A CHINA DE QUARENTENA, JÁ!

A PANDEMIA NÃO CAIU DAS NÚVENS

– Tinha decidido fazer um “retiro social” em 2020, para acabar dois livros e, entretanto, dedicar-me a alguns outros trabalhos igualmente importantes. Infelizmente, a eclosão do “coronavírus” não me permite manter inteiramente aquele retiro, porque julgo imperativo dizer algumas coisas que, no essencial, ninguém diz. É o que hoje aqui procuro fazer, num texto a que outros certamente se seguirão.

– Se queremos ter futuro, algum futuro, deixemos por momentos as “actualidades” e olhemos para a causa do inferno que o mundo vive hoje. Porque há uma causa: ela existe, está bem identificada, não suscita controvérsias, mas está sujeita a uma invisível censura global, nuns casos intencional noutros da ordem da negligência, como se a pandemia tivesse afinal caído das nuvens…Mas não, a pandemia do CODIV-19 nasceu na China e de lá virão outras se entretanto nada fizermos para o impedir.

– Não vou por isso acrescentar nada ao “folhetim” da crise do novo vírus, do seu aparecimento e da sua progressão, do seu contágio e das medidas tomadas, seja no âmbito nacional ou internacional. Disso estamos todos bem servidos e todos  convergimos na solidariedade com os infectados e os afectados, no reconhecimento aos serviços médicos e sanitários, sem grandes discussões sobre as opções políticas tomadas e em curso.

– O meu foco, de que quase ninguém fala mas de que é fundamental que se fale já – e muito – é, em primeiro lugar, o de como se chegou aqui e de como é que se impedirá que uma tal situação se repita. E depois, em segundo lugar, de qual o significado civilizacional de tudo o que aconteceu, que mundo se pode esperar que surja desta epidemia e das suas consequências.

A IRRESPONSABILIDADE CHINESA E A NEGLIGÊNCIA GERAL

– Fiquemos hoje pelo primeiro, de um modo claro e directo: chegou-se aqui por irresponsabilidade criminosa das autoridades chinesas e por generalizada negligência política dos dirigentes políticos. Começando por estes últimos, houve alertas suficientes para que tudo pudesse ter sido diferente. Desde logo o alerta da então ministra da Saúde francesa, Agnès Buzyn, a 21 de janeiro passado, a pedir medidas preventivas devido às informações que já então tinha e circulavam em relação ao que se passava em Wuhan, alerta que foi completamente ignorado.

– Informações que eram de facto alarmantes, uma vez que a China, onde o primeiro caso de infecção pelo Corona Vírus tinha ocorrido a 17 de Novembro de 2019, só informou desse facto a Organização Mundial de Saúde (OMS) a 3 de Janeiro deste ano. E foi logo também em janeiro que um grupo de peritos liderados por Alain Bauer alertou várias autoridades nacionais e internacionais para as medidas sanitárias e políticas que era urgente tomar face à situação de Wuhan, tendo igualmente sido ignorado (com excepção de Taiwan, com os bons resultados que hoje conhecemos) por todos os dirigentes, talvez vítimas, como diz Bauer, do que ele  designa como “o síndroma de Semmelweis”, nome do médico húngaro que, em finais do século XIX, foi demitido do Hospital de Viena onde trabalhava por defender, numa perspectiva anti-infecciosa, a  lavagem das mãos antes de qualquer acto médico, em particular no domínio ginecológico!!!!… 

– É assim extraordinário, ainda por cima tendo em conta que os últimos e mais graves surtos virais tinham tido origem na China, que o alerta de janeiro da ministra francesa da Saúde, o dos peritos acima referidos (e os de diversos serviços de saúde de vários países que já tinham a mesma informação), tenham sido, primeiro simplesmente ignorados, depois menosprezados pelos principais dirigentes políticos mundiais, revelando assim bem a incúria com que exercem as suas responsabilidades políticas para com os seus povos.

DOIS PONTOS A RETER

– Há dois pontos a reter: o primeiro é que nenhum líder político, nacional ou internacional, esteve à altura das circunstâncias, entretidos com as politiquices do costume. Só a seguir, quando a bomba rebentou,  é que todos começaram a fazer o que podiam numa lógica de “damage control”, a única que na verdade a sua anterior negligência agora lhes permitia. É de lhes desejar o maior e mais rápido sucesso nesta tremenda batalha, mas também de lhes colocar já, mesmo já, a pergunta sobre como se evitará que tal situação se repita.

– E esta pergunta é vital, como o é a resposta que lhe for dada – e este é o segundo ponto a reter. É que, além de não se poder continuar a falar desta pandemia como de algo que não podia ser evitado – porque  podia! – , há hoje informações científicas seguras não só de como este  vírus surgiu e se propagou, mas também de como outros, provavelmente bem mais devastadores, inevitavelmente surgirão no futuro próximo se rapidamente não forem tomadas medidas drásticas.

O QUE SE SABE

– Voltamos aqui ao que se sabe, para irmos depois ao que ninguém diz: o que se sabe, é que estas novas doenças virais (da sida ao ébola, do SARS ao COVID-19) não aparecem espontaneamente no ser humano, são doenças transmitidas por animais ( as chamadas “zoonoses”), sobretudo por animais “próximos” do homem, como é o caso dos mamíferos. O que já se tinha verificado com o SARS em 2002, é que tal transmissão ocorre nos mercados chineses de animais selvagens  – que são aos milhares – onde eles são vendidos, mortos  ou vivos, não só para a alimentação mas também para outros fins, medicinais, religiosos, afrodisíacos, etc.. 

– No caso do SARS sabe-se que a transmissão aos humanos foi feita pelo gato civeta, animal que por sua vez tinha acolhido o vírus vindo do morcego. E aqui é de lembrar que já havia precedentes, no que diz respeito à irresponsabilidade das autoridades chinesas, pois quando o vírus SARS eclodiu na China, em 2002, todas as informações sobre ele foram censuradas, para não prejudicar o ambiente político do momento, que era o da entronização do presidente Hu Jintao. 

– Foi esse comportamento que se repetiu agora quando, em Dezembro de 2019, as autoridades chinesas ameaçaram brutalmente o médico Li Wenliang  quando ele as tentou alertar para a eclosão de um novo vírus em Wuhan, tendo mesmo destruído amostras clínicas e feito desaparecer toda a informação sobre o assunto.

O QUE NINGUÉM DIZ

A responsabilidade da China na pandemia mundial que hoje se vive é pois imensa, e foi reforçada pelos estudos recentes feitos em Inglaterra, na Universidade de Southampton, que apontam para o facto de, caso o poder chinês tivesse tomado medidas imediatas aos primeiros alertas que teve sobre o aparecimento do actual vírus, a epidemia poder ter sido evitada. A China está pois na origem da pandemia mundial deste vírus, o seu comportamento dos seus dirigentes foi  – é preciso dizê-lo com toda a clareza, agora que ela pretende aparecer com o “bom da fita”- de uma negligência verdadeiramente criminosa.

A impunidade da China, bem como a cumplicidade dos vários dirigentes mundiais com ela tem que terminar. Wuhan /2019 repetiu, na incompreensível indiferença geral, o que aconteceu em 2002 – e ninguém sabe o que virá a seguir se não forem tomadas já medidas drásticas nesse sentido. Neste quadro, a cumplicidade da OMS com a China foi particularmente lamentável, ao garantir em meados de janeiro que a situação em Wuhan estava controlada – o que era falso -, fazendo então os maiores elogios às autoridades chinesas.

– Os responsáveis chineses já  tinham dito em 2002 o que agora repetem, que vão proibir o comércio de animais selvagens para alimentação e outros afins, mas tal não é verdade, tudo indicando que tolerância com esse comércio continua, bem como a adopção doméstica de alguns destes animais. E o mais grave é que esta atitude dos dirigentes chineses se deve em boa parte à relação de milhões chineses com os seus diversos animais selvagens, que estão na base de muitos aspectos da sua vida, nomeadamente da medicina tradicional – é o caso do pangolim, animal que é utilizado para tratar tudo, desde a febre às doenças venéreas passando por várias infecções, erupções cutâneas, etc., e que tudo indica  ser o animal que está na origem da actual pandemia.

A SOLUÇÃO QUE O FUTURO DA HUMANIDADE EXIGE

– Relação que é muito difícil de alterar sem fortes medidas impopulares. Num artigo recente que o virólogo Nathan Wolfe  co-escreveu com o famoso biólogo Jared Diamond (autor desse extraordinário livro Collapse – How Societies Chose to Fail or Succeed) sobre este problema, compara-se a relação dos chineses com estes seus animais selvagens e exóticos com a relação dos franceses com o seu vinho tinto ou o seus queijos, para assim se ter uma noção da imensa dificuldade do problema, e da impossibilidade de o resolver com paninhos quentes.

– Estes consagrados cientistas são claros: se não se acabar com esta situação do comércio de animais selvagens, dizem, “o próximo vírus depois do COVID-19 poderá ser ainda pior. A conectividade das populações do mundo inteiro continua a aumentar, não há nenhuma razão biológica válida para que as futuras epidemias não matem centenas de milhões de pessoas e não mergulhem o planeta numa recessão de várias décadas, sem precedentes na história.” (Washington Post, 16.03.2020)

– Tenhamos consciência que tudo isto é uma consequência trágica da globalização selvagem que se incentivou desde os finais do século passado, reduzindo-a à sua dimensão estritamente económica, entendida esta como uma interminável espiral de ganância, alimentada por salários baixos e lucros altos. E que tudo o mais, culturas, valores, religiões, tradições – muitas vezes seculares – foi ignorado e desprezado, com as consequências que agora estão bem à vista, sem desculpa para quem as continue a ignorar

– Em conclusão: é preciso encontrar rapidamente uma solução para a gravidade deste problema, não sendo de descartar, se não se encontrar melhor, que a comunidade internacional  tenha de pôr a China de quarentena até se ter a absoluta garantia que estes focos epidémicos foram eliminados ou estão completamente controlados,  acabando com a cobarde hipocrisia de se andar a tratar os chineses como se fossem nossos aliados, e não – como efectivamente são – os nossos principais adversários neste decisivo combate da humanidade pelo seu futuro – eis, ocorre-me agora, o que seria uma excelente causa para o Secretário-Geral da ONU.

– Isto teria evidentemente custos para todos, que não seriam pequenos, seria evidentemente o fim da “globalização feliz” tão apregoada por grande parte dos tão incapazes e anestesiados políticos, intelectuais e media ocidentais. Mas que não haja dúvidas: só assim se resolverá o problema que está na raiz da actual pandemia e se evitarão novas pandemias que provavelmente serão ainda muito mais brutais.  

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