UMA CIVILIZAÇÃO VIRAL

O NOVO MUNDO

 – A abordagem que propus no texto anterior exige, a meu ver, que se vá mais longe se quisermos compreender o actual momento que a humanidade vive, o porquê do pânico e do caos em que o vírus COVID-19 pôs todo o mundo, revelando as imensas fragilidades em que assenta a civilização que temos vindo a construir. 

– É preciso começar por lembrar que epidemias e pandemias aconteceram às dezenas ao longo da história da humanidade (basta lembrar, por exemplo, as provocadas pelos vírus da gripe espanhola, da varíola, da sida, da gripe suína (H5N1), do SARS ou do MERS), mas nunca o pânico teve a intensidade daquele que se vive agora, colocando  o mundo à beira de caos generalizado, cujos efeitos – de toda a ordem –  estamos longe de imaginar.

– Deixando agora de lado o criminoso comportamento da China (quanto mais se sabe o que se passou, mais eu insisto neste ponto) e a incúria dos dirigentes nacionais e mundiais a que me referi no último texto, isto acontece, a meu ver, por uma razão simples e clara, que se desdobra por várias outras que iremos vendo. E essa razão é que vivemos hoje num novo mundo, completamente diferente do que existia até há poucas décadas, num mundo que temos vindo a construir sem disso termos qualquer consciência clara (como alguém escreveu, “estamos a fazer história sem saber que história é que estamos a fazer”), nem – e este ponto é nuclear – qualquer noção das suas consequências, a não ser quando elas começam a ocorrer em cascata, como aconteceu com as alterações climáticas, o colapso financeiro de 2008, a interminável crise do euro, etc., etc. 

– Não basta contudo dizer que este novo mundo é o da globalização – seja ela glorificada ou diabolizada – até porque globalizações já houve várias, desde a do século XV até à do início do século passado.  O que é preciso dizer, e sobretudo compreender, é que o novo mundo em que vivemos se caracteriza por a globalização actual se desenvolver no âmbito de um modelo civilizacional inédito, marcado pelo que há muito designo como o paradigma do ilimitado.

O PARADIGMA DO ILIMITADO

– Este paradigma define-se por quatro parâmetros, em acelerada – e inédita, repito – convergência, que são: uma globalização sem qualquer regulação nem instituições (políticas, económicas, sanitárias, culturais, etc.) adequadas e indispensáveis; um capitalismo (o bem chamado “financismo”) que descolou da economia impondo-se pela sua “criatividade” especulativa sem escrúpulos nem limites;  umas novas tecnologias, que exercem sobre tudo e sobre todos, sem quaisquer regras, um domínio sem precedentes históricos; um individualismo narcísico, sem referências nem valores, a redefinir a humanidade contemporânea (desde o plano da subjectividade ao das interações colectivas), como se ela fosse composta por verdadeiros mutantes.

– É este nosso novo mundo, que é uma sofisticada reinvenção da selva à medida do nosso tempo, que é preciso analisar e compreender, o que só é possível ultrapassando as barreiras com que as elites financeiras, políticas e mediáticas nos procuram distrair e anestesiar, oferecendo-nos as mil faces de um entretenimento cada vez mais caleidoscópico ( que vai da mais patética diversão às sempre tão selecionadas “notícias” passando pelos inúmeros e sempre ruminantes “comentários”), que hoje ocupa a quase totalidade do espaço público, tornando na verdade quase impossível essa tarefa tão indispensável que é …pensar!

– Não vale pois a pena perder um minuto com essas velhas lérias, de esquerda ou de direita, nem com os rituais em que elas se comprazem – entre os remendos políticos sempre atrasados, as oportunistas ladainhas que permitem aos “media” surfar interminavelmente todas as “crises” e a alacridade autossatisfeita dos nossos humoristas -, determinando assim o ritmo a que bate o coração dos cidadãos, das nações e do mundo e tornando o impensar talvez no mais letal vírus do nosso tempo. 

– É por isso urgente mudar de lentes e de perspectiva e perceber que –  como já se pode ter compreendido pelo que tem acontecido com as alterações climáticas ou a crise financeira – a humanidade do paradigma do ilimitado leva hoje tudo aos seus mais extremos limites de possibilidade, como nunca tinha acontecido na história humana, sem qualquer prudência ou precaução, como se na verdade acreditasse que o ilimitado está ao seu alcance.

O BOOMERANG DOS LIMITES

– A tendência pode vir de longe – Darwin andou perto de o afirmar –, mas as suas condições de concretização são talvez bem mais recentes e contrariam frontalmente a máxima de Marx segundo a qual “a humanidade não cria problemas que não seja capaz de resolver.” Hoje sabemos que Marx estava errado e que cria mesmo, ao avançar por caminhos sem avaliar as suas consequências, transformando assim, de excepção numa  frequente inevitabilidade, o famoso “cisne negro” teorizado por Nasim N.Talim. 

– O novo mundo do paradigma do ilimitado caracteriza-se justamente por levar esta tendência ao extremo, com os quatro cavaleiros do apocalipse que atrás referi (nova globalização, novo capitalismo, novas tecnologias e novo individualismo) a trabalharem em convergência, de tal modo que desapareceu qualquer margem de manobra no sentido de alterar o “estado do mundo”, como de resto só não viu quem não quis com o modo como se  “resolveu” – ficando tudo quase rigorosamente na mesma – a crise financeira de 2008, a crise do euro ou se vai tratando da crise ecológica.

– O que aconteceu foi que o novo mundo se construiu , sobretudo nas últimas décadas, na denegação (ou seja, numa negação que se sabe ser falsa, mas é conveniente ou vantajosa, noção inspirada na “verneinung” tematizada por Freud )  de todos os limites – seja no âmbito da energia ou do consumo, dos direitos ou dívida, entre outros .

– O que torna uma crise sanitária como a actual mais grave do que as outras , anteriores ou presentes, é o facto de ela expôr em toda a sua imensa extensão, não só os “pés de barro” em que a nossa civilização assenta, como a sua “natureza” viral. E este traço faz dela uma civilização nova, sem precedentes históricos e de efeitos imprevisíveis. E de o fazer a partir do seu ponto mais cego, que é o de uma sociedade que vive esconjurando a cada segundo a maior e a mais ignorada das evidências que, como se viu, num sopro repõe, com a força de um boomerang, a incontornável força dos limites: isto é, a evidência da morte, sem a qual não é possível dar qualquer sentido à vida.

– Tal como vimos  com  a discussão das alterações climáticas, em que para lá do Carrossel das Cimeiras Inúteis nada –  rigorosamente nada – se fez,  também  com a crise sanitária actual nada de fundo mudará, tudo se vai resumir aos remendos possíveis e ao “damage control” do costume,  com a humanidade “morta” por seguir em frente até à próxima  – e “imprevisível”, claro! –  crise, numa espiral também ela ilimitada. Não devíamos, é certo, mas é assim que vivemos neste novo mundo, que construímos incentivados por todos os partidos e por todos os media, cegos ao apocalíptico abismo do paradigma do ilimitado, com as suas esplendorosas fantasias de riqueza e bem-estar, de paz e de crescimento, de solidariedade e de eternidade. 

– A ocasião seria óptima, se ainda houvesse um átomo de inteligência e de coragem em quem dirige o mundo, para pensar a sério onde nos conduz esta globalização selvagem, sem regras nem instituições, esta União Europeia sem estratégia nem potência, estas novas tecnologias sem lei nem regulação, este individuo “imortal”, sem destino nem valores. E “pensar a sério” seria, no mínimo, pensar um novo paradigma, capaz de combinar e de impor duas dimensões fundamentais: um novo sentido dos limites com uma nova avaliação dos possíveis. Mas não nos iludamos, é já talvez muito tarde para isso.  

O PONTO DE NÃO-RETORNO

-Tal facto parece, na verdade, muito improvável. O mais certo é que tenhamos já ultrapassado um limiar de irreversibilidade, um ponto de não-retorno e que já não haja margem de manobra para um tal passo. O salto para a globalização foi, na verdade, um salto para a selva: sem leis, sem regras, sem valores, sem instituições. Foi o massacre da diversidade do mundo em todos os planos – fossem eles naturais ou culturais – na guilhotina de um mercado endeusado como a única dimensão legitima para tutelar todos os sectores da vida, tão brutalmente dominadora como verdadeiramente global. 

– Tudo o mais, nações, culturas, fronteiras, tradições, valores, religiões, instituições, tudo, por mais secular e valioso que fosse, foi esmagado pelo rolo compressor desse novo e único deus na terra –  foi assim que aqui chegámos e aqui estamos, primeiro só desamparados, depois já angustiados, agora cada vez mais aterrorizados.

– Penso há muito – e fui-o dizendo e escrevendo, sem ilusões – que as democracias modernas não dispõem nem dos meios necessários nem dos dirigentes capazes para enfrentar – e muito menos para prevenir – os tremendos problemas que elas mesmas criam, seja no plano económico ou financeiro, educativo ou cultural, social ou ecológico. Que as democracias se têm desenvolvido “contra si mesmas”, como Marcel Gauchet escreveu no título de um dos seus livros, em que contudo não assumiu a tese mais radical que eu aqui sustento.

– E essa tese é que entrámos nas últimas décadas numa fase histórica em que, acumulando os efeitos as várias crises que referi, passámos já o limite da irreversibilidade, ou seja, o ponto de não-retorno. E como acredito profunda e, creio, fundamentadamente na contingência, penso também que se poderiam ter tomado outros caminhos, como sempre acontece tanto na história como nas nossas vidas. Mas há certas vias que – como todos bem sabemos pela nossa experiência pessoal – uma vez tomadas, fecham irreversivelmente outras que, antes, eram possíveis.

– É esta hoje a situação da humanidade. E não é de apontar culpados que agora se trata, mas de compreender, tão perto das lições da história como longe de moralismos anacrónicos, o que nos trouxe aqui e que margem de manobra – por mínima que seja, caso ainda exista – temos  nós.

– Um ponto é aqui crucial: seja-se optimista ou pessimista, temos de partir do reconhecimento da finitude do mundo e da vida, da consciência que o mundo é finito e que o nosso destino como humanidade se cruzará inevitavelmente com essa finitude, tal como o nosso destino individual se cruzará com a inevitabilidade da morte. 

– Este ponto é, de resto, uma condição sine qua non  de qualquer ética digna desse nome. O problema, e é um grande problema, muito ligado ao feixe de factores que nos trouxe aqui, decorre de o triunfo do paradigma de ilimitado só ter sido possível negando a naturalidade e a inevitabilidade da morte, que foi sendo esconjurada de múltiplas formas até ao seu desaparecimento das nossas vidas, do espaço público e mesmo privado, sobrevivendo hoje apenas como espectáculo, como acontece com a morte das chamadas “celebridades”.

– Daí que a saúde tenha, há muito e perante a indiferença e o impensar geral, tomado completamente o lugar da educação nas políticas públicas de todos os países; daí que  culto do juvenilismo se tenha erigido na liturgia tão vazia como central do nosso tempo, daí que o transumanismo (“já nasceu a pessoa que vai poder viver mil anos” afirmou por exemplo Audrey de Grey, líder da Fundação SENS ) se tenha imposto com a inusitada facilidade com que o fez.Etc.

– O caminho, contudo, está feito e, repito, creio que ele é sem retorno. Tudo se encaminha para que, na melhor das hipóteses, vivamos numa democracia cada vez mais formal, mínima e residual, animada já não por qualquer tipo de expectativas ou convicções colectivas, mas sustentada pelos “cadáveres adiados” (Fernando Pessoa) da política e dos media – no fundo cada vez mais iguais -, pelas suas crises e pelos seus remendos sem futuro, num mundo que na verdade os dispensou há muito, no júbilo consumista – agora em angustiada suspensão – de um presente atordoado e sem sentido.

Voltarei ao tema.

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