CANIBALISMO POLÍTICO

O grande problema, hoje, é que os políticos continuem a agir como se fossem todo-poderosos, quando na verdade lidam com margens de manobra mínimas, estreitíssimas. Que eles se entreguem à pior das demagogias quando, na verdade, deviam praticar a mais apurada e exigente das pedagogias.

É isso que os leva não só a preferirem o espectáculo à acção, como a praticarem o bruxedo das palavras mágicas enquanto desleixam a urgência das ideias e a eficácia dos projectos. Dão assim forma a um novo tipo de canibalismo, o canibalismo político, que os devora a si próprios alargando o vazio – isto é, o espectáculo – que os rodeia.

A crise da social-democracia tem dado origem a quilómetros de prosa inepta e inútil, porque ela é vista sobretudo como parte deste espectáculo, deixando de lado o essencial. O que se passa em Portugal desde a noite eleitoral de 4 de Outubro passado é, neste sentido, tão evidente que todos os comentários se tornam supérfluos e dispensáveis.

E a evidência é só uma: o socialismo democrático ( ou, se quisermos, a social-democracia europeia, mas o mesmo se pode dizer do socialismo “tout court”) é hoje apenas o nome de uma marca sem um conteúdo identificável, o retrato de uma posição sem estratégia, a confissão de uma ambição sem convicções.

O canibalismo político tem por isso, aqui, um dos seus pastos de eleição, como os próximos tempos não deixarão de confirmar.

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