TEMPOS IDIOTAS

 

É sem dúvida misterioso o caminho que levou a que a palavra grega “idiotés”- que na Grécia antiga designava aqueles que preferiam dedicar-se aos negócios privados do que aos assuntos públicos -, viesse a ter, nos tempos modernos, o sentido que hoje lhe damos: de vulgar, parvo, incapaz, como se o seu significado se tivesse invertido.

Mas é nesse mistério trajecto que certamente se encontra a chave de um fenómeno contemporâneo pouco estudado, apesar do seu impacto e da sua generalização: refiro-me ao cada vez mais intenso desprezo pela actividade política, e sobretudo às suas causas e consequências, nomeadamente aos imensos interesses financeiros, económicos, etc., que se alojam nesta posição.

O facto é o seguinte: com a globalização e a financeirização do mundo, e no quadro civilizacional de um individualismo que crê como num dogma no paradigma do ilimitado (da energia, do crédito e da dívida, dos direitos, etc.), a política enfrenta uma alternativa a que até não tem conseguido responder: ou se transforma profundamente, ou se torna no bobo (ou no bode expiatório, conforme as circunstâncias) de uma “nova corte” que é quem, por trás do biombo, na verdade governa o mundo.

O problema, é que isto exige um novo “tipo” de políticos, mais sábios e menos narcísicos, mais activos e menos voluntaristas, mais magnetizadores e menos prometeicos, mais de projectos e menos de lérias. De políticos, em suma, com visão… Obama andou lá perto, antes de se perder nos compromissos de Washington.

A campanha presidencial portuguesa que agora formalmente começa corre o risco, a julgar pelo que se viu na pré-campanha, de ser um ilustrativo exemplo desta farsa, talvez muitas vezes involuntária, em que se está a tornar a política dos nossos dias, ao resignar-se a ser um mero espectáculo em que se fala do que não se sabe e se promete o que não se pode.

No interesse, claro, de quem sabe e de quem pode, mas que está onde mais lhe convém: atrás da ilusório biombo que os políticos animam com o seu imprudente malabarismo e o seu contumaz narcisismo.

(11/01/2016)

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