UMA IMPREVISIBILIDADE MAIS INTENSA

 

– 2018 inicia-se sob o signo de uma imprevisibilidade mais intensa do que a habitual, tanto em termos nacionais como em termos internacionais. E se sublinho este ponto é porque, ao contrário do que parecem pensar muitos políticos e comentadores ( mas ainda há diferença entre ambos?), é a imprevisibilidade e a contingência, e não a previsibilidade e a necessidade, que são a regra da vida política – como de resto da vida “tout court”. Convém por isso ter os olhos bem abertos e o horizonte sempre na mira. O resto – o imediato, os “fait-divers”, a actualidade, etc. – não passa hoje de um anestésico entretenimento, seja qual fôr a forma que tome: telejornais, comentários, debates,etc.

– Nacionalmente, temos sinais de esgotamento de um modelo original de simulacro de coligação que permitiu ao PS atingir o poder, apesar dos resultados eleitorais terem parecido, num primeiro momento, afastá-lo desse objectivo. Imprevisível, não era?, mas foi o que aconteceu. E o poder é um cimento muito forte, provavelmente ainda mais resistente quanto mais as suas bases são equívocas e esquivas, como acontece actualmente.

– A eleição de Mário Centeno ( também imprevisível, não era? todos se riram quando a hipótese surgiu…) tem o enorme mérito de ajudar compreender o verdadeiro regime político em que, independentemente de quem quer que esteja no poder, vivemos hoje na União Europeia, e que impõe àquilo que tradicionalmente se designava por direita e esquerda o mesmo paradigma político, permitindo todas as variantes ( essa é mesmo a condição do seu funcionamento e talvez da sua sobrevivência), mas impedindo todas as diferenças.

O REFORMISMO COMO REGIME

– É pois para esse regime que é preciso olhar, seja nas suas vertentes dominantes (PS, PSD), seja nas dos seus satélites (Bloco, PCP, CDS), todos irmanados no essencial e todos teatralmente em guerra no acessório. Esse regime é hoje bem visível mas nasceu há muito, no começo dos anos 90 – trata-se afinal do que se pode designar como o reformismo, a ideologia reformista, de que o ultra-liberalismo e o mini-socialismo não passam de variantes.

– É isso mesmo que, na Alemanha, está por trás da tentativa actualmente em curso de regresso á “grande coligação”, como é isso que alimenta a ilusão de uma reanimação do eixo franco-alemão, com base nas quiméricas propostas do presidente Macron. O curioso, é que se pretenda contornar este seu carácter quimérico precisamente no momento em que, na verdade, talvez nunca tenham sido tão acentuadas como hoje as diferença de perspectivas sobre a Europa e o seu futuro, entre a Alemanha e os seus próximos, os vários países da Europa Central e Oriental, a França e os países do Sul. E isto em diversos planos: todos os sinais estão aí, mas se calhar vai ser preciso esperar pela chegada de Jens Weidmann à presidência do BCE, no próximo ano, para se reconhecer isso!…

O DEFINHAMENTO DEMOCRÁTICO

– A democracia definha a olhos vistos – ou seja, os cidadãos e as nações têm cada vez menos poder sobre as suas opções e o seu destino – mas esta semana um semanário exalta o apego dos portugueses aos rituais democráticos básicos, vendo nisso uma prova da incontroversa consolidação da nossa democracia. Há quem lhe aponte uns defeitos, claro, mas que é isso quando 84,2% dos inquiridos se considera um “votante habitual”? Pouca coisa, mesmo que a atenção à coisa pública não estimule a curiosidade de 76,6% dos portugueses em saberem o nome de uns quatro ou cinco ministros, e que mais de metade dos inquiridos reconheça que “nunca ou quase nunca” fala de política, seja em casa ou no trabalho.

– Nesta linha de raciocínio, só nos resta congratularmo-nos com a robustez das democracias russa ou turca, por exemplo, pois sem dúvida que os resultados de qualquer sondagem lá feita nestes termos daria certamente resultados muito próximos destes. Ou então, começar a olhar para a democracia para lá dos seus rituais mais banais, e na verdade cada vez mais irrelevantes, distinguindo seriamente, sem concessões, o que é uma democracia e o que é uma democratura.

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