A EUROPA EM DECOMPOSIÇÃO

A EUROPA EM DECOMPOSIÇÃO

 

– Nunca a decomposição da União Europeia foi tão intensa, nunca a sua denegação por parte das elites políticas (e não só…) foi tão grande.

– É hoje evidente o ilusionismo das propostas de Emmanuel Macron, apresentadas com pompa e circunstância na Sorbonne em Setembro último, oscilando entre o mais elementar e inviável bom senso e o mais óbvio e incontornável irrealismo.

– O mais espantoso foi o aplauso com que essas propostas foram recebidas, mesmo por todos aqueles que defendiam ideias muito diferentes – quando não opostas -. como acontecia com Juncker ou com a própria Merkel.

– Dir-se-ia que a União Europeia é hoje uma campânula onde se recreiam as suas elites, indiferentes à realidade das nações e à vontade dos povos, apenas obcecadas com a ortodoxia financista (nas suas várias vertentes) e os humores das agências de rating.

– O que os resultados das eleições alemãs já tinham evidenciado com o colapso das milagrosas expectativas e dos desesperados lances de Martin Schultz (que deixou o SPD à beira de ser ultrapassado pela extrema-direita), e com uma clareza que as eleições italianas deste último domingo reforçaram, foi que a resistência da campânula europeísta é cada vez menor e cada vez mais frágil, e que os seus problemas se revelam aparentemente sem remédio.

– Podia ter sido diferente, mas não foi –  a história nunca volta atrás. Houve certamente um tempo (difícil, mas possível) para o federalismo, nomeadamente antes do imprudente (para não dizer suicidário) alargamento de 2004. Houve certamente um tempo para a simultaneidade das eleições europeias e das eleições nacionais, assim se começando a constituir o “povo europeu”, ainda hoje inexistente como entidade política (e em que as crises nacionais deveriam ser sempre resolvidas por eleições “intercalares”, para se manter o imprescindível ritmo político europeu). Houve certamente um tempo para a criação de um espaço público europeu, feito de partilha de projectos e de ambições comuns, onde tudo ficou por um programa, o Erasmus, fantástico mas raquítico face ao gigantismo da tarefa… Houve certamente um tempo para um referendo simultâneo em toda a Europa, que consolidasse o “povo europeu”, um referendo simultâneo em todos os países sobre quem e como queria ficar na União Europeia e na Zona Euro.

– Esse tempo político existiu, mas passou e, repito, penso que não há condições para que volte. Infelizmente, estas ideias assustaram, com raríssimas excepções, os nossos líderes políticos, hirtos no seu dogmatismo burocrático e nos seus reflexos oligárquicos – com os resultados que, agora, estão bem à vista.

– O que se segue, na decomposição europeia a que assistimos, é naturalmente uma incógnita. Mas já é possível prever muitas coisas, como por exemplo o enterro do ”pacote Macron”, de que apenas sobrevirá, para salvar a face do Presidente francês, o mais irrelevante. Ou, atenção, o assalto alemão ao BCE entre este ano e o próximo, quer à sua presidência (onde Jens Weidmann é o candidato mais forte à substituição de Draghi), quer às chefias intermédias. Ora, se pensarmos que os alemães já dominam o MEE (Mecanismo Europeu de Estabilidade) com Klaus Regling e o BEI (Banco Europeu de Investimentos) com Werner Hoyer, tudo isto deveria dar muito que pensar….

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