A “DESCONSOLIDAÇÃO” DA DEMOCRACIA

– Tudo aponta hoje para transformações de grande magnitude sísmica na nossa vida colectiva e individual, que passam pelo colapso do que até há pouco se julgava previsível, estável, senão mesmo eterno. Todas as referências tradicionais se carbonizaram sem luto ou lamentos audíveis. Todos os projectos que balizavam as opções colectivas se esboroam num curto-prazismo que os arrasta numa enxurrada de banalidades. Por todo o lado cresce um caos feito de puras ambições e dos mais desvairados caprichos, que vai dissolvendo, de um modo quase imperceptível, não só a democracia como a própria política.

  O último Conselho Europeu foi exactamente o que aqui tinha previsto, tudo adiado para junho… As ultimas eleições italianas de há quinze dias, bem como as eleições russas que se lhe seguiram uma semana depois (para já não falar do caso Trump, que talvez não seja a excepção que se quis fazer crer, mas a antecipação de novas regras), deveriam fazer pensar no que está a acontecer simultâneamente na política e na democracia. Podíamos começar, por exemplo, por pensar no significado do facto de falarmos de “eleições” em ambos os casos, para caracterizar actividades e realidades tão distintas e tão distantes, como a italiana e a russa.

 – Infelizmente, encontrou-se um truque para fugir às transformações que hoje se impõe enfrentar: ele consiste em invocar como uma ladaínha sem fim os malefícios do “populismo”. E, assim, ignorar que o que se passa é a erosão de todas as formas de vida democrática e de todas as modalidades de actividade política. Pouco ou nada importa medir a ”confiança” ou avaliar a “qualidade” na e da democracia, quando o problema é outro, e bem mais grave: o da desafeição, a caminho da ruptura,  do povo pela política e pelas variadas formas institucionais que ela toma.

 – É sem dúvida importante aprofundar as análises das ditas “democracias iliberais” e dos ditos “liberalismos não democráticos”. Mas não nos iludamos – são precisos outros conceitos e outras perspectivas para pensar o que está a acontecer e o que lá vem. Nesta linha linha, uma ideia a reter é a de “desconsolidação  democrática”, proposta há tempos (com R. S. Foa) por Yascha Mounk no Journal of Democracy, onde suscitou um vivo e interessante debate. E que foi agora desenvolvido por Mounk numa obra absolutamente obrigatória para quem queira compreender o nosso tempo: The People VS. Democracy (Harvard U.P., 2018), que indica o que verdadeiramente está em causa no seu subtítulo –  “Porque é que a nossa liberdade em perigo e como salvá-la”.

É isso, nem mais.

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