SEM RETORNO

SÓ MUITO ADIANTE SE SABE O QUE FICOU PARA TRÁS.

– Uma das minhas máximas preferidas diz que “só muito adiante se sabe o que ficou para trás.” Daí que, de momento, não me surpreenda que se multipliquem as inevitáveis perguntas sem resposta, do género, por exemplo: mas afinal esta pandemia do Codiv-19 será um prenúncio do que nos espera no futuro? Ou será mais uma excepção, a juntar às várias que já ocorreram na história da humanidade? Ou ter-se-á tratado de uma negligência, que há que ultrapassar, por grave que tenha sido e ainda seja?

– A isto acresce que  cada um vê na actual pandemia o que lá quer ver: os ecologistas radicais vêem o anunciado colapso global, enquanto os ecologistas moderados espreitam a oportunidade para reforçar as suas propostas; os soberanistas diagnosticam o fim da globalização – ou mesmo da União Europeia – e o inevitável retorno das fronteiras, enquanto os globalistas ser resignam à necessidade de alguma regulação; os evangelistas das novas tecnologias não perdem a ocasião para mostrar que só elas salvarão o mundo, enquanto os tecnófobos denunciam tudo isso como um embuste.  

– Os reformistas, por sua vez, dirão que é o momento da mudança, que nada voltará a ser como dantes, ao mesmo tempo que os mais conservadores prevêem um regresso à normalidade, com diferenças  claro, mas sem grandes rupturas. E haverá certamente ainda os que, como aconteceu a seguir à Peste Negra de 1348, se entregarão a uma dura penitência para expiar a sua suposta culpabilidade na catástrofe, enquanto outros não pensarão senão em orgias fantásticas que finalmente os compense de semanas e semanas de penosa reclusão! 

– Para já não falar de ensaístas que, como José Gil, levam o desconchavo ideológico-conspirativo ao ponto de considerarem que a pandemia actual do coronavírus é – quem diria?!… – “a manifestação extrema da doença tecno-capitalista que há dois séculos se infiltrou nas sociedades humanas” (Público, 13.04.2020).

– Enfim, há como se vê para todos os gostos, desde que tudo se mantenha no vasto quadro dos estereótipos habituais, tão previsíveis como inúteis. Insisto, por isso, no que tenho dito: creio que se trata de outra coisa, de algo que engloba sem dúvida algumas das hipóteses e perguntas que referi, mas é preciso ir mais longe e mais fundo no sentido de pensar de facto o significado inédito do que vivemos hoje e do que se anuncia no nosso horizonte.

– É disto, e só disto, que aqui se trata. A pandemia que assola todo o mundo é, a meu ver, um acontecimento que descredibilizou as canónicas larachas que há anos se multiplicam na boca dos políticos e dos media, irmanados como verdadeiros siameses numa sufocante tagarelice marcada pelo garrote do politicamente correcto, cujo objectivo é – conscientemente ou não – o de  impedir os cidadãos de pensar e de se aperceberem dos traços fundamentais do mundo que, na realidade, temos vindo a construir. E das suas incontornáveis consequências, claro.

 LIMIARES DE IRREVERSIBILIDADE

– No meu último texto procurei – a traços largos, que neste âmbito só podem ser muito sintéticos, mas sem prejuízo do rigor que o tema exige -, avançar uma leitura do nosso tempo, defendendo a perspectiva que o novo mundo em que vivemos é o de uma civilização viral, alimentada pelo que designo como o paradigma do ilimitado.

– Esta perspectiva aponta para um facto que poucos conseguem – ou querem – ver, que é o facto que vivemos uma situação historicamente inédita que não se compadece com remendos, paliativos, adiamentos, metáforas, anestesiantes, desvios e tudo o mais que se quiser no registo da manutenção do status quo.

– E esta situação é inédita porque, a meu ver, esta civilização se caracteriza sobretudo por ter atingido um ponto não retorno, isto é, por ter ultrapassado os limiares de irreversibilidade em domínios essenciais da vida humana e da vida do planeta, pelo que aquilo que nos espera é, na verdade, o desconhecido, na mais inquietante e absoluta das formas que ele pode tomar. Nunca tal tinha acontecido na história da humanidade, que  desde o séculos XVI até ao nosso século se foi identificando cada vez mais com o completo domínio do Universo.

–  No fundo, a questão decisiva que se nos coloca hoje e que devia ser tema de reflexão obrigatório para todos nestas quarentenas é de formulação muito clara e pode desdobrar-se em duas ou três perguntas: o que somos nós (sobretudo nós, ocidentais) no apogeu desta forma de vida que o paradigma do ilimitado nos proporcionou? Que balanço fazemos do caminho feito e dos resultados alcançados? O que queremos para o nosso (eventual) futuro e o dos nossos filhos, mais do mesmo ou algo distinto – e, neste caso, o quê?

– Não é fácil abordar estas questões, que aqui apenas pretendo sinalizar, juntando-lhes modesta e sucintamente algumas ideias. Comecemos pela “forma de vida”. E, inspirando-me em Spinoza – cuja convicção neste ponto partilho inteiramente – diria que todas as “formas de vida” tendem não só a persistir na sua existência, como a alargar as suas possibilidades até ao limite do possível, só desistindo disso quando a tal são forçadas por forças que lhes são exteriores e mais fortes do que elas. Toda a história da humanidade confirma, de resto, este “axioma”, sem o qual estaríamos talvez ainda a viver nas cavernas do paleolítico…

– Trata-se de um axioma que se inspira na tese que o filósofo das ciências Thomas S.Khun sustentou há anos com a sua famosa teoria das revoluções científicas, ao mostrar que um paradigma não só vai sempre até ao limite das suas possibilidades, como persiste nele “dogmaticamente” por mais dificuldades que enfrente, até que outro paradigma apareça e se revele capaz de o substituir integralmente. Isto é, se mostre capaz de resolver os problemas que o anterior não conseguia solucionar, mas sem perder nenhuma das suas anteriores capacidades operatórias e explicativas. Foi, como se sabe, o que o génio de Einstein conseguiu,  face aos múltiplos e sucessivos impasses do paradigma físico anterior, o galilaico-newtoniano.

– Também o filósofo Gilbert Simondon andou perto desta ideia, com o seu conceito de “saturação”, ao defender que um universo mental (mas podíamos dizer económico, cultural, social, ecológico, etc.) está saturado quando chegou ao intransponível limite das suas possibilidades. E que só então, nessas circunstâncias extremas, quando a sua sobrevivência lhe parece estar em causa, é que ele se resigna a transformar-se, umas vezes com sucesso outras não.

– Este esticar dos limites das “formas de vida” (seja na visão de Kuhn ou de Simondon) está na origem de muitas das chamadas inovações que, em múltiplos domínios, muitas vezes não são mais do que astuciosas tentativas (também aqui, umas vezes com sucesso, outras não) de prolongar “formas de vida” em risco, seja em que âmbito fôr.

GLOBALIZAÇÃO – UMA NOVA FOLGA?

– Foi claramente este o motor da mais recente globalização, que também enfrenta agora os limites da sua dinâmica, depois de ter conhecido uma aceleração sem precedentes nos últimos 30 anos. E na origem deste processo estiveram justamente, por sua vez, outros limites: os do capitalismo no Ocidente que, não conseguindo “comprimir” mais os salários nos países ocidentais, descobriu no recurso aos baixos salários da Ásia, nomeadamente na China, o modo mais eficaz de aumentar os seus lucros .

– Ao fazê-lo, ao deslocar para a Ásia o essencial da sua produção, o capitalismo baixou os níveis de “saturação” que estava a atingir no Ocidente, ganhando assim mais uns anos de folga e de grandes lucros, fazendo-o ainda por cima com ganhos para o ingénuo consumidor ocidental, convencendo-o que ele vivia, como dizia o slogan então repetido ad nauseam, uma definitiva era de “globalização feliz”.

– E se digo que o que se conseguiu foi uma “folga”, é porque – ponto fundamental que é constantemente esquecido e/ou recalcado – vivemos num mundo finito que, como tal , não comporta nenhum recurso infinito. E esse mundo não tardará, ao que tudo indica, a fazê-lo saber a uma humanidade anestesiada pela húbris voraz do paradigma do ilimitado e por todos os seus engodos, por mais que os evangelistas da inovação permanente procurem inculcar o contrário, nomeadamente através do endeusamento dessa forma cada vez mais informe e mortífera que é, hoje, a do mercado.  

– Ou melhor, do “novo” mercado, porque a palavra pode ser a mesma que se usa há séculos, mas a realidade que ela designa é hoje – não nos iludamos sobre este ponto – profunda e substancialmente diferente daquela a que, tradicionalmente, ela se referia. Ela não é, numa cada vez maior parte dos casos e situações, senão uma oportuna e eficaz máscara que esconde profundas  transformações que importa escrutinar e compreender.

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