A ERA DAS GERINGONÇAS

UMA NOVA ERA

– Entrámos mesmo, talvez sem nos darmos bem conta disso, numa nova era. Uma era que (tomando aqui livremente uma palavra que a solução política portuguesa de 2015 popularizou) podemos designar pela “era das geringonças”.

– São todas diferentes, mas também iguais, e cada vez mais. As “geringonças são a fórmula  que veio ocupar o lugar e as funções políticas que no século XX tiveram as ideologias que, entretanto, todas elas, tomaram a forma – para usar uma inspirada expressão de Pessoa  – de “cadáveres adiados que procriam”…

– Hoje, quando se fala de ideologia, refere-se quase sempre apenas a social-democracia e as suas dificuldades. E é um facto que a ideologia do socialismo democrático (ou da social-democracia, como se lhe queira chamar) há muito que tem vindo a desaparecer, por entre boas intenções e trivialidades pueris que agora só servem para garantir a sobrevivência mais ou menos parasitária da multidão de zombies políticos e comunicacionais que quotidianamente nos cercam.

– Simplesmente – e este ponto nunca é referido –  o que se diz da social democracia pode e deve dizer-se igualmente da democracia-cristã ou do liberalismo clássico – todas essas ideologias têm também vindo a esvair-se, perdendo a sua ligação à realidade do mundo e à vida dos cidadãos, tornando-se inúteis, ou pior, perniciosas, para agir no mundo de hoje.

– Mas atenção, elas não sobrevivem só por inércia, e muito menos por mero acaso. Não, a sua anacrónica sobrevivência é instigada, alimentada, acarinhada mesmo, porque ela é preciosa para que não se entenda nem analise o que se tem vindo a instalar no seu lugar, e que é uma cegueira, uma incapacidade de pensar ( em rigor, um “impensar”), que se generaliza condicionando os povos nas suas convicções, nas suas expectativas e nos seus sonhos.

– E essa nova realidade é a de um financismo global absolutamente inédito, coadjuvado por um individualismo tão robusto como disseminado e umas novas tecnologias que, numa convergência ainda sem nome – eu tenho proposto o de “endividualismo”  – , fazem ajoelhar toda a gente.

– Convinha talvez por isso pensar esta “nova era”, porque é disso que se trata, e sobretudo pensar esta convergência sem precedentes históricos de qualquer ordem, em termos de uma crescente “hegemonia cultural” global, no sentido amplo mas preciso – e infelizmente muito esquecido – que lhe deu Gramsci, ou seja, o da preponderância das super-estruturas políticas e culturais sobre as infra-estruturas económicas.

UM NOVO MUNDO

– É neste contexto que tantas democracias se têm tornado iliberais e tanto liberalismo se tem tornado não democrático, como tem vindo a mostrar Yascha Mounk nos seus magníficos trabalhos sobre a “desconsolidação” da democracia. Estudos que comprovam, com base em regulares estudos de opinião feitos nas últimas décadas em vários países do Ocidente, que a importância dada ao facto de viver em democracia cai aos trambolhões,  ou que a tolerância dos cidadãos para com formas autoritárias de poder tem vindo sempre a aumentar. E, sobretudo, que estes fenómenos são particularmente intensos nas gerações mais novas.

– O que não admira: sem formas de pensamento que estruturem convicções colectivas e assumam no tempo o compromisso da sua concretização – eram afinal isso, no essencial, as ideologias -, a política rendeu-se ao tacticismo sem princípios, ao pragmatismo sem visão, ao curto-prazismo sem responsabilidade. É neste mundo que vivemos hoje.

– O poder político é hoje, e sabe-o bem, cada vez mais impotente e frágil. Mas isso conduziu, por paradoxal que possa parecer, ao triunfo das suas formas mais narcísicas, mais cínicas e mais frustres. E quanto mais o poder se justifica apenas por si próprio, e não pelo que faz ou torna possível fazer, mais prováveis são as manobras e as engenhocas ínvias para o conquistar e manter.

– Foi isso que abriu as portas a esta nova “era das geringonças” que, sem o percebermos, começou logo no início de 2015 na Grécia, com Aléxis Tsípras e o seu radicalíssimo Syriza a aliar-se ao partido de direita dos “Gregos Independentes” para garantir o seu acesso e permanência no poder, ao arrepio das suas anteriores ideias e dos seus prévios compromissos.

– Pouco depois foi a nossa vez, com António Costa a ver neste estratagema, mas virado à esquerda, o lance para tirar o poder à direita que tinha ganho as eleições, afastando Passos Coelho e o seu  estilo austeritário e castigador. Mais tarde foi a vez da Itália, com a esquerda radical do partido “5 Estrelas” a coligar-se com a extrema-direita da “Liga Norte”, a abrir um período de incertezas em turbilhão. E a Espanha acabou por entretanto se juntar ao grupo, aglutinando socialistas e anti-socialistas, soberanistas e autonomistas, numa geringonça completamente heteróclita que permitiu ao líder do PSOE Pedro Sanchez substituir Rajoy, acedendo ao poder com menos de um quarto dos deputados no Parlamento. E não esqueçamos que a própria chanceler Merkel também andou lá perto, no Outono de 2017, com a geringonça “Jamaica” quase a constituir-se, juntando o seu partido aos liberais e aos verdes.

UM NOVO HORIZONTE

– Creio que a “era das geringonças” veio para ficar. Ela traduz o apogeu do cinismo político que adopta as máscaras que a situação mais aconselhar. Definitivamente pós-ideológica, esta era impõe-se no século XXI simultaneamente como um novo horizonte político de uma época que na realidade vive sem ideologias, bem como um novo dispositivo, híbrido e imprevisível, de governação. É ele que explica tanto as virtudes como os vícios da geringonça lusitana, que prometem este ano algumas surpresas aos que o olham com as velhas lentes do “frentismo de esquerda”…

– A ”era das geringonças” é, bem pelo contrário, a resposta política de uma época que trocou os programas pelas “perfomances”, as ideias pelos interesses, a substância pelo estilo, o colectivo pelo conectivo, o social pelo indivíduo, o nacional pelo global, abdicando de qualquer autêntica perspectiva de futuro. Como se estivesse anestesiada, ora em júbilo ora em depresão, por uma actualidade frenética que é permanentemente ritualizada em termos de uma crise sem fim pelos irmãos siameses da comunicação social e política dominantes.

– E creio ainda que é também este horizonte – e não a esgotada e inepta cantilena do populismo – que hoje permite compreender tanto a verdadeira novidade, (numa miscelânea de truinfos e de desaires) de Donald Trump, como as razões de fundo, primeiro da surpresa e depois dos múltiplos impasses e fiascos, de Emmanuel Macron.  Mas este tema tem que ficar para outra ocasião.