamente em 2010 – mas que infelizmente continua a ser um indicador que é usado e manipulado como se tal relatório não tivesse existido!). As consequências políticas de uma tal descoberta foram imensas, e são ainda elas que estão na origem de muitas ilusões e de diversos impasses dos nossos tempos. Como inspiradamente escreveu Marcel Gauchet, «o crescimento torna-se então no objectivo que vai condicionar todos os outros. Um objectivo que torna obsoleta a querela entre liberais e socialistas. Não só justifica a intervenção do Estado para garantir a condução da conjuntura, de modo a manter o ritmo do crescimento, como legitima a sua projecção no futuro.» (L’Avènement de la Démocratie, t. III, p.584).

. O que, a meu ver, é vital, é compreender que o crescimento passou assim, pela primeira vez, a ocupar o centro de gravidade da política, alterando completamente os termos do debate político e fixando uma nova ordem de prioridades, tendencialmente consensual na medida em que, diz ainda M.Gauchet, o «crescimento tem, com efeito, esta virtude extraordinária de permitir dar muito aos que têm pouco, tirando pouco ao que têm muito». “Virtude extraordinária” que abriu um longo ciclo económico e político que só será abalado pela crise do petróleo dos anos 70 do século XX, e depois, talvez mais decisivamente, pela globalização que se intensificou a partir da década seguinte.

. Ciclo a cujo inexorável declínio temos vindo a assistir, e que é o que verdadeiramente está na origem das múltiplas crises que vivemos hoje, em paralelo – mas isto tem de ficar para outro dia – com a irrupção de uma nova revolução “industrial” (informática, robótica, nanotecnologias, I.A., etc.). O que impõe que se re-pense o crescimento, evitando as invocações mágicas que só conduzem às mistificações grosseiras que continuam a dominar o estereotipado discurso político-mediático dos nossos dias.

A POLÍTICA, UMA NOVA SITCOM – ENTRE TRUMP E MAMDANI

. É sempre pouco prudente e pouco inteligente confundir a árvore com a floresta. A notável vitória do democrata “socialista” Zohran Mamdani na última 3ª feira, para a presidência da Câmara de Nova York, corre o risco de, com a habitual sofreguidão acéfala dos media pela “novidade”, fazer isso mesmo, confundir a árvore com a floresta, esquecendo o sábio conselho que o filósofo americano Robert B. Talisse colocou como  subtítulo do seu último livro: “Why Democracy Needs Distance”.

. Deixando de lado as idiossincrasias biográficas que nestas ocasiões proliferam, mas que pouca ou nenhuma importância têm no posterior exercício do poder, é bom ter presente que Nova York é há muito uma cidade robustamente democrata, onde Kamala Harris teve 68% dos votos, ainda assim o pior resultado dos últimos candidatos presidenciais democratas. E que, se é indiscutível que Mamdani teve um resultado importante, é contudo vital lê-lo no contexto e no conjunto dos vários triunfos democratas, em Nova Jersey, na Virgínia e na Califórnia, de cariz político muito diferente da vitória de Nova York. Uma diferença que anuncia, para o ano político que agora começa, uma guerra ideológica tão intensa no interior do Partido Democrata, como a que se desenrolará contra o Partido Republicano, com vista às eleições intercalares do próximo ano, em Novembro de 2026.

 . Em 2024 Donald Trump não apostou só numa vitória eleitoral, ele apostou sobretudo numa ruptura maior, na criação de uma nova era, numa era trumpista que desse realidade ao seu slogan “Make America Great Again”. Foram muitos desde janeiro os sinais nesse sentido, com consequências e feitos que não se podem ignorar. Basta olhar, por exemplo, para o facto de, desde a sua posse, e com excepção do “interregno papal” – morte de Francisco, eleição de Leão XIV – ele ter estado presente todos os dias em todos os canais generalistas e “de informação” ocidentais (e não só…), às vezes durante horas e horas, ocupando as aberturas e o essencial do seu tempo noticioso, numa miscelânea cada vez mais inextricável e caótica de informação, faits-divers e comentário.

. Um tal facto, absolutamente inédito na história da política e da comunicação, consagrou a nova forma que as democracias têm vindo a tomar no Ocidente, a hipnocracia, de que já tenho falado aqui. E uma das suas componentes fundamentais é a espectacularização de tudo o que Donald Trump diga ou faça, sempre na previsão que ele ultrapasse os limites tradicionais da sua função, criando assim uma permanente expectativa de inéditas transgressões. É neste quadro que se deve entender o modo como, desde o primeiro dia do seu novo mandato, foram encenadas as reuniões de Donald Trump com todos os outros líderes mundiais na Casa Branca que, de diplomaticamente discretas, depois do formal aperto de mão para os media – como sempre aconteceu -, passaram a configurar-se como um bem preparado e manipulado, muitras vezes grotesco reality show. Já tínhamos o infotretenimento, passámos agora a ter também o diplotretenimento.

 . Pode dizer-se que o trumpismo concluiu, assim, a derradeira metamorfose – a que infelizmente pouca importância se deu, mas que já vinha de longe – da política numa mera série televisiva, transformação que tudo indica que veio para ficar. Até porque todos os líderes mundiais, grandes ou pequenos, se submeteram docilmente ao insólito dispositivo criado pelo presidente americano, num exercício de contínua vassalagem que os tornou em meros figurantes da globalização do trumpismo – com um lamentável destaque para os líderes europeus -, que até agora só teve uma resposta à altura na intencional displicência com que o líder chinês Xi Jinping tratou Donald Trump no recente encontro na Coreia do Sul.

. Confirmando-se assim, em todos os planos, o cada vez mais incontornável império político do espectáculo, como um dos factores determinantes do “atordoamento global” que referi na última newsletter, atordoamento que se traduz sobretudo numa cólera que cresce por todo o Ocidente, e de que tanto Zohran Mamdani como Donald Trump são talvez, apesar do abismo que obviamente os separa, simultaneamente produtos e ícones.

O ATORDOAMENTO GLOBAL

. Este título foi-me inspirado pelo livro Entshittification, de Cory Doctorov, que dispensa tradução… É uma obra instrutiva, procura caracterizar diversos aspectos do mundo contemporâneo, particularmente focada na progressiva degradação dos espaços públicos actuais, às mãos da internet, das redes sociais, das plataformas tecnológicas e, evidentemente, do mundo mediático-reticular que delas resulta.

. Ele apareceu-me como a força de uma evidência no termo da “pausa de Verão” deste blogue, quando recapitulava o que aconteceu nos últimos dois meses, das torpitudes de Donald Trump à gelada duplicidade de Vladimir Putin, do complexo desenvolvimento dos conflitos na Ucrânia ou em Gaza ao zigzaguear das tarifas ou ao deslumbramento drónico, da paródica cimeira do Alasca à humilhante reunião da Escócia, da catatónica desorientação europeia liderada por Ursula von der Leyen à implacável estratégia de Xi Jinping, etc., etc. – para já não falar das querelas nacionais, cada vez mais moldadas, ora pela indigência ora pelo grotesco.

. O atordoamento global resulta, a meu ver, do crivo que impede de ver, e de compreender, o que está na raiz de tudo isto, bem como das imensas transformações civilizacionais e geopolíticas, sociais e culturais, que têm vindo a subverter todos os parâmetros do mundo actual, nomeadamente do ocidental, quer se trate da progressiva fragmentação social, do descrédito da política, do esfarelamento das ideologias, do hiper-individualismo, do fanatismo woke, da perda de qualquer sentimento de pertença colectiva, da irrupção do homo fragilis,  do cancro da generalizada judicialização das sociedades, da alucinação  igualitária ou do conformismo dos cidadãos.

. Trata-se de um processo relativamente recente, com cerca de três décadas, mas que neste breve período se impôs como uma realidade incontornável e de vocação global, capaz de condicionar, como nunca tinha acontecido na história, o quotidiano das sociedades e dos indivíduos. No cerne deste processo está um novo dispositivo, que começou por se afirmar como uma garantia de um acesso mais plural à realidade, mas que rapidamente se tornou no seu contrário, ou seja, no quase único e exclusivo acesso a ela. Trata-se da chamada informação-em-contínuo, que se impôs através de um fluxo de imagens e de palavras de tal modo torrencial e siderante, que é como se fora dele tivesse deixado de existir qualquer realidade. A ilimitada extensão do “domínio da informação” traduziu-se, deste modo, numa inédita e contínua redução, restrição, do próprio mundo.

. A Entshittification conduz assim à ignorância dos mais graves problemas do nosso tempo e das suas consequências, contrabandeados por um conjunto sem fim de biombos, de máscaras e de ilusões, assegurando-se deste forma, paralelamente ao domínio do pensamento único, a consagração de uma realidade também ela única. Este fenómeno é formatado por diversos factores, mas são de destacar dois: por um lado, o ubíquo modelo do entretenimento que tudo formata; por outro lado, pelo ininterrupto encadeamento de narratretas de todo o género: políticas, desportivas, sociais, etc.  Convergindo ambos na produção de uma atordoante e generalizada anestesia, que procura hoje federar as sociedades e os cidadãos numa inédita forma de servidão voluntária, e assim constituir o nosso novo mundo.

. Acompanhando a consagração do que tenho designado como o “paradigma do ilimitado” (e do seu reverso, o “paradigma do conforto”), este processo traduz o triunfo do infotretenimento, que teve a sua origem na multiplicação dos canais televisivos antes de se disseminar pelas redes sociais (cujo anonimato nunca foi, como devia ter sido, proibido e punido) e de ter sido poderosamente propulsada pelas plataformas tecnológicas mais diversas (cuja acção nunca foi, como devia ter sido, regulamentada), através de meios cada vez mais sofisticados e acessíveis, de que o smartphone se tornou o instrumento mais universal.

. Tudo isto conduz a que se ignore, passe o pleonasmo, a real-realidade, sempre coberta por um imenso manto de lérias, de imagens e de alacridades, cujo objectivo central é fazer com que se veja informação e debate onde, na verdade, o que existe é mero  infotrertenimento, seja na forma do ininterrupto fluxo das narratretas das actualidades, seja na forma da repetitiva ruminação comentarial dos acontecimentos – dimensões cuja complementar cumplicidade produz a intensa toxicidade que envenena, ao minuto, o quotidiano contemporâneo, dando forma à entshittification em que o mundo se encontra hoje.

A VASSALAGEM FELIZ DA EUROPA

A AMERICANIZAÇÃO DO OCIDENTE

A palavra “vassalagem” designa o estado de submissão de quem se encontra sob a protecção e a dependência de alguém, em troca da prestação de tributos, de serviços e da garantias de obediência e de fidelidade. É uma evidência que é cada vez mais esta a situação em que se encontra a União Europeia face aos Estados Unidos da América, situação que se pode considerar o culminar de um longo processo,  que começou no pós-guerra, em que o americano Way of Life se foi impondo por todo o Ocidente, nomeadamente na Europa, do cinema ao fastfood, da política ao fordismo, da tecnologia à musica, da roupa às séries, contaminando e colonizando todos os imaginários, tanto colectivos como individuais. Esta situação foi sendo sucessivamente iludida em toda a Europa, dadas as vantagens que o “chapéu de chuva” americano propiciava nos domínios da defesa e da segurança aos seus diversos países, que assim puderam canalizar meios financeiros astronómicos para a construção dos seus robustos Estados providência. (A propósito, pode ler-se o instrutivo livro de Louis Menand, The Free World: Art and Thought in the Cold War, – com tradução portuguesa, de 2023, da Elsinore -, ou a obra Américanisation – Une Histoire Mondiale, de Ludovic Tournès)

 A RUPTURA TRUMPISTA

. O mundo, entretanto, mudou. E os EUA também foram mudando, nomeadamente nas suas relações com a Europa – o distanciamento começou com Barak Obama e nunca mais parou, embora com ritmos diferentes, entre 2016 e 2024, fosse com Donald Trump ou com Joe Biden – mas a Europa decidiu manter-se em “estado de negação”, situação em que se manteve até muito recentemente, e em grande medida ainda se mantém, de um modo que é alarmante. Cega pelas miragens do “paradigma do ilimitado” e pelos suas dinâmicas centrais – a globalização, a tecnologia, o financismo e o hiper-individualismo -, a Europa não viu, nem os abalos que a globalização transportava consigo, nem o modo com a tecnologia lhe escapava quase inteiramente, nem a forma como o capitalismo se transformava radicalmente num financismo inédito, nem como o novo individualismo lhe minava –  associado ao wokismo – o chão em que ela se movia. Não viu nada disto, e por isso as consequências são agora tão pesadas.

. Só com a ruptura ressureiccional de Donald Trump, em 2024, é que a Europa começou a pressentir mudanças no horizonte. Mas alimentou ainda, embarcada no seu carrossel de sofismas, a ilusão de que poderia lidar com o trumpismo mantendo o essencial do seu status quo. Isso, enquanto se atolava não só numa confrangedora impotência na Ucrânia – confundindo, com as graves consequências que se tem visto, a ajuda que é devida a um país aliado que foi invadido, com a defesa de uma democracia que na realidade não existia nesse país -, mas também numa grave hipocrisia no Médio Oriente, aqui confundindo a defesa de valores universais com a conivência com ideologias e práticas condenáveis.

DE DESAIRE EM DESAIRE…

. A principal responsável por esta grave situação foi, sem dúvida, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como foi também ela a responsável por conduzir a União Europeia a um cada vez maior processo de vassalização perante os EUA. Primeiro, na cimeira da NATO, em Haia, em junho passado, onde – em obscena cumplicidade com Mark Rutte – Donald Trump impôs aos seus membros um aumento para 5% do respectivos pib, a atingir até 2035, para despesas de defesa e segurança, tendo Ursula von der Leyen então fantasiado tal imposição com o interesse europeu na sua re-industrialização militar, quando na verdade o que se pretendia era garantir meios mais substanciais para que a NATO pudesse comprar mais armamento americano, como já está a acontecer com o material militar que se pretenda enviar para a Ucrânia.

. E depois, na cimeira de Turnberry, no passado dia 27 de Julho, quando Ursula von der Leyen se deslocou a uma propriedade da Trump Organization, o Trump Turnberry Golf Resort, para aí reforçar a vassalização europeia face a Donald Trump. Bastam alguns dados para o confirmar: o aumento das tarifas aduaneiras de 1,5% para 15% para as exportações europeias para os EUA, o compromisso europeu de comprar 750 milhões de dólares em energia (GNL) aos EUA nos próximos três anos e, ainda, o de reforçar os investimentos europeus nos EUA em 600 milhões de dólares por ano. A isto acresce a garantia de comprar material militar aos EUA, nada se dizendo sobre as tarifas sobre o aço e o alumínio (que Trump fixara há meses nos 50%), e deixando-se pairar a confusão sobre o que acontecerá à indústria farmacêutica. Nada se dizendo naturalmente sobre o imposto proposto pela OCDE e adoptado pela União Europeia, de 15% sobre as multinacionais com um volume de negócios anual a partir dos 750 milhões de dólares, a aplicar até 31 de Dezembro de 2025 pelos países da União Europeia. Mas de cujo pagamento, no G7 de 26 de junho último, realizado em Paris, a União Europeia exonerou os EUA!

. Certo, certo, é que a União Europeia fixará sobre as exportações americanas para os seus membros uma tarifa de 0 %. Foi a completa capitulação da União Europeia face a um Donald Trump cada vez mais “imperial”, que entre algumas tacadas de golfe no seu privado Golf Resort, na Escócia – portanto, fora da União Europeia -, obteve o que quis de Ursula von der Leyen, levando-a a, na verdade, deitar para o caixote do lixo os tão enaltecidos relatórios de Enrico Letta e de Mario Draghi. Como já diversos especialistas sublinharam, este “acordo” não só põe em causa o essencial dos planos europeus em política energética como, no que diz respeito aos investimentos europeus, não se vê com quem, como ou com que meios, tal se concretizará. Mas, para lá de tudo isto, que é fundamental, impõe-se ainda uma outra pergunta: onde está a legitimidade de Ursula von der Leyen para assumir um tal acordo em nome da União Europeia? Nos tratados em vigor não é certamente…o estranho, muito estranho, é que neste ponto ninguém parece quer tocar – porque será?

PARA LÁ DA HUMILHAÇÃO

. A situação europeia é, pois, bem mais do que de mera humilhação, como Giuliano da Empoli afirmou na entrevista ao Público do passado dia 3 de agosto. Até porque a sua humilhação não é nova, o que é novo é a vassalagem em que ela se transformou, e que a meu ver sinaliza uma forte aceleração do declínio da Europa, que inevitavelmente porá em causa a própria existência da União Europeia, tal como existe hoje. E mais, também não se trata de um qualquer processo vassalização, mas, como inspiradamente afirmou o Presidente italiano Sergio Mattarella, de uma vassalização feliz.

. A ameaça que vem dos EUA, com a presidência de Donald Trump, mas que vai muito para lá dela é, contudo – como bem afirmou Pascal Lamy, antigo director da OMC –, de natureza eminentemente política. Ela apela à responsabilidade colectiva europeia sobre o que está a passar. São necessárias várias explicações, nomeadamente sobre como é que se assumiu um “acordo” sem texto formal que o substancie, nem se sabendo que forma jurídica ele terá ou em que bases legais ele se apoia. Como é preciso saber quais os papéis do Conselho Europeu e do Parlamento Europeu em todo o processo. São questões que, num registo democrático, como se pensa que seja o da União Europeia, são decisivas e incontornáveis, elas exigem respostas claras. Fechar os olhos a estas questões é dar razão a Tony Corn quando, há anos, definiu o europeísmo como o “ópio dos europeus”. E, se assim for, temos aqui a resposta à pergunta com que Sergio Mattarella terminou a sua intervenção sobre a vassalização feliz que ameaça a Europa, e que foi a de sabermos o que, na realidade, colectivamente queremos como europeus: ser protegidos ou ser protagonistas?

. HERBÍVOROS NUM MUNDO DE CARNÍVOROS?

. Será difícil fazer da União Europeia um protagonista com peso no mundo de hoje, desde logo dada a crescente divisão que existe entre os seus membros sobre diversas questões fundamentais.  Mas a principal razão que torna esse desígnio muito improvável decorre, a meu ver, do seu “estado de negação” em que ela tem vivido sobre quase todas elas, multiplicando sem qualquer estratégia ou resultado, reuniões e relatórios. Tudo isto – e este ponto não é menor, bem pelo contrário – perante uma generalizada apatia dos europeus. Como há dias escreveu o embaixador Gérard Araud (Le Point, 29.07.2025), os europeus “continuam herbívoros num mundo de carnívoros, e recusam deixar o momento encantado que lhes permitiu viver o período de paz mais livre, mais próspero e mais seguro, desde a queda do Império Romano.”  E conclui afirmando que, perscrutando as opiniões públicas europeias, as vê “adormecidas pelo conforto e determinadas a não acordarem. A única aspiração dos europeus é a preservação da sua qualidade de vida, no doce torpor de velhos povos esgotados pelas provações por que passou o seu continente, que assim se torna cada vez mais numa casa de repouso e num destino de férias.” Eis, sem dúvida, um outro modo de definir a vassalagem feliz.

UMA ESPIRAL DE EMBUSTES

SEXO E GÉNERO

. Vivemos um tempo de embustes, e de embustes em permanente espiral. Lamentavelmente, é sobretudo nisso que se tem tornado a governação actual dos Estados, nomeadamente na União Europeia – e com forte incentivo dela -, conduzindo-os assim, como se vê quotidianamente, ao seu progressivo descrédito político. É algo que se constata a todos os níveis, em relação a quase todos os problemas. Vem isto a propósito da discussão das alterações que o governo se propõe fazer no programa da disciplina de Educação Cívica, em particular no domínio da sexualidade, e que se encontram actualmente em discussão pública.

. É uma discussão que há muito se impunha fazer, e continua a impôr, para lá deste debate pontual, de tal modo o tema tem sido contaminado por múltiplos equívocos e embustes. Que – e tal não acontecerá certamente por acaso – vêem tanto da direita como da esquerda, revelando uma raiz comum a ambas, que é a de impedir pensar o que está em causa, através da intencional confusão entre conceitos, aqui em particular de dois: o de sexo e o de género. O primeiro com claro enquadramento constitucional claro, o segundo totalmente ausente da Constituição da República Portuguesa.

 O QUE NÃO É DITO – E PORQUÊ.

. Raiz comum que revela uma também comum, e muito significativa, ocultação: a da expressão identidade de género, que é na verdade o “não-dito” que tem estado na origem de todo o equívoco debate dos últimos dias. É que enquanto a direita, num acesso – como diria Nietzsche –  de “moralina” reaccionária, pretende apagar tudo o que tenha a ver com a sexualidade fora do âmbito estrictamente biológico, ignorando todos os importantes contributos das ciências históricas, sociais e culturais para o tema, a esquerda, por sua vez, pretende ignorar tudo o que, consensual e cientificamente, é reconhecido como a base biológica da diferença sexual, alimentando assim, mais ou menos clandestinamente, todas as reivindicações ideológicas minoritárias que enxameiam o chamado neo-feminismo radical ( os colectivos LGBT+, os mais diversos transactivismos, as patologias mais inverosímeis, a glorificação de todos os tipos de vitimização – “je souffre, donc je suis”, como diz Pascal Bruckner -, as performatividades mais alucinatórias,  as generalizações hiper-narcísicas de proclamações do tipo “eu sou aquilo que digo que sou”,  etc., etc.).

O SOFISMA

.  Direita e esquerda enfermam – o termo é mesmo intencional – contudo do mesmo sofisma: o de ignorar a ciência, na pluralidade das suas especialidades e das suas competências, em nome de meras ideologias que, embora de sinais contrários, são igualmente apresentadas, cínica e desonestamente, como se tivessem uma indiscutível caução científica.  Mas não têm, nunca tiveram, seja qual for o critério de cientificidade que se adopte.

. Tudo se pode tornar mais claro com um pequeno esforço de rigor e de lucidez, e para isso basta esclarecer dois pontos centrais. O primeiro ponto é relativo à sexualidade, o segundo à ideologia de género.  Quanto à sexualidade, o que há a dizer é que se trata de uma realidade biológica de primeira ordem, que enquanto tal estabelece de um modo tão consensual como incontestável a base biológica da diferença sexual, mas que, como todas as realidades biológicas, deve também ser vista nas perspectiva histórica, social e cultural, o mais fundamentadamente que tal seja possível. Foi esta, note-se, a visão que deu, e continua a dar, consistência à doutrina – ou teoriado género, desde a sua formulação por Simone de Beauvoir até aos nossos dias.

A IDEOLOGIA DE GÉNERO

. Algo bem diferente é a ideologia de género. Aqui trata-se de uma ideologia – e a ideologia é sempre uma “teoria” dogmática que fornece soluções antes de se conhecerem os problemas – que contesta a ciência nos seus fundamentos mais elementares, ou seja, que rejeita a base biológica da diferenciação sexual, ideologia que nenhum cientista subscreveu até hoje, e que se pode e deve comparar ao criacionismo de matriz religioso ou ao lyssenkismo de confecção soviética. E que como tal, em caso algum deve ter o patrocínio do Estado em qualquer âmbito, nomeadamente no da educação – em todos os níveis de ensino, mas muito particularmente no de crianças e de adolescentes -, como lamentavelmente tem acontecido entre nós, sobretudo desde meados da década passada, talvez o período mais negro das políticas de educação do Portugal democrático. E não só no ensino, apesar de ser aí que tudo é mais grave – e tudo começa! Mas mais do que para a disciplina de “Educação para a Cidadania”, para o que é preciso olhar é para a Lei 38/2018, de 7 de Agosto, e para tudo o que se lhe seguiu. Aí está uma boa matéria para o Partido Socialista começar a repensar o custo da sua submissão às minorias histriónico-societais sem qualquer base popular ou social, agora que, sob o efeito do previsível boomerang eleitoral, diz estar em período de reflexão. Sem esquecer, espera-se, a “lição americana”!…

UMA SUGESTÃO…

. E o mesmo se aplica também ao governo actual: basta lembrar a facilidade com que recentemente uma iniciativa tão ideológica como a “EuroPride” – trata-se de um evento internacional LGBT -, que teve lugar em Lisboa no passado mês de Junho, beneficiou de um apoio a fundo perdido por parte do Estado português (Governo mais Câmara de Lisboa) de cerca de um milhão e meio de euros.  Deixo, por isso, uma sugestão que me parece ser etica e financeiramente imperativa, em nome da sempre tão invocada “transparência”: a de que seja feito e tornado público um levantamento exaustivo dos “apoios” que a miríade de associações minoritárias que se movem no âmbito da ideologia de género e do seu imenso e inescrutável “protectorado”, receberam do Estado (para o funcionamento de estruturas algo fantasmagóricas, para viagens internacionais, para bolsas de investigação sobre temas estrambólicos, para eventos ora mais coloquiais, ora mais festivos, etc., etc.) nos últimos, vá lá, dez anos – pressinto que vamos encontrar muitos, mas mesmo muitos, milhões de euros!

ASSIM NÃO, PACHECO PEREIRA!

. Pactuar com a confusão e a imprecisão das palavras que se usa, ou dos conceitos a que se refere, não é um bom serviço que um “intelectual público” preste aos seus leitores. Digo isto depois de ler os dois artigos que José Pacheco Pereira publicou recentemente no jornal Público (a 21 e 28 de junho), a pretexto do wokismo, sendo que em ambos a obnubilação sobre o tema pareceu grande. A tal ponto que me levou a adiar a newsletter em que estava a trabalhar sobre a “vassalização” da Europa, e a escrever o que se segue.

 CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

. Ora vejamos. O primeiro texto começa por caracterizar muito superficialmente o wokismo, indicando apenas algumas das suas consequências e ignorando completamente todas as suas causas, passando completamente ao lado do fundamental, ou seja, da especificidade mais marcante do wokismo. Das suas consequências, refere genericamente as censuras e os cancelamentos que ele impôs. Das suas causas, ignora que, no essencial, todas elas remetem para a essencialização” sexista e racista do homem branco, da heterossexualidade e de tudo o que se possa relacionar com o Ocidente, sempre apresentado como a causa de todos os males do mundo. Essencialização esta que se estruturou a partir da adopção do conceito de “interseccionalidade”, proposto pela jurista negra Kimberlé W. Crenshaw, ou seja, da ideia de uma convergência dos combates, da constituição de uma frente comum de luta, em nome de todas as alegadas “vítimas” do racismo, do sexismo, do patriarcado, etc.

 WOKISMO DE DIREITA?

 . De seguida Pacheco Pereira associa, aqui bem, o wokismo à esquerda, EUA aos democratas, mas para logo acrescentar adversativamente que: “ não há apenas um wokismo, há outro, reaccionário, de direita, radical, assente numa mescla entre a “tradição”, o machismo, o conservadorismo dos costumes, a ideologia da “família natural”, o anti-intelectualismo, a ignorância agressiva e um conjunto de ideias sobre o catolicismo integrista, raça, história e sobre aquilo que chamam “portugalidade” sem nenhuma sustentação histórica”(Público, 21.06.2025). E considera mesmo que a designação de wokismo “reacionário” é mais adequada para caracterizar este wokismo, que que a designação de “revolucionário” seria para designar o “outro” … wokismo.Ora, confundir o wokismo do século XXI com um reaccionarismo velho de décadas é um erro factualinaceitável. Mas, mais grave ainda, é que se trata de um erro que leva a que se ceda perante aquilo que se diz pretender combater: as novas formas de fanatismo ideológico que, com o wokismo, se multiplicaram por todo o Ocidente. Assim se confirma como é difícil, quando se tem o olhar fixado no retrovisor, compreender o presente e perscrutar o futuro,

BRANQUEAMENTO OU “MODISMO”?

. Penso que a obnubilação que tudo isto traduz decorre, por um lado, de se ignorar o que, desde o começo do século, e com uma grande intensificação do seu impacto desde meados da década passada, foi de facto, e continua a ser, o wokismo. E, por outro lado de, ao caracterizar-se um alegado wokismo “de direita”, apenas se enumerar um conjunto de características que há décadas configuram o mais banal reaccionarismo. Nestas circunstâncias, só vejo duas razões para se falar de wokismo “de direita”: ou para branquear todo o tremendo histórico daquilo que Pacheco Pereira designa como wokismo “revolucionário”, ou … por uma cedência a mais um “modismo” mediático.

. Para se compreender a novidade do wokismo, a sua emergência, a sua disseminação e o seu poder, devem deixar-se de lado velharias como a oposição esquerda/direita e, ainda mais, a oposição revolução/reacção. Sei bem que elas andam por aí e continuarão a andar, entre as narratretas mais correntes, a alimentar oimpensar das nossas “actualidades”, mas elas são mais um bloqueio do que um instrumento para a compreensão do nosso mundo, sobretudo do que nele é de facto inédito. E os anos que dediquei ao seu estudo permitem-me afirmar tranquilamente que com o wokismo se trata mesmo de outra coisa, irredutível a analogias formais e a anacronismos históricos, como de resto bem viu Yascha Mounk quando “profetizou” que iríamos ter wokismo durante décadas, como aconteceu com o marxismo, ainda que tal possa acontecer, utilizando a inspirada frase de Pessoa, na forma de “cadáveres adiados que procriam…”. Foi isso que me levou a optar pela metáfora da “peste”, no livro que publiquei sobre este tema.

DO WOOKISMO AO TRUMPISMO

. E apesar do risco que sempre se corre ao escrever “em cima do acontecimento” ainda pude acrescentar a esse trabalho, que terminei em finais de 2024, um posfácio datado de fins de fevereiro passado, em que procurava sinalizar o que de mais inédito o trajecto do “wokismo ao trumpismo” trazia consigo, e antecipar alguns traços que se vieram a confirmar. Foi a isto que, mais coisa menos coisa, pensei que Pacheco Pereira chegasse, quando oito dias depois do primeiro artigo, ele voltou ao assunto. Mas não – apesar de afirmar que “o wokismo reaccionário, como o wokismo em geral, é um processo novo e que não se compreende se se apresentar como uma mera continuidade do passado”(Público, 28.06.2025), é precisamente isso que Pacheco Pereira faz, ao identificar esse “novo” com as afinal já bem velhas “guerras culturais” e com as “redes sociais”, sobretudo com os “mecanismos elitistas”, o “igualitarismo da locução” e a “ignorância agressiva” que elas incentivam.

O QUE, DE FACTO, É NOVO

. Novo isto? Não, de todo: dizê-lo é esquecer – facto que é fundamental – que o wokismo nasceu nas Universidades americanas, nas elites cosmopolitas, que ele se disseminou como uma epidemia pelas mais poderosas empresas, nomeadamente tecnológicas,  de todo o mundo, pelas  grandes fundações da mais diversa natureza, pela generalidade dos media, pelas centenas e centenas de séries televisivas, pelas opções – nomeadamente no plano da educação – de imensos governos ocidentais, dando assim origem a uma” ideologia” granítica que, essa sim, viria então a animar as redes sociais.

. É este o lastro que permite compreender a novidade wokista, que depois se impôs de um modo avassalador quando ela se entrosou com as plataformas digitais e com a sua imensa força algorítmica, com uma Inteligência Artificial que nos últimos dois anos tem vindo a mudar irreversivelmente o mundo, num processo que está apenas no seu começo… É para aqui que, agora, é preciso olhar, lendo os ideólogos mais inesperados – mas também mais influentes -, que vão de personagens como Peter Thiel – fundador com Elon Musk da PayPal, e hoje dono da Palentir, uma das empresas tecnológicas mais avançadas e mais poderosas do mundo (que tem sido decisiva para as recentes  performaces do exército israelita) – atébloguers libertários como Curtis Yarvin, aceleracionistas como Nick Land, ou inclassificáveis, como B.A.P.- Bronze Age Prevert .

. Em suma, penso que o wokismo foi, e continua a ser, uma novidade radical no mundo ocidental, e só nele, e que para o compreender é preciso conhecer a sua complexa e múltipla genealogia, as suas causas e consequências, sem facilitismos semânticos nem contorcionismos históricos. Só assim, de resto, se pode compreender como ele esteve já, numa significativa medida, na origem do triunfo do trumpismo, bem como nas suas posteriores e inesperadas combinações, alavancadas por um financismo que se reconfigura profundamente, por uma globalização que baqueia progressivamente e por um impetuosidade tecnológica que aparenta não conhecer quaisquer limites.

O WOKISMO É UMA AMEAÇA À DEMOCRACIA (ENTREVISTA)

          

                                               Entrevista MMC ao PÁGINA UM

                                    (Conduzida por Maria Afonso Peixoto,25.06.2025))

         (https://www.paginaum.pt/2025/06/25/o-wokismo-e-uma-ameaca-a-democracia)

O wokismo é “a nova peste”?

A “nova peste” é uma metáfora – em boa medida inspirada no título da  obra de Albert Camus, La Peste – que pretende caracterizar a situação em que as sociedades ocidentais têm vivido, sobretudo desde os finais da primeira década deste século, em que se pode dizer que o wokismo ressuscitou o “politicamente correcto” das décadas anteriores, mas em que, diferentemente deste – que visava sobretudo o controlo da linguagem –, se pretende agora controlar tudo: a linguagem, as obras de arte de todo o tipo (literatura, pintura, etc.), o conhecimento, das ciências humanas às ciências exactas, o comportamento humano, as mais variadas instituições, chegando mesmo ao delírio de querer controlar o próprio passado.

Esta diferença corporizou-se numa “ideologia”; isto é, num conjunto dogmático de teses que não se submete a qualquer tipo de debate, que se camufla na sua própria negação – já viu alguém assumir-se como woke? –, generalizando-se através de um fanatismo que se dissemina e impõe recorrendo a acções intimidatórias, persecutórias, censórias, de que dou múltiplos exemplos no meu livro: das perseguições pessoais aos cancelamentos de autores, da censura do conteúdo de obras, através dos sensitive readers, até à arbitrária mudança dos seus títulos, da reivindicação de espaços protegidos (os safe places) até à destruição de estátuas; enfim, um sem números de arbitrariedades, tudo em nome de uma permanente vitimização que se deveria à alegada dominação, histórica e actual, do Ocidente, nomeadamente dos brancos e dos heterossexuais.

No livro, afirma que a ideologia de género é a matriz da ideologia woke, mas que o anti-racismo é o seu motor. Quer explicar?

É simples; em relação à ideologia de género eu falo em matriz porque – e é isso que distingue a “ideologia”, da “teoria” ou “doutrina” de género, que é uma distinção fundamental – foi ela que, estropiando completamente uma ideia original do filósofo John Austin, exposta em How to do Things with Words, de 1962, fez da “performatividade” o argumento chave para recusar a base biológica da diferença de sexos, abrindo  assim caminho a tudo o mais que se seguiu, consagrando como um dogma, mesmo um dogma,  a afirmação “eu sou aquilo que digo que sou”  – afirmação que traduz o apogeu de uma subjectividade tão alucinada como narcísica.

Daqui à identity politics, à política da identidadeque vai estar na origem do novo e radical anti-racismo, é só mais um passo, na verdade um grande passo, porque aqui, sobretudo a partir da criação do movimento Black Lives Matter, em 2013, o wokismo adquire uma crescente dimensão social e política, que atinge o seu auge depois do assassinato pela polícia de Los Angeles de George Floyd, em 2020.

É justamente esta convergência que, como explico no livro, potenciada por uma identificação cega e automática do saber com o poder, vai conduzir à formulação da noção de interseccionalidade, que leva à constituição de uma frente anti-sexista e anti-racista, que assume como inimigo comum e central o homem (ou mulher) branco, a heterossexualidade, o colonialista; de um modo geral, tudo o que tenha a marca do Ocidente. Inimigo multiforme que é sempre essencializado, isto é, a quem é atribuído dogmaticamente um conjunto de características incontornáveis, inalteráveis: todo o branco é, por essência, racista, diga ele o que disser ou fizer, e por aí adiante…

O que daqui resulta é uma perspectiva quase esquizofrénica, que divide o mundo para entre vítimas e algozes, entre dominadores e dominados, uma perspectiva maniqueísta que é o que está na origem do seu colossal fanatismo. E o seu slogan “diversidade, equidade, inclusão”, o famoso DEI, que aparentemente assume valores humanistas inquestionáveis, tornou-se na arma ideológica das mais torpes perseguições, censuras e cancelamentos, tendo liquidado milhares de carreiras profissionais e arruinado inúmeras vidas pessoais.

Por vezes, quem se opõe ao wokismo recusa a existência de “géneros”, porque consideram que se trata de uma invenção dos wokes para que pudessem, primeiro, separar, e depois, desvalorizar totalmente o sexo. Mas no livro, diz que o género é sociologicamente incontestável. A existência de géneros pode ser compatível com a importância irrefutável, e o carácter binário, do sexo, que a ideologia de género rejeita?

O género é o resultado do meio, da família, da escola, da sociedade, em suma, da cultura – no sentido lato do termo – em que cada ser-humano é criado, em que evolui, é aí que surgem e se definem as características de cada um, que podem ser naturalmente muito diversas; o horizonte dos possíveis é muito amplo, conforme os contextos e as circunstâncias em que se viva, ele é, por isso, plural. Mas o sexo é prévio e indiscutível, em 99,98% dos casos. Nasce-se macho ou fêmea, e assim será durante toda a vida, independentemente de quaisquer opções subjectivas, sejam elas mais autênticas ou mais cosméticas.  A base biológica da diferença sexual é incontornável, pelo que a tese central da ideologia de género e de todo o feminismo radical, que nega este dado cientificamente inquestionável, e teve o seu expoente máximo em Judith Butler, é completamente anticientífica, releva da mais torpe mistificação, de uma negação da realidade que se situa entre a alucinação e a superstição.

O patriarcado é muito atacado pelos wokes e pelas feministas, mas defende que já não existe, ressaltando a cada vez maior representação das mulheres na sociedade. É por isso que diz que o feminismo actual – que designa como neofeminismo ou feminismo radical – já não procura a igualdade de oportunidades, mas sim a indiferenciação entre homens e mulheres?

É, a meu ver, uma hipótese forte. Veja, no Ocidente existe hoje em dia uma completa igualdade de direitos – repito, de direitos – entre homens e mulheres. e existem muitos sectores em que o domínio feminino é até actualmente bem evidente, como seja o da educação, ou o da saúde, é também cada vez mais o caso da justiça, entre outros. Claro que há situações de desigualdade, mas elas são de índole social e – aquilo que o feminismo radical não consegue assumir – de ordem biológica.

E, como diz Emmanuel Todd – e a feminista Camille Paglia tem ideias muito fortes neste ponto – é forçoso reconhecer que muitos dos problemas actuais das mulheres decorrem de elas continuarem a ter de lidar com os problemas femininos de sempre, mas se terem privado da envolvência que tradicionalmente as ajudava a resolvê-los e, além disso, terem, digamos, importado os problemas que eram sobretudo específicos dos homens, a competitividade, a conflitualidade, etc.  Deixe-me acrescentar um dado curioso, que acabo de verificar; este vem da temática da transsexualidade, que é o de, num ambiente mediaticamente tão radical-feminista, a mudança de sexo nos adolescentes ser maioritariamente – cerca de 75% – do sexo feminino para o masculino. Há aqui, creio, matéria para muita reflexão…

Fala no “paradigma do ilimitado” e de como ele também originou esta ideologia, que reivindica como direitos todo o tipo de caprichos e desejos, tendo inerente uma desresponsabilização extrema e uma aversão aos deveres. As gerações mais novas, como Y e a Z, por não terem tido que enfrentar as dificuldades que outras gerações anteriores tiveram, foram instrumentais para engrossar as fileiras do wokismo?

Não digo que originou, mas que é nele que, na minha perspectiva, o wokismo se enquadra, nomeadamente pelo ilimitado poder que ele atribui, por um lado à linguagem, por outro à identidade.  O paradigma do ilimitado conjuga, deixe-me sublinhar, quatro factores que convergem e se reforçam uns aos outros, o individualismo, a globalização, o financismo e a tecnologia. É ele que configura, dinamiza hoje o nosso mundo, e é nele que as gerações que refere – eu acrescentaria também a geração Alfa, de quem nasceu em 2010 – crescem, numa enorme desorientação de valores e numa angustiante rarefacção de referências, realmente sem precedentes históricos. Dito isto, não diria que tal situação seja necessariamente favorável aos dogmas wokistas, o tempo o dirá, a ver vamos…

Para os wokes, a vítima é uma figura central, assim como o carrasco; numa cosmovisão que divide o mundo entre bons e maus e que, como refere, é movida a ressentimento – pelo homem branco, a heteronormatividade, o colonialismo, o patriarcado, e pelo próprio Ocidente. No livro, diz mesmo que o anti-racismo se tornou, com o wokismo, num novo racismo contra os brancos. Como se explica que uma ideologia tão anti-Ocidente tenha granjeado tantos seguidores, que, paradoxalmente, se abstém de condenar, e muitas vezes até defendem, culturas de outros países onde os direitos humanos, e sobretudo das minorias, são uma miragem?

Talvez porque grande parte dos “inimigos” wokistas do Ocidente estejam dentro dele… O poder woke é um poder que se instalou e disseminou à medida que as sociedades ocidentais se fragmentaram, as maiorias ideológicas que tradicionalmente as sustentavam se esboroaram, e as minorias, em particular as minorias mais activas, com causas mais assumidas – como foi e é o caso da miríade de movimentos anti-racistas e anti-sexistas mais radicais – encontraram nessa situação uma ocasião propícia à sua afirmação, porque passou a ser quase impossível haver qualquer maioria política que não seja uma soma de minorias.

E depois – mas esse ponto exigiria uma conversa só sobre ele –, o paradigma do ilimitado tem um reverso, uma outra face, que é o do conforto, que anestesia as sociedades ocidentais contemporâneas, facilitando a vida ao “minoritarismo”, com as consequências que temos visto, e outras, de momento já no nosso horizonte, que vão dando forma ao que Nathalie Heinich designou como um totalitarismo “de atmosfera”.

Há quem diga que o wokismo chegou ao fim, e que foi derrotado nos Estados Unidos, com a eleição de Trump, e na Europa, com o crescimento da direita. concorda?

Não, não, penso que é o politólogo Yascha Mounk quem tem razão, quando compara o wokismo, a inércia do wokismo se quiser, com o marxismo, e diz que temos wokismo para décadas. Como eu já tinha entregado o livro quando Trump tomou posse, acrescentei um posfácio um mês depois, em que analiso o trumpismo numa tripla perspectiva: como trauma, como acontecimento, e como indício, indício de um novo regime de realidade em que agora, sobretudo sob o prodigioso efeito das plataformas digitais, todos vivemos e que, recorrendo à audaciosa proposta de Jianwei Xun, podemos designar como hipnocracia.

Em algumas passagens, fala na adesão da esquerda ao wokismo, salientando que a esquerda o fez à custa das suas causas tradicionais em prol dos trabalhadores. Agora, vimos que, por um lado, a esquerda sofreu uma pesadíssima derrota nas legislativas, ao passo que a direita cresceu. Foi um erro da esquerda alimentar tanto esta ideologia que, como explica, é autoritária e intolerante, embora seja, muitas vezes, vendida como compassiva e bem-intencionada?

Sim, há muito que tenho assinalado o desaparecimento de causas estruturadas, mobilizadoras, na esquerda; nuns casos, digamos, por boas razões, porque as que tinha em boa parte se concretizaram, nomeadamente no âmbito do Estado providência, mas não soube renová-las em contextos que se alteraram profundamente. Noutros casos, por outras razões, porque abdicou dos seus valores, sobretudo face ao neoliberalismo (que não é senão o liberalismo desterritorializado no mundo da globalização), trocando as causas sociais pelas causas ditas “societais”, minoritárias e predominantemente wokistas.

Sem causas nem povo, é como vejo o socialismo actual. Olhe para o que se passou há dias em Roma, com a primeira-ministra socialista da Dinamarca a coligar-se com Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana, na política de imigração. Estamos a entrar num mundo muito diferente, com problemas inéditos e tensões inesperadas, precisamos de novos conceitos e de novas ideias para lidar com ele, a “reflexão” socialista parece-me pelo que vejo, como direi, muito dinossáurica…

Acha que muitos anos no poder criaram “vícios” e o PS acomodou-se?

A alternância é, em princípio, virtuosa em democracia, mas o que mais recentemente aconteceu, por paradoxal que pareça, e foi fatal para o PS, foi a inesperada maioria absoluta de Março de 2022; obtida sem projecto, sem programa, sem equipa e sem preparação para essa eventualidade. E, depois, foi o desatino que se seguiu, com um governo sem coesão, que desde o primeiro dia parecia desconjuntar-se constantemente… Algo nunca visto, na verdade.

Refere que, em Portugal, o governo da geringonça foi particularmente favorável ao wokismo. Como é sabido, teve um papel importante no PS, tendo sido Ministro da Cultura nos anos de Guterres. Acha que o PS entrou numa deriva mais radical com estes temas identitários, e que isso pode ter contribuído também para o desaire eleitoral de 18 de maio? Ou vê outras razões?

Penso que sim, mas, mais do que uma deriva radical, tratou-se uma deriva para um abismo minoritário, numa cegueira que o impediu de ler com um mínimo – insisto, um mínimo – de lucidez os resultados das eleições do ano passado. Sem afastar o significado que a “oferta” política específica do Chega trouxe à política nacional, é impossível ignorar o papel que, certamente em obediência a uma estratégia traçada pela liderança do PS então, tiveram Ferro Rodrigues e Santos Silva. Por cada minuto de admoestação parlamentar ao líder do Chega, eles propiciaram-lhe horas e horas de propaganda política nos media e nas redes sociais, que é a sua grande especialidade, como se sabia e confirmou. Por isso lhe digo que a deriva foi para um abismo minoritário, de que não vai ser fácil sair…

E a quem atribui a culpa pela deriva para esse abismo minoritário de que não vai ser fácil sair? A António Costa?

Bom, aí tudo vem de mais longe, não se trata de culpas, mas de responsabilidades políticas. E, deste ponto de vista, a “geringonça” de António Costa contribuiu sem dúvida, e muito, para isso, mas Sócrates já lhe tinha aberto as portas e Pedro Nuno Santos não foi capaz de fazer nada; foi, talvez, a liderança mais apagada e incapaz da história do PS. E a decisão dele que levou às eleições deste ano consolida esta ideia, revelou uma completa incapacidade estratégica.

Além da esquerda, os media tradicionais em geral têm sido aliados desta ideologia, e, ao mesmo tempo, parecem cada vez mais divorciados da população, que lhes está a virar costas, levando mesmo à sua falência. Muitas vezes, diz-se até que os media e os comentadores estão numa bolha, completamente alheios aos problemas das pessoas. Concorda?

Concordo, é o que chamo a bolha mediático-reticular, que alargou, generalizou o registo, o espectro do entretenimento, que hoje vai da paródia mais ou menos bacoca até ao “infoentretenimento”. A informação, no sentido rigoroso do termo, realmente quase desapareceu. Mas eu não desvalorizaria o papel dos media e dos comentadores, que agora é sobretudo anestesiante – com as redes sociais e as plataformas digitais – é um dos pilares da hipnocracia, que lhe referi há pouco.

Tendo sido também professor catedrático, e observando a forma como wokismo tomou de assalto as universidades – que, foi aliás, onde cresceu nos Estados Unidos –, viu com particular preocupação todos os casos de represálias contra professores e de repressão do discurso e do livre pensamento quando “infringiam” os dogmas woke?

Mais do que preocupação; com surpresa e revolta. Trata-se de uma inversão completa da missão das universidades, que de instituições de produção e de transmissão de conhecimento, de saberes, de debate sobre tudo e sem quaisquer condicionamentos, se transformaram – sobretudo nas áreas das ciências sociais e humanas, mas o wokismo não fica por aí, ele denuncia a ciência com todos os habituais epítetos injuriosos que dirige a tudo o que é ocidental, nem a matemática escapa – num instrumento de perseguição, de censura, de um fanatismo extremo. Foi essa situação que levou Jonathan Haidt – muito falado agora por causa do seu livro sobre a “A Geração Ansiosa”, a criar há anos a Heterodox Academy, nos Estados Unidos. Devíamos criar algo do género cá em Portugal, já existe em mais de 20 países.

Até a Inteligência Artificial – como o ChatGPT – está contaminada com os dogmas woke, não é?

Está. Como sabe, a Inteligência Artificial não é autónoma, os algoritmos são programados, é com base nessa programação que eles respondem aos prompts. O que se tem visto é que, como diz, eles estão contaminados pelo wokismo, isso é evidente, basta interagir com eles; com o ChatGPT, por exemplo – mas o mesmo se passa com o Gemini ou o Claude, entre outros –, colocar-lhe umas perguntas “sensíveis”, para isso se tornar logo evidente.

Mas tudo depende da programação, vamos ver como evolui a Inteligência Artificial. Tudo isto está a desencadear uma revolução imensa, com consequências no emprego, no ensino, na saúde, na verdade em todos as áreas da actividade humana, que serão muito provavelmente bem superiores às da Revolução Industrial. E só estamos no começo…

Era para isto que os políticos deviam olhar, a pensar no que lá vem, a procurar antecipar os enormes problemas e a preparar as respostas possíveis, mas não se lhes ouve uma só palavra sobre isto. Portugal vive no passado, a própria Europa também, estamos nas mãos do patrões de Silicon Valley. Qualquer guerra precipitada e podemos, por exemplo, ficar sem correio electrónico, a nossa dependência nesta área é total. Os nossos políticos vivem num mundo que está a desaparecer e não compreendem o mundo que está a nascer, é trágico.

Afirma que o wokismo também ‘invadiu’ a justiça, resultando em vários atropelos aos preceitos democráticos, como a presunção de inocência. Vemos, também, que muitas pessoas são judicialmente perseguidas por motivos questionáveis, e no Brasil, por exemplo, um humorista foi agora condenado a oito anos de prisão efectiva por piadas. Acha que o wokismo é, mais do que um fanatismo circunscrito a alguns, uma ameaça real à democracia?

Foi o Léo Lins, inacreditável, não é? Claro que o wokismo é uma ameaça à democracia, desde logo pelo modo como tem levado a justiça a abdicar cada vez mais frequentemente do princípio de presunção de inocência em favor do criminoso – sim, criminoso – princípio de verdade da vítima. Através da vitimização que constantemente tudo transforma numa exigência de reparação sem fim, e da culpabilidade que constantemente injecta no todo social, o wokismo na verdade encurralou a justiça, que abandona cada vez mais, e muito imprudentemente, os seus inalienáveis imperativos de isenção.

Mas atenção: como digo no livro, num breve parêntesis creio que no fim do segundo capítulo, penso cada vez mais que o que vivemos é uma crise na democracia – ou seja, do seu funcionamento, com todos os seus impasses e paradoxos – do que uma crise da democracia, no sentido em que ela se debateria com alternativas efectivas enquanto regime político e, mesmo, como forma de vida. Isso, até hoje não aconteceu. Apesar de, segundo os dados recentes do instituto da Universidade de Gotemburgo que há muito estuda a situação das democracias no mundo, este ser o primeiro ano deste século em que há mais regimes autoritários do que democracias no mundo, o que observamos é que em geral o que as pessoas reclamam é, não um outro regime político; o que as pessoas exigem é mais, sempre mais, democracia. A meu ver, é na compreensão desta complexa exigência que está a chave para a resposta a muitos problemas do nosso mundo.

O movimento “Metoo“, que também aborda, parece ter fomentado uma cultura em que a palavra da mulher basta para que se determine a culpa do alegado agressor. Tendo em conta tudo o que aconteceu com o divórcio e a batalha judicial com a sua ex-mulher, muito mediatizados, considera que também acabou por ser vítima do wokismo e da cultura do cancelamento?

Tudo isso é passado, já foi objecto de um livro que publiquei há cerca de um ano, com o título Acuso  A Parcialidade da Justiça e a Impunidade de que Goza, e com ele fechei o assunto. E nunca me considerei vítima de nada, considero a vitimização a forma mais rastejante de cobardia, está nos antípodas dos valores que mais prezo: a responsabilidade e a coragem.

Acredita, ou gostaria, que o ostracismo a que foi votado com todo este processo poderá terminar, precisamente, com este livro, que denuncia a deriva persecutória e de ‘cancelamento’ da sociedade com o advento do wokismo?

Este livro procura analisar com detalhe um dos mais graves e complexos problemas das sociedades ocidentais contemporâneas, o wokismo. E fazê-lo traçando a sua genealogia e apontando as suas consequências, procurando expor a teia das suas múltiplas implicações e dos seus mais invisíveis efeitos – contribuir para isso foi, e é, o seu único objectivo.

OPORTUNIDADES PERDIDAS

VERDADES CRUÉIS

. A propósito dos 40 anos da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, agora – depois de mil vicissitudes – União Europeia, foram muitos os balanços que se fizeram, em geral em tom jubilatório. Júbilo que, contudo, decorre de duas ordens de razões bem distintas: uma é evidente, ela resulta da comparação do estado do país em 1985 e em 2025, em infraestruturas, mortalidade infantil, saúde, educação, etc. Mas a outra é mais camuflada, ela consiste em, desde então, termos vivido literalmente rebocados pela Europa, sem projectos ousados nem ambições próprias, consolados com a espécie de “mesada de adolescente” em que – como há muito digo – para os portugueses se tornaram os Fundos Europeus. Somos um dos países que mais fundos têm recebido da Europa, na ordem dos 10 milhões de euros por dia – sim, sim por dia! – até ao Covid, bem mais do que isso depois, com a famosa “bazuca” e o Plano de Recuperação e Resiliência – no total, estamos a falar de cerca de 180 mil milhões de euros, valor que permite avaliar bem a dimensão das oportunidades perdidas.

. E se ninguém duvida do papel nos progressos feitos nas áreas acima referidas, é hoje evidente a incapacidade dos vários governos destes 40 anos em orientar estrategicamente os financiamentos disponíveis para as decisivas áreas da inovação e da qualificação – tanto das pessoas como das instituições e do território – , com uma visão de futuro que cruzasse a economia e a cultura, com metas ambiciosas que nos tirassem da cauda da Europa. Porque é lá que continuamos, divergindo nos últimos 20 anos de importantes médias europeias, facto que é sempre escamoteado por todos os governos, que repetem, em cada etapa, que “os fundos” serão a “última oportunidade” para o país. E temo que assim continue a ser… até que todas as oportunidades realmente desapareçam.

. A verdade é que, para lá dos fundos europeus, a Europa não existe no espaço público nacional, indiferente a tudo o mais, nomeadamente à multiplicidade de crises que a União Europeia enfrenta, a única excepção decorre hoje – sobretudo devido à novela mediática a que deu origem – da guerra Ucrânia/Rússia. E, contudo, há “verdades cruéis” a enfrentar, como recentemente escreveu no Le Monde ZaKi Laidi, que destaca quatro: a primeira, é que a Ucrânia está em perigo tanto no plano político como no militar. A segunda, é que é inútil esperar qualquer apoio dos EUA, porque a única coisa que Trump quer é desembaraçar-se da Ucrânia e marginalizar a Europa. A terceira, é que a Europa não é tão forte nem está tão unida que lhe permita apoiar eficazmente a Ucrânia. E finalmente, a quarta cruel – e tão ignorada – verdade, é que o resto do mundo não se mostra solidário com a Europa, situação que se agravou com o hipócrita silêncio europeu sobre a situação de Gaza, e a sua paralisia perante o massacre perpetrado por Israel, sob o comando de Benjamin Netanyahu.

A EUROPA, DA BUROCRACIA AO AUTORITARSMO

. Escolhemos, há cerca de um ano, os nossos 21 deputados e deputadas ao Parlamento Europeu. E eu pergunto: já alguém ouviu, da parte de algum deles, algo de significativo ou relevante sobre a situação europeia ou mundial? Não, nem uma só palavra, quando falam, é sempre acicatados pelas suas ambições nos quadro da situação interna portuguesa e o seu mais ou menos mesquinho jogo de interesses. O que dá um bom retrato da “democracia” europeia, tema sobre que se devia pensar um pouco mais, inquirindo que democracia é esta em que os poderes da Presidente da Comissão aumentam sem parar, atropelando o Conselho Europeu sem pejo, impondo cada vez mais aos países as “reformas” que eles têm de fazer, controlando cada vez mais o modo como cada país apoia as suas empresas, etc., etc., etc.

Não esquecendo que o seu maior poder é o de propor leis para os 450 milhões de europeus, o que se tem traduzido numa torrencial média de 130 directivas e regulamentos por ano, enquanto o Parlamento Europeu está impedido de o fazer, ele apenas pode votar o que lhe é proposto, o que dá à Comissão Europeia mais poder do que o de qualquer administração nacional da União Europeia. É tema para voltar noutra ocasião, mas tudo indica que a União Europeia caminha aceleradamente, não para atenuar, mas para agravar o seu colossal défice democrático, transformando-se num monstro cada vez mais burocrático, mais tecnocrático e mais… autoritário.

COM JOSEP BORRELL

. Foi procurando pensar, na medida das suas possibilidades, estes problemas, que o BEIRA – Observatório de Ideias Contemporâneas Azeredo Perdigão, com sede em Viseu, organizou no passado dia 31 de Maio uma colóquio sobre a actual situação política europeia, depois de, com o mesmo espírito, já ter abordado temas como a democracia (com Daniel Innnerarity), a Inteligência Artificial (com Maurizio Ferraris) , o hiper-individualismo (com Gilles Lipovetsky), o transumanismo (com Jean-Michel Besnier), tendo previsto para setembro uma sessão sobre Os Novos Populismos e, para novembro, uma outra sobre As Metamorfoses do Espaço Público.

. Desta vez o orador principal foi Josep Borrell, que fez uma notável intervenção sobre a situação europeia, onde expôs as ideias que defendeu no relatório Uma Bússola Estratégica, um documento estratégico que em 2022 elaborou como Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, funções que desempenhou entre 2019 e 2024. Nele se encontram bem diagnosticadas as raízes das fragilidades europeias e as medidas a tomar para as ultrapassar, o que, com algum humor, diversos exemplos e muito conhecimento dos interstícios da “máquina” europeia, Josep Borrell lamentou não ter sido feito, traçando um retrato impiedoso da impotência europeia.

. A verdade é que o destino da União Europeia está hoje em risco, num mundo em profunda transformação em que ela conta cada vez mais menos, situação que os dirigentes políticos europeus parecem ignorar. Como recentemente escreveu Jacques Attali, o maior risco que a Europa corre hoje resulta da “incúria, num momento tão crucial, da alucinante invisibilidade do Presidente do Conselho Europeu (..), da vontade imperial da Presidente da Comissão em controlar tudo, de bloquear todas as iniciativas que não sejam as suas e de instrumentalizar os serviços. E, sobretudo, da ausência por parte dos dirigentes nacionais e dos povos europeus, de uma efectiva consciência da extrema urgência da situação.”

Nem mais.

A DEMOCRACIA NA ESPIRAL DA SUA DECOMPOSIÇÃO

                                   “Toda a resistência começa pelo conhecimento”

                                                                                                       Giuliano da Empoli

O VENTRÍLOQUO MEDIÁTICO

 . Somos muito melhores a explicar do que a compreender – digo-o há muito, e os últimos dias evidenciaram abundantemente este facto. Facto que tem sido muito incentivado pelo modo como o espaço público foi reconfigurado nos últimos anos, sobretudo em consequência de três factores:

– o esvaziamento doutrinal da política, que se tem entregado, entusiástica e suicidariamente, nas mãos do entretenimento e das tecnologias, condenando-se a um vazio sideral onde só podem crescer a ignorância balofa, a diatribe ofensiva e o insulto soez;

– a dupla transformação da informação, por um lado em infotretenimento, por outro lado em tagarelice-em-contínuo, torrencial, 24 horas por dia, ponto em que, per capita, Portugal detém o palmarés europeu;

a invasiva multiplicação das redes sociais e de tecnologias cada vez mais sofisticadas, nomeadamente com a veloz irrupção da I.A. em modalidades cada vez mais acessíveis, tornando realmente impossível identificar formas inéditas de manipulação ou distinguir, seja qual for a área, o falso e o autêntico, a verdade e a mentira.

. O espaço público tornou-se assim numa espécie de constante espectáculo de ventríloquos, numa barragem ao conhecimento, em que se fala interruptamente do que “se sabe”, mas sem se compreender nada do que realmente se passa. Espectáculo que cria um contágio mental que, ora desorienta, ora anestesia, a generalidade das pessoas, presas num transe insólito, mas que é, na verdade, a chave do sucesso dos programas de “actualidades”: ouvir explicações que não transmitem qualquer conhecimento ou compreensão sobre aquilo de que falam, numa miscelânea de episódios em forma de série – o Covid, a Ucrânia, as gémeas, Gaza, Trump, a Spinumviva, etc. – com os faits-divers do dia.

ETIQUETAS EM PUTREFACÇÃO

. Claro que houve razões objectivas e motivações subjectivas para os resultados eleitorais do passado dia 18, indispensáveis para um entendimento pontual, contextual, do que se passou. Mas a sua efectiva compreensão impõe que se olhe para outros parâmetros, mais estruturais e globais, que nos últimos tempos têm vindo a alterar completamente a vida política em todo o Ocidente, com diversas particularidades na Europa. São muitos, esses parâmetros, mas entre eles destacaria três:

o esboroamento de todas as ideologias minimamente federadoras de “massas” – a democracia cristã, o socialismo, comunismo, o liberalismo (sim, sim!), a social-democracia, o conservadorismo, o anarquismo, etc. -, todas sobrevivendo, no entanto, como meras etiquetas em putrefacção – umas mais do que outras, sem dúvida -, que se limitam hoje a animar as intensas lutas de interesses e de ambições, individuais e colectivas, que atravessam as sociedades ocidentais. Esboroamento que foi o que abriu caminho ao recurso a arcaísmos de diversos tipos, que as direitas mais radicais souberam habilmente transformar em eficazes simulacros ideológicos e, sobretudo, em valores crescentemente hegemónicos, tornando o debate político numa mera “polarização de crenças”, na expressão do filósofo americano Robert Tadisse, em Overdoing Democracy.

– a consagração do “homo economicus” como dimensão dominante dos indivíduos, num quadro de ambições ilimitadas, trate-se do que se tratar. Aqui a “construção europeia”, em paralelo com a globalização – de que ela foi um agente eminentemente activo -, teve um papel decisivo, que se teima em ignorar. Mas não pode: porque a União Europeia, para lá de uma desacreditada mas insistente retórica, tão vazia como perigosa, e de uma exibição de impotência política que os últimos anos têm permanentemente reforçado, consagrou na prática – e é isso que interessa – um “sistema” que conjuga o mais estricto economicismo tecnocrático com a mais agressiva burocracia autoritária, no quadro de um colossal déficitdemocrático;

– a decomposição democrática que a generalizada cumplicidade do mundo político com o mundo mediático e das redes sociais (cada vez mais co-produtores de eventos, uma vezes convergentes, outras antagonistas) reduziu, a um ritmo estonteante, a um simples gesto: o do voto. Abandonando assim quase inteiramente a substância e a vitalidade da democracia, ou seja, o efectivo pluralismo de convicções, o frontal debate de ideias, a liberdade de expressão. Dando desta forma origem a um fenómeno historicamente inédito, a uma espécie de cidadania não-democrática, assente numa cada vez mais débil legitimidade democrática, perigosamente semelhante, no fundo, à que praticam os regimes autoritários, como se tem vindo a ver – e a querer ignorar! – na generalidade dos processos eleitorais ocidentais.

REFLEXÃO SEM PENSAMENTO?

 . Os grandes derrotados do 18 de Maio reclamam agora um período de “reflexão”. É um mantra habitual, um linguajar tribal depois das derrotas políticas, em geral inútil a não ser pelo que revela que faltou antes do desaire. Daí que raramente saia o que quer que seja destes ditos períodos de “reflexão”, em geral curtos, e que na verdade são um mero ritual sem autêntico pensamento, que é aquilo que verdadeiramente se deveria impor nas actuais circunstâncias, nacionais como globais.

. Um ponto central é o de se compreenderem bem as consequências de a política ter trocado – sobretudo desde finais do século passado – a sua exigente relação com o conhecimento por uma turva cumplicidade com a comunicação, conduzindo ao triunfo de múltiplas formas de impensar, que diversas fábricas de ignorância e de fanatismo hoje oferecem constantemente a todos.

. Um outro, é o de se compreender que, apesar de tudo, os povos se têm vindo a aperceber do facto que os dirigentes políticos “instalados” – que constituem o que tenho designado como o extremismo de centro – não têm de facto soluções para os problemas das sociedades em que vivemos, que eles passam o tempo a “empurrá-los com a barriga” e a recorrer a precários remendos e a expedientes de ocasião. E que é aqui – nesta política que se alicerça no ilusório pressuposto elitista da “estupidez do povo” – que está o principal combustível de todos os chamados populismos, e de todas as formas de radicalização política em curso.

ENTRE A BAZUKA E A BAGUNÇA

 

A EUROPA, CAMPEÃ DE ANÚNCIOS

 A União Europeia tem-se tornado, em cada dia que passa, na indiscutível campeã de anúncios sem consequências – ou melhor e em rigor, com consequências bem diferentes daquelas que anuncia. É uma impressão que acompanha a sucessão de relatórios e o carrossel de reuniões dos responsáveis políticos europeus, sob a demagógica batuta de Ursula von der Leyen. Recentemente, foi o anúncio de 800 mil milhões de euros para o Plano Draghi, logo seguidos de outro tanto, sim, outros 800 mil milhões de euros para o (delirante) programa ReArm Europe, tudo como se houvesse uma “árvore das patacas“ em Bruxelas, que a Presidente da Comissão gere imperialmente, com a silenciosa cumplicidade do Conselho Europeu.

Os resultados são, a diversos títulos, graves e preocupantes. É o menos que se pode dizer, a julgar, por exemplo, pelo que se pode ler no recente relatório do Tribunal de Contas Europeu sobre a famosa “bazuka europeia”, criada em 2022 para ajudar a resolver os problemas causados pela pandemia de Covid-19, no valor de 731 mil milhões de euros, a que se juntaram mais 19 mil milhões do programa REPowerEU, para fazer frente à crise energética mundial. Aquele relatório veio há dias dizer que “há poucas informações sobre os resultados e nenhuns sobre os custos reais, que são muitas as situações em que não se sabe como foi aplicado o dinheiro”. Assumindo que toda a execução prevista está bastante atrasada, o Tribunal de Contas Europeu sublinha os riscos do tipo de “mecanismo” criado para a utilização do financiamento “bazukal”, que vão desde pagamentos sem cumprimento das regras e metas estabelecidas, até ao desconhecimento dos destinatários finais dos financiamentos e do seu impacto na economia real.

Entretanto, surgiu mais um anúncio, agora o de uma consulta – até 10 de junho!… – sobre as modalidades da eventual resposta europeia à política tarifária de Donald Trump. Curiosamente, no mesmo dia em que, à margem da bagunça europeia sobre esta sensível matéria, Donald Trump e Keir Starmer assinavam um amplo acordo sobre tarifas, que levou o primeiro-ministro inglês a falar num “dia fantástico, histórico” para o Reino Unido.

 

UM NOVO ILIBERALISMO?

Fala-se muito de iliberalismo a propósito de Vítor Orban, e de outros líderes políticos que têm vindo a seguir as suas ideias políticas, na Europa e não só. Ele é hoje bem conhecido, mas o mesmo não acontece com um novo tipo de iliberalismo que tem germinado na Europa, em boa parte a pretexto dos chamados “crimes de ódio”. Numa linha de inspiração wokista, mas levando ainda mais longe o seu extremismo persecutório, tem-se assistido a uma constante generalização da criminalização de várias formas de discurso e de opções de linguagem, integrando no “ódio” tudo aquilo que não se quer ouvir – e se pretende censurar.

Yascha Mounk, o conhecido politólogo americano, chamava recentemente a atenção para este fenómeno na crónica regular que publica na revista Le Point, dando múltiplos exemplos de casos extremamente graves ocorridos em vários países europeus, com destaque para a Alemanha e para a Inglaterra. Casos de uma arbitrariedade de raiz totalitária, que se traduz na imposição de pesadas multas, ou mesmo de penas de prisão, em relação a opiniões, às vezes simples frases, expressas por cidadãos em relação às mais diversas matérias ou pessoas.

Como se sabe, temos entre nós quem defenda este caminho, mas a União Europeia parece agora também querer impô-lo, ao defender – como fez recentemente – que o chamado “discurso de ódio” passe a integrar a lista dos “crimes europeus”. Razão tem pois  Yascha Mounk ao afirmar que na Europa “as restrições à liberdade de expressão ultrapassaram há muito o quadro de um desacordo razoável: elas são hoje tão vastas que todos os argumentos clássicos contra a censura de Estado lhe são plenamente aplicáveis.”

(Escusado será referir que o cerco que se está a fazer ao partido alemão AfD, que foi o 2º mais votado, com um pouco mais de 20% dos votos nas eleições de fevereiro último, no sentido de se decretar a sua proibição, releva da gangrena totalitária que, a pretexto da sua defesa, apenas contribui para destruir a democracia.)

 

A INFALIBILIDADE DA CENSURA

 Como em meados do século XIX bem explicou J. Stuart Mill, toda a pretensão de restringir a liberdade de expressão se baseia numa presunção insustentável e injustificável: a da infalibilidade da censura. Além disso, a história mostra bem que censurar ou ostracizar aquilo ou aqueles de que se discorda não leva à sua erradicação. Muito pelo contrário, como bem se viu com o caso do partido Chega, que “chegou onde chegou” em boa parte graças aos constantes e sempre pouco inteligentes anátemas de Ferro Rodrigues e de Augusto Santos Silva ao seu líder. Como Thimothy Gordon Ash mostrou de um modo bem documentado, no livro Free Speech, não existe qualquer correlação entre a legislação contra os “discursos de ódio” e a sua efectiva diminuição. E a haver alguma, ela vai é no sentido contrário, bastando lembrar que antes da chegada de Hitler ao poder a legislação alemã estava inundada de leis que sancionavam os “discursos de ódio” – e o resultado foi o que se sabe.

Não há volta a dar: a democracia só existe e só se reforça no efectivo confronto de ideias diferentes, de opiniões contrárias, de perspectivas rivais e de visões alternativas, o que torna imperativo defender não só a mais completa liberdade de expressão daqueles de quem mais se discorda, mas também a mais integral liberdade de eles serem ouvidos por todos os que o queiram fazer. É talvez altura de lembrar a máxima que John Kennedy repetia frequentemente: “A liberdade é indivisível”.

TRUMPISMO/WOKISMO – DUAS FACES DA MESMA MOEDA?

 

“DEUS RI-SE DAQUELES QUE SE QUEIXAM DAS CONSEQUÊNCIAS DAS CAUSAS QUE ELES MESMOS ACARINHARAM”

                                                                   BOSSUET

 

                                                  

 

O TRUMPISMO, NA ESTEIRA DO WOKISMO

 . O trumpismo aí está, em todo o seu anunciado esplendor disruptivo, feito do mais sinistro ressentimento, de inéditas e poderosíssimas alavancas tecnológicas, aprisionando a atenção de todo o mundo, sobretudo do Ocidente, num temor tão atordoado como impotente. Como já aqui argumentei noutros textos – mas nunca é demais insistir neste importante ponto – Donald Trump não teria certamente sido eleito nas eleições presidenciais americanas de Novembro de 2024 se não tivesse tido o trunfo do wokismo, que lhe foi insistentemente oferecido pelos democratas. Todos os estudos, sem excepção, apontam nesse sentido.

. Infelizmente, os wokistas continuam em estado de negação, procurando agora fazer do trumpismo um biombo atrás do qual procuram esconder as suas pesadas responsabilidades no que aconteceu, e vai continuar a acontecer, nos EUA, procurando hipocritamente fazer-se passar por vítimas, a sua grande especialidade patológico-política. A vitimização, digo-o há muito, vai acabar – se não o é já – por se tornar no sucedâneo das grandes ideologias que outrora prevaleceram no Ocidente, a revelar bem a rapidez e a intensidade da decomposição dos seus valores.

Pois é, leia-se Bossuet!

 

INDIELISBOA OU INDIEWOKISTA?

. Yascha Mounk, o credenciado politólogo e professor da Universidade Johns Hopkins, a quem se deve, em 2023, um longo, minucioso e pedagógico estudo sobre o fenómeno woke, com o livro The Identity Trap, já traduzido pela Relógio d’Água, antecipou há tempos algo que cada vez me parece mais configurar a realidade dos próximos anos, quando afirmou que “o wokismo vai estruturar a vida intelectual nos próximos trinta anos, tal como a contestação ou defesa do marxismo estruturou a sociedade durante décadas.”

E infelizmente Portugal não escapa a esta previsão, persistem entre nós múltiplos sinais de um wokismo fanático e persecutório, cada vez mais intersticial na generalidade dos media, que faz do cancelamento a sua arma mais frequente. É o que acaba de acontecer ao realizador Ico Costa que, com base numa mera denúncia anónima, viu cancelados dois filmes seus programados para serem exibidos no Festival IndieLisboade 2025, a decorrer entre os próximos dias 1 e 11 de Maio, numa rastejante exibição de subserviência wokista e do mais total desprezo pelo princípio de presunção de inocência, base de qualquer Estado democrático. Façamos um breve experimentum mentis: e se aparecesse por aí algum “Trump lusitano” – o que não é impossível -, que decidisse cancelar o Festival IndieLisboa com base em argumentos semelhantes, na sua arbitrariedade, ao agora invocado, o que é que se diria, como é que se contestaria uma tal decisão?

Pois é, leia-se Bossuet!

 

 TEMPOS DE CÓLERA

. A propósito, olhemos para Harvard, para a grande Universidade de Harvard. É evidentemente condenável e intolerável a chantagem de Donald Trump em relação a esta Universidade privada! O assunto já foi muito falado, mas creio que vale a pena acrescentar dois pontos: o primeiro, para sublinhar o modo, que estes factos evidenciam bem, como – ao contrário das constantes litanias liberalóides – o privado é afinal, nos EUA e não só, constantemente financiado pelo dinheiro público, e em montantes muitíssimo substanciais, por vezes mesmo colossais. O segundo, é para perguntar onde estavam os que agora tanto protestam quando, como aconteceu recentemente, a Universidade de Harvard foi dirigida por uma reitora negra, Claudine Gay, cuja permanência no cargo defenderam dogmaticamente, apesar da assumida perseguição a diversos professores – por vezes atá à sua expulsão – que não se enquadravam nos seus dogmas wokistas. Apesar da permanente desvalorização dos critérios de mérito na selecção dos candidatos, sempre em benefício de quotas das minorias mais diversas. Apesar de ter chegado a substituir no já controverso DEI – diversidade, equidade, inclusão – a noção de “equity” por uma alegadamente mais radical, “belonging”, e nomeado uma reitora-associada, Sheree Ohen, para fazer respeitar o novo tríptico. Apesar da alegação de vários plágios de diversas das suas obras, (foram indicadas dezenas de situações de plágio em oito dos principais trabalhos académicos de Claudine Gay, tendo-se concluído que ela violou as normas de Harvard sobre plágio e sobre integridade profissional.Apesar da sua defesa, depois do ataque terrorista do 7 de Outubro em Gaza, da generalização do feroz antissemitismo que surgiu na Universidade, que promovia a invasão de aulas, a ocupação de espaços comuns, ameaçando – mesmo fisicamente – os “dissidentes”. Em suma, onde estavam então os que agora tanto protestam contra as ameaças de Trump, com toda a razão e fundamento, mas com escassa ou nenhuma autoridade?

Pois é, leia-se Bossuet.

 

REFORMA DE QUÊ?

Num trabalho que fiz há uns tempos identifiquei, e li, dezenas de livros sobre a reforma de justiça. Foi há dias publicado mais um, Para uma Reforma da Justiça (Edição Bertrand), a dar um sinal de vida ao moribundo “Manifesto dos 50” (50 subscritores para comemorar o cinquentenário do 25 de Abril), lançado há cerca de um ano, que entretanto vegetou pelos bastidores dos vários poderes, sem sequer promover um único debate público – ou vários, como naturalmente se impunha se o objectivo fosse efectivamente de natureza reformadora, já que são 72% os portugueses que fazem uma avaliação muito negativa do estado da justiça em Portugal. Para lá da publicação do “manifesto” original, cerca de 95% do livro é constituído por artigos de jornal, publicados entre 2017 e 2024, e agora republicados, e quase tudo o que lá se pode ler, que é naturalmente de valor e interesse muito diverso, já foi contudo dito e redito, sem que, entretanto, tenha tido quaisquer consequências. O que não deve surpreender, afinal trata-se de um “manifesto” promovido por uma maioria de antigos membros de vários governos que, quando podiam, nada disseram ou fizeram. Devem agora ficar à espera do centenário do 25 de Abril…

Pois é, leia-se Bossuet

 

(Na última newsletter o patrão da Palantir, Peter Thiel, apareceu – por lapso – nomeado como Paul)

 

 *** Todas as newsletters anteriores estão disponíveis em https://pensaromundo.manuelmariacarrilho.pt  ***

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ESTUPIDEZ NATURAL

                                         

. Vivemos quotidianamente num espaço público cada vez mais vazio e anestesiante, em que a tagarelice dominante e ruminante – nomeadamente a da informação que se transformou em infotretenimento e a do comentariado que se transformou numa variedade de reality show –  parece apenas pretender ocupar, preencher o espaço/tempo que medeia entre os diversos blocos publicitários. E deste modo tornar, como há anos afirmou o patrão de uma grande cadeia televisiva europeia, os cérebros dos espectadores – a expressão foi mesmo esta – “disponíveis”. Não só disponíveis mas, acrescento, também atolados numa estupidez natural, numa passividade só interrompida por impulsos – ora mais compulsivos, ora mais aleatórios – para o consumo, seja lá do que for.

DECLÍNIO DEMOCRÁTICO E ASCENSÃO JUDICIÁRIA

. Tudo isto é complexo, tem vindo a minar e a demolir as melhores democracias e a estimular a progressão dos regimes autocráticos. Segundo o Relatório de 2024 do V-Dem Institut da Universidade de Gotemburgo, se as democracias plenas em 2012 eram 42, hoje são apenas cerca de 30. E se 54% da população mundial vivia então em países livres, hoje essa percentagem é de 29%, revelando uma assustadora e crescente tendência, que levou a que o número de autarcias e de democracias no mundo seja já quase igual. Tendência que alavanca também a judicialização da política que, num sinistro caldo de ambições totalitárias, se intensifica – como temos visto – todos os dias, de um modo tão ilegítimo como impune. Tema a que voltarei.

. Tornou-se uma banalidade dizer que vivemos um tempo inédito e num mundo novo. Mas esta banalidade é, contudo, acompanhada pela repetição – diria mesmo, pela recitação – de palavras e noções de outros tempos, gastas e bloqueadoras, revelando uma incapacidade de apreender a novidade que se pressente ou enuncia. Mas esse é o lance que se impõe para se compreender o mundo de hoje, nas suas sofisticadas e invisíveis engrenagens. Sem isso, é certa a condenação ao atordoamento, à desorientação, à sideração – à submersão, diria Bruno Pattino – , tudo preliminares de uma nova forma de servidão voluntária a que, errática e ilusoriamente, a humanidade se entrega cada vez mais.

 

TRUMP, MUSK E O CAOS

. A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais  de Novembro de 2024, as suas medidas nestes três primeiros meses de exercício das suas funções, revelam bem o modo como está a emergir e a impor-se uma nova forma de poder em que, como Giuliano da Empoli afirmou num livro recente (de que falei na últimanewsletter),  o caos deixou de ser um instrumento dos povos em cólera contra o poder (e dos chamados populismos que ele originou), para se tornar num instrumento polivalente do próprio poder, numa metamorfose tão inesperada como decisiva, a dar  os seus primeiros passos e a anunciar uma nova forma de autoritarismo.

. Pensar o poder a partir, não da ordem, mas do caos, e de um caos polivalente e permanentemente estimulado é, a meu ver o primeiro lance “epistemológico” que se impõe para se compreender a realidade do mundo actual. O segundo é pensar a nova aliança que dá forma e força a este poder, que é a da política com as formas mais sofisticadas da tecnologia contemporânea – e ler a associação Trump / Musk nesta perspectiva, deixando as leituras psicotrópicas e as suspeitas narratrópicas para a lenga-lenga dos media, que na verdade são simultaneamente obreiros e reféns desta nova realidade, que eles alimentam com uma cumplicidade constante.

 

OBAMA – A POLÍTICA E AS BIG TECHS

. Tudo isto que agora emerge vem, todavia, bem de trás. Começou, como já tenho observado, com Barak Obama, que depois de, em 2008, ter dado início à aliança da política com as redes sociais, recorreu em 2012 ao patrão da Google, Eric Schmidt, para ultrapassar as dificuldades que a sua reeleição estava a enfrentar. Schmidt aceitou o desafio, deixou mesmo de ser o director-executivo da Google, embora tenha continuado a ser o seu presidente, e criou uma plataforma algorítmica poderosíssima – o projecto Narval – que permitia chegar directamente a dezenas de milhões de americanos, num inédito porta-a-porta digital, contribuindo assim decisivamente para a segunda vitória de Obama.

. Este processo de cumplicidade entre a política e as big techs nunca mais parou, tendo sido aprofundado empresários como Peter Thiel (fundador, com Elon Musk, da PayPal), ideólogos como Curtis Yarvin (um dos mais influentes conselheiros de J.D.Vance), estrategas da Heritage Foundation, etc. Embora tenha sido determinante, deixemos por agora este processo de lado, e voltemos atrás, à urgência que o nosso tempo e mundo revelam de novas abordagens e novas ideias, capazes de perscrutar e decifrar o que ainda não é visível nos novos poderes e na nova realidade.

A I.A. COMO PHARMAKON

 Foi exactamente isto que o filósofo italiano Andrea Colamedici procurou fazer com o livro Hipnocracia, que ele caracteriza como um livro-dispositivo para assim marcar a singularidade, o ineditismo do trabalho que esteve na sua origem, e que consiste no facto de ele ter sido executado com a colaboração interactiva de duas plataformas de Inteligência Artificial, razão pela qual também criou o seu “autor”, Jianwei Xun. A iniciativa é naturalmente polémica, mas o que mais interessa é que dela resulta uma noção heuristicamente poderosa,  uma visão que ilumina muito daquilo que vive na obscuridade, decifrando as características e modalidades do imenso poder que está a emergir da convergência da tecnologia mais avançada com a política mais disruptiva.

. Como Andrea Colamedici – que é professor de “prompt thinking” e autor de várias obras, com destaque para La Società della Performance – afirmou em entrevista à revista italiana L’Expresso: “Por um lado, Trump esvazia o significado da linguagem com palavras que, repetidas à exaustão, se tornam significantes vazios, desprovidos de sentido e, no entanto, carregados de poder hipnótico. E, por outro lado, Musk inunda a nossa imaginação com promessas utópicas destinadas a nunca se concretizarem, arrastando as mentes para um transe de antecipação obsessiva. Juntos, eles modulam desejos, reescrevem expectativas, colonizam o inconsciente.” (04.04.2025)

. Foi, pois, num inspirado lance de argúcia e de ousadia, que Andrea Colamedici assumiu recorrer à I.A. para atingir os seus objectivos . Não para obter respostas feitas, nem para plagiar autores ou para enxertar extractos anónimos, mas para mostrar que é possível fazer um outro uso da I.A., problematizando com ela, colaborativamente, o trabalho que ia desenvolvendo. Mostrando assim que a I.A. é um pharmakon, termo grego referido por Platão, que tanto pode designar veneno como remédio, conforme o uso e o contexto da sua utilização.

. FACE À I.A. – SUBMISSÃO OU COLABORAÇÃO?

 Claro que a generalizada estupidez natural reduz tudo isto a mais um fait-divers, a uns minutos de infotretenimento, como há dias aconteceu num canal televisivo, de resto com a minha negligente colaboração. Por isso insisto em que, longe disso, a Hipnocracia é uma obra que abre para uma outra visão do nosso mundo, ao mesmo tempo que exemplifica de que modos se instala essa realidade, e procura indicar alguns modos de lhe resistir. Perguntar se se trata de um livro ou de um dispositivo é, na verdade, apenas ruminar lugares-comuns e passar ao lado do essencial, que é o problema que ele enuncia, bem como as ideias que propõe para o enfrentar. E o mesmo se diga em relação ao nome do autor, à questão de saber afinal quem é, se será uma mera invenção, se não será um pseudónimo que procura beneficiar da actual aura da I.A., etc., etc. Tudo isto são observações pueris, irrelevantes perante a força esclarecedora da visão que é proposta. Sobretudo porque, como diz o meu amigo Luc Ferry, num oportuno e notável livro que publicou no começo do ano (I.A. – Grand Remplacement ou Complementarité?, Éditions de l’Observatoire), a questão mais decisiva do nosso tempo é a de saber se a I.A. abre caminho à submissão, no limite à servidão, do humano face à I.A. Ou se, pelo contrário, ela propicia formas de complementaridade compatíveis com a autonomia e liberdade humanas. O processo em curso é irreversível, sem retorno, mas há várias opções em aberto, que é fundamental equacionar a tempo, com conhecimento e coragem.

O CAOS, UMA NOVA FORMA DE TIRANIA?

O ACONTECIMENTO

. Depois de tantas vezes ter sido anunciado, vivemos finalmente um tempo novo, num mundo que parece vacilar constantemente entre certezas abaladas ou perdidas e expectativas sem conteúdo ou forma, ninguém percebendo o que é que, afinal, lá vem…. Um acontecimento é, contudo, isso mesmo: não é um facto, mas antes aquilo que marca uma ruptura, uma diferença, um abismo na ordem dos factos, entre dois momentos muitas vezes incomensuráveis, o antes e o depois, e nos coloca como que manietados entre eles. Um acontecimento é a própria mudança em processo, em aberto, em devir, que nos impõe sem escapatórias possíveis três confrontos: com o imprevisto, com o desconhecido e com a descontinuidade, em suma, com a contingência.

. E todos os verdadeiros acontecimentos são assim, têm uma gestação discreta, lenta mas irreversível, de que contudo vão dando sinais que poucos conseguem, ou querem, ver. Por isso, nada mais inútil para a sua identificação e compreensão do que a tagarelice que o seu pressentimento ou impacto desencadeiam no mundo mediático, sempre cego pelo presentismo em que vive. Essa tagarelice, cada vez mais acompanhada por muita alacridade, nasce aqui, na sua obsessiva cegueira face ao presente. E é ela que acompanha hoje o infotretenimento que, num contínuo palavroso tão torrencial como vazio, anestesia as sociedades e os indivíduos.

O TEMPO DOS PREDADORES

. Mas afinal que tempo é esse, em que o atordoamento parece cada vez maior e mais generalizado? É, diz Giuliano da Empoli num livro que acaba de publicar, o tempo, a hora dos predadores. Autor de dois livros importantes, um de ficção sobre a Rússia contemporânea, O Mago do Kremlin, e outro de análise das bases tecnológicas do chamado populismo, Os Engenheiros do Caos (ambos já traduzidos para português pela editora Gradiva), Giuliano da Empoli é um intelectual singular, com um perfil que combina a actividade de conselheiro político – foi-o de Francesco Rutelli, ministro da cultura italiano, e também do primeiro-ministro de Itália, Matteo Renzi – com a de escritor e, sobretudo, a de ensaísta. Além disso, dirige desde o ano passado a publicação anual de um dos mais interessantes sites de geopolítica, Le Grand Continent, cujo último volume procura traçar o “Portrait d’un Monde Cassé”.

. L’Heure des Prédateurs (editado pela Gallimard) não é nem uma obra de ficção, como O Mago do Kremlin, nem um ensaio, como Os Engenheiros do Caos. Na verdade, trata-se de um roteiro pelos bastidores dos novos poderes deste novo tempo, no que eles têm de mais obscuro e revelador, procurando compreender o que vai emergindo entre o “antes” e o “depois” que referi. No seu ensaio anterior Giuliano da Empoli já tinha sublinhado o modo com a tecnologia, através das suas cada vez mais poderosas plataformas, mudou a política em todas as suas dimensões, transformando ao mesmo tempo a própria experiência humana nas suas componentes mais subjectivas. Tecnologia que, contudo, ele vê como um elemento que veio reforçar diversas dinâmicas sociais e económicas já existentes no mundo contemporâneo, de que o “populismo” é, não uma causa, mas um sintoma. Dinâmicas em que o fenómeno decisivo terá sido, acrescento eu, o esboroamento ideológico simultâneo à consagração de uma concepção do homem como dominado por uma hubris hiper-individualista, o que levou a que, como G. da Empoli bem observou, “a política se pareça cada vez mais com um produto de consumo mediático, em competição com a última série Netflix.”

O CAOS E A TIRANIA

 A Hora dos Predadores dá-nos um retrato deste novo mundo, pontuado por diversos momentos vividos pelo autor sobretudo no decurso de 2024, em Riade, Nova York, Montreal, Washington ou Berlim, mas também com incursões muito inspiradas e instrutivas noutros locais e datas: Paris em 1921, Roma em 1998, Florença em 2012, Chicago em 2017 ou Lisboa em 2023. De toda esta peregrinação Giuliano da Empoli vai tirando várias conclusões e deixando várias análises em que vale bem a pena pensar, que apontam para uma hipótese central: a de que, se como tinha afirmado em 2019 no livro Os Engenheiros do Caos, o que então se estava a consolidar era a estratégia de colocar as plataformas digitais ao serviço das mais diversas formas e manifestações de cólera popular contra as elites, criando um caos que minasse as democracias liberais, agora a situação é diferente, o que ele defende é que se mudou de fase, e de um modo radical, tendo o caos passado a ser, não só o instrumento da cólera do “povo”, mas também – e cada vez mais – o instrumento e a marca do poder, de um poder cujas características se alteraram profundamente.

. Nesta configuração o wokismo foi, na sua perspectiva, “o pão abençoado, o carburante ideal para alimentar a máquina do caos” (p.90), de um caos que se torna assim hegemónico, viabilizando uma forma, historicamente inédita, de tirania: é esta a hora dos predadores, que procuram provocar uma sideração generalizada através do uso e da exibição permanente do seu poder e da sua força: “tudo o que constituía os garde-fous do mundo antigo (…) perdeu qualquer valor na hora dos predadores. No novo mundo, todo os processos serão levados às suas consequências mais extremas” (p.75), o que os predadores instauram é um “mundo sem limites, eles não se contentam em resistir à adversidade, eles vão buscar a sua força ao que é mais inesperado, instável, belicoso” (p. 76) – exactamente como todos temos visto, e certamente iremos continuar a ver, em cada dia que passa.

 

O WOKISMO/2025 – UM CADÁVER ADIADO QUE PROCRIA?

 

 

 

UMA BRANCA DE NEVE WOKISTA

 Aí está uma nova Branca de Neve nas salas de cinema, a exibir em todo o seu esplendor manipulatório e censório os efeitos do wokismo – mais um caso, entre milhares de tantos casos análogos, todos bem documentados por inúmeros estudos -, que levou à perseguição e ao cancelamento de universitários, de cineastas, de escritores, de actores e de actrizes, de artistas plásticos, de personalidades políticas, de festivais, de peças de teatro e de óperas, numa infindável lista que passa por Agatha Christie, J.K. Rowlings, Roal Dahl,  Enid Blyton, Mark Twain, Salmon Rushdie, Patricia Highsmith, Alfred Hitchcock, Victor Flemming, Richard Dawkins, Mozart, Verdi, Sófocles etc., etc.   Um último e lamentável caso acaba de acontecer com a decisão da prestigiada editora francesa Presses Universitaires de France de, no seguimento de pressões nesse sentido feitas publicamente por um evangelista woke – curiosamente, de um professor no Collège de France -, cancelar a publicação da obra que ela mesmo tinha encomendado a Pierre Vermeren, intitulada Face à l’obscurantisme woke.

 A COSMÉTICA WOKE

Agora temos uma Branca de Neve que, pretendendo “renovar” a versão original da Walt Disney, de 1937, a estropia completamente em obediência aos dogmas do wokismo e da nova “santíssima trindade” – diversidade, equidade, inclusão – que ele procurou impor por todo o lado, distorcendo sempre o sentido de cada um destes conceitos, moldados sem escrúpulos pela suas baias ideológicas. Nesta versão, a Branca de Neve – ou, como escreveu o New York Post, a “Snow Woke” –   é branca porque nasceu durante um nevão, os 7 anões começaram por ser de diversas etnias antes de, perante diversos tipos de protestos, acabarem por ser digitalmente produzidos, o Príncipe Encantado evidentemente que desapareceu, substituído por um plebeu que chefia um grupo de rebeldes que ajudam a derrotar a Rainha Má, há mesmo um motim popular para acabar com ela, etc., etc. – enfim, uma catástrofe, como bem observou Eurico de Barros, há dias, no Observador.

 JUST IN TIME…

. Esta estreia vem mesmo a tempo de lembrar aos que persistem em ignorar, ou ocultar, o papel determinante que o wokismo e a panóplia dos seus dogmas teve na vitória de Donald Trump, papel que diversos estudos dos resultados da eleição de 4 de Novembro de 2024 tornaram, entretanto, incontroverso, mostrando que sem o trunfo wokista que os democratas ofereceram a Donald Trump, ele certamente não teria ganho as eleições presidenciais americanas. Os responsáveis agora queixam-se, mas é tarde – e o pior está ainda, penso, para vir… Mas continuam quase todos em negação, numa lamentável mas cada vez mais frequente combinação de estupidez sistémica com irresponsabilidade política, o que infelizmente não surpreende porque o wokismo recorreu sempre ao estratagema, básico mas eficaz, que consiste em negar a sua existência e em atribuir a sua “invenção” aos seus adversários, procurando assim imunizar-se contra todo o debate e contra toda a crítica.

O DILEMA DEMOCRATA

. A contribuição wokista para a vitória republicana deixou os democratas americanos, e muita esquerda ocidental, perante uma enorme dificuldade, na verdade face a um verdadeiro dilema: ou reconhecem o facto, e o erro da opção que tanto marcou as suas políticas na última década, na linha das lúcidas e corajosas análises que, por exemplo, têm feito o filósofo Mark Lilla ou o politólogo Yascha Mounk, passando depois para um trabalho de elaboração de propostas verdadeiramente políticas, de ordem económica e social, educacional e cultural, tendo em conta o novíssimo contexto geopolítico em que vivemos e as suas eventuais consequências. Ou continuam em estado de negação – arrastando, como diria Pessoa, um “cadáver adiado que procria” -, a rejeitar as suas responsabilidades no triunfo de Donald Trump. Manobra que agora até pode parecer facilitada pelos desmandos de toda a ordem do trumpismo, continuando sem apresentar ideias ou propostas que os cidadãos vejam como efectivas alternativas à actual situação – ponto este que, na peculiar situação que estamos a viver Portugal, devia fazer pensar…

SINAIS…

. É ainda muito cedo para se perceber qual virá a ser a opção dos democratas americanos. Mas vão aparecendo alguns sinais de que se pretende sacudir o pesadelo woke, acompanhando assim o sentimento popular, tal como – com evidente calculismo – já o têm já feito múltiplas empresas americanas, nomeadamente as tecnológicas, que têm vindo a deixaram cair toda a ideologia woke. É o caso de Gavin Newsom, governador da Califórnia e um dos mais previsíveis candidatos democratas para em 2028 enfrentar os republicanos, muito provavelmente J.D.Vence, que já descolou de um modo explícito da “agenda woke”, lançando mesmo um podcast para o qual tem convidado personalidades bem distantes do tradicional “núcleo duro” democrata. Ou de John Fetterman, um prestigiado senador democrata da Pensilvânia, que repete alto e bem som que “não sou woke”. Ou ainda de Pette Buttigieg, o candidato que Barak Obama gostaria de ver a disputar a Casa Branca em 2028, que já apagou dos seus perfis públicos todos os elementos que o pudessem associar ao folclore woke. Mas para já, são apenas sinais…

O COLAPSO EUROPEU

. A IMPOTÊNCIA

Reuniões atrás de reuniões, relatórios atrás de relatórios, muitas fotografias e todos sempre a sorrir – eis ao que, na verdade, se reduz hoje a Europa, três anos depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, três anos em que a União Europeia não foi capaz de elaborar qualquer estratégia político-diplomática para pôr fim ao conflito então desencadeado, numa exibição de impotência que só não viu quem não quis abrir os olhos.

. O ERRO FATAL

Um erro gigantesco e fatal foi cometido por Ursula von der Leyen, mas sufragado pela generalidade dos políticos, dos partidos políticos e dos media ocidentais. Esse erro consistiu na confusão, na identificação politicamente grotesca, de duas coisas bem distintas: a inequívoca obrigação de apoiar um país criminosamente invadido, com a falsa afirmação que se tratava de uma democracia exemplar, em cujo destino se “jogava” o destino da democracia europeia. Isto quando, na realidade, a Ucrânia revelava, como diversos instituições idóneas então afirmavam sem nuances, características políticas que claramente o aproximavam de um regime autoritário, ou mesmo tendencialmente ditatorial. Se esta distinção tivesse sido feita, uma verdadeira estratégia podia ter sido traçada, e a situação podia ser hoje bem diferente.

. UMA ESPIRAL RETÓRICO-BELICISTA

E agora, quando, depois das iniciativas de Donald Trump, ela se vê humilhantemente excluída das negociações em curso entre a Ucrânia e a Rússia, a Europa lança-se numa espiral belicista puramente retórica (mais reuniões, mais relatórios, mais fotografias e mais sorrisos…), para a qual não tem quaisquer meios – nem financeiros, nem militares, nem políticos. Acena com milhões de euros que não tem – o serviço da dívida da própria U.E. já vai em 30 mil milhões de euros por ano -, invoca exércitos que não existem de todo no mundo europeu, assume-se como um Estado-nação ou uma federação de Estados – condições sine qua non para uma efectiva, e legítima, existência de Forças Armadas – , quando, na verdade, não é num uma coisa nem outra.

. SEM VISÃO…

Tudo isto configura um colossal embuste, ainda por cima quando se aponta para eventuais resultados lá para o ano de 2030 – mas alguém sabe onde estará Donald Trump nessa altura (na Casa Branca já não será…), alguém na União Europeia pensa, prospectivamente, como estará o mundo, os EUA, a China ou a Rússia, como o actual ritmo alucinante dos acontecimentos mundiais aconselharia a fazer?

… QUE EUROPA-POTÊNCIA?

E, no entanto, muito da situação que vivemos hoje era bem previsível. A propósito, leia-se um extracto do que, logo em 2022, poucos meses depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, escrevi: “ Por outro lado – e este outro ponto é central para que uma Europa-potência veja alguma vez a luz do dia -, é evidente que está a ser muito difícil para os dirigentes políticos europeus assumirem (e explicarem aos seus povos, claro!) que o “chapéu de chuva” americano, que durante décadas garantiu a segurança da Europa, tem os dias contados, está em vias de se fechar, dado que as prioridades que os Estados-Unidos têm vindo a definir desde a Presidência de Barak Obama são outras e bem diferentes. Apesar da Ucrânia, que não haja equívocos nem ilusões sobre isso.

. Ora, como foi a existência desse “chapéu de chuva” que permitiu à Europa não só sentir-se segura face à ameaça comunista e ao ambiente da Guerra Fria, como – aspecto não menos importante, bem pelo contrário – foi ela que permitiu à Europa canalizar meios financeiros astronómicos para a construção dos seus robustos Estados providência, sem quase gastar um cêntimo com a sua segurança e defesa, compreende-se a dificuldade europeia com a situação presente e com as perspectivas que, neste domínio, se lhe impõem.

. A ALTERNATIVA

Mas as coisas são o que são. Os dirigentes europeus sabem bem que, por mais difícil que ela seja,  a alternativa que se coloca aos responsáveis europeus não podia hoje ser mais cristalina: ou assumem a responsabilidade da sua segurança e defesa definindo ao mesmo tempo de uma vez por todas as suas fronteiras, acompanhando essa opção com o abandono da regra da unanimidade; ou o seu destino está escrito – será o de um definhamento progressivo num mundo em que a Europa contará cada vez menos em todos os domínios decisivos, dando assim razão à intuição de Milan Kundera quando definiu o europeu, não pelo futuro que ambiciona, mas pelo passado que viveu – como “aquele que tem a nostalgia da Europa”. (in A Democracia no seu Momento Apocalíptico, Grácio Editor, 2022, remeto os eventuais interessados para as pp. 19 a 33 deste livro, que bem podiam ser escritas hoje)