A EUROPA, UM EXTREMISMO DE CENTRO?

– E se a União Europeia tivesse sido a verdadeira precursora dos extremismos contemporâneos, numa forma a que poderíamos chamar um “extremismo de centro”? Se fosse esse o seu verdadeiro adversário – como se viu nos tempos da “troika” -, bem mais do que um “populismo” a que se agarram todos os que na verdade não querem que se fale a sério de nada, sobretudo os que querem defender o “status quo” esconjurando tudo o que os incomoda e os põe em causa.

– É que o “populismo” foi um fenómeno político historicamente bem datado, muito diverso nas suas formas e muito distinto do que é hoje assim chamado, que pouco ou nada tem a ver com as formas políticas extremistas que se têm vindo a impôr nas últimas décadas pelo mundo, tanto à direita como à esquerda. O recurso ao termo revela um anacronismo bacoco que nada esclarece, antes multiplica os equívocos que, de resto, sempre o acompanharam. É bom ter presente que na história nada, mesmo nada, se repete.

– Deve-se, por isso, abandonar o seu uso e focar o que realmente interessa, que é o recrudescimento do extremismo político um pouco por todo o lado. Ou seja: a irrupção política de linguagens coercivas, de comportamentos agressivos, de exigências maximalistas, de teses simplistas e de ilusões sem limite que, em conjunto e em convergência, põem em causa o valor e a eficácia da democracia representativa.

– São estes os traços do extremismo contemporâneo. E se seguirmos por aqui, não só se ganha em compreensão da realidade do mundo de hoje, como descobrimos algo – é a minha tese – que tem sido completamente ignorado: é que, para lá dos extremismos de direita e de esquerda, há um terceiro tipo de extremismo no mundo, e muito particularmente na Europa, que tem estado oculto e tem sido convenientemente silenciado, que é o “extremismo de centro”, extremismo este que tem – e de um modo indiscutivelmente crescente – governado a União Europeia nas últimas duas ou três décadas.

– A designação “extremismo de centro” pode, reconheço, surpreender. À primeira vista ela pode até parecer inverosímil, mesmo contraditória, e esse é sem dúvida um dos seus trunfos. Apesar disso creio bem que este extremismo centrista é bem real – e que é ele que está na origem histórica e política dos outros dois, os de direita e de esquerda. E, ainda, que se trata de uma forma bem mais corrosiva, pelo seu poder e pelas suas consequências, do que a desses dois outros extremismos.

– Por isso mesmo, penso que é para este “extremismo do centro” que é urgente olhar hoje cirúrgica e detalhadamente, para pensar e configurar a realidade de outro modo, contrariando assim o “impensar” sobre o mundo que a permanente invocação/diabolização do “populismo” consegue impôr no espaço público.

– Sobretudo quando se descobre, como David Adler acaba de mostrar recentemente (cf. o seu artigo no “New York Times” de 23 de maio último, onde sintetiza as suas investigações sobre o tema), que – para espanto de muitos – são os centristas, e não os esquerdistas ou os direitistas, que se mostram mais hostis à democracia.

– O extremismo de centro identifica-se, de resto, com facilidade. Basta olhar – com olhos de ver – para o famoso TINA (“There Is No Alternative”): encontram-se logo aqui, e em todas as diversas variantes desta repetida fórmula e da estratégia que a sustenta, todas as características do extremismo político que atrás referi e que têm marcado a vida política europeia.

– Este “extremismo de centro” aproxima-se do que há anos um politólogo americano, Tony Corn, designou sob o nome de “europeísmo” – um fenómeno que teria o efeito de um autêntico “ópio dos europeus” e resultaria da conjunção de três factores. Em primeiro lugar, o da Europa se ter tornando, para as suas classes dirigentes, mais num álibi táctico do que num efetivo projeto político.

– Depois, o de a burocracia europeia se ter dedicado sobretudo, mais do que à defesa e promoção do “interesse europeu”, à criação de formas alargamento, de consolidação e de reprodução do seu poder burocrático e dos seus privilégios. Por fim, o de se ter habilmente promovido uma “lumpen-intelligentsia” que, a troco de múltiplas benesses, formou um exército de evangelistas desta nova ideologia, mascarando assim o seu férreo extremismo de centro com um angelical centrismo cada vez mais apolítico.

– E o facto, é que se encontram com facilidade estes fatores quando analisamos a evolução europeia dos últimos 20/30 anos, com meros slogans a substituírem cada vez mais a análise do mundo e das suas transformações, paralisando assim o que até há pouco era o continente mais dinâmico do mundo, tanto em termos económicos como em termos sociais ou culturais.

– A ideologia europeísta do “extremismo de centro” conduziu deste modo, para surpresa de muitos, ao facto de, como bem sublinha Tony Corn, quanto mais Bruxelas pesa na Europa, menos a Europa pesa no mundo, uma vez que “sem uma vontade comum de criar uma Europa potência, sem uma percepção comum tanto das ameaças como das oportunidades, a única força resultante da União Europeia acaba por ser a força da inércia” – inércia que, sublinho eu, foi exactamente a máscara mais frequentemente usada pelo extremismo europeu.

– Assim sendo, as últimas eleições europeias disputaram-se, no essencial, entre três extremismos: de direita, de esquerda e de centro. Com a particularidade – e o ineditismo histórico – de os dois primeiros tenderem a entender-se mais facilmente entre si do que com o extremismo de centro. Não admira, pois, que sejam muitas, mesmo muitas, as surpresas que os próximos tempos nos reservam…

– É contudo possível reter desde já algumas ideias. Para não me alongar, destaco apenas três. A primeira, é a do colapso do último mito salvador/regenerador da União Europeia, Emmanuel Macron, cuja agenda para a Europa se revelou um inteiro fiasco, desde o seu anúncio em Setembro de 2017 até à sua derrota nestas eleições, frente a Marinne Le Pen. Depois, o reforço, atingindo níveis até há pouco imagináveis, dos mais acérrimos críticos da União Europeia, seja pela direita, seja pela esquerda, consagrando a emergência política de um extremismo bicéfalo direita-esquerda que – note-se – não é hoje mais, em grande medida, do que a resposta ao “extremismo do centro” que foi a força política que, na convergência das heranças das social-democracias e das democracias-cristãs históricas, na verdade dominou inteiramente as políticas europeias nas últimas décadas em todas as vertentes, com destaque para a económico-financeira.

– Por fim, em terceiro lugar, o Parlamento Europeu que resultou das eleições de 26 de Maio pode vir a ser – é apenas uma possibilidade, eu sei!… – o fórum político de debates que na realidade têm sido censurados, em torno dos efectivos problemas da União Europeia e da Zona Euro, uma vez que agora os seus críticos se poderão fazer ouvir lá com outro impacto, obrigando os seus defesores a abandonar os esgotados estereótipos com que até aqui têm disfarçado a sua cínica inércia política.

– No fundo é como se, com estes resultados, as eleições europeias tivessem introduzido no Parlamento Europeu uma espécie de “Cavalo de Tróia”, que poderá abanar seriamente a sonolenta e opulenta bonomia burocrática em que ele tem vivido desde a sua criação. É isso que agora interessa observar, enquanto se desenrola o habitual jogo de forças para a designação dos novos presidentes da Comissão e do Conselho europeus, bem como do Alto Representante para a Política Externa, além…atenção, muita atenção, do novo presidente do BCE!…

 

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