MARCELO – ELEIÇÃO OU TRANSFERÊNCIA?

Penso que, se ainda pode haver surpresas com as presidenciais de Janeiro, isso depende não tanto do que os candidatos façam ou deixem de fazer – o que também conta, claro -, mas do que entretanto pode acontecer por aí.  E pode…

Apesar de há tempos eu ter vaticinado para o futuro de Marcelo, mais o de sucessor catódico do saudoso José Hermano Saraiva, do que o de presidente da nossa república, a verdade é que Marcelo conseguiu o feito absolutamente extraordinário de estar em pré-campanha presidencial toda uma década, na realidade desde 2006, e isso tinha naturalmente que se traduzir em algo, como agora se vê pelas sondagens que vão sendo conhecidas.

Mas atenção, não foi só isso que colocou Marcelo nessa posição. Porque o que aconteceu nesta última década, foi que se intensificou aceleradamente a convergência de dois fenómenos sociais e civilizacionais que se vinham anunciando e impondo, que foram o da dessacralização total da política e, simultaneamente, a – mais ou menos efémera, mas sempre eficaz – divinização dos “entertainers” televisivos.

Ora Marcelo situou-se exatamente aqui, no ponto de convergência destes dois processos, e foi isso que lhe permitiu agora que ele, mais do que na verdade candidatar-se à Presidência da República, simplesmente se “transfira” – ou talvez melhor, “deslize” – do ecrã televisivo para o ecrã presidencial.

Assim se compreende também que ele tenha, e muito sagazmente, dispensado toda a habitual tralha de comissões de honra, direcções de campanha, outdoors, mandatários, etc., etc., reforçando assim a diferença do personagem e a naturalidade da manobra.

Face a isto, os adversários não têm uma tarefa fácil, nomeadamente Maria de Belém, a única candidata que o podia obrigar a uma segunda volta. Mas para isso era preciso que se compreendesse a tempo quais as fraquezas que a força Marcelo tão bem esconde, e isso não está, naturalmente, ao alcance de qualquer pequenote “spin doctor”…

Só falta um passo, e ele será dado muito em breve: o do anúncio de Marcelo que só será candidato a um mandato: é aí que verdadeiramente, pode estar a chave da vitória à primeira volta

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