POPULISMOS…

 

– Se há palavra que hoje se repete ad nauseam é a de “populismo”. Como se bastasse invocá-la para equacionar todos os problemas e erradicar todos os males das nossas sociedades.

– Nada mais falso – há muito a dizer sobre isto, e irá ser dito. Mas antes do mais, o que é preciso é distinguir o populismo da demagogia torpe com que sistematicamente ele é assimilado.

– É que ele pode ser, e em geral é, uma coisa bem diferente: ele pode ser, e em geral é, uma forma de afirmação soberana dos povos, da sua recusa em se submeterem à incompetência dos seus governantes, à impotência das suas elites nacionais e às burocracias parasitárias de Bruxelas.

– É por aqui que é preciso avançar. Na verdade, o que as elites políticas e mediáticas dominantes esconjuram com a repetida e ritualizada acusação de populismo, é tudo o que pode pô-las em causa. Ele é o reverso do medo do povo em que todas elas vivem e da miséria política (e outras…) em que nos fazem viver.

– Indo por aqui, descobrem-se no populismo aspectos inesperados e muito positivos que, muito mais do que uma expedita condenação, merecem pelo contrário uma séria reflexão. Que deve e tem que ser feita.

A ILUSÃO DAS DIRECTAS

– É hoje evidente a ilusão que foi pensar que o recurso a directas (ou mesmo a primárias, em que podem participar cidadãos não militantes partidários) resolveria os problemas dos partidos políticos e do seu crescente descrédito nas sociedades contemporâneas.

– A lição francesa do ano passado foi, sobre isto, eloquente, com uma “finalíssima” a que não chegou nenhum dos candidatos escolhidos por esses métodos, e tudo se decidiu entre quem escolheu outros caminhos, apresentando-se directamente ao eleitorado. O que por cá se tem passado, e ainda recentemente se passou no PSD, vai no mesmo sentido.

– Pelo contrário, o que até parece cada vez mais claro é que os recurso a estes métodos (directas ou primárias) até pode ter agravado esse descrédito partidário, como frequentemente acontece com as falsas boas soluções. A ideia teve talvez o seu tempo, mas esse tempo já lá vai…

– Isso tem a ver com uma desajustada, quando não mesmo errada, análise dos problemas actuais das democracias contemporâneas que, repetindo os mesms estereótipos há quase um século, dá uma excessiva importância ao funcionamento orgânico dos partidos em prejuízo da atenção que devia dar ao seu esvaziamenrto ideológico e à erosão da sua relação com a sociedade, na sua cada vez mais intensa diversidade.

– A história do último século fez dos partidos, seja qual for o método da escolha os seus candidatos, meros – mas até à data incontornáveis – instrumentos legitimadores do funcionamento formal da democracia. E os partidos assumiram, parece que tão tranquila como inconscientemente, esse papel, que cumprem com uma apatia ritual que os torna na verdade imunes às mais virulentas críticas e a todos os apelos de reforma.

– Não é que não haja muito a mudar – ou não seja possível fazê-lo – nos partidos políticos. Mas isso implica que se parta de uma outra concepção da própria democracia e dos novos e graves problemas que, de facto, ela enfrenta hoje, tomando cada vez mais a forma de democracias “iliberais”, isto é, que regimes que combinam com astúcia – e perante a passividade mais ou menos geral – o exercício do voto com o estrangulamento do Estado de direito.

O ECRÃ PRESIDENCIAL

– Marcelo é, dizem, o presidente dos afectos, ele era o presidente de que o País precisáva depois da cinzenta, pesada, década cavaquista. Isto é sem dúvida um facto, mas o mais importante não está nessa mudança de estilos. A alternância de estilos é mesmo, afinal, a normalidade de vida política, o “swing of the pendulum” é uma regra bem conhecida da história…

– A novidade é outra, a meu ver: ela decorre do facto de, mais do que eleito, Marcelo ter deslizado do ecrã televisivo onde esteve cerca de uma década em campanha política para um outro ecrã, que ele montou com inegável talento, o ecrã presidencial, que começou a construir com a sua original campanha eleitoral e consolidou no primeiro ano de mandato.

– O governo terá ajudado, com algumas inabilidades e erros, é evidente. Mas Marcelo, num momento global em que a dessacralização da política converge aceleradamente com a entronização dos “entretainers”, ( olhe-se para o que se passa nos Estados Unidos!…) transfigurou a presidência, instituindo o que podemos designar como o “ecrã presidencial”.

– Por isso, a meu ver a sua novidade não está tanto na sua constante expressão pública de afectos – certamente decisiva, embora cheia de armadilhas, leia-se a propósito o fascinante pequeno livro “Les affects de la politique”, do economista de esquerda Frédéric Lordon, de 2016 -, mas em fazê-lo num novo contexto global, numa nova modalidade comunicacional e numa nova situação nacional.

– Factores estes que fazem da televisão – cujas notícias e eventos são hoje multiplicados ad infinitum e ad nauseam pelas redes sociais e pelas novas tecnologias – o espaço público privilegiado, tanto da afectividade como do sentimentalismo, tanto da “comentarice” como da alacridade, etc.

– Belém ou S. Bento, Queluz ou Sintra, pouco interessam e quase nada sugnificam agora, o ritual presidencial migrou desses lugares simbólicos para os ecrãs mais diversos que, como meros satélites, giram à volta do ecrã presidencial: é lá que, na verdade, está o palácio do presidente Marcelo.

– O que tudo isto vale e onde tudo isto nos leva, ainda estamos longe de o saber…mas esse tempo, como sempre acontece, chegará.

 UMA IMPREVISIBILIDADE MAIS INTENSA

 

– 2018 inicia-se sob o signo de uma imprevisibilidade mais intensa do que a habitual, tanto em termos nacionais como em termos internacionais. E se sublinho este ponto é porque, ao contrário do que parecem pensar muitos políticos e comentadores ( mas ainda há diferença entre ambos?), é a imprevisibilidade e a contingência, e não a previsibilidade e a necessidade, que são a regra da vida política – como de resto da vida “tout court”. Convém por isso ter os olhos bem abertos e o horizonte sempre na mira. O resto – o imediato, os “fait-divers”, a actualidade, etc. – não passa hoje de um anestésico entretenimento, seja qual fôr a forma que tome: telejornais, comentários, debates,etc.

– Nacionalmente, temos sinais de esgotamento de um modelo original de simulacro de coligação que permitiu ao PS atingir o poder, apesar dos resultados eleitorais terem parecido, num primeiro momento, afastá-lo desse objectivo. Imprevisível, não era?, mas foi o que aconteceu. E o poder é um cimento muito forte, provavelmente ainda mais resistente quanto mais as suas bases são equívocas e esquivas, como acontece actualmente.

– A eleição de Mário Centeno ( também imprevisível, não era? todos se riram quando a hipótese surgiu…) tem o enorme mérito de ajudar compreender o verdadeiro regime político em que, independentemente de quem quer que esteja no poder, vivemos hoje na União Europeia, e que impõe àquilo que tradicionalmente se designava por direita e esquerda o mesmo paradigma político, permitindo todas as variantes ( essa é mesmo a condição do seu funcionamento e talvez da sua sobrevivência), mas impedindo todas as diferenças.

O REFORMISMO COMO REGIME

– É pois para esse regime que é preciso olhar, seja nas suas vertentes dominantes (PS, PSD), seja nas dos seus satélites (Bloco, PCP, CDS), todos irmanados no essencial e todos teatralmente em guerra no acessório. Esse regime é hoje bem visível mas nasceu há muito, no começo dos anos 90 – trata-se afinal do que se pode designar como o reformismo, a ideologia reformista, de que o ultra-liberalismo e o mini-socialismo não passam de variantes.

– É isso mesmo que, na Alemanha, está por trás da tentativa actualmente em curso de regresso á “grande coligação”, como é isso que alimenta a ilusão de uma reanimação do eixo franco-alemão, com base nas quiméricas propostas do presidente Macron. O curioso, é que se pretenda contornar este seu carácter quimérico precisamente no momento em que, na verdade, talvez nunca tenham sido tão acentuadas como hoje as diferença de perspectivas sobre a Europa e o seu futuro, entre a Alemanha e os seus próximos, os vários países da Europa Central e Oriental, a França e os países do Sul. E isto em diversos planos: todos os sinais estão aí, mas se calhar vai ser preciso esperar pela chegada de Jens Weidmann à presidência do BCE, no próximo ano, para se reconhecer isso!…

O DEFINHAMENTO DEMOCRÁTICO

– A democracia definha a olhos vistos – ou seja, os cidadãos e as nações têm cada vez menos poder sobre as suas opções e o seu destino – mas esta semana um semanário exalta o apego dos portugueses aos rituais democráticos básicos, vendo nisso uma prova da incontroversa consolidação da nossa democracia. Há quem lhe aponte uns defeitos, claro, mas que é isso quando 84,2% dos inquiridos se considera um “votante habitual”? Pouca coisa, mesmo que a atenção à coisa pública não estimule a curiosidade de 76,6% dos portugueses em saberem o nome de uns quatro ou cinco ministros, e que mais de metade dos inquiridos reconheça que “nunca ou quase nunca” fala de política, seja em casa ou no trabalho.

– Nesta linha de raciocínio, só nos resta congratularmo-nos com a robustez das democracias russa ou turca, por exemplo, pois sem dúvida que os resultados de qualquer sondagem lá feita nestes termos daria certamente resultados muito próximos destes. Ou então, começar a olhar para a democracia para lá dos seus rituais mais banais, e na verdade cada vez mais irrelevantes, distinguindo seriamente, sem concessões, o que é uma democracia e o que é uma democratura.