A ERA DAS PANDEMIAS?

VIVER COM O VÍRUS

– Sabem porque é que se muda de hora duas vezes por ano, em fins Março e de Setembro? Por uma razão simples, que raramente se reconhece –  é que mais fácil mudar de hora do que mudar de hábitos. Com a pandemia do coronavírus e o súbito reaparecimento do medo da morte (há muito obsessivamente recalcado nas nossas sociedades) pareceu que isto se ia alterar, mas tratou-se apenas de um sobressalto, que rapidamente cedeu à força do hábito.

– Daí que a crescente intensidade dos apelos à retoma da normalidade e ao fim do “estado de emergência” não tenha sido, para mim, motivo de grande surpresa. Claro que o argumento económico tem peso, e não é pequeno, muito pelo contrário, ele é mesmo cada dia que passa mais incisivo. Mas o pano de fundo das exigências de normalização decorreu sobretudo da dificuldade humana, para não dizer mesmo da actual  incapacidade humana, para viver de outro modo que não aquele a que se habituou nas últimas décadas.

– António Costa, que como se sabe nem sempre é dotado para fórmulas felizes, foi quem melhor expressou essa aspiração e o estado de espírito geral e dominante quando afirmou que “temos que aprender a viver com o vírus.” É isto, ponto final. E a isto só há que acrescentar uma pergunta, no sentido de saber se se esta, digamos, “aprendizagem”, não será o primeiro passo de uma nova era em que as pandemias deixam de ser uma excepção para se tornarem, senão a regra, pelo menos algo de bem mais frequente.

– Isto é, se não estaremos a entrar mesmo, como se da outra face da globalização sem regras em que temos vivido se tratasse, numa nova era histórica, a era das pandemias. Era que talvez não seja só de natureza sanitária, mas em que as epidemias alastrarão do biológico para outos domínios, nomeadamente o informático, o tecnológico, etc… É uma hipótese, na verdade aterradora mas plausível, que a leitura do estimulante pequeno livro Frente ao Contágio, do italiano Paolo Giordano (que a Editora Relógio de Água acaba de editar em português) permite entrever. Porque o contágio é sobretudo, como bem sublinha Giordano, “uma infeção na nossa rede de relações.”(p.14).

– Seja como fôr, o facto é que a experiência dos limites de que tenho falado nos últimos textos toca aqui num dos seus extremos, porque o ser humano contemporâneo só sabe viver no presente, há muito que ele perdeu tanto o sentido da história como o do futuro. Ou seja, o “presentismo” amputou-o tanto da informação retrospectiva como da imaginação prospectiva, e sem estas duas dimensões vitais ele vive quase acéfalo, encurralado, refém da actualidade e do seu carrossel de “notícias” que, na nossa civilização viral , tomou  tragicamente o lugar do conhecimento, do debate de ideias e, mesmo, da própria vida interior.

RACIONALIDADE e CONFORTO

– O susto foi grande, a apreensão ainda o é, mas tudo decorre em ambos os casos sobretudo disto: do modo como o surto pandémico pôs e põe em causa a nosso presente, revelando sem margem para equívocos ou para rodeios que na verdade o ser humano deixou de controlar inteiramente a “forma de vida” que ele próprio criou, imaginando-se senhor de uma racionalidade tão soberana como superior e definitiva. Agora, a realidade do mundo finito impôs-se  à ilusão da sua infinitude.

– Dito de outro modo, o que a experiência dos limites que a pandemia trouxe de mais literalmente insuportável foi a força da contingência, força quase sempre ignorada mas  que nenhum conhecimento ou saber consegue evitar ou eliminar. Foi de resto por isso que há muitos anos deixei de falar de racionalidade no singular, concentrando-me mais modestamente na análise do “jogo de racionalidades” que tece o nosso destino individual e colectivo. 

– Para perceber este “jogo”, olhemos para outra vertente da nossa contemporaneidade ocidental, olhemos para o mundo que construímos nas últimas décadas, digamos aí desde o fim da 2ª Grande Guerra. Se tivesse que destacar um – e só um – aspecto que distinga bem o mundo de hoje do mundo de então, arriscaria dizer que ele se encontra e condensa num feixe de factores a que chamaria o conforto. Prefiro este termo aos de riqueza, liberdade, progresso, bem-estar, entre tantos outros possíveis. E prefiro-o porque creio que ele concentra, combinando-os, todos estes e outros mais, traduzindo bem o horizonte que hoje se nos impõe como a mais forte exigência do homem  contemporâneo, variando naturalmente com as suas condições económica, social, cultural, etc., mas atravessando-as a todas.

– Conforto que tem uma dupla face e função – a da pressão que cria sobre as sociedades que dele beneficiam e não se imaginam de todo a viver sem ele – e esse é o trauma que, a meu ver, já está colectivamente instalado em boa parte da humanidade, com a  pandemia do coronavírus. Mas também a do modelo  que todas as sociedades do mundo ambicionam seguir e atingir, sabendo todos que na verdade tal é materialmente, completamente impossível que aconteça. 

O GRANDE PARADOXO

– É este paradoxo que nos coloca no cerne dos impasses que minam todos os debates sobre a crise ecológica e as alterações climáticas, como veremos em breve. Para já, o que interessa é compreender que o conforto, no sentido que aqui lhe dou, é indissociável do paradigma do ilimitado que tenho referido, nomeadamente pela crescente pressão exercida pelo individualismo extremo do nosso tempo e pela degradação que ela implica, tanto ao nível da biosfera como ao nível da organização da vida humana, individual e colectiva, e muito particularmente da sua dimensão democrática. 

– Como Paolo Giordano diz no seu livro, é urgente trocar a perspectiva que fez do ser humano o senhor absoluto do universo por uma visão que veja na comunidade humana “a espécie mais invasora de um frágil e fabuloso ecossistema.”(p.52) Como urgente é, acrescento eu, alterar ao mesmo tempo a concepção que fez da globalização a chave do nosso radioso futuro quando, na verdade, – se não nos dotarmos de instituições globais que a controlem, enquadrem e regulem – ela pode bem vir a revelar-se o coveiro da humanidade. Também aqui temo que seja já muito tarde, talvez tarde demais. Mas, dado o que está em jogo, não podemos deixar de o tentar.

– O tópico do conforto é importante a vários títulos, mas os principais talvez sejam os da sua relação com a crise ecológica, por um lado, e com a democracia, por outro. Fiquemos por este último, com um apontamento breve. Com efeito, tudo indica que não parece que a democracia seja exequível abaixo de um certo nível de conforto (ou, pelo menos da plausível expectativa da sua fruição) das sociedades e dos indivíduos contemporâneos. Não foi por acaso que, num texto anterior, referi o individualismo extremo entre os “quatro cavaleiros do apocalipse“ do nosso tempo. É que, tendo-se o indivíduo tornado no valor central da nossa civilização, as suas necessidades de toda a ordem (material, social, cultural, etc.) cresceram em paralelo com essa hiperbólica valorização, subalternizando inteiramente a vertente colectiva e a dimensão ambiental das sociedades.

– Ora, foi justamente essa dimensão individualista da democracia que mais depressa se espalhou por todo o mundo, com a sua expressão consumista a relegar para um insignificante plano a sua matriz cultural, que (é sempre bom lembrá-lo) era o aspecto central da concepção e da vida democráticas. Foi isso, de resto, que o retrato das várias fracassadas tentativas de “exportação” da democracia nas últimas décadas evidenciaram de um modo inquestionável.

–  Não me parece, pois, que seja de acompanhar Almeida Fernandes ou Cristina Figueiredo, quando – respectivamente no Público e no Expresso do último sábado – especulam sobre a influência da actual pandemia sobre a crise da política e a democracia. Não, claro, que ela não tenha efeitos e consequências, apesar de ainda estramos longe de poder apurar tudo isso com um mínimo de rigor. Mas sobretudo porque os factores decisivos da crise, tanto da democracia como da política, têm raízes mais complexas e profundas, que já vêm de muito longe, sendo bem anteriores à pandemia. 

A pandemia, neste ponto, funcionou mais como revelador ou acelerador de tendências há muito em curso, do que como a causa do que quer que seja. E são aqueles factores que convém ter bem presentes, como dezenas de investigações exaustivas e originais mostraram nos últimos tempos, como já tive ocasião de referir, nomeadamente em diversas intervenções no “Canal MMC“ do YouTube no decurso do ano passado. 

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