O JORNALISMO ESTÁ A ARDER? E QUAL É A NOVIDADE?

Interrogava-se no domingo o José Vítor Malheiros, na sua habitual crónica no Público, se o jornalismo não “está já a arder”. E porquê? Diz-nos ele que isso acontece por os “media” apoiarem, na sua imensa maioria, a candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, em prejuízo da de Sampaio da Nóvoa, que nunca foi “entertainer” televisivo como nunca foi politicamente nada, a não ser, aos 60 anos, um ilustre desconhecido da política promovido a candidato presidencial por uma “ardente” brigada do reumático…

(De resto não se percebe, atendendo aos estudos de opinião disponíveis, porque não alarga J.V.Malheiros o seu raciocínio a Maria de Belém, mas adiante…). O que se estranha, é que só agora ele tenha descoberto o atropelo democrático que vem lá tão de trás, e que consistiu em se ter aceite com a maior indiferença essa “chavista” excepção nacional – completamente espúria à tradição e à prática democrática e pluralista europeia – de haver um ex-líder partidário, ex-candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, ex-ministro, etc. (tudo funções em que, aliás, nunca se destacou especialmente), titular de uma homília pastoral dominical, no telejornal nacional de várias televisões, como se cada minuto lá passado não estivesse ao serviço de ambições políticas pessoais, óbvias para todos.

Mais: como se, durante 15 anos, o seu comentário não tivesse sido uma humilhação constante da mais elementar ética jornalista, com comentários combinados, exibição de cachecóis futebolísticos ou oferta de leitões bem temperados, à mistura com a mostra de livros nem sequer folheados, perante o silêncio e a impunidade gerais!

A TVI dedicou-lhe de resto, no domingo seguinte ao do anúncio da sua candidatura, um momento que ficará certamente para “memória futura” nos anais da mais babosa e grotesca ignomínia audiovisual nacional, que tantas vezes caracteriza o jornalismo que J.V.Malheiros diz lamentar.

Pois é, mas agora se calhar é tarde. E quem vai ficar a arder é o país, não é o jornalismo português, que esse o próprio Marcelo Rebelo de Sousa se encarregou de mostrar à saciedade que está há muito em cinzas…

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