VIVER COM O VÍRUS OU ERRADICÁ-LO?

A situação é hoje clara: só há dois modos de enfrentar a pandemia da covid-19 – a via do sobe-e-desce, vulgarmente designada stop and go, que foi ado ptada por Portugal e por quase todo o Ocidente, e a chamada estratégia “covid zero”, seguida desde o princípio por muitos países asiáticos, Taiwan, Tailândia, Singapura, Vietname, mas também – com algumas nuances – pela Austrália, pela Nova Zelândia ou pelo Japão.

Sabemos bem, por experiência, o que é a via do stop and go: trata-se de, face ao aumento exponencial do número de casos de infetados, de internados e de mortes, decretar o confinamento total da população e a paralisação de grande parte da atividade económica. Situação que depois se mantém até à descida dos números para valores considerados geríveis (nomeadamente pelos serviços de saúde), altura em que começa o desconfinamento parcial… até que eles comecem de novo a subir, o que traz uma nova intensificação do confinamento, e assim sucessivamente.

É a via consagrada na máxima “temos que aprender a viver com o vírus”, há muito assumida por dirigentes como Emmanuel Macron ou António Costa, entre outros. Tem sido a via da intermitência pandémica, que na verdade oculta um imenso impasse no combate à covid-19.

A segunda via, designada como “covid zero”, tem outro objetivo: não viver com o vírus, mas acabar com ele. Ela apenas recorre ao confinamento de um modo pontual, consistindo a sua estratégia em três procedimentos fundamentais: testar massivamente, rastrear exaustivamente, isolar totalmente.

Os resultados de uma e outra destas estratégias não podiam ser mais diferentes e deviam fazer os responsáveis pensar, o que até ao momento não aconteceu. É que enquanto a estratégia do stop and go conduziu a quase 120 milhões de infetados e a mais de 2,5 milhões de mortes, a estratégia “covid zero” poupou as respetivas populações, apresentando números espantosos: é o caso de Taiwan, que, com uma população de 24 milhões, teve apenas 500 infetados e 10 mortes, da Tailândia, que, com 69 milhões de habitantes, anda nas 140 mortes, do Vietname, que, com 95 milhões, não atingiu as 40 mortes, do Sri Lanka, que tem 527 mortes numa população de 22 milhões, da Coreia do Sul, que teve cerca de 1300 mortes em 51 milhões, da Austrália, que, com 24 milhões, está abaixo das mil mortes, etc.

Se compararmos estes números com as 530 mil mortes dos EUA (em 330 milhões de habitantes), as cerca de 80 mil mortes da França (em 67 milhões de habitantes) ou a Itália com mais de 100 mil mortes (em 60 milhões de habitantes), é inevitável perguntar: como é possível não parar para se pensar nesta abissal diferença, nas suas causas e consequências? Diferença que se reforça com um outro argumento de enorme peso, que é o de esta estratégia manter as economias a funcionar, enquanto a opção de stop and go as paralisa quase totalmente. É que a via do “covid zero” é uma verdadeira estratégia, não se trata de um estratagema de recurso, nem de um conjunto de expedientes, como o acontece com a via do stop and go.

E, contudo, foi isso que aconteceu: ninguém quis olhar para estes números extraordinários e para a estratégia alternativa que eles traduziam. Digo isto desde o verão passado, uma vez que depois do primeiro confinamento – inevitável nas circunstâncias em que a pandemia surgiu – era altura de fazer urgentemente duas coisas: por um lado, definir uma estratégia para fazer face à pandemia, comparando detalhadamente todas as vias seguidas com vista a adotar a que se tivesse revelado mais eficaz. E, por outro lado, mas simultaneamente, preparar o país para os piores cenários, fazendo todos os possíveis (nomeadamente acordos com privados, instituições sociais, serviços militares, etc.) que pudessem ajudar numa situação de eventual agravamento da pandemia.

Nada disto foi feito. O segundo passo só avançou quando uma enorme pressão decorrente do agravamento da pandemia o impôs. E quanto ao primeiro, o da avaliação dos melhores resultados obtidos no mundo no combate à pandemia, nem uma alusão. O momento ideal para dar esse passo teria sido logo no verão passado, quando o número de infetados caiu para escassas centenas por dia. As trágicas consequências de não o ter feito rapidamente revelaram-se com novos surtos por todo o lado no outono/inverno, numa evitável espiral de infeções e de mortes, a ilustrarem bem a cegueira dos responsáveis.

Entretanto, apareceram diversas vacinas, que alteraram significativamente a perceção da situação, vacinas em que se depositam justificadas esperanças, mas cujo acesso generalizado levará ainda muito tempo. Este facto contribuiu, infelizmente, para que indiretamente se continue a ignorar o ponto essencial, que é o da estratégia a seguir ao fim de um ano de pandemia – a do stop and go ou a do “covid zero”? Como se, uma vez que há vacina, não fosse necessário pensar em mais nada…

Mas não, a questão da estratégia faz todo o sentido para Portugal, sobretudo agora que nos aproximamos, como resultado de mais um brutal confinamento, das poucas centenas de casos diários (105 infetados por 100 mil habitantes) e, portanto, de um significativo controlo da pandemia, facto que é uma condição sine qua non para se poder adotar uma estratégia “covid zero”, no sentido de acabar com o vírus, cortando as suas cadeias de transmissão. Porque é aqui que está o segredo da estratégia “covid zero”.

Estratégia que, repito, tem três passos: a intensificação da testagem, a exaustividade do rastreio – nomeadamente com todos os meios digitais possíveis – e o rigor no isolamento dos casos positivos. Estratégia que exige uma grande cooperação da população, uma cumplicidade que só pode ser conquistada com um contínuo esforço pedagógico por parte dos responsáveis científicos e políticos.

É de uma estratégia desta natureza que Portugal precisa, mais do que de “planos” aparentemente desconfinantes, que apenas preparam inevitáveis novos confinamentos. É um suicídio diminuir, como se tem feito, o número de testes, relaxar o rastreio ou facilitar o isolamento dos infetados. Portugal tem aqui, no fim deste confinamento, uma oportunidade de ouro para mudar de estratégia, a caminho de um relativo, mas efetivo, retorno da vida social, escolar e económica do país, que também muito contribuirá para a tão abalada tranquilidade psicológica dos portugueses.

É isto que, de resto, defendem mais de mil cientistas (entre os quais o Prof. Doutor Carmo Gomes), na linha de um artigo publicado no dia 6 de fevereiro na prestigiada revista The Lancet, onde apelam a uma visão/solução europeia do combate à pandemia da covid-19 inspirada na experiência dos países que adotaram o “covid zero”. Foi o que, a seu modo, fez a Dinamarca, que com o recurso a testagem em massa conseguiu passar de uma positividade de 2,8% (ou seja, em que em cada mil testes 289 eram positivos) a 25 de dezembro para uma positividade de 0,5% no princípio de fevereiro passado.

Esta estratégia é cada vez mais defendida, como o foi pelo epidemiologista Michael Baker no The Guardian (20/01), pelos economistas Patrick Arthus e Philippe Aghion no Le Monde (24/02), ou por Antoine Flahault, diretor do Instituto de Global Health da Universidade de Genève e autor de um recente livro notável, Le Bal Masqué, sobre este ano de pandemia. E ela tem sido sustentada também pelo virólogo Christian Drosten, que é o principal conselheiro de Angela Merkel nesta matéria, cujas opções acabaram, no entanto, por ser muito condicionadas e limitadas pelo poder dos vários Estados alemães

Penso que seria altura de Portugal adotar esta estratégia. E, já que Portugal tem neste momento a presidência do Conselho Europeu, podia ter aqui um gesto forte, a par com a adoção desta estratégia, que seria o de lançar a imperativa exigência de se pensar o pós-covid no sentido de se impedir a sua repetição.

É que esta pandemia tem, como se tem já dito e provado abundantemente, as suas causas ligadas à globalização selvagem das últimas décadas, nomeadamente ao modo como ela levou à destruição de milhares de habitats naturais e ao consequente acordar e espalhar de vírus há muito “inertes”. E também pelo modo como ela multiplicou exponencialmente a mobilidade das populações, multiplicando, simultaneamente, os contactos entre milhões de pessoas potencialmente transmissoras das mais variadas mazelas, bactérias, vírus, etc.

Ora, como a globalização é irreversível, é um processo histórico muito enraizado em múltiplas dimensões do mundo de hoje – sendo por isso patéticas as frequentes litanias de tantos responsáveis políticos à reindustrialização do Ocidente!… -, o que há a fazer é regulá-la, a ela e às suas consequências, nomeadamente no que se refere à mobilidade e aos contactos entre as pessoas.

Portugal, que parece tão abúlico na sua terceira presidência rotativa da União Europeia, podia criar uma task force para pensar nisto, que não é – bem pelo contrário – menos importante que o resto: trata-se de definir estrategicamente o que deveria a Europa fazer para que seja impossível a repetição de uma pandemia como a da covid-19. Ou será que só vão pensar nisso quando a torrente de novos vírus der sinal de si, como muito provavelmente acontecerá se não se fizer nada?

(in Diário de Notícias, 21/03/2021)

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