A ILUSÃO DAS DIRECTAS

– É hoje evidente a ilusão que foi pensar que o recurso a directas (ou mesmo a primárias, em que podem participar cidadãos não militantes partidários) resolveria os problemas dos partidos políticos e do seu crescente descrédito nas sociedades contemporâneas.

– A lição francesa do ano passado foi, sobre isto, eloquente, com uma “finalíssima” a que não chegou nenhum dos candidatos escolhidos por esses métodos, e tudo se decidiu entre quem escolheu outros caminhos, apresentando-se directamente ao eleitorado. O que por cá se tem passado, e ainda recentemente se passou no PSD, vai no mesmo sentido.

– Pelo contrário, o que até parece cada vez mais claro é que os recurso a estes métodos (directas ou primárias) até pode ter agravado esse descrédito partidário, como frequentemente acontece com as falsas boas soluções. A ideia teve talvez o seu tempo, mas esse tempo já lá vai…

– Isso tem a ver com uma desajustada, quando não mesmo errada, análise dos problemas actuais das democracias contemporâneas que, repetindo os mesms estereótipos há quase um século, dá uma excessiva importância ao funcionamento orgânico dos partidos em prejuízo da atenção que devia dar ao seu esvaziamenrto ideológico e à erosão da sua relação com a sociedade, na sua cada vez mais intensa diversidade.

– A história do último século fez dos partidos, seja qual for o método da escolha os seus candidatos, meros – mas até à data incontornáveis – instrumentos legitimadores do funcionamento formal da democracia. E os partidos assumiram, parece que tão tranquila como inconscientemente, esse papel, que cumprem com uma apatia ritual que os torna na verdade imunes às mais virulentas críticas e a todos os apelos de reforma.

– Não é que não haja muito a mudar – ou não seja possível fazê-lo – nos partidos políticos. Mas isso implica que se parta de uma outra concepção da própria democracia e dos novos e graves problemas que, de facto, ela enfrenta hoje, tomando cada vez mais a forma de democracias “iliberais”, isto é, que regimes que combinam com astúcia – e perante a passividade mais ou menos geral – o exercício do voto com o estrangulamento do Estado de direito.

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