O ECRÃ PRESIDENCIAL

– Marcelo é, dizem, o presidente dos afectos, ele era o presidente de que o País precisáva depois da cinzenta, pesada, década cavaquista. Isto é sem dúvida um facto, mas o mais importante não está nessa mudança de estilos. A alternância de estilos é mesmo, afinal, a normalidade de vida política, o “swing of the pendulum” é uma regra bem conhecida da história…

– A novidade é outra, a meu ver: ela decorre do facto de, mais do que eleito, Marcelo ter deslizado do ecrã televisivo onde esteve cerca de uma década em campanha política para um outro ecrã, que ele montou com inegável talento, o ecrã presidencial, que começou a construir com a sua original campanha eleitoral e consolidou no primeiro ano de mandato.

– O governo terá ajudado, com algumas inabilidades e erros, é evidente. Mas Marcelo, num momento global em que a dessacralização da política converge aceleradamente com a entronização dos “entretainers”, ( olhe-se para o que se passa nos Estados Unidos!…) transfigurou a presidência, instituindo o que podemos designar como o “ecrã presidencial”.

– Por isso, a meu ver a sua novidade não está tanto na sua constante expressão pública de afectos – certamente decisiva, embora cheia de armadilhas, leia-se a propósito o fascinante pequeno livro “Les affects de la politique”, do economista de esquerda Frédéric Lordon, de 2016 -, mas em fazê-lo num novo contexto global, numa nova modalidade comunicacional e numa nova situação nacional.

– Factores estes que fazem da televisão – cujas notícias e eventos são hoje multiplicados ad infinitum e ad nauseam pelas redes sociais e pelas novas tecnologias – o espaço público privilegiado, tanto da afectividade como do sentimentalismo, tanto da “comentarice” como da alacridade, etc.

– Belém ou S. Bento, Queluz ou Sintra, pouco interessam e quase nada sugnificam agora, o ritual presidencial migrou desses lugares simbólicos para os ecrãs mais diversos que, como meros satélites, giram à volta do ecrã presidencial: é lá que, na verdade, está o palácio do presidente Marcelo.

– O que tudo isto vale e onde tudo isto nos leva, ainda estamos longe de o saber…mas esse tempo, como sempre acontece, chegará.

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