O VÍRUS, O CLIMA E NÓS

O VIRUS MEDIÁTICO

– “Somos sem dúvida melhores a explicar do que a compreender” – é uma ideia que há muito pressinto e se reforça sempre que sigo os nossos media. É uma ideia de que tenho vindo a ter uma confirmação diária com o fluxo de informação contínua suscitada pela pandemia do Covid-19 e, em particular, com esses estereotipados momentos de “actualidades” que são,  hoje em dia, os telejornais.

– O que sempre se revela nesses momentos a um olhar mais atento e informado, é uma espécie de espectáculo de ventríloquo que fala, fala, fala, repetindo interminavelmente “o que se sabe”, ainda que manifestamente pouco ou nada compreenda do que diz. O que, com raríssimas excepções, se prolonga com o contributo na generalidade dos comentadores de serviço, que já sabemos quase sempre o que vão dizer antes mesmo de começarem a falar…   

– É também por aqui que passa hoje o contágio, neste caso um um contágio mental que, vez de informar, desorienta a generalidade das pessoas que seguem as “notícias”. Mas é talvez mesmo esse o segredo do sucesso das “actualidades”: explicar o que não se compreende – eis uma ideia a reter, para mais tarde desenvolver.

– Aqui é que se calhar se justificava – em nome da higiene do espaço público – algum “confinamento mediático”, que nos poupasse aos arrastados e intermináveis noticiários e às suas silly stories com que, a pretexto da pandemia, se embotam os neurónios dos telespectadores, logo numa altura em que eles precisavam de estar bem ágeis e criticamente atentos.

DO PROGRESSO À  CATÁSTROFE

– Há quem pense que se trata de uma palavra nova, mas não é: “colapsologia” foi uma palavra inventada há já meia dúzia de anos  por dois cientistas, Pablo Servigne e Raphael Stevens, com a obra “Comment tout peut s’effondrer”. O livro tinha por objectivo elencar, de um modo tão exaustivo quanto possível, todos os dados disponíveis  quanto à evolução dos ecossistemas terrestres, na perspectiva não só do seu eventual colapso mas, também, da antecipação das respostas possíveis a dar a um tal acontecimento. Ou seja, de responder ao risco de colapso com uma colapso-sofia, uma sabedoria adequada a tais circunstâncias, desafiando a humanidade a tornar-se…colapsonauta!

– O ponto de partida é nosso conhecido, já o tenho referido algumas vezes. Ele consiste em assumir que o modelo de crescimento infinito em que temos vivido é insustentável num universo finito, como é o nosso. Basta pensar, por exemplo, que se a China continuasse a crescer ao ritmo (pré-pandemia) de 7 % nos próximos 50 anos, teríamos nada menos do que 30 economias como a chinesa no planeta!….

– Foi neste pano de fundo que a convicção no progresso afrouxou até ao seu quase desaparecimento, tendo emergido no seu lugar como horizonte para o nosso tempo a noção de catástrofe, noção imprecisa mas a que acontecimentos como o da actual pandemia dão uma inesperada força, atractividade e consistência.

– Face à generalização deste catastrofismo, a colapsologia aparece com a vantagem de uma lucidez algo resignada, de um pragmatismo que aposta na mudança por pequenos mas exemplares passos, procurando ideias e vias para o futuro que permitam viver de facto de outro modo, sem ilusões sobre qualquer tipo de alterações radicais quanto ao caminho que o mundo tem vindo a seguir. 

– Com efeito, os adeptos da colapsologia, ainda que próximos dos diagnósticos dos ecologistas mais radicais, preferem opções e soluções de ordem mais individual, ou no âmbito de comunidades mais restritas que perfilhem as suas ideias, afastando-se das posições dos críticos mais extremos das alterações climáticas, seja na relação com os poderes públicos, seja na devoção a figuras mais ou menos pitorescas como Greta Thunberg.

A PANDEMIA E O CLIMA

Note-se, a propósito, que se algo de positivo todos nós já  ouvimos dizer a propósito da actual pandemia foi que, com o confinamento geral das pessoas e a paralisia das economias, a poluição finalmente diminuiu em todo o planeta, com as emissões de gazes com efeito de estufa a caírem para níveis quase insignificantes. Ou seja, que a catástrofe sanitária decorrente da pandemia do mCovid-19 teria sido, não uma maldição para a humanidade, mas uma bênção para o ambiente. O desconchavo desta oposição é evidente, ele alimenta-se de várias ilusões e de diversos equívocos. Basta ter presente que o que nesta matérias conta é a quantidade global de gazes com efeito de estufa efectivamente presentes na atmosfera, quantidade esta que na realidade pouco se alterou com a pandemia em curso. Tal só aconteceria com meses, talvez mesmo anos, de uma situação como a actual…

– Mas ainda mais importante do que isto, é o facto de se encontrar aqui a explicação –  que, note-se, nunca ninguém quer assumir – do sucessivo fracasso das diversas cimeiras sobre as alterações climáticas, como mais uma vez aconteceu com a  última, que  foi a Cimeira de Paris de 2015. Mais uma vez se festejou o “consenso” alcançado, os caminhos a tomar, as metas a atingir, os timings a cumprir, os custos a assumir, etc., etc…..e depois, nada, nada, nada! E porquê? porque os custos são – como agora verificamos –  aproximadamente estes, os que uma inesperada pandemia de repente pôs bem à vista de todos, tirando o tapete à retórica dos políticos e às suas vãs promessas.

RESILIÊNCIA E COMPLEXIDADE

– O facto decisivo é, permitam-me a insistência, que já se ultrapassaram os limiares de irreversibilidade, que já se atingiu o ponto de não retorno da civilização que temos vindo a construir (veja-se, a propósito, o excelente artigo de T. Lenton, da Universidade de Exeter, na revista Nature de Novembro passado), que foi o caminho que a humanidade escolheu como o seu destino e que se apoia numa resiliência ( isto é, na capacidade de voltar sempre à sua “forma” anterior) que, goste-se ou não, se tem revelado bem mais forte do que todas as pandemias. 

– (Igualmente decisivo, mas tenho de deixar isto entre parêntesis, é que não se podem de modo algum comparar os brutais efeitos que tem sobre a humanidade o espectro de uma mortífera pandemia mundial como a do Codiv-19, com as consequências das  longínquas – décadas?, séculos? –  e sempre controversas das alterações climáticas).

– De resto, é extremamente significativa a aspiração que por todo o lado se ouve de um rápido “regresso à normalidade”, a tomar a forma de um imperativo público cada vez mais exigente, ainda que matizado por umas tão consoladoras como  vagas promessas de que, claro, se vão fazer alterações e que “nada voltará a ser como dantes”… Era bom, seria magnífico, mas infelizmente é certamente o oposto que ocorrerá, como de resto sempre tem acontecido em situações semelhantes: muitas preces quando troveja, muitos foguetes ao primeiro raio de sol…

– Haverá certamente problemas novos, factos imprevistos, impasses de monta – e muitas mudanças. Certamente que também se tomarão algumas medidas no contexto das alterações climáticas e que continuará o carrossel das respectivas cimeiras, mas não nos iludamos: tratar-se-á sempre de fixar metas capciosas,  de encontrar remendos para as principais urgências, etc., tudo numa lógica de “damage control”, para que tudo “volte a ser como dantes”, sem mudança de rumo ou de paradigma.

– É que, longe do que os ecologistas radicais pretendem, a pandemia veio mostrar, não a viabilidade das teses e das vias que eles sustentam mas – muito pelo contrário -, a sua completa irrealidade, ao tornar-se evidente para todos que essas vias conduzem, mais coisa menos coisa, exactamente à situação em que o mundo vive hoje – isto é, a uma humanidade confinada e a uma economia paralisada. 

– Trata-se uma conversa afinal tão pueril como a que antecipa, como consequência da actual pandemia, o “fim da globalização”, como se se tratasse de uma opção fácil e que estivesse ao nosso alcance. Mas não, a globalização aconteceu, é história, como aconteceu o feudalismo, o renascimento ou tantas outras mutações históricas que ninguém preparou ou decidiu. A história faz-se assim, sem avisos prévios e numa linha de enorme contingência. A  questão é saber o que fazer – e há muito a fazer, assim haja vontade e coragem políticas para tal – com a tremenda complexidade que ela trouxe consigo, mas isto não é assunto para se resolver com fanfarronices ou voluntarismos, com “whishfull thinkings” ou…por decreto!

– Quando se olha para as grandes crises que marcaram a história da humanidade, verifica-se que o mais difícil foi sempre, como continua a ser, aprender em tempo útil alguma coisa com elas. Mas é esse o grande desafio: perceber que o mundo mudou e que essa mudança se fez e continua a fazer, não no sentido das tretas das “actualidades” e do infotretenimento, mas no de uma cada vez maior interdependênciacomplexidade e contingência da vida do mundo e da humanidade. 

– E que é esse mundo que é preciso perceber para, de um modo talvez mais limitado do que desejaríamos, conseguirmos intervir nele com alguma eficácia. Seguindo, sempre quer possível, a antiga máxima estóica que aconselhava a distinguir bem três coisas: em primeiro lugar, o que está efetivamente no nosso poder fazer; depois, o que está fora do nosso alcance conseguir; por fim e sobretudo, não confundir nunca estes dois planos, porque essa confusão conduz sempre a grandes desastres.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.