SEM OUSADIA, NEM CORAGEM

No começo desta última semana de campanha presidencial, é penoso, embora não seja surpreendente, verificar que não há um vislumbre de tema sério em debate no espaço público. Viremo-nos pois para outros horizontes, e para as propostas que Thomas Piketty tem feito sobre a revolução que é preciso fazer na Europa, que é onde se joga hoje tudo o que na verdade conta para nós.

Lembro-me de, em Outubro de 2013, ter saudado na minha coluna no DN a recente-publicação de “Le capital au XIX siècle” (entretanto editado em Portugal pela Editora Temas e Debates) como uma obra que iria certamente fazer história. Não me enganei, o sucesso mundial da obra é bem merecido, apesar de se ter dado – a meu ver erradamente – importância demais ao tema das desigualdades, em prejuízo do tema do crescimento.

Entretanto, Piketty propôs, num texto intitulado “Changer l’Europe, maintenant”, um conjunto de ideias inspiradoras, que me parecem das poucas que nos pouparão ao abismo para que caminhamos. São elas a organização de uma conferência da Zona euro para decidir uma moratória sobre o pagamento das dívidas; o inicio de um processo de reestruturação da dívida, feita nos termos em que ocorreram na Europa nos anos 50 e que tanto beneficiaram a Alemanha; e a renegociação do tratado orçamental de 2012, enquadrando-o em parâmetros democráticos e de justiça fiscal.

São propostas – entre muitas outras, igualmente importantes – que, antes ou depois do próximo dia 24, duvido que alguma vez um ou uma presidente da república portuguesa tenha a ousadia de formular e a coragem de defender. Mas oxalá me engane.

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