O VÍRUS, O CLIMA E NÓS

O VIRUS MEDIÁTICO

– “Somos sem dúvida melhores a explicar do que a compreender” – é uma ideia que há muito pressinto e se reforça sempre que sigo os nossos media. É uma ideia de que tenho vindo a ter uma confirmação diária com o fluxo de informação contínua suscitada pela pandemia do Covid-19 e, em particular, com esses estereotipados momentos de “actualidades” que são,  hoje em dia, os telejornais.

– O que sempre se revela nesses momentos a um olhar mais atento e informado, é uma espécie de espectáculo de ventríloquo que fala, fala, fala, repetindo interminavelmente “o que se sabe”, ainda que manifestamente pouco ou nada compreenda do que diz. O que, com raríssimas excepções, se prolonga com o contributo na generalidade dos comentadores de serviço, que já sabemos quase sempre o que vão dizer antes mesmo de começarem a falar…   

– É também por aqui que passa hoje o contágio, neste caso um um contágio mental que, vez de informar, desorienta a generalidade das pessoas que seguem as “notícias”. Mas é talvez mesmo esse o segredo do sucesso das “actualidades”: explicar o que não se compreende – eis uma ideia a reter, para mais tarde desenvolver.

– Aqui é que se calhar se justificava – em nome da higiene do espaço público – algum “confinamento mediático”, que nos poupasse aos arrastados e intermináveis noticiários e às suas silly stories com que, a pretexto da pandemia, se embotam os neurónios dos telespectadores, logo numa altura em que eles precisavam de estar bem ágeis e criticamente atentos.

DO PROGRESSO À  CATÁSTROFE

– Há quem pense que se trata de uma palavra nova, mas não é: “colapsologia” foi uma palavra inventada há já meia dúzia de anos  por dois cientistas, Pablo Servigne e Raphael Stevens, com a obra “Comment tout peut s’effondrer”. O livro tinha por objectivo elencar, de um modo tão exaustivo quanto possível, todos os dados disponíveis  quanto à evolução dos ecossistemas terrestres, na perspectiva não só do seu eventual colapso mas, também, da antecipação das respostas possíveis a dar a um tal acontecimento. Ou seja, de responder ao risco de colapso com uma colapso-sofia, uma sabedoria adequada a tais circunstâncias, desafiando a humanidade a tornar-se…colapsonauta!

– O ponto de partida é nosso conhecido, já o tenho referido algumas vezes. Ele consiste em assumir que o modelo de crescimento infinito em que temos vivido é insustentável num universo finito, como é o nosso. Basta pensar, por exemplo, que se a China continuasse a crescer ao ritmo (pré-pandemia) de 7 % nos próximos 50 anos, teríamos nada menos do que 30 economias como a chinesa no planeta!….

– Foi neste pano de fundo que a convicção no progresso afrouxou até ao seu quase desaparecimento, tendo emergido no seu lugar como horizonte para o nosso tempo a noção de catástrofe, noção imprecisa mas a que acontecimentos como o da actual pandemia dão uma inesperada força, atractividade e consistência.

– Face à generalização deste catastrofismo, a colapsologia aparece com a vantagem de uma lucidez algo resignada, de um pragmatismo que aposta na mudança por pequenos mas exemplares passos, procurando ideias e vias para o futuro que permitam viver de facto de outro modo, sem ilusões sobre qualquer tipo de alterações radicais quanto ao caminho que o mundo tem vindo a seguir. 

– Com efeito, os adeptos da colapsologia, ainda que próximos dos diagnósticos dos ecologistas mais radicais, preferem opções e soluções de ordem mais individual, ou no âmbito de comunidades mais restritas que perfilhem as suas ideias, afastando-se das posições dos críticos mais extremos das alterações climáticas, seja na relação com os poderes públicos, seja na devoção a figuras mais ou menos pitorescas como Greta Thunberg.

A PANDEMIA E O CLIMA

Note-se, a propósito, que se algo de positivo todos nós já  ouvimos dizer a propósito da actual pandemia foi que, com o confinamento geral das pessoas e a paralisia das economias, a poluição finalmente diminuiu em todo o planeta, com as emissões de gazes com efeito de estufa a caírem para níveis quase insignificantes. Ou seja, que a catástrofe sanitária decorrente da pandemia do mCovid-19 teria sido, não uma maldição para a humanidade, mas uma bênção para o ambiente. O desconchavo desta oposição é evidente, ele alimenta-se de várias ilusões e de diversos equívocos. Basta ter presente que o que nesta matérias conta é a quantidade global de gazes com efeito de estufa efectivamente presentes na atmosfera, quantidade esta que na realidade pouco se alterou com a pandemia em curso. Tal só aconteceria com meses, talvez mesmo anos, de uma situação como a actual…

– Mas ainda mais importante do que isto, é o facto de se encontrar aqui a explicação –  que, note-se, nunca ninguém quer assumir – do sucessivo fracasso das diversas cimeiras sobre as alterações climáticas, como mais uma vez aconteceu com a  última, que  foi a Cimeira de Paris de 2015. Mais uma vez se festejou o “consenso” alcançado, os caminhos a tomar, as metas a atingir, os timings a cumprir, os custos a assumir, etc., etc…..e depois, nada, nada, nada! E porquê? porque os custos são – como agora verificamos –  aproximadamente estes, os que uma inesperada pandemia de repente pôs bem à vista de todos, tirando o tapete à retórica dos políticos e às suas vãs promessas.

RESILIÊNCIA E COMPLEXIDADE

– O facto decisivo é, permitam-me a insistência, que já se ultrapassaram os limiares de irreversibilidade, que já se atingiu o ponto de não retorno da civilização que temos vindo a construir (veja-se, a propósito, o excelente artigo de T. Lenton, da Universidade de Exeter, na revista Nature de Novembro passado), que foi o caminho que a humanidade escolheu como o seu destino e que se apoia numa resiliência ( isto é, na capacidade de voltar sempre à sua “forma” anterior) que, goste-se ou não, se tem revelado bem mais forte do que todas as pandemias. 

– (Igualmente decisivo, mas tenho de deixar isto entre parêntesis, é que não se podem de modo algum comparar os brutais efeitos que tem sobre a humanidade o espectro de uma mortífera pandemia mundial como a do Codiv-19, com as consequências das  longínquas – décadas?, séculos? –  e sempre controversas das alterações climáticas).

– De resto, é extremamente significativa a aspiração que por todo o lado se ouve de um rápido “regresso à normalidade”, a tomar a forma de um imperativo público cada vez mais exigente, ainda que matizado por umas tão consoladoras como  vagas promessas de que, claro, se vão fazer alterações e que “nada voltará a ser como dantes”… Era bom, seria magnífico, mas infelizmente é certamente o oposto que ocorrerá, como de resto sempre tem acontecido em situações semelhantes: muitas preces quando troveja, muitos foguetes ao primeiro raio de sol…

– Haverá certamente problemas novos, factos imprevistos, impasses de monta – e muitas mudanças. Certamente que também se tomarão algumas medidas no contexto das alterações climáticas e que continuará o carrossel das respectivas cimeiras, mas não nos iludamos: tratar-se-á sempre de fixar metas capciosas,  de encontrar remendos para as principais urgências, etc., tudo numa lógica de “damage control”, para que tudo “volte a ser como dantes”, sem mudança de rumo ou de paradigma.

– É que, longe do que os ecologistas radicais pretendem, a pandemia veio mostrar, não a viabilidade das teses e das vias que eles sustentam mas – muito pelo contrário -, a sua completa irrealidade, ao tornar-se evidente para todos que essas vias conduzem, mais coisa menos coisa, exactamente à situação em que o mundo vive hoje – isto é, a uma humanidade confinada e a uma economia paralisada. 

– Trata-se uma conversa afinal tão pueril como a que antecipa, como consequência da actual pandemia, o “fim da globalização”, como se se tratasse de uma opção fácil e que estivesse ao nosso alcance. Mas não, a globalização aconteceu, é história, como aconteceu o feudalismo, o renascimento ou tantas outras mutações históricas que ninguém preparou ou decidiu. A história faz-se assim, sem avisos prévios e numa linha de enorme contingência. A  questão é saber o que fazer – e há muito a fazer, assim haja vontade e coragem políticas para tal – com a tremenda complexidade que ela trouxe consigo, mas isto não é assunto para se resolver com fanfarronices ou voluntarismos, com “whishfull thinkings” ou…por decreto!

– Quando se olha para as grandes crises que marcaram a história da humanidade, verifica-se que o mais difícil foi sempre, como continua a ser, aprender em tempo útil alguma coisa com elas. Mas é esse o grande desafio: perceber que o mundo mudou e que essa mudança se fez e continua a fazer, não no sentido das tretas das “actualidades” e do infotretenimento, mas no de uma cada vez maior interdependênciacomplexidade e contingência da vida do mundo e da humanidade. 

– E que é esse mundo que é preciso perceber para, de um modo talvez mais limitado do que desejaríamos, conseguirmos intervir nele com alguma eficácia. Seguindo, sempre quer possível, a antiga máxima estóica que aconselhava a distinguir bem três coisas: em primeiro lugar, o que está efetivamente no nosso poder fazer; depois, o que está fora do nosso alcance conseguir; por fim e sobretudo, não confundir nunca estes dois planos, porque essa confusão conduz sempre a grandes desastres.

A ERA DAS PANDEMIAS?

VIVER COM O VÍRUS

– Sabem porque é que se muda de hora duas vezes por ano, em fins Março e de Setembro? Por uma razão simples, que raramente se reconhece –  é que mais fácil mudar de hora do que mudar de hábitos. Com a pandemia do coronavírus e o súbito reaparecimento do medo da morte (há muito obsessivamente recalcado nas nossas sociedades) pareceu que isto se ia alterar, mas tratou-se apenas de um sobressalto, que rapidamente cedeu à força do hábito.

– Daí que a crescente intensidade dos apelos à retoma da normalidade e ao fim do “estado de emergência” não tenha sido, para mim, motivo de grande surpresa. Claro que o argumento económico tem peso, e não é pequeno, muito pelo contrário, ele é mesmo cada dia que passa mais incisivo. Mas o pano de fundo das exigências de normalização decorreu sobretudo da dificuldade humana, para não dizer mesmo da actual  incapacidade humana, para viver de outro modo que não aquele a que se habituou nas últimas décadas.

– António Costa, que como se sabe nem sempre é dotado para fórmulas felizes, foi quem melhor expressou essa aspiração e o estado de espírito geral e dominante quando afirmou que “temos que aprender a viver com o vírus.” É isto, ponto final. E a isto só há que acrescentar uma pergunta, no sentido de saber se se esta, digamos, “aprendizagem”, não será o primeiro passo de uma nova era em que as pandemias deixam de ser uma excepção para se tornarem, senão a regra, pelo menos algo de bem mais frequente.

– Isto é, se não estaremos a entrar mesmo, como se da outra face da globalização sem regras em que temos vivido se tratasse, numa nova era histórica, a era das pandemias. Era que talvez não seja só de natureza sanitária, mas em que as epidemias alastrarão do biológico para outos domínios, nomeadamente o informático, o tecnológico, etc… É uma hipótese, na verdade aterradora mas plausível, que a leitura do estimulante pequeno livro Frente ao Contágio, do italiano Paolo Giordano (que a Editora Relógio de Água acaba de editar em português) permite entrever. Porque o contágio é sobretudo, como bem sublinha Giordano, “uma infeção na nossa rede de relações.”(p.14).

– Seja como fôr, o facto é que a experiência dos limites de que tenho falado nos últimos textos toca aqui num dos seus extremos, porque o ser humano contemporâneo só sabe viver no presente, há muito que ele perdeu tanto o sentido da história como o do futuro. Ou seja, o “presentismo” amputou-o tanto da informação retrospectiva como da imaginação prospectiva, e sem estas duas dimensões vitais ele vive quase acéfalo, encurralado, refém da actualidade e do seu carrossel de “notícias” que, na nossa civilização viral , tomou  tragicamente o lugar do conhecimento, do debate de ideias e, mesmo, da própria vida interior.

RACIONALIDADE e CONFORTO

– O susto foi grande, a apreensão ainda o é, mas tudo decorre em ambos os casos sobretudo disto: do modo como o surto pandémico pôs e põe em causa a nosso presente, revelando sem margem para equívocos ou para rodeios que na verdade o ser humano deixou de controlar inteiramente a “forma de vida” que ele próprio criou, imaginando-se senhor de uma racionalidade tão soberana como superior e definitiva. Agora, a realidade do mundo finito impôs-se  à ilusão da sua infinitude.

– Dito de outro modo, o que a experiência dos limites que a pandemia trouxe de mais literalmente insuportável foi a força da contingência, força quase sempre ignorada mas  que nenhum conhecimento ou saber consegue evitar ou eliminar. Foi de resto por isso que há muitos anos deixei de falar de racionalidade no singular, concentrando-me mais modestamente na análise do “jogo de racionalidades” que tece o nosso destino individual e colectivo. 

– Para perceber este “jogo”, olhemos para outra vertente da nossa contemporaneidade ocidental, olhemos para o mundo que construímos nas últimas décadas, digamos aí desde o fim da 2ª Grande Guerra. Se tivesse que destacar um – e só um – aspecto que distinga bem o mundo de hoje do mundo de então, arriscaria dizer que ele se encontra e condensa num feixe de factores a que chamaria o conforto. Prefiro este termo aos de riqueza, liberdade, progresso, bem-estar, entre tantos outros possíveis. E prefiro-o porque creio que ele concentra, combinando-os, todos estes e outros mais, traduzindo bem o horizonte que hoje se nos impõe como a mais forte exigência do homem  contemporâneo, variando naturalmente com as suas condições económica, social, cultural, etc., mas atravessando-as a todas.

– Conforto que tem uma dupla face e função – a da pressão que cria sobre as sociedades que dele beneficiam e não se imaginam de todo a viver sem ele – e esse é o trauma que, a meu ver, já está colectivamente instalado em boa parte da humanidade, com a  pandemia do coronavírus. Mas também a do modelo  que todas as sociedades do mundo ambicionam seguir e atingir, sabendo todos que na verdade tal é materialmente, completamente impossível que aconteça. 

O GRANDE PARADOXO

– É este paradoxo que nos coloca no cerne dos impasses que minam todos os debates sobre a crise ecológica e as alterações climáticas, como veremos em breve. Para já, o que interessa é compreender que o conforto, no sentido que aqui lhe dou, é indissociável do paradigma do ilimitado que tenho referido, nomeadamente pela crescente pressão exercida pelo individualismo extremo do nosso tempo e pela degradação que ela implica, tanto ao nível da biosfera como ao nível da organização da vida humana, individual e colectiva, e muito particularmente da sua dimensão democrática. 

– Como Paolo Giordano diz no seu livro, é urgente trocar a perspectiva que fez do ser humano o senhor absoluto do universo por uma visão que veja na comunidade humana “a espécie mais invasora de um frágil e fabuloso ecossistema.”(p.52) Como urgente é, acrescento eu, alterar ao mesmo tempo a concepção que fez da globalização a chave do nosso radioso futuro quando, na verdade, – se não nos dotarmos de instituições globais que a controlem, enquadrem e regulem – ela pode bem vir a revelar-se o coveiro da humanidade. Também aqui temo que seja já muito tarde, talvez tarde demais. Mas, dado o que está em jogo, não podemos deixar de o tentar.

– O tópico do conforto é importante a vários títulos, mas os principais talvez sejam os da sua relação com a crise ecológica, por um lado, e com a democracia, por outro. Fiquemos por este último, com um apontamento breve. Com efeito, tudo indica que não parece que a democracia seja exequível abaixo de um certo nível de conforto (ou, pelo menos da plausível expectativa da sua fruição) das sociedades e dos indivíduos contemporâneos. Não foi por acaso que, num texto anterior, referi o individualismo extremo entre os “quatro cavaleiros do apocalipse“ do nosso tempo. É que, tendo-se o indivíduo tornado no valor central da nossa civilização, as suas necessidades de toda a ordem (material, social, cultural, etc.) cresceram em paralelo com essa hiperbólica valorização, subalternizando inteiramente a vertente colectiva e a dimensão ambiental das sociedades.

– Ora, foi justamente essa dimensão individualista da democracia que mais depressa se espalhou por todo o mundo, com a sua expressão consumista a relegar para um insignificante plano a sua matriz cultural, que (é sempre bom lembrá-lo) era o aspecto central da concepção e da vida democráticas. Foi isso, de resto, que o retrato das várias fracassadas tentativas de “exportação” da democracia nas últimas décadas evidenciaram de um modo inquestionável.

–  Não me parece, pois, que seja de acompanhar Almeida Fernandes ou Cristina Figueiredo, quando – respectivamente no Público e no Expresso do último sábado – especulam sobre a influência da actual pandemia sobre a crise da política e a democracia. Não, claro, que ela não tenha efeitos e consequências, apesar de ainda estramos longe de poder apurar tudo isso com um mínimo de rigor. Mas sobretudo porque os factores decisivos da crise, tanto da democracia como da política, têm raízes mais complexas e profundas, que já vêm de muito longe, sendo bem anteriores à pandemia. 

A pandemia, neste ponto, funcionou mais como revelador ou acelerador de tendências há muito em curso, do que como a causa do que quer que seja. E são aqueles factores que convém ter bem presentes, como dezenas de investigações exaustivas e originais mostraram nos últimos tempos, como já tive ocasião de referir, nomeadamente em diversas intervenções no “Canal MMC“ do YouTube no decurso do ano passado. 

SEM RETORNO

SÓ MUITO ADIANTE SE SABE O QUE FICOU PARA TRÁS.

– Uma das minhas máximas preferidas diz que “só muito adiante se sabe o que ficou para trás.” Daí que, de momento, não me surpreenda que se multipliquem as inevitáveis perguntas sem resposta, do género, por exemplo: mas afinal esta pandemia do Codiv-19 será um prenúncio do que nos espera no futuro? Ou será mais uma excepção, a juntar às várias que já ocorreram na história da humanidade? Ou ter-se-á tratado de uma negligência, que há que ultrapassar, por grave que tenha sido e ainda seja?

– A isto acresce que  cada um vê na actual pandemia o que lá quer ver: os ecologistas radicais vêem o anunciado colapso global, enquanto os ecologistas moderados espreitam a oportunidade para reforçar as suas propostas; os soberanistas diagnosticam o fim da globalização – ou mesmo da União Europeia – e o inevitável retorno das fronteiras, enquanto os globalistas ser resignam à necessidade de alguma regulação; os evangelistas das novas tecnologias não perdem a ocasião para mostrar que só elas salvarão o mundo, enquanto os tecnófobos denunciam tudo isso como um embuste.  

– Os reformistas, por sua vez, dirão que é o momento da mudança, que nada voltará a ser como dantes, ao mesmo tempo que os mais conservadores prevêem um regresso à normalidade, com diferenças  claro, mas sem grandes rupturas. E haverá certamente ainda os que, como aconteceu a seguir à Peste Negra de 1348, se entregarão a uma dura penitência para expiar a sua suposta culpabilidade na catástrofe, enquanto outros não pensarão senão em orgias fantásticas que finalmente os compense de semanas e semanas de penosa reclusão! 

– Para já não falar de ensaístas que, como José Gil, levam o desconchavo ideológico-conspirativo ao ponto de considerarem que a pandemia actual do coronavírus é – quem diria?!… – “a manifestação extrema da doença tecno-capitalista que há dois séculos se infiltrou nas sociedades humanas” (Público, 13.04.2020).

– Enfim, há como se vê para todos os gostos, desde que tudo se mantenha no vasto quadro dos estereótipos habituais, tão previsíveis como inúteis. Insisto, por isso, no que tenho dito: creio que se trata de outra coisa, de algo que engloba sem dúvida algumas das hipóteses e perguntas que referi, mas é preciso ir mais longe e mais fundo no sentido de pensar de facto o significado inédito do que vivemos hoje e do que se anuncia no nosso horizonte.

– É disto, e só disto, que aqui se trata. A pandemia que assola todo o mundo é, a meu ver, um acontecimento que descredibilizou as canónicas larachas que há anos se multiplicam na boca dos políticos e dos media, irmanados como verdadeiros siameses numa sufocante tagarelice marcada pelo garrote do politicamente correcto, cujo objectivo é – conscientemente ou não – o de  impedir os cidadãos de pensar e de se aperceberem dos traços fundamentais do mundo que, na realidade, temos vindo a construir. E das suas incontornáveis consequências, claro.

 LIMIARES DE IRREVERSIBILIDADE

– No meu último texto procurei – a traços largos, que neste âmbito só podem ser muito sintéticos, mas sem prejuízo do rigor que o tema exige -, avançar uma leitura do nosso tempo, defendendo a perspectiva que o novo mundo em que vivemos é o de uma civilização viral, alimentada pelo que designo como o paradigma do ilimitado.

– Esta perspectiva aponta para um facto que poucos conseguem – ou querem – ver, que é o facto que vivemos uma situação historicamente inédita que não se compadece com remendos, paliativos, adiamentos, metáforas, anestesiantes, desvios e tudo o mais que se quiser no registo da manutenção do status quo.

– E esta situação é inédita porque, a meu ver, esta civilização se caracteriza sobretudo por ter atingido um ponto não retorno, isto é, por ter ultrapassado os limiares de irreversibilidade em domínios essenciais da vida humana e da vida do planeta, pelo que aquilo que nos espera é, na verdade, o desconhecido, na mais inquietante e absoluta das formas que ele pode tomar. Nunca tal tinha acontecido na história da humanidade, que  desde o séculos XVI até ao nosso século se foi identificando cada vez mais com o completo domínio do Universo.

–  No fundo, a questão decisiva que se nos coloca hoje e que devia ser tema de reflexão obrigatório para todos nestas quarentenas é de formulação muito clara e pode desdobrar-se em duas ou três perguntas: o que somos nós (sobretudo nós, ocidentais) no apogeu desta forma de vida que o paradigma do ilimitado nos proporcionou? Que balanço fazemos do caminho feito e dos resultados alcançados? O que queremos para o nosso (eventual) futuro e o dos nossos filhos, mais do mesmo ou algo distinto – e, neste caso, o quê?

– Não é fácil abordar estas questões, que aqui apenas pretendo sinalizar, juntando-lhes modesta e sucintamente algumas ideias. Comecemos pela “forma de vida”. E, inspirando-me em Spinoza – cuja convicção neste ponto partilho inteiramente – diria que todas as “formas de vida” tendem não só a persistir na sua existência, como a alargar as suas possibilidades até ao limite do possível, só desistindo disso quando a tal são forçadas por forças que lhes são exteriores e mais fortes do que elas. Toda a história da humanidade confirma, de resto, este “axioma”, sem o qual estaríamos talvez ainda a viver nas cavernas do paleolítico…

– Trata-se de um axioma que se inspira na tese que o filósofo das ciências Thomas S.Khun sustentou há anos com a sua famosa teoria das revoluções científicas, ao mostrar que um paradigma não só vai sempre até ao limite das suas possibilidades, como persiste nele “dogmaticamente” por mais dificuldades que enfrente, até que outro paradigma apareça e se revele capaz de o substituir integralmente. Isto é, se mostre capaz de resolver os problemas que o anterior não conseguia solucionar, mas sem perder nenhuma das suas anteriores capacidades operatórias e explicativas. Foi, como se sabe, o que o génio de Einstein conseguiu,  face aos múltiplos e sucessivos impasses do paradigma físico anterior, o galilaico-newtoniano.

– Também o filósofo Gilbert Simondon andou perto desta ideia, com o seu conceito de “saturação”, ao defender que um universo mental (mas podíamos dizer económico, cultural, social, ecológico, etc.) está saturado quando chegou ao intransponível limite das suas possibilidades. E que só então, nessas circunstâncias extremas, quando a sua sobrevivência lhe parece estar em causa, é que ele se resigna a transformar-se, umas vezes com sucesso outras não.

– Este esticar dos limites das “formas de vida” (seja na visão de Kuhn ou de Simondon) está na origem de muitas das chamadas inovações que, em múltiplos domínios, muitas vezes não são mais do que astuciosas tentativas (também aqui, umas vezes com sucesso, outras não) de prolongar “formas de vida” em risco, seja em que âmbito fôr.

GLOBALIZAÇÃO – UMA NOVA FOLGA?

– Foi claramente este o motor da mais recente globalização, que também enfrenta agora os limites da sua dinâmica, depois de ter conhecido uma aceleração sem precedentes nos últimos 30 anos. E na origem deste processo estiveram justamente, por sua vez, outros limites: os do capitalismo no Ocidente que, não conseguindo “comprimir” mais os salários nos países ocidentais, descobriu no recurso aos baixos salários da Ásia, nomeadamente na China, o modo mais eficaz de aumentar os seus lucros .

– Ao fazê-lo, ao deslocar para a Ásia o essencial da sua produção, o capitalismo baixou os níveis de “saturação” que estava a atingir no Ocidente, ganhando assim mais uns anos de folga e de grandes lucros, fazendo-o ainda por cima com ganhos para o ingénuo consumidor ocidental, convencendo-o que ele vivia, como dizia o slogan então repetido ad nauseam, uma definitiva era de “globalização feliz”.

– E se digo que o que se conseguiu foi uma “folga”, é porque – ponto fundamental que é constantemente esquecido e/ou recalcado – vivemos num mundo finito que, como tal , não comporta nenhum recurso infinito. E esse mundo não tardará, ao que tudo indica, a fazê-lo saber a uma humanidade anestesiada pela húbris voraz do paradigma do ilimitado e por todos os seus engodos, por mais que os evangelistas da inovação permanente procurem inculcar o contrário, nomeadamente através do endeusamento dessa forma cada vez mais informe e mortífera que é, hoje, a do mercado.  

– Ou melhor, do “novo” mercado, porque a palavra pode ser a mesma que se usa há séculos, mas a realidade que ela designa é hoje – não nos iludamos sobre este ponto – profunda e substancialmente diferente daquela a que, tradicionalmente, ela se referia. Ela não é, numa cada vez maior parte dos casos e situações, senão uma oportuna e eficaz máscara que esconde profundas  transformações que importa escrutinar e compreender.

UMA CIVILIZAÇÃO VIRAL

O NOVO MUNDO

 – A abordagem que propus no texto anterior exige, a meu ver, que se vá mais longe se quisermos compreender o actual momento que a humanidade vive, o porquê do pânico e do caos em que o vírus COVID-19 pôs todo o mundo, revelando as imensas fragilidades em que assenta a civilização que temos vindo a construir. 

– É preciso começar por lembrar que epidemias e pandemias aconteceram às dezenas ao longo da história da humanidade (basta lembrar, por exemplo, as provocadas pelos vírus da gripe espanhola, da varíola, da sida, da gripe suína (H5N1), do SARS ou do MERS), mas nunca o pânico teve a intensidade daquele que se vive agora, colocando  o mundo à beira de caos generalizado, cujos efeitos – de toda a ordem –  estamos longe de imaginar.

– Deixando agora de lado o criminoso comportamento da China (quanto mais se sabe o que se passou, mais eu insisto neste ponto) e a incúria dos dirigentes nacionais e mundiais a que me referi no último texto, isto acontece, a meu ver, por uma razão simples e clara, que se desdobra por várias outras que iremos vendo. E essa razão é que vivemos hoje num novo mundo, completamente diferente do que existia até há poucas décadas, num mundo que temos vindo a construir sem disso termos qualquer consciência clara (como alguém escreveu, “estamos a fazer história sem saber que história é que estamos a fazer”), nem – e este ponto é nuclear – qualquer noção das suas consequências, a não ser quando elas começam a ocorrer em cascata, como aconteceu com as alterações climáticas, o colapso financeiro de 2008, a interminável crise do euro, etc., etc. 

– Não basta contudo dizer que este novo mundo é o da globalização – seja ela glorificada ou diabolizada – até porque globalizações já houve várias, desde a do século XV até à do início do século passado.  O que é preciso dizer, e sobretudo compreender, é que o novo mundo em que vivemos se caracteriza por a globalização actual se desenvolver no âmbito de um modelo civilizacional inédito, marcado pelo que há muito designo como o paradigma do ilimitado.

O PARADIGMA DO ILIMITADO

– Este paradigma define-se por quatro parâmetros, em acelerada – e inédita, repito – convergência, que são: uma globalização sem qualquer regulação nem instituições (políticas, económicas, sanitárias, culturais, etc.) adequadas e indispensáveis; um capitalismo (o bem chamado “financismo”) que descolou da economia impondo-se pela sua “criatividade” especulativa sem escrúpulos nem limites;  umas novas tecnologias, que exercem sobre tudo e sobre todos, sem quaisquer regras, um domínio sem precedentes históricos; um individualismo narcísico, sem referências nem valores, a redefinir a humanidade contemporânea (desde o plano da subjectividade ao das interações colectivas), como se ela fosse composta por verdadeiros mutantes.

– É este nosso novo mundo, que é uma sofisticada reinvenção da selva à medida do nosso tempo, que é preciso analisar e compreender, o que só é possível ultrapassando as barreiras com que as elites financeiras, políticas e mediáticas nos procuram distrair e anestesiar, oferecendo-nos as mil faces de um entretenimento cada vez mais caleidoscópico ( que vai da mais patética diversão às sempre tão selecionadas “notícias” passando pelos inúmeros e sempre ruminantes “comentários”), que hoje ocupa a quase totalidade do espaço público, tornando na verdade quase impossível essa tarefa tão indispensável que é …pensar!

– Não vale pois a pena perder um minuto com essas velhas lérias, de esquerda ou de direita, nem com os rituais em que elas se comprazem – entre os remendos políticos sempre atrasados, as oportunistas ladainhas que permitem aos “media” surfar interminavelmente todas as “crises” e a alacridade autossatisfeita dos nossos humoristas -, determinando assim o ritmo a que bate o coração dos cidadãos, das nações e do mundo e tornando o impensar talvez no mais letal vírus do nosso tempo. 

– É por isso urgente mudar de lentes e de perspectiva e perceber que –  como já se pode ter compreendido pelo que tem acontecido com as alterações climáticas ou a crise financeira – a humanidade do paradigma do ilimitado leva hoje tudo aos seus mais extremos limites de possibilidade, como nunca tinha acontecido na história humana, sem qualquer prudência ou precaução, como se na verdade acreditasse que o ilimitado está ao seu alcance.

O BOOMERANG DOS LIMITES

– A tendência pode vir de longe – Darwin andou perto de o afirmar –, mas as suas condições de concretização são talvez bem mais recentes e contrariam frontalmente a máxima de Marx segundo a qual “a humanidade não cria problemas que não seja capaz de resolver.” Hoje sabemos que Marx estava errado e que cria mesmo, ao avançar por caminhos sem avaliar as suas consequências, transformando assim, de excepção numa  frequente inevitabilidade, o famoso “cisne negro” teorizado por Nassim N.Taleb. 

– O novo mundo do paradigma do ilimitado caracteriza-se justamente por levar esta tendência ao extremo, com os quatro cavaleiros do apocalipse que atrás referi (nova globalização, novo capitalismo, novas tecnologias e novo individualismo) a trabalharem em convergência, de tal modo que desapareceu qualquer margem de manobra no sentido de alterar o “estado do mundo”, como de resto só não viu quem não quis com o modo como se  “resolveu” – ficando tudo quase rigorosamente na mesma – a crise financeira de 2008, a crise do euro ou se vai tratando da crise ecológica.

– O que aconteceu foi que o novo mundo se construiu , sobretudo nas últimas décadas, na denegação (ou seja, numa negação que se sabe ser falsa, mas é conveniente ou vantajosa, noção inspirada na “verneinung” tematizada por Freud )  de todos os limites – seja no âmbito da energia ou do consumo, dos direitos ou dívida, entre outros .

– O que torna uma crise sanitária como a actual mais grave do que as outras , anteriores ou presentes, é o facto de ela expôr em toda a sua imensa extensão, não só os “pés de barro” em que a nossa civilização assenta, como a sua “natureza” viral. E este traço faz dela uma civilização nova, sem precedentes históricos e de efeitos imprevisíveis. E de o fazer a partir do seu ponto mais cego, que é o de uma sociedade que vive esconjurando a cada segundo a maior e a mais ignorada das evidências que, como se viu, num sopro repõe, com a força de um boomerang, a incontornável força dos limites: isto é, a evidência da morte, sem a qual não é possível dar qualquer sentido à vida.

– Tal como vimos  com  a discussão das alterações climáticas, em que para lá do Carrossel das Cimeiras Inúteis nada –  rigorosamente nada – se fez,  também  com a crise sanitária actual nada de fundo mudará, tudo se vai resumir aos remendos possíveis e ao “damage control” do costume,  com a humanidade “morta” por seguir em frente até à próxima  – e “imprevisível”, claro! –  crise, numa espiral também ela ilimitada. Não devíamos, é certo, mas é assim que vivemos neste novo mundo, que construímos incentivados por todos os partidos e por todos os media, cegos ao apocalíptico abismo do paradigma do ilimitado, com as suas esplendorosas fantasias de riqueza e bem-estar, de paz e de crescimento, de solidariedade e de eternidade. 

– A ocasião seria óptima, se ainda houvesse um átomo de inteligência e de coragem em quem dirige o mundo, para pensar a sério onde nos conduz esta globalização selvagem, sem regras nem instituições, esta União Europeia sem estratégia nem potência, estas novas tecnologias sem lei nem regulação, este individuo “imortal”, sem destino nem valores. E “pensar a sério” seria, no mínimo, pensar um novo paradigma, capaz de combinar e de impor duas dimensões fundamentais: um novo sentido dos limites com uma nova avaliação dos possíveis. Mas não nos iludamos, é já talvez muito tarde para isso.  

O PONTO DE NÃO-RETORNO

-Tal facto parece, na verdade, muito improvável. O mais certo é que tenhamos já ultrapassado um limiar de irreversibilidade, um ponto de não-retorno e que já não haja margem de manobra para um tal passo. O salto para a globalização foi, na verdade, um salto para a selva: sem leis, sem regras, sem valores, sem instituições. Foi o massacre da diversidade do mundo em todos os planos – fossem eles naturais ou culturais – na guilhotina de um mercado endeusado como a única dimensão legitima para tutelar todos os sectores da vida, tão brutalmente dominadora como verdadeiramente global. 

– Tudo o mais, nações, culturas, fronteiras, tradições, valores, religiões, instituições, tudo, por mais secular e valioso que fosse, foi esmagado pelo rolo compressor desse novo e único deus na terra –  foi assim que aqui chegámos e aqui estamos, primeiro só desamparados, depois já angustiados, agora cada vez mais aterrorizados.

– Penso há muito – e fui-o dizendo e escrevendo, sem ilusões – que as democracias modernas não dispõem nem dos meios necessários nem dos dirigentes capazes para enfrentar – e muito menos para prevenir – os tremendos problemas que elas mesmas criam, seja no plano económico ou financeiro, educativo ou cultural, social ou ecológico. Que as democracias se têm desenvolvido “contra si mesmas”, como Marcel Gauchet escreveu no título de um dos seus livros, em que contudo não assumiu a tese mais radical que eu aqui sustento.

– E essa tese é que entrámos nas últimas décadas numa fase histórica em que, acumulando os efeitos as várias crises que referi, passámos já o limite da irreversibilidade, ou seja, o ponto de não-retorno. E como acredito profunda e, creio, fundamentadamente na contingência, penso também que se poderiam ter tomado outros caminhos, como sempre acontece tanto na história como nas nossas vidas. Mas há certas vias que – como todos bem sabemos pela nossa experiência pessoal – uma vez tomadas, fecham irreversivelmente outras que, antes, eram possíveis.

– É esta hoje a situação da humanidade. E não é de apontar culpados que agora se trata, mas de compreender, tão perto das lições da história como longe de moralismos anacrónicos, o que nos trouxe aqui e que margem de manobra – por mínima que seja, caso ainda exista – temos  nós.

– Um ponto é aqui crucial: seja-se optimista ou pessimista, temos de partir do reconhecimento da finitude do mundo e da vida, da consciência que o mundo é finito e que o nosso destino como humanidade se cruzará inevitavelmente com essa finitude, tal como o nosso destino individual se cruzará com a inevitabilidade da morte. 

– Este ponto é, de resto, uma condição sine qua non  de qualquer ética digna desse nome. O problema, e é um grande problema, muito ligado ao feixe de factores que nos trouxe aqui, decorre de o triunfo do paradigma de ilimitado só ter sido possível negando a naturalidade e a inevitabilidade da morte, que foi sendo esconjurada de múltiplas formas até ao seu desaparecimento das nossas vidas, do espaço público e mesmo privado, sobrevivendo hoje apenas como espectáculo, como acontece com a morte das chamadas “celebridades”.

– Daí que a saúde tenha, há muito e perante a indiferença e o impensar geral, tomado completamente o lugar da educação nas políticas públicas de todos os países; daí que  culto do juvenilismo se tenha erigido na liturgia tão vazia como central do nosso tempo, daí que o transumanismo (“já nasceu a pessoa que vai poder viver mil anos” afirmou por exemplo Audrey de Grey, líder da Fundação SENS ) se tenha imposto com a inusitada facilidade com que o fez.Etc.

– O caminho, contudo, está feito e, repito, creio que ele é sem retorno. Tudo se encaminha para que, na melhor das hipóteses, vivamos numa democracia cada vez mais formal, mínima e residual, animada já não por qualquer tipo de expectativas ou convicções colectivas, mas sustentada pelos “cadáveres adiados” (Fernando Pessoa) da política e dos media – no fundo cada vez mais iguais -, pelas suas crises e pelos seus remendos sem futuro, num mundo que na verdade os dispensou há muito, no júbilo consumista – agora em angustiada suspensão – de um presente atordoado e sem sentido.

Voltarei ao tema.

A CHINA DE QUARENTENA, JÁ!

A PANDEMIA NÃO CAIU DAS NÚVENS

– Tinha decidido fazer um “retiro social” em 2020, para acabar dois livros e, entretanto, dedicar-me a alguns outros trabalhos igualmente importantes. Infelizmente, a eclosão do “coronavírus” não me permite manter inteiramente aquele retiro, porque julgo imperativo dizer algumas coisas que, no essencial, ninguém diz. É o que hoje aqui procuro fazer, num texto a que outros certamente se seguirão.

– Se queremos ter futuro, algum futuro, deixemos por momentos as “actualidades” e olhemos para a causa do inferno que o mundo vive hoje. Porque há uma causa: ela existe, está bem identificada, não suscita controvérsias, mas está sujeita a uma invisível censura global, nuns casos intencional noutros da ordem da negligência, como se a pandemia tivesse afinal caído das nuvens…Mas não, a pandemia do CODIV-19 nasceu na China e de lá virão outras se entretanto nada fizermos para o impedir.

– Não vou por isso acrescentar nada ao “folhetim” da crise do novo vírus, do seu aparecimento e da sua progressão, do seu contágio e das medidas tomadas, seja no âmbito nacional ou internacional. Disso estamos todos bem servidos e todos  convergimos na solidariedade com os infectados e os afectados, no reconhecimento aos serviços médicos e sanitários, sem grandes discussões sobre as opções políticas tomadas e em curso.

– O meu foco, de que quase ninguém fala mas de que é fundamental que se fale já – e muito – é, em primeiro lugar, o de como se chegou aqui e de como é que se impedirá que uma tal situação se repita. E depois, em segundo lugar, de qual o significado civilizacional de tudo o que aconteceu, que mundo se pode esperar que surja desta epidemia e das suas consequências.

A IRRESPONSABILIDADE CHINESA E A NEGLIGÊNCIA GERAL

– Fiquemos hoje pelo primeiro, de um modo claro e directo: chegou-se aqui por irresponsabilidade criminosa das autoridades chinesas e por generalizada negligência política dos dirigentes políticos. Começando por estes últimos, houve alertas suficientes para que tudo pudesse ter sido diferente. Desde logo o alerta da então ministra da Saúde francesa, Agnès Buzyn, a 21 de janeiro passado, a pedir medidas preventivas devido às informações que já então tinha e circulavam em relação ao que se passava em Wuhan, alerta que foi completamente ignorado.

– Informações que eram de facto alarmantes, uma vez que a China, onde o primeiro caso de infecção pelo Corona Vírus tinha ocorrido a 17 de Novembro de 2019, só informou desse facto a Organização Mundial de Saúde (OMS) a 3 de Janeiro deste ano. E foi logo também em janeiro que um grupo de peritos liderados por Alain Bauer alertou várias autoridades nacionais e internacionais para as medidas sanitárias e políticas que era urgente tomar face à situação de Wuhan, tendo igualmente sido ignorado (com excepção de Taiwan, com os bons resultados que hoje conhecemos) por todos os dirigentes, talvez vítimas, como diz Bauer, do que ele  designa como “o síndroma de Semmelweis”, nome do médico húngaro que, em finais do século XIX, foi demitido do Hospital de Viena onde trabalhava por defender, numa perspectiva anti-infecciosa, a  lavagem das mãos antes de qualquer acto médico, em particular no domínio ginecológico!!!!… 

– É assim extraordinário, ainda por cima tendo em conta que os últimos e mais graves surtos virais tinham tido origem na China, que o alerta de janeiro da ministra francesa da Saúde, o dos peritos acima referidos (e os de diversos serviços de saúde de vários países que já tinham a mesma informação), tenham sido, primeiro simplesmente ignorados, depois menosprezados pelos principais dirigentes políticos mundiais, revelando assim bem a incúria com que exercem as suas responsabilidades políticas para com os seus povos.

DOIS PONTOS A RETER

– Há dois pontos a reter: o primeiro é que nenhum líder político, nacional ou internacional, esteve à altura das circunstâncias, entretidos com as politiquices do costume. Só a seguir, quando a bomba rebentou,  é que todos começaram a fazer o que podiam numa lógica de “damage control”, a única que na verdade a sua anterior negligência agora lhes permitia. É de lhes desejar o maior e mais rápido sucesso nesta tremenda batalha, mas também de lhes colocar já, mesmo já, a pergunta sobre como se evitará que tal situação se repita.

– E esta pergunta é vital, como o é a resposta que lhe for dada – e este é o segundo ponto a reter. É que, além de não se poder continuar a falar desta pandemia como de algo que não podia ser evitado – porque  podia! – , há hoje informações científicas seguras não só de como este  vírus surgiu e se propagou, mas também de como outros, provavelmente bem mais devastadores, inevitavelmente surgirão no futuro próximo se rapidamente não forem tomadas medidas drásticas.

O QUE SE SABE

– Voltamos aqui ao que se sabe, para irmos depois ao que ninguém diz: o que se sabe, é que estas novas doenças virais (da sida ao ébola, do SARS ao COVID-19) não aparecem espontaneamente no ser humano, são doenças transmitidas por animais ( as chamadas “zoonoses”), sobretudo por animais “próximos” do homem, como é o caso dos mamíferos. O que já se tinha verificado com o SARS em 2002, é que tal transmissão ocorre nos mercados chineses de animais selvagens  – que são aos milhares – onde eles são vendidos, mortos  ou vivos, não só para a alimentação mas também para outros fins, medicinais, religiosos, afrodisíacos, etc.. 

– No caso do SARS sabe-se que a transmissão aos humanos foi feita pelo gato civeta, animal que por sua vez tinha acolhido o vírus vindo do morcego. E aqui é de lembrar que já havia precedentes, no que diz respeito à irresponsabilidade das autoridades chinesas, pois quando o vírus SARS eclodiu na China, em 2002, todas as informações sobre ele foram censuradas, para não prejudicar o ambiente político do momento, que era o da entronização do presidente Hu Jintao. 

– Foi esse comportamento que se repetiu agora quando, em Dezembro de 2019, as autoridades chinesas ameaçaram brutalmente o médico Li Wenliang  quando ele as tentou alertar para a eclosão de um novo vírus em Wuhan, tendo mesmo destruído amostras clínicas e feito desaparecer toda a informação sobre o assunto.

O QUE NINGUÉM DIZ

A responsabilidade da China na pandemia mundial que hoje se vive é pois imensa, e foi reforçada pelos estudos recentes feitos em Inglaterra, na Universidade de Southampton, que apontam para o facto de, caso o poder chinês tivesse tomado medidas imediatas aos primeiros alertas que teve sobre o aparecimento do actual vírus, a epidemia poder ter sido evitada. A China está pois na origem da pandemia mundial deste vírus, o seu comportamento dos seus dirigentes foi  – é preciso dizê-lo com toda a clareza, agora que ela pretende aparecer com o “bom da fita”- de uma negligência verdadeiramente criminosa.

A impunidade da China, bem como a cumplicidade dos vários dirigentes mundiais com ela tem que terminar. Wuhan /2019 repetiu, na incompreensível indiferença geral, o que aconteceu em 2002 – e ninguém sabe o que virá a seguir se não forem tomadas já medidas drásticas nesse sentido. Neste quadro, a cumplicidade da OMS com a China foi particularmente lamentável, ao garantir em meados de janeiro que a situação em Wuhan estava controlada – o que era falso -, fazendo então os maiores elogios às autoridades chinesas.

– Os responsáveis chineses já  tinham dito em 2002 o que agora repetem, que vão proibir o comércio de animais selvagens para alimentação e outros afins, mas tal não é verdade, tudo indicando que tolerância com esse comércio continua, bem como a adopção doméstica de alguns destes animais. E o mais grave é que esta atitude dos dirigentes chineses se deve em boa parte à relação de milhões chineses com os seus diversos animais selvagens, que estão na base de muitos aspectos da sua vida, nomeadamente da medicina tradicional – é o caso do pangolim, animal que é utilizado para tratar tudo, desde a febre às doenças venéreas passando por várias infecções, erupções cutâneas, etc., e que tudo indica  ser o animal que está na origem da actual pandemia.

A SOLUÇÃO QUE O FUTURO DA HUMANIDADE EXIGE

– Relação que é muito difícil de alterar sem fortes medidas impopulares. Num artigo recente que o virólogo Nathan Wolfe  co-escreveu com o famoso biólogo Jared Diamond (autor desse extraordinário livro Collapse – How Societies Chose to Fail or Succeed) sobre este problema, compara-se a relação dos chineses com estes seus animais selvagens e exóticos com a relação dos franceses com o seu vinho tinto ou o seus queijos, para assim se ter uma noção da imensa dificuldade do problema, e da impossibilidade de o resolver com paninhos quentes.

– Estes consagrados cientistas são claros: se não se acabar com esta situação do comércio de animais selvagens, dizem, “o próximo vírus depois do COVID-19 poderá ser ainda pior. A conectividade das populações do mundo inteiro continua a aumentar, não há nenhuma razão biológica válida para que as futuras epidemias não matem centenas de milhões de pessoas e não mergulhem o planeta numa recessão de várias décadas, sem precedentes na história.” (Washington Post, 16.03.2020)

– Tenhamos consciência que tudo isto é uma consequência trágica da globalização selvagem que se incentivou desde os finais do século passado, reduzindo-a à sua dimensão estritamente económica, entendida esta como uma interminável espiral de ganância, alimentada por salários baixos e lucros altos. E que tudo o mais, culturas, valores, religiões, tradições – muitas vezes seculares – foi ignorado e desprezado, com as consequências que agora estão bem à vista, sem desculpa para quem as continue a ignorar

– Em conclusão: é preciso encontrar rapidamente uma solução para a gravidade deste problema, não sendo de descartar, se não se encontrar melhor, que a comunidade internacional  tenha de pôr a China de quarentena até se ter a absoluta garantia que estes focos epidémicos foram eliminados ou estão completamente controlados,  acabando com a cobarde hipocrisia de se andar a tratar os chineses como se fossem nossos aliados, e não – como efectivamente são – os nossos principais adversários neste decisivo combate da humanidade pelo seu futuro – eis, ocorre-me agora, o que seria uma excelente causa para o Secretário-Geral da ONU.

– Isto teria evidentemente custos para todos, que não seriam pequenos, seria evidentemente o fim da “globalização feliz” tão apregoada por grande parte dos tão incapazes e anestesiados políticos, intelectuais e media ocidentais. Mas que não haja dúvidas: só assim se resolverá o problema que está na raiz da actual pandemia e se evitarão novas pandemias que provavelmente serão ainda muito mais brutais.  

PENSAR O MUNDO

(“POSFÁCIO” a PENSAR O MUNDO, GRÁCIO EDITOR, 2012)

Sobre o modo do «pensar o mundo» que nesta obra se apresenta não creio dever acrescentar nada ao que Rui A. Grácio escreveu no «prefácio» que abre o primeiro destes dois volumes. Ele traça — com astúcia, mas também com grande generosidade — um trajeto que deixo naturalmente à avaliação do leitor. A mim, nos textos e livros que escrevi nestas três décadas, e que agora se publicam em conjunto, interessam-me sobretudo — como se de uma exigente decantação se tratasse — os temas e as ideias com que continuo a viagem da minha reflexão e da minha ação, do meu ensino e da minha escrita.

Explicitar quais são essas ideias, e sobretudo dizer para onde pressinto que seja essa viagem, é o objetivo deste breve posfácio. Quanto às ideias, elas foram formando uma constelação a partir da tematização dos conceitos de problema, de argumentação e de racionalidade, no quadro de uma cada vez mais assumida filosofia perspetivista. Esta opção valoriza o carácter aberto de toda a problematização, insiste na índole retórica de qualquer argumento e sublinha a natureza plural e lúdica que sempre se revela na racionalidade. Daí, também, a constante presença da contingência, a alertar para as cegueiras e as ilusões com que a necessidade e os seus dogmas frequentemente barram o caminho a quem pretenda pensar o mundo.Esta inspiração foi formulada, e muito trabalhada, nos livros aqui integrados em I e em II, e depois aplicada e desenvolvidas nos textos e livros que constituem as partes III e IV. Mas nestes últimos foram também emergindo outras inspirações, bem como novos temas, conceitos e perspetivas que é agora possível articular mais estreitamente, tendo já em vista trabalhos futuros.

CRISE OU METAMORFOSE?

No fundamental trata-se de retomar a ideia — que há muito tempo defendo — que, em qualquer mudança, a metamorfose que a suscita e caracteriza é mais interessante do que a crise que a revela e expõe. E de, nesta ótica, propor uma decifração das metamorfoses do nosso tempo, tomando como eixos centrais os que incidem, por um lado nas transformações da democracia e da esquerda, e por outro lado nas mutações do indivíduo e da cultura.

Esta decifração é essencial: sem ela, como mudar o que não se aceita? Sem ela, como intervir sobre o que, na verdade, não se conhece? Sem ela, como contornar a aceleração mediática que tudo bloqueia a pretexto de informar? A crise que hoje vivemos é, acima de tudo, uma crise de ideias e de valores, de reflexão e de debate. Sem se perceber bem porquê, o nosso destino coletivo tem sido cada vez mais entregue ao improviso e ao voluntarismo, ao imediatismo e ao marketing, cavando um imenso vazio estratégico que nos deixa paralisados.

Prova disso é o facto de, apesar de vivermos a maior crise do capitalismo desde os anos 30 do século passado, vermos a esquerda, tanto a radical como a democrática — e mesmo quando ganha eleições, o que tem sido raro — incapaz de propor aos cidadãos uma visão alternativa global e credível, que permita configurar um quadro diferente de respostas à crise, revelando assim bem o desarmamento ideológico que a atingiu nas últimas três décadas, e que se traduziu num triplo deslumbramento que se generalizou por todo o lado, com consequências devastadoras na Europa.

Este deslumbramento consistiu fundamentalmente num fascínio acrítico, em primeiro lugar, com todas as formas emergentes, mais ou menos fraturantes, de individualismo. Depois, com todas as modalidades de criatividade e de malabarismo do financismo. Por fim, com todas as promessas e ilusões das novas tecnologias. Com um individualismo que reivindicava cada vez mais direitos, com base numa matriz mais consumista do que cidadã. Com um financismo que garantia a todos um novo bem-estar através do crédito fácil e ilimitado, conduzindo assim à naturalização social da dívida. E com novas tecnologias que anunciavam uma sociedade do conhecimento e um novo mundo, ecrânico e autossuficiente, que na verdade se revelou gerador de novas formas de ignorância, bem como de modalidades inéditas de submissão e de controlo dos indivíduos.

E estas três formas de deslumbramento emergem e estruturam-se de um modo conjunto, articulado, solidário, reforçando-se constantemente umas às outras: o financismo não seria possível sem as novas tecnologias, o tecnologismo não seria viável sem o «caldo» individualista, o individualismo não seria concretizável sem o crédito infinito, etc.. Este ponto é decisivo: é por ele não ser compreendido que muitas vezes se apontam, como alternativas à ideologia hoje dominante, ideias que afinal são profundamente cúmplices com ela.

E esta espécie de convergência em espiral parece ter — como se tratasse de um «monstro doce», para referir o título de inspirado livro de Raffaelle Simone — literalmente embruxado o senso comum dos cidadãos e cegado a inteligência crítica das elites. Basta olhar para o modo como por todo o lado a esquerda, e nomeadamente a mais radical, têm assumido as causas mais liberais em matéria de costumes… O que não deixa de ser estranho, porque é justamente nisto, nesta inédita forma de «servidão voluntária» que decorre da convergência de individualismo, de financismo e de tecnologismo, que consiste o triunfo contemporâneo, e a hegemonia cultural, do tão vituperado «neoliberalismo»!…

PERGUNTAS INADIÁVEIS

É por tudo isto que mudar de vida não é agora fácil, como bem se tem visto. O capitalismo — tal como a democracia, é preciso ligar as coisas — entrou numa crise que não se resolverá com nenhum «regresso ao passado». Não se podem, por isso, continuar a adiar as questões mais difíceis, e essas questões apontam para perguntas muito precisas: como revitalizar a democracia, ultrapassando o generalizado paradoxo de uma liberdade individual que cresce, enquanto a capacidade coletiva diminui? Como libertar a sociedade do clientelismo partidário que a consome? Como ultrapassar as ilusões do socialismo da dívida e do consumo? Como reforçar o valor do trabalho e equacionar o tema da sua duração, como criar emprego e incentivar a produção? Como repensar a fiscalidade no quadro da globalização? Como libertar o ensino do garrote empresarial? Como contrariar o crime, em curso, contra as humanidades? 

Ou ainda: como transformar o Estado-providência num Estado-estratega? Quais os novos parâmetros do contrato social para o século XXI? Como «civilizar» a finança? Como reformar a justiça, e contrariar o permanente crescimento das desigualdades? Como deixar de endeusar o livre-câmbio e de diabolizar o protecionismo? Como acabar com a retórica balofa da língua, colocando a cultura e a criação no centro de uma inovadora capacidade de projeção nacional? Como robustecer o papel do mar e dos recursos naturais, transformando a nossa periferia numa verdadeira centralidade estratégica? Como legitimar democraticamente uma (eventual) solução federal europeia? Como fazer das novas tecnologias instrumentos, não de sujeição, mas de emancipação individual e de afirmação coletiva? Como repensar a gratuidade? 

Seremos capazes de assumir uma tal agenda? Não será fácil, mas trata-se de um verdadeiro imperativo intelectual e político, se o que se pretende é elaborar uma alternativa credível e mobilizadora aos impasses que dominam o nosso mundo. E há hoje muitas ideias e múltiplos contributos disponíveis na sociedade, nomeadamente na portuguesa, que têm dificuldade em chegar à política, aos partidos e aos cidadãos: acolhê-los, incentivá-los e dar-lhes consequência parece-me ser, justamente, um dos passos mais urgentes.

Mas a crise que vivemos traduz metamorfoses cujas raízes históricas é vital compreender bem, para a conseguirmos ultrapassar. Uma das análises mais interessantes e fecundas do processo que nos trouxe ao ponto em que estamos, deve-se a Marcel Gauchet, com destaque para o seu recente L’avènement de la démocratie.As suas ideias nucleares desenvolvem-se num duplo registo: o de uma nova compreensão da modernidade e o de uma decifração inédita da democracia. Em ambos os caso, o conceito chave de que partiu foi o de autonomia. E a autonomia consiste, no essencial, no facto de o indivíduo ser o autor da sua própria lei, enquanto a heteronomia se caracteriza, pelo contrário, por receber de fora, de outro, a lei a que obedece.

Lei que, nas sociedades da heteronomia, era fundamentalmente dada pela religião, que M. Gauchet perspetiva de um modo funcional, como uma autoridade exterior que dita à sociedade as regras do seu funcionamento e aos indivíduos as normas do seu comportamento. Constituiu-se assim o que ele designou como o mundo «encantado», que foi aquele em que os homens, através a presença dos deuses na terra, se sentiram em contacto com as forças que organizam o universo.

Acontece que este encantamento é sempre a outra face da dependência — pelo que, com a conquista da autonomia, os homens foram também abrindo um interminável caminho ao desencantamento. Desde logo com o próprio cristianismo, que cortou com as religiões politeístas e com as suas origens míticas, ao mesmo tempo que introduziu um Deus criador que se incarna na história e, assim, se abriu ao futuro. E depois, mais radicalmente, num processo que acompanhou a génese da modernidade até aos nossos dias, e que M. Gauchet designou como o processo de «saída da religião», criando as condições de uma progressiva secularização das sociedades.

Este processo não significa o fim das crenças religiosas individuais, privadas, mas antes — o que se tornará decisivo para a edificação da democracia — que a religião deixa progressivamente de estruturar a sociedade, como o seu grande princípio de organização e de legitimidade. A religião foi durante séculos o modo de estruturação global do mundo social e humano. Ela impunha a heteronomia, ao submeter as sociedades, em todos os seus aspetos, a uma lei exterior de origem transcendente. E quando a heteronomia reina, o poder tem a forma da dominação, os seres organizam-se hierarquicamente, o tempo é vivido sob a matriz da tradição e a coesão da sociedade tende para a unidade inclusiva, que nada deixa de fora.

A VITÓRIA DA AUTONOMIA

Com a «saída da religião», a partir do século XVI, é a autonomia que cada vez mais vai estruturar a sociedade. Estruturação que dá um passo de gigante com o aparecimento do Estado-nação que, diferentemente das formas políticas anteriores — cidades, reinos, impérios -, vai viabilizar não só um novo tipo de comunidade política, mas também um novo tipo de poder no seu interior. Neste sentido, o Estado-nação é, historicamente, uma condição prévia da democracia, e ele consagra a emergência do político, entendido como aquilo que verdadeiramente dá a uma coletividade humana o poder de se governar a si própria.

Esta é a primeira consequência da estruturação autónoma das sociedades modernas. Mas ao político juntam-se mais duas vias que completarão o quadro de afirmação da modernidade: o direito e a história. O direito, não na aceção do direito positivo dos juristas, mas no sentido do direito fundamental que garante o princípio de legitimidade, cuja origem se situa nos indivíduos, de tal modo que toda e qualquer regra coletiva tem de decorrer do seu acordo. É nesta perspetiva que a afirmação dos «direitos do homem», a partir do século XVIII, se tornará determinante na definição da democracia. O direito passa a garantir, na estruturação autónoma das sociedades, a prevalência dos indivíduos: é a partir dela que se passa a pensar a própria constituição do coletivo.

O terceiro elemento que conclui esta sistematização do processo de autonomização é a história, a orientação histórica. As sociedades sujeitas à heteronomia dobravam-se à tradição, a autonomia vai virá-las para o futuro, abrindo-as à mudança, ou melhor, organizando-as em função da sua própria transformação. O que assim se torna possível é, na verdade, uma nova forma de sociedade, orientada para a produção, para a inovação, para a economia. E esta é, aos olhos de M. Gauchet, filha da autonomia, invertendo-se assim uma prioridade muito generalizada e que tem estado na origem de muitos equívocos.

Tudo isto transforma também profundamente as relações entre a sociedade e o poder. A sociedade, que no mundo da heteronomia está soldada ao poder como se ele fosse a sua causa, separa-se cada vez mais dele ao ponto de fazer do poder um seu efeito, e com a obrigação de a representar: é neste ponto que a dominação dá lugar à representação.

A modernidade aparece assim, em suma, como a configuração inédita que resulta de três processos: de um novo modo de coexistência política, de um novo modo de composição jurídica e de um novo modo de efetivação histórica. É aqui que se encontra a singularidade dos modernos face aos antigos, uma vez que nenhuma destas dimensões existia antes: nem o Estado pensado como indispensável à concretização do poder do povo sobre si próprio, nem o direito universal dos indivíduos, nem a orientação das sociedades para o futuro.

Mas esta singularidade não se transforma, só por si, na democracia: ela apenas a viabiliza, a torna possível, colocando-lhe no caminho uma longa série de problemas e de paradoxos de que depende a sua efetiva concretização. Do seu esclarecimento depende a compreensão da crise que hoje vivemos. E o esclarecimento assume-se tão filosófico na sua definição, como político nas suas consequências. Uma vez que a crise atual é, nesta visão, uma crise de crescimento da própria democracia, cujo traço mais específico se encontra na questionação limite dos seus fundamentos, a tal ponto que ela põe em causa a forma — que muitos, imprudentemente, pensaram ser definitiva — que a democracia liberal tomou na segunda metade do século XX.

Isto decorre sobretudo do atrito provocado por, no desenvolvimento do processo de autonomização, cada uma das suas três vertentes fundamentais procurarem impor-se «a solo», excluindo as outras. Ao fazê-lo, surgem tensões que expõem as sociedades às aventuras mais imprevisíveis, como aconteceu no século XX com a primeira crise de crescimento da democracia, que conduziu à irrupção dos totalitarismos, por um lado, e à formação das democracias liberais, por outro.

Uma crise de crescimento em que, diz M. Gauchet, «por um lado, a legitimidade democrática penetra irresistivelmente na realidade dos factos e impõe o reino das massas, enquanto, por outro lado, esta progressão teórica da autonomia, garantida pelo poder através do sufrágio universal, longe de conduzir a um efetivo autogoverno, leva na prática a uma perda de controlo coletivo. O regime parlamentar revela-se pois simultaneamente enganador e impotente; a sociedade, atormentada pela divisão do trabalho e pelo antagonismo das classes, dá a impressão de se desunir; a mudança histórica, ao mesmo tempo que se generaliza, acelera-se, amplifica-se, subtrai-se a todo e qualquer controlo. No próprio momento, por conseguinte, em que os homens deixam de poder ignorar que são eles quem faz a história, são forçados a admitir que não sabem que história é que fazem. Obtiveram a sua completa liberdade enquanto atores, mas foi apenas para mergulharem no caos e na impotência face a si mesmos. Surge a dúvida sobre se a saída da religião não teria dado origem a uma sociedade insustentável.» (A democracia entre duas crises, Ed. Estampa, 2012, pp. 33-34).

O ENDIVIDUALISMO

Esta sociedade é hoje atravessada, de uma ponta à outra, pelo que designo como «endividualismo», que é o elemento novo que deu forma, tanto ao ultraliberalismo como ao mini-socialismo do nosso tempo. O endividualismo é o novo tipo de individualismo de massas que nas últimas décadas mudou todas as regras do jogo político. Foi ele que inculcou por todo o lado valores e aspirações comuns, tornando as diferenças ideológicas muitas vezes indiferentes, quando não insignificantes.

É justamente por isso que agora, mesmo quando há mudanças, tudo muda tão pouco. E que se enfatizam tanto as variações de estilo, ao contrário do que acontece com a substância e com o conteúdo. E que, por mais cómicos que apareçam a fazer de políticos (como Beppe Grillo, em Itália) e públicos a fazer de massas (como os «indignados», um pouco por todo o lado), pouco ou nada verdadeiramente se altera.

O populismo é, deste ponto de vista, um fenómeno que revela bem a situação paradoxal em que nos encontramos. Porque ele tanto traduz um apelo veemente ao povo, como a categórica rejeição desse apelo. Razão tem pois Pierre Rosanvallon quando associa o populismo às derivas da democracia contemporânea, sinalizando nele uma tripla simplificação — sociológica, institucional e de visão da sociedade — a que urge contrapor, mais do que denúncias expeditas, respostas verdadeiramente consistentes, capazes de responder à erosão da legitimidade que atinge as sociedades contemporâneas.

O endividualismo de que falo é o resultado da última metamorfose do indivíduo moderno, do processo da sua afirmação e expansão ilimitadas. É o produto da sua profunda cumplicidade com o paradigma do ilimitado que marcou todo o século passado, sobretudo a segunda metade, garantindo a todos uma energia inesgotável, um consumo interminável e um crédito sem fim, num abismo de ilusões em que todos nos precipitámos.

Ele aparece hoje como o apogeu jubilatório do indivíduo que se realiza pelo crédito, isto é, pela dívida. Ele tornou-se, no mundo de hoje, no pilar mais generalizado — e talvez no mais resistente! — deste paradigma em crise. Ele decorre da afirmação sem limites dos direitos dos indivíduos, da progressiva identificação do direito, de todo o direito, com a proteção da esfera do privado, e da rasura sem precedentes das referências a valores ou convicções de ordem coletiva. As chamadas agendas fraturantes têm aqui, como já tenho dito, a sua mais do que óbvia origem, bem como a principal razão do seu frenético elã.

Mais: o endividualismo aconselha talvez a olhar com outra atenção para a intuição de Nietzsche, expressa no seu livro A Genealogia da Moral, de que a sociedade não se funda (como acreditou A. Smith, mas também K. Marx) na troca, mas no crédito. E que a assimetria entre o crédito e a dívida estão na base de toda a vida social, por um lado produzindo uma humanidade capaz de prometer, e por outro criando mecanismos coercivos do cumprimento das promessas feitas. E, nesta perspetiva, a memória e a culpa teriam origem numa inesperada teia com raízes bem remotas.

Seja como for, é preciso ter em conta que o endividualismo acabou por ser muito estimulado — ao contrário do que em geral se diz e por mais paradoxal que tal pareça — pela poderosa afirmação de um Estado social que, libertando pela primeira vez na história os indivíduos da necessidade de terem de preparar o seu futuro e o dos seus — garantindo-lhes reformas, educação, saúde, etc. —, o tornou num soberano cada vez mais narcísico e centrado em si próprio.

Ele acelerou, de um modo tão inédito na forma quanto incerto nas consequências, o processo de desarticulação interna das democracias, cavando um abismo cada vez maior entre a afirmação da liberdade individual dos cidadãos e a sua capacidade de ação coletiva: mais livres, sim, sempre — mas também mais impotentes!

Por isso, o endividualismo acabou por se tornar no ponto cego das esquerdas. Como se, face ao ultraliberalismo, o socialismo estivesse condenado a formas de sobrevivência minimalistas. É neste impasse que a esquerda, toda a esquerda mas sobretudo a de índole partidária, está hoje mergulhada. Porque o verdadeiro desafio é o de uma dificílima batalha das ideias para a qual não se vislumbram hoje, ao nível político, capacidade intelectual ou instrumentos analíticos à altura dos problemas do mundo contemporâneo, seja no plano dos valores, seja no âmbito da estratégia, seja no registo dos instrumentos de ação.

Tudo isto se deve, em boa parte, ao facto de a esquerda ter permitido nas últimas décadas — e quase sem resistência, como já referi — a consagração do ultraliberalismo, assistindo primeiro deslumbrada, depois atordoada e agora talvez arrependida, ao triunfo simultâneo e solidário do financismo, do tecnologismo e do individualismo. Agora é de autênticas alternativas que se precisa, é nessa linha, na de nos municiarmos de novo no plano dos valores e da estratégia, que é preciso pensar o mundo.

Não é possível continua a ler-se a realidade com as lentes de há 20 ou 30 anos atrás, as mesmas que levaram a esquerda a não pressentir as consequências da globalização, a não perceber a transformação do capitalismo em financismo, a desvalorizar as alterações demográficas, a negligenciar a questão da distribuição da riqueza, a não detetar o retorno das mais brutais desigualdades, a ignorar a fragilização do Estado providência, a incensar a «estupidez sistémica» induzida pelas novas tecnologias.

Ou, ainda, a não compreender o significado do individualismo sem freio e as novas modalidades de subjetivação que ele implica, a acomodar-se com as alterações do regime e do estatuto do trabalho, a pactuar com a desvalorização do imposto e a naturalização da dívida, a não reconhecer a bomba-relógio do euro sem união política na Europa ou a não ser capaz de avaliar as consequências da mundialização da cultura e do novo paradigma a que ela deu lugar. 

E AGORA?

É preciso semear, mesmo depois de uma má colheita, dizia Séneca: precisamos de uma esquerda com mais mundo, mais atenta e estudiosa, mais propositiva e audaz. A Europa do pós-guerra viu nascer uma síntese que se revelou poderosa, combinando — de modos de resto muito diversificados — o papel do Estado, a afirmação do indivíduo e o sentido da história. Mas esta síntese traria com ela um conjunto de problemas de que só muito mais tarde haveria uma perceção clara, nomeadamente pela irrupção de um desequilíbrio entre os três fatores da autonomização que referi, agora a favor do direito, o que conduziu a uma entronização majestática do indivíduo e dos seus direitos.

Com muitas consequências, entre as quais a da metamorfose da própria democracia num regime político que oscila entre formas de intensidade mínima e mutações já pós-democráticas, em que a afirmação cada vez maior da liberdade individual se desconecta cada vez mais intensamente do poder coletivo. Toca-se aqui, como facilmente se percebe, no ponto central da fragilização extrema das democracias contemporâneas, que as coloca perante responsabilidades que parecem esquecidas. 

Prevendo que uma liberdade sem poder se tornará a prazo insustentável para os cidadãos e para as sociedades, Marcel Gauchet defendeu, e bem, que o que se impõe é trabalhar de novo — com todas as dificuldades que um tal objetivo naturalmente pressupõe — no sentido de um novo contrato, de um inovador compromisso entre a lógica do individuo de direito, a dinâmica social-histórica e a forma política do Estado-nação. Num compromisso que viabilize o emergir de uma nova cidadania assente numa temporalidade alargada e em convicções coletivamente estruturadas É este, sem dúvida, o maior desafio do nosso tempo.