OS EQUÍVOCOS DE SAMPAIO – E NÃO SÓ!

 “Não se resolve um problema com as ideias que o criaram”,   Einstein

 

UMA SITUAÇÃO HISTÓRICA INÉDITA

A decisão do povo italiano no referendo deste último domingo é mais um forte elemento a confirmar que estamos na concha de uma imensa vaga, que ninguém sabe para onde se dirige. Reconhecê-lo humildemente é, a meu ver, a condição sine qua non para se tentar pensar não só o mundo que lá vem, como o que, embora ainda em boa parte invisível, já aí está, configurando uma situação histórica completamente inédita.

Os artigos que no mês passado foram sendo publicados no Público, primeiro o longo texto de Jorge Sampaio, depois os de Santos Silva, Manuel Alegre ou Catarina Martins, entre outros, são uma boa ilustração das dificuldades actuais em seguir esta via. Melhor, eles são, embora de modos diversos, uma excelente síntese dos principais lugares comuns que se vêm repetindo há anos, indiferentes à extrema singularidade histórica que vivemos, impedindo de pensar o mundo de hoje e conduzindo aos mais graves e paralisantes equívocos.

Estes equívocos são muitos, destacarei aqui apenas seis: o equívoco europeu, o equívoco da globalização, o equívoco do crescimento, o equívoco da democracia, o equívoco do populismo e o equívoco da esquerda. E fá-lo-ei de um modo necessariamente breve, porque cada um deles merecia, por si só, um ou vários artigos.

Estes equívocos delimitam o circulo vicioso do politicamente correcto dos nossos dias. E formam o caldo onde se revela a mediocridade dos agentes políticos e mediáticos, onde se esconde o poder financeiro e onde ferve a cólera dos povos. E o melhor modo de iluminar estes equívocos é confrontando-os, um por um, com uma tese clara que, por contraste mas não só, ajude a compreendê-los e a ultrapassá-los.

 

O EQUÍVOCO EUROPEU

Comecemos pelo equívoco europeu. A minha tese é que o projecto europeu está, desde 2010, em decomposição. Essa decomposição iniciou-se com a crise grega e não parou mais. Nem vai parar, todos os sinais são no sentido que ela vai continuar até ao seu previsível colapso. Como diz o provérbio, penso que asiático, pode-se prever uma avalancha, mas não se pode evitá-la. É essa a situação da Europa, e muito particularmente da Zona Euro.

A sua decomposição não é um mistério nem devia ser uma surpresa. Ela é a consequência normal de um facto muito simples, que foi o de durante dez anos se ter prometido aos europeus que, com a moeda única, haveria mais equilíbrio das contas públicas, mais solidariedade entre os povos e maior crescimento económico. E de, em vez disso, ter acontecido exactamente o contrário, isto é, temos hoje maior desequilíbrio das contas públicas, nenhuma solidariedade entre os povos e um crescimento quase nulo. Sem que destes factos os responsáveis se mostrassem capazes de extraír a mais elementar lição.

Ou seja, enquanto os povos europeus perceberam tudo isto, a generalidade dos políticos e dos media persistiram, e persistem ainda, na propaganda e na mentira, bloqueando assim todas as soluções políticas para a crise, nomeadamente as saídas – que tiveram talvez o seu tempo – mais ou menos federalistas.

O que aconteceu foi que, na verdade, a moeda única estrangulou o projecto europeu reduzindo-o, na década de 90 do século XX, a um economicismo cego, desperdiçando o enorme potencial histórico e cultural da Europa, isto é, das nações europeias. Nenhum espaço público comum foi criado, nenhum símbolo colectivo se impôs, nenhum quadro partilhado de valores foi assumido, e isto num momento em que o financismo transformava profundamente – em rigor, revolucionava – o capitalismo tradicional.

E também nenhum povo europeu se constituiu entretanto, o “povo europeu” não se transformou numa entidade política, mas apenas na metáfora de uma irredutível pluralidade de povos. E, por isso, a crise do euro é também a crise de uma moeda sem soberano, ou seja, de uma moeda em rigor impossível. E agora os povos querem voltar para casa, tudo indicando que não vão parar até o conseguirem.

 

O EQUÍVOCO DA GLOBALIZAÇÃO

Este equívoco conduz directamente ao equívoco da globalização. A minha tese, aqui, é que ao contrário do que quase sempre se diz, a globalização não foi um processo contra a Europa mas, em grande parte, uma obra da própria Europa. E que é uma falsificação grosseira apresentar a globalização como algo exterior à Europa, tantas vezes mesmo como o “inimigo externo” a que a Europa iria fazer frente, tendo-se até chegado a pretender fazer da Europa um “escudo” contra a globalização!

A verdade é, contudo, bem diferente: a União Europeia foi um diligente e eficaz operador da globalização nos finais do século XX e começos do século XXI. Mas como o processo tinha custos (nomeadamente em termos de emprego), foi-se diabolizando a globalização num imaginário tão sedutor como irrealista, fingindo ignorar os seus aspectos positivos (os preços mais baixos, diminuição global da pobreza, etc.) e acentuando os negativos.

Em rigor, a “construção europeia” da última década do século XX não foi mais do que a realização, digamos, regional, da globalização: ambas confluíram na anulação das soberanias democráticas, ambas apostaram na liberalização de circulação de tudo ( pessoas, bens, capitais, etc.) e ambas aumentaram a tutela do financismo sobre a vontade dos povos.

 

O EQUÍVOCO DO CRESCIMENTO

O terceiro equívoco é o do crescimento – e, aqui, a minha tese é que, se quando se fala de crescimento se pensa em valores de 3% para cima, o crescimento acabou. Este equívoco nasceu do facto de se ter tomado aquilo que foi uma situação absolutamente excepcional na história da Europa entre 1948 e 1973, ou seja, um crescimento a rondar valores de 3% a 5% ou mais, como a norma que regeria as nossas economias para todo o sempre.

Ignorou-se assim o essencial, isto é, que esse crescimento foi a consequência de um vasto conjunto de revoluções irrepetíveis e de imenso impacto (nomeadamente, entre outras, a industrialização, a urbanização, a emancipação feminina, como bem mostrou Robert J. Gordon no seu magnífico The Rise and the Fall of American Growth, publicado em Abril passado), e beneficiou de um contexto singular: o pós-guerra, o plano Marshall, a explosão do consumo, etc..

Contexto em que, é preciso lembrá-lo, se procedeu ainda a uma ampla anulação das dívidas do passado, nomeadamente da Alemanha, que teve em 1953 a sua enorme dívida suspensa até à reunificação das duas Alemanhas, em 1990.

O problema, que é o verdadeiro nó górdio da política actual, é que a grande novidade do pós-guerra do século passado, foi que se fez do crescimento a matriz nuclear da própria política, pelo que a crise hoje é, antes do mais, a crise do papel político do crescimento.

 

O EQUÍVOCO DA DEMOCRACIA

O quarto equívoco, o da democracia, conduz-me à tese que estamos a entrar numa era em que há cada vez mais política fora da democracia. A articulação inaugural da instituição da democracia foi a que ligou a liberdade individual e o poder colectivo. Ora hoje vivemos, numa atordoante permanência, o paradoxo de sermos individualmente cada vez mais livres mas, ao mesmo tempo, sermos colectivamente cada vez mais impotentes.

Ou seja, vivemos numa cada vez mais funda desarticulação do que foi sempre a articulação nuclear da democracia, que ligava estreitamente a liberdade dos indivíduos e o poder do colectivo. Esta desarticulação é o vulcão em que assentam as nossas sociedades, que exactamente por isso não conseguem – pela primeira vez desde há séculos – ter uma ideia global sobre si próprias, vivendo como que atordoadas pelo torrencial fluxo de acontecimentos que não compreendem.

Como há meses Yascha Mounk e Roberto Stephen Foa mostraram, no seu excelente artigo “The Democratic Disconnect”, a vertiginosa queda da percentagem de cidadãos que, nos Estados Unidos e na União Europeias, acham “essencial” viver num país democrático, bem como o aumento percentual daqueles que se revelam abertos a soluções políticas cada vez mais autoritárias, são sinais que anunciam grandes e imprevisíveis mudanças no horizonte, sobretudo se tivermos em conta que isso acontece principalmente com os cidadãos mais jovens.

Também aqui, a “construção europeia” intensificou o problema em vez de o minimizar, ao diminuir, ou mesmo eliminar, no âmbito da decisão política a margem de manobra que existia nos espaços nacionais. Esta Europa foi tomada por uma ambição claramente pós-política, a de reduzir a democracia ao exercício cada vez mais amplo das liberdades individuais.

 

 

O EQUÍVOCO DO POPULISMO

O quinto equívoco é o do populismo, e a minha tese aqui é que a invocação do populismo traduz hoje, sobretudo, medo do povo. Este medo decorre de o povo ser o recalcado de um vanguardismo que acabou por tomar conta de todas as políticas e de todos os políticos e, simultaneamente, o negativo da democracia representativa, de todos os fracassos e impasses que levaram à generalizada desconfiança, quando não à mera rejeição, que ela suscita.

Em rigor, o populismo devia significar a defesa do poder do povo. Mas a história do século XX, com as suas experiências totalitárias (fascismo, comunismo, etc.), por um lado, e a contínua degradação da representação política, por outro lado, acabaram por fazer dele um sinónimo de manipulação da vontade popular. Dever-se-ia mais propriamente falar de demagogia, do que de populismo, Mas os dados estão há muito lançados, a palavra está marcada, contaminada pelo seu uso dominante.

Este uso tornou contudo o populismo, mais do que num equívoco, numa palavra-fetiche sem qualquer conteúdo preciso, onde hoje se penduram todos os políticos e todos os media que, presos a lentes cada vezes mais opacas de há 30 ou 40 anos, pretendem desqualificar todos os fenómenos o que abalam os seus dogmas.

Políticos e media que parece terem feito do “estado de surpresa” a sua condição e profissão, sempre incapazes de compreenderem as verdadeiras causas históricas – sejam de ordem política, económica ou cultural – desses fenómenos, sejam eles o Brexit, a Marinne Le Pen, o Donald Trump, ou o Beppe Grillo, como de novo se viu agora em Itália.

 

O EQUÍVOCO DA ESQUERDA

Por fim, temos o equívoco da esquerda, cujo corolário em termos de tese é simples de enunciar: a esquerda acabou. Se ressuscitará ou não ninguém sabe, mas a esquerda como corpo doutrinário ou ideológico, coerente e mobilizador de valores, capaz de estruturar convicções e projectos alternativos à “ordem dominante”, desapareceu.

Essa esquerda foi-se progressivamente dissolvendo nas últimas décadas no magma ideológico e imaginário da direita, rendida e submissa ao “ar dos tempos”, procurando fazer prova de vida com algumas tentativas pueris de fazer melhor do que a direita – com mais jeito, com alguns remendos, com outros ritmos, mas nada mais.

É sobre estes equívocos, pelo menos sobre estes, que se impõe trabalhar. E trabalhar não é lamuriar, é estruturar alternativas de facto, isto é, tanto de ideologia como de imaginário, que hoje simplesmente não existem. Deste ponto de vista, é verdadeiramente colossal a diferença entre o deserto de ideias da crise actual e a vitalidade das primeiras décadas do século XX, quando as alternativas jorravam, mobilizando em todos os sentidos – uns melhores do que outros, como se sabe – os povos da Europa.

Só um lúcido esclarecimento destes equívocos nos pode fazer sair do colete de forças do politicamente correcto, que hoje marca transversalmente tanto a direita como a esquerda. E assim permitir que enfrentemos o facto essencial da nossa época, que é o de, se por um lado o capitalismo se revela incapaz de encontrar soluções para a crise, por outro lado também não vemos aparecerem quaisquer alternativas estruturadas e credíveis que o desafiem.

Há, claro, razões conhecidas para isto. Em primeiro lugar, generalizou-se a ideia de que a queda do Muro de Berlim, em 1989, foi a vitória de uma forma de democracia que encontrava a sua forma final na sua pura e simples identificação com o mercado. Seguidamente, não se compreendeu que a globalização minava na sua raiz o compromisso social-democrata entre o trabalho e o capital, deixando o trabalho preso às suas raízes nacionais enquanto o capital se tornava cada vez mais solto num tabuleiro cada vez mais mundial. E a terceira razão encontra-se na identificação dos valores da modernidade com os da metamorfose do capitalismo na sua versão financista — e aqui a terceira via, inspirada pela dupla Anthony Giddens/Tony Blair, teve especiais responsabilidades.

 

O ENDIVIDUALISMO

Mas para lá de todos estes factores, há um outro a que é preciso dar toda a atenção, e que, infelizmente, tem sido sistematicamente ignorado ou desprezado. Trata-se do que eu tenho chamado o “endividualismo”, fenómeno que cresceu com o paradigma do ilimitado – da energia, do consumo, dos direitos, da dívida – e triunfou com a convergência das metamorfoses do indivíduo e do consumo nas últimas décadas do século XX. Foi na verdade este endividualismo que deu forma, tanto ao ultraliberalismo como ao mini-socialismo dos nossos dias.

O endividualismo é um novo tipo de individualismo, um “individualismo de massas” que, nas últimas décadas, foi impondo grandes mudanças no tabuleiro e nas próprias regras do jogo político. Foi ele que inculcou, transversalmente ao espectro político, valores e aspirações comuns, tornando as diferenças muitas vezes indiferentes, quando não insignificantes. É justamente por isso que agora, mesmo quando há mudanças, tudo muda tão pouco. E que se enfatizam tanto as variações de estilo, ao contrário do que acontece com as de substância ou de conteúdo.

O endividualismo é o produto das últimas metamorfoses do indivíduo moderno, do desenfreada expansão sua afirmação. Mas ele é também o resultado da sua funda cumplicidade com o “paradigma do ilimitado” que marcou todo o século passado, sobretudo a segunda metade, garantindo a todos uma energia inesgotável, um consumo interminável e um crédito sem fim.

Dito de outro modo: o endividualismo sinaliza uma nova era, a do jubilatório apogeu do indivíduo que se realiza pelo crédito, isto é, pela dívida. Ele tornou-se, no mundo de hoje, no pilar mais generalizado – e talvez no mais resistente! – deste paradigma em crise. Ele decorre da convergência de três factores: primeiro, da afirmação sem limites dos direitos dos indivíduos. Depois, da progressiva identificação do direito com a proteção da esfera do privado. Por fim, da rasura sem precedentes das referências a valores ou convicções de ordem coletiva.

Mas se a atenção a este endividualismo é pouca, ainda mais escassa é a atenção que se dá ao fundamental facto de ele ter sido, e continuar a ser, viabilizado e estimulado – ao contrário do que frequentemente se diz e por mais paradoxal que tal possa parecer – pela poderosa afirmação de um Estado Social que, como bem mostrou Marcel Gauchet, libertando pela primeira vez na história os indivíduos da necessidade de terem de preparar o seu futuro e o dos seus (garantindo-lhes reformas, educação, saúde, etc.), os tornou em soberanos cada vez mais centrados em si próprios.

O endividualismo acelerou, por isso, o processo atrás referido de desarticulação interna das democracias, cavando um abismo cada vez maior entre a afirmação da liberdade individual dos cidadãos e a sua capacidade de ação coletiva, tornando-os cada vez mais livres, sem dúvida, mas também mais incapazes.

É isto que faz da batalha das ideias o maior desafio do nosso tempo, para a qual não se vislumbram ainda, ao nível político, capacidade intelectual ou instrumentos analíticos à altura dos problemas do mundo contemporâneo, seja no plano dos valores, da estratégia ou dos instrumentos de acção. É por aqui que, a meu ver, é preciso começar.

(Público, 10.12.2016)

TERRORISMOS…

1 – Vivemos uma era dominada pelo terrorismo, que toma múltiplas formas, que vão do terrorismo islamista ao terrorismo machista, de que infelizmente temos exemplos constantes. Mas novas formas vão emergindo, como a do terrorismo feminista, menos falado mas em evidente ascendência. E temos que os combater a todos sem excepção, com a mesma lucidez e determinação. Até porque são todos filhos das mesma doença: o fanatismo.

 

2 – Num Estado de Direito é no tribunal que, quem acusa, tem que provar as acusações que faz. Célebre ou anónimo, rico ou pobre, homem ou mulher, somos todos iguais, absolutamente iguais, nesta obrigação de provar as acusações que fazemos, contra quem quer que seja. O tribunal não é um lugar para telenovelas, onde a imaginação pode ser livre, até ao desvario. Não, num tribunal é a verdade que tem que se apurar, e é ela que tem que prevalecer.

 

3 – Tenho defendido a minha inocência em relação a conhecidas acusações tenebrosas de que fui alvo, e que estão até agora totalmente por provar. Insisto: totalmente por provar. E bastou uma sessão de verdade no tribunal, no passado dia 12, para abalar todo o edifício de tretas e mentiras construído contra mim, com o muito ingénuo apoio do Ministério Público, o que lamento.

 

4 – Por isso, como aviso à navegação, deixo aqui duas simples perguntas: 1) – e se a minha ex-mulher – a título de hipótese, que a presunção de inocência constitucionalmente impõe – , estiver, simplesmente, a mentir? 2) – Pior: e se tudo não passar da cínica instrumentalização vedetística do combate à violência doméstica a interesses meramente pessoais?

 

5 – Afinal, porque é que quem me acusa gaguejou e tergiversou tanto em tribunal, incapaz de descrever com um mínimo de credibilidade situações que qualquer verdadeira, autêntica vítima de violência doméstica, caracterizaria sem hesitações? Por uma razão simples, porque a sua “acusação” não passa de um carrossel de mentiras. Um exemplo: a história do ex-futebolista Futre, que encheu páginas de jornais, nem sequer consta da acusação, que é pública, e que é o que está realmente em causa no julgamento.

 

6 – É pois preciso, a meu ver, e em primeiro lugar, ajudar a salvar a causa do combate à violência doméstica de uma das mais sinistras instrumentalizações de que ela foi alvo, por alguém que se comporta como se beneficiasse de uma total impunidade face à lei, e se pretende colocar acima de todos nós.

 

7 – O meu conselho às pessoas que se batem com coerência, coragem e constância contra a violência doméstica – e que são sem dúvida a grande maioria – é pois, que abram bem os olhos: podem estar a cair na sinistra armadilha de uma “vedeta”, que só se fez passar por vítima para melhor usar e abusar dos outros. E depois não digam que não foram alertadas…

 

8 – E, já agora, abram também bem os ouvidos, e não finjam ignorar a contínua crueldade a que o meu filho Dinis tem sido sujeito nos últimos dois anos, tal como ele próprio a descreveu em declarações feitas no Tribunal de Família – que infelizmente foram parcialmente tornadas públicas – no passado dia 22 de Janeiro. O “terrorismo feminista”, cego pela sua patologia fanática, trata o Dinis como se ele não existisse, ou melhor: procura liquidá-lo como ele se nada valesse. É iníquo, absolutamente iníquo!

 

9 – Sejamos honestos e coloquemos frontalmente a questão: o que se teria passado e dito se a criança tivesse dito em então do pai, o que afirmou sobre a mãe!… O que para aí não iria de indignada gritaria!!!…Porquê uma tão descarada hipocrisia, uma tão gritante evidência de “dois pesos, duas medidas”? Uma tal duplicidade não é realmente de gente capaz, bem pelo contrário, ela é típica das matilhas mais incapazes e um dos mais óbvios sinais do “terrorismo feminista” a que me referi acima.

 

10 – Terrorismo por enquanto claramente minoritário, mas nunca se sabe…É que, como bem tem lembrado essa grande e lúcida mulher que é Élisabeth Badinter, “a luta pela igualdade das mulheres, quando adopta uma retórica parcial e meramente acusatória – e os exemplos destes casos abundam – faz delas reféns de um fanatismo delirante e primário”.

(Hoje, no Correio da Manhã)

SEM OUSADIA, NEM CORAGEM

No começo desta última semana de campanha presidencial, é penoso, embora não seja surpreendente, verificar que não há um vislumbre de tema sério em debate no espaço público. Viremo-nos pois para outros horizontes, e para as propostas que Thomas Piketty tem feito sobre a revolução que é preciso fazer na Europa, que é onde se joga hoje tudo o que na verdade conta para nós.

Lembro-me de, em Outubro de 2013, ter saudado na minha coluna no DN a recente-publicação de “Le capital au XIX siècle” (entretanto editado em Portugal pela Editora Temas e Debates) como uma obra que iria certamente fazer história. Não me enganei, o sucesso mundial da obra é bem merecido, apesar de se ter dado – a meu ver erradamente – importância demais ao tema das desigualdades, em prejuízo do tema do crescimento.

Entretanto, Piketty propôs, num texto intitulado “Changer l’Europe, maintenant”, um conjunto de ideias inspiradoras, que me parecem das poucas que nos pouparão ao abismo para que caminhamos. São elas a organização de uma conferência da Zona euro para decidir uma moratória sobre o pagamento das dívidas; o inicio de um processo de reestruturação da dívida, feita nos termos em que ocorreram na Europa nos anos 50 e que tanto beneficiaram a Alemanha; e a renegociação do tratado orçamental de 2012, enquadrando-o em parâmetros democráticos e de justiça fiscal.

São propostas – entre muitas outras, igualmente importantes – que, antes ou depois do próximo dia 24, duvido que alguma vez um ou uma presidente da república portuguesa tenha a ousadia de formular e a coragem de defender. Mas oxalá me engane.

TEMPOS IDIOTAS

 

É sem dúvida misterioso o caminho que levou a que a palavra grega “idiotés”- que na Grécia antiga designava aqueles que preferiam dedicar-se aos negócios privados do que aos assuntos públicos -, viesse a ter, nos tempos modernos, o sentido que hoje lhe damos: de vulgar, parvo, incapaz, como se o seu significado se tivesse invertido.

Mas é nesse mistério trajecto que certamente se encontra a chave de um fenómeno contemporâneo pouco estudado, apesar do seu impacto e da sua generalização: refiro-me ao cada vez mais intenso desprezo pela actividade política, e sobretudo às suas causas e consequências, nomeadamente aos imensos interesses financeiros, económicos, etc., que se alojam nesta posição.

O facto é o seguinte: com a globalização e a financeirização do mundo, e no quadro civilizacional de um individualismo que crê como num dogma no paradigma do ilimitado (da energia, do crédito e da dívida, dos direitos, etc.), a política enfrenta uma alternativa a que até não tem conseguido responder: ou se transforma profundamente, ou se torna no bobo (ou no bode expiatório, conforme as circunstâncias) de uma “nova corte” que é quem, por trás do biombo, na verdade governa o mundo.

O problema, é que isto exige um novo “tipo” de políticos, mais sábios e menos narcísicos, mais activos e menos voluntaristas, mais magnetizadores e menos prometeicos, mais de projectos e menos de lérias. De políticos, em suma, com visão… Obama andou lá perto, antes de se perder nos compromissos de Washington.

A campanha presidencial portuguesa que agora formalmente começa corre o risco, a julgar pelo que se viu na pré-campanha, de ser um ilustrativo exemplo desta farsa, talvez muitas vezes involuntária, em que se está a tornar a política dos nossos dias, ao resignar-se a ser um mero espectáculo em que se fala do que não se sabe e se promete o que não se pode.

No interesse, claro, de quem sabe e de quem pode, mas que está onde mais lhe convém: atrás da ilusório biombo que os políticos animam com o seu imprudente malabarismo e o seu contumaz narcisismo.

(11/01/2016)

LER

. Le débat, nº187

Ed. Gallimard, 2015

(Enquanto se espera, com a re-institucionalização do Ministério da Cultura, pelo aparecimento de uma política pública de cultura – para a qual o novo titular pediu ontem ajuda divina em Viseu – , poderá ser inspirador ler com atenção o dossier “ Que faire du ministère de la Culture?“, que o último nº da revista “Le Débat” dedica ao tema, com colaboração de  Guillaume Cerutti, Nathalie Heinrich, David
Kessler, Jack Lang e Jacques Toubon)

. Saving capitalism – for the many, not the few

Robert B. Reich, ed Knopf, 2015

. Le mépris civilisé

Carlo Strenger, Ed. P.Belfond, 2015

MARCELO – ELEIÇÃO OU TRANSFERÊNCIA?

Penso que, se ainda pode haver surpresas com as presidenciais de Janeiro, isso depende não tanto do que os candidatos façam ou deixem de fazer – o que também conta, claro -, mas do que entretanto pode acontecer por aí.  E pode…

Apesar de há tempos eu ter vaticinado para o futuro de Marcelo, mais o de sucessor catódico do saudoso José Hermano Saraiva, do que o de presidente da nossa república, a verdade é que Marcelo conseguiu o feito absolutamente extraordinário de estar em pré-campanha presidencial toda uma década, na realidade desde 2006, e isso tinha naturalmente que se traduzir em algo, como agora se vê pelas sondagens que vão sendo conhecidas.

Mas atenção, não foi só isso que colocou Marcelo nessa posição. Porque o que aconteceu nesta última década, foi que se intensificou aceleradamente a convergência de dois fenómenos sociais e civilizacionais que se vinham anunciando e impondo, que foram o da dessacralização total da política e, simultaneamente, a – mais ou menos efémera, mas sempre eficaz – divinização dos “entertainers” televisivos.

Ora Marcelo situou-se exatamente aqui, no ponto de convergência destes dois processos, e foi isso que lhe permitiu agora que ele, mais do que na verdade candidatar-se à Presidência da República, simplesmente se “transfira” – ou talvez melhor, “deslize” – do ecrã televisivo para o ecrã presidencial.

Assim se compreende também que ele tenha, e muito sagazmente, dispensado toda a habitual tralha de comissões de honra, direcções de campanha, outdoors, mandatários, etc., etc., reforçando assim a diferença do personagem e a naturalidade da manobra.

Face a isto, os adversários não têm uma tarefa fácil, nomeadamente Maria de Belém, a única candidata que o podia obrigar a uma segunda volta. Mas para isso era preciso que se compreendesse a tempo quais as fraquezas que a força Marcelo tão bem esconde, e isso não está, naturalmente, ao alcance de qualquer pequenote “spin doctor”…

Só falta um passo, e ele será dado muito em breve: o do anúncio de Marcelo que só será candidato a um mandato: é aí que verdadeiramente, pode estar a chave da vitória à primeira volta

O JORNALISMO ESTÁ A ARDER? E QUAL É A NOVIDADE?

Interrogava-se no domingo o José Vítor Malheiros, na sua habitual crónica no Público, se o jornalismo não “está já a arder”. E porquê? Diz-nos ele que isso acontece por os “media” apoiarem, na sua imensa maioria, a candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, em prejuízo da de Sampaio da Nóvoa, que nunca foi “entertainer” televisivo como nunca foi politicamente nada, a não ser, aos 60 anos, um ilustre desconhecido da política promovido a candidato presidencial por uma “ardente” brigada do reumático…

(De resto não se percebe, atendendo aos estudos de opinião disponíveis, porque não alarga J.V.Malheiros o seu raciocínio a Maria de Belém, mas adiante…). O que se estranha, é que só agora ele tenha descoberto o atropelo democrático que vem lá tão de trás, e que consistiu em se ter aceite com a maior indiferença essa “chavista” excepção nacional – completamente espúria à tradição e à prática democrática e pluralista europeia – de haver um ex-líder partidário, ex-candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, ex-ministro, etc. (tudo funções em que, aliás, nunca se destacou especialmente), titular de uma homília pastoral dominical, no telejornal nacional de várias televisões, como se cada minuto lá passado não estivesse ao serviço de ambições políticas pessoais, óbvias para todos.

Mais: como se, durante 15 anos, o seu comentário não tivesse sido uma humilhação constante da mais elementar ética jornalista, com comentários combinados, exibição de cachecóis futebolísticos ou oferta de leitões bem temperados, à mistura com a mostra de livros nem sequer folheados, perante o silêncio e a impunidade gerais!

A TVI dedicou-lhe de resto, no domingo seguinte ao do anúncio da sua candidatura, um momento que ficará certamente para “memória futura” nos anais da mais babosa e grotesca ignomínia audiovisual nacional, que tantas vezes caracteriza o jornalismo que J.V.Malheiros diz lamentar.

Pois é, mas agora se calhar é tarde. E quem vai ficar a arder é o país, não é o jornalismo português, que esse o próprio Marcelo Rebelo de Sousa se encarregou de mostrar à saciedade que está há muito em cinzas…

TERESA DE SOUSA ESTÁ ENGANADA, A EUROPA FERVE, “NÃO GELA”

Ao contrário do que Teresa de Sousa hoje escreve no Público, onde afirma que a Europa “gela” com as perspectivas que se vão alargando e consolidando cada vez mais para Marine le Pen e a sua Frente Nacional, a Europa há muito que está é a ferver.

E ferve desde que a contradição central – e mortal – entre as prometidas perspectivas de convergência económica, de equilíbrio financeiro e de solidariedade social foram ignoradas e desmentidas durante toda uma década, em que o que os europeus viram foi aumentar a divergência económica, o descontrolo financeiro e o desaparecimento de todos os tipos de solidariedade. E assim continua, entregue aos “fait-divers” mais pueris.

Ela ferve, por isso, como a rã da fábula, iludida num conforto que – tudo o sugere – só acabará no preciso momento…em que estoirar! E o mais provável é que assim continue, com a plácida cumplicidade de jornalistas, comentadores e políticos que, cegos ou desnorteados pelo ardiloso labirinto de Bruxelas, apenas se têm revelado especialistas neste tão singular sistema de ilusão pelo aquecimento.

E a maior das ilusões é a de se pensar que a França está apenas a dar forma a uma excepção, quando na realidade ela está a abrir caminho a uma nova regra.

O INDIGENATO MENTAL DE TUDO ISTO…

O que mais impressiona nos debates que tanto têm ocupado os nossos políticos e os nossos media nos últimos tempos, é a periferia extrema em que eles se situam em relação ao mundo de hoje, o paroquialismo que eles revelam e o indigenato mental que eles exibem.

Apresentam-se como soluções o que já se sabe serem impasses sem saída. Apresentam-se como ideais o que há muito se reconhece serem ilusões desacreditadas. Ignoram-se como irrelevantes quase todos os novos problemas que já aí estão, incontornáveis.

Talvez tudo isso pouco importe, é certo, agora que se começam a tornar evidentes os limites da “magia” Mario Draghi e do “seu” BCE,  e se começa a impôr o que, na verdade, quase ninguém parece capaz de pensar: que o tempo da charlatanice do crescimento acabou, e que um outro mundo – e uma outra Europa – vem aí.

A LER

. La fabrique du conformisme

Eric Maurin, Éditions du Seuil. 2015

. Television is the new television: the unexpected triumph of old media in the digital age

Michael Wolff, Penguin, 2015

NEGLIGÊNCIA SUICIDA

A ideia deste blogue é ser regular, mas sem nenhum compromisso temporal, seja ele diário, semanal ou mensal. Acabo, contudo, de verificar que faz hoje um mês que o iniciei na actual forma de “pensar o mundo”, com um texto que – mais do eu já na altura pressentia – iria iluminar várias das nossas semanas. E a prova aí está, no tempo que passou e no nada que aconteceu.

Por cá, claro.Porque enquanto nos entregamos às mais estranhas elucubrações sobre quem deve governar, como se o voto dos portugueses pudesse ser refém de todas as interpretações, por mais delirantes que elas sejam, a Europa afunda-se numa negligência suicida em que é cada vez mais claro que todos vamos pagar bem caro o torpor político em que temos vivido.

A crise do euro foi um revelador, e forte, para quem quis ver – e foram poucos. Mas agora já não é de crise que se trata, do que se trata é de um colapso que ninguém parece conseguir suster. Basta olhar, e ver cada um seguir o seu caminho: Hollande com as suas tropas, Cameron com as suas fanfarronices, Merkel com os seus refugiados…

CANIBALISMO POLÍTICO

O grande problema, hoje, é que os políticos continuem a agir como se fossem todo-poderosos, quando na verdade lidam com margens de manobra mínimas, estreitíssimas. Que eles se entreguem à pior das demagogias quando, na verdade, deviam praticar a mais apurada e exigente das pedagogias.

É isso que os leva não só a preferirem o espectáculo à acção, como a praticarem o bruxedo das palavras mágicas enquanto desleixam a urgência das ideias e a eficácia dos projectos. Dão assim forma a um novo tipo de canibalismo, o canibalismo político, que os devora a si próprios alargando o vazio – isto é, o espectáculo – que os rodeia.

A crise da social-democracia tem dado origem a quilómetros de prosa inepta e inútil, porque ela é vista sobretudo como parte deste espectáculo, deixando de lado o essencial. O que se passa em Portugal desde a noite eleitoral de 4 de Outubro passado é, neste sentido, tão evidente que todos os comentários se tornam supérfluos e dispensáveis.

E a evidência é só uma: o socialismo democrático ( ou, se quisermos, a social-democracia europeia, mas o mesmo se pode dizer do socialismo “tout court”) é hoje apenas o nome de uma marca sem um conteúdo identificável, o retrato de uma posição sem estratégia, a confissão de uma ambição sem convicções.

O canibalismo político tem por isso, aqui, um dos seus pastos de eleição, como os próximos tempos não deixarão de confirmar.

A LER

  • The Second Machine Age

(Work, Progress and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies)

Erik Brynjolfsson e Andrew Mcafee,  W. W. Norton & Company, 2014

  • Le monde est clos et le désir infini, 

Daniel Cohen, Albin Michel, 2015