Entrevista ao Diário de Notícias (08.11.2021)

 

“AS GERAÇÕES FUTURAS DESAPARECERAM DOS NOSSOS RADARES E VIVEM NUMA CLANDESTINIDADE ESTRANHA”

 João Céu e SilvaDiário de Notícias, 08 Novembro 2021

 

O antigo ministro da Cultura acaba de lançar o livro Sem Retorno, em que defende que o “fascínio com o ilimitado conduz as sociedades ao colapso”. Dá exemplos de já se ter atingido ponto do não retorno da civilização que se tem vindo a construir e que alimentam este paradigma: “O do ilimitado no crescimento, na dívida, nos direitos, no consumo e na própria vida”. Em duas palavras, Sem Retorno, Manuel Maria Carrilho alerta para o “presentismo” em que se vive, como se só existisse o agora, a par de uma “atualidade alimentada pelo infotretenimento torrencial das televisões” que deixa “o que lá vem” para os que se seguem. Para o filósofo, “as gerações futuras desapareceram dos nossos radares e vivem numa clandestinidade estranha, silenciadas pela apologia cínica de um juvenilismo completamente balofo”. Quanto à Cultura, define estes tempos como “muito duros” e prevê que “sairá muito abalada da pandemia sanitário-comunicacional em todo o lado, mas em Portugal será pior dado o lastro de incompetência e de negligência com que a Cultura já vinha sendo tratada desde a devastação socrática, que este governo infelizmente não foi capaz de inverter, limitando-se a sucessivos paliativos sem imaginação”.

 

O título Sem Retorno faz adivinhar – o que garante logo na segunda página – a impossibilidade de um “regresso à normalidade”. Este novo paradigma é irreversível?

O que mais me impressiona, é como hoje se procura pensar o futuro olhando constantemente pelo retrovisor… é o cúmulo da impotência e, simultaneamente, do conformismo. A obsessão com o “regresso à normalidade” traduz a incapacidade de perceber o que realmente aconteceu com a eclosão da pandemia da covid-19, o seu significado e as suas consequências. O que me interessou com este livro foi justamente compreender o que mudou e, para isso, é preciso pensar com novos conceitos, com novas abordagens, de modo a perceber o paradigma que – sem que se desse muito por isso – se tornou completamente dominante nas últimas décadas, que eu designo como o paradigma do ilimitado. E compreendê-lo tanto nos seus componentes fundamentais como na sua dinâmica interna.

Elenca oito teses dramáticas após as reflexões. É o fim da ilusão?

Apresento essas oito teses no início do livro, por um lado para que o leitor saiba logo ao que vai e, por outro lado, para que se possa avaliar a argumentação que depois se apresenta. E, permita-me que discorde, não são teses “dramáticas”, de modo algum, são teses eminentemente realistas, abertas ao confronto com os factos e à discussão da sua pertinência, que apontam para aspetos que em geral são negados ou ignorados, mas que eu creio serem vitais.

E essas teses…

… são oito, como disse, e sintetizam-se facilmente: 1º – trata-se de vincar bem que a pandemia foi prevista; 2ª – que ela podia – e devia – ter sido evitada; 3º – que se trata de uma consequência da globalização “sem lei” das últimas décadas; 4ª – que novas pandemias ocorrerão se não se fizer nada para o evitar – e até agora nada foi feito; 5ª – que o “regresso à normalidade” é uma ilusão completamente inverosímil; 6ª – que pouco ou nada se alterará no que respeita à destruição em curso do planeta (alterações climáticas, degradação da biosfera, etc.); 7ª – que a humanidade vive num “presentismo” que lhe bloqueia totalmente o sentido do futuro, nomeadamente as suas responsabilidades com as gerações futuras; 8ª – que tudo isto ocorre porque vivemos no quadro de um paradigma que fomos construindo nas últimas décadas, que designo como ” o paradigma do ilimitado”, que fez desaparecer qualquer noção de limite nos mais variados domínios: do crescimento à energia, do consumo à dívida, dos direitos à própria vida. O choque da pandemia começou justamente aqui, no facto de ela evidenciar algo que temos vindo a negar e a recalcar, que é a realidade e a força dos limites em todos estes domínios e, ao mesmo tempo, a nossa enorme fragilidade coletiva e a nossa imensa vulnerabilidade individual.

Observamos a atual realidade nacional e ouve-se o eco da sua afirmação sobre “a crescente descredibilização da política”. A que atribui este descaminho, que não é só nosso? 

Nem é só nosso, nem é recente, mas infelizmente passa-se o tempo a repetir, como se fossem novidades, diagnósticos com dezenas, às vezes centenas de anos – basta ler Séneca ou Petrónio, por exemplo, para se ver como é antiquíssima a litania sobre a “descredibilização da política”. O que é realmente novo, e esse é o meu foco, é o processo de acelerada decomposição da democracia, quer pelo modo como ela suscita a rejeição da representatividade dos eleitos, quer pela cada vez maior tolerância dos cidadãos às emergentes tendências políticas autoritárias, quer ainda pela sua generalizada indiferença em relação aos programas e aos próprios mandatos. São estes, entre alguns outros fatores inéditos, que têm transformado a democracia num regime minimalista, na verdade residual, cada vez mais de simples designação de governantes.

“O problema, que é o talvez o maior do nosso tempo, é que as suas ambições chocam com uma realidade incontornável, mas de que quase perdemos a noção – é que tudo é, na verdade, limitado e finito. A espiral de desorientação contemporânea nasce desta contradição, que será cada vez maior.”

 

O terceiro milénio foi abalado definitivamente com o 11 de Setembro de 2001 e os EUA continuaram a surpreender com o populismo de Trump. Porque não se entendeu o aviso sobre o hipotético choque de civilizações e a degeneração da democracia?

São três coisas muito importantes, mas distintas. Da democracia já falámos um pouco, quanto à tese do choque de civilizações, defendida por S. Huntington em 1996, há que dizer que ele acertou quando apontou o papel central que a cultura e a religião teriam nos conflitos, digamos “pós-ideológicos”, que o mundo conheceria depois da guerra fria. E há um ponto que se liga com o que disse atrás sobre a democracia, é que a democracia é, acima de tudo, uma cultura, e uma cultura com uma história extremamente complexa, que não se pode exportar como erradamente se pensa tantas vezes – com o resultado que se viu no Iraque, com as revoluções árabes, etc.

Quanto ao populismo?

É muito anterior a Trump e às suas bizarras idiossincrasias, o que importa é entender as suas raízes e o seu significado no mundo atual. Para isso seria preciso toda uma entrevista, aqui apenas posso dizer que o populismo não é uma ideologia, nem uma doutrina, nem um programa, nada disso, trata-se de um mero sintoma – multiforme, é certo – do que atrás lhe disse sobre os impasses atuais da democracia. Nada mais, pelo que a meu ver é um erro colossal, talvez resultante de muita má-consciência, diabolizar-se o populismo como os políticos e os media em geral fazem.

Considera que “a pandemia foi uma consequência da globalização selvagem das últimas décadas” e que “era evitável”. Porquê esta insensatez da humanidade e dos governos num estágio da civilização humana nunca igualado?

São duas teses distintas, embora conexas. Uma, é que a pandemia decorreu da globalização, dado o modo descontrolado como ela se desenvolveu nas últimas décadas. A outra, é que ela podia ter sido evitada, e neste ponto estou muito de acordo com o meu amigo Daniel Innerarity, quando ele diz que nunca na história enfrentámos problemas tão complexos, ao mesmo tempo que nunca as lideranças – nacionais como internacionais – se revelaram tão medíocres e tão incapazes. É confrangedor, mas é assim, e todo este tempo pandémico foi uma permanente confirmação desta ideia. Note que houve exceções, países que lidaram muito melhor com a pandemia, mas disso – o que é espantoso! – ninguém quis saber. E agora seria preciso ter uma estratégia sobre o que fazer na eventualidade do seu termo, em relação à mobilidade das populações, ao controlo de situações “explosivas”, à negociação entre a China como “fábrica” do mundo e os diversos mercados, etc., etc… Mas não há nada.

Recorda o conceito de “democracia extrema” de Montesquieu para trazer à discussão a crise provocada pelo ilimitado. Há meios para corrigir a situação ou já se está muito além da linha vermelha?

O modo como fomos criando o “paradigma do ilimitado”, assim como a forma como nos fomos instalando nele, tornam a meu ver a situação irreversível, sem retorno. Este paradigma é fortíssimo, como tenho procurado explicar ele assenta em quatro eixos que são a globalização, o financismo, o híper-individualismo e as novas tecnologias. Estes eixos não só estão estruturalmente articulados entre si, como se reforçam mutuamente na sua ação, alimentando o processo de ilimitação de tudo: do crescimento, do consumo, da dívida, dos direitos, da vida, etc. O problema, que é o talvez o maior problema do nosso tempo, é que as suas ambições chocam com uma realidade incontornável, mas de que quase perdemos a noção – é que tudo é, na verdade, limitado e finito. A espiral de desorientação contemporânea nasce desta contradição, que será cada vez maior. E tudo se torna mais difícil porque a outra face deste Ilimitado é o que designo como “conforto”, que alimenta a miragem de uma abundância, de um bem-estar e de prazeres sem fim, exercendo uma enorme pressão sobre os indivíduos e as sociedades que não se concebem a viver sem tudo isso. No fundo, o ilimitado e o conforto são as duas faces do mesmo paradigma.

Refere que se espera da tecnologia a solução – ou o milagre -, mas sem a “coragem” de tomar decisões atempadas não se põe em perigo a continuação do planeta?

As lições do passado não auguram nada de bom… e o que tem acontecido com a Cimeira do Clima, a decorrer desde o princípio do mês em Glasgow, também não. Veja como desde 2015, da Cimeira do Clima de Paris que foi muito saudada porque todos prometeram tudo, não aconteceu quase nada… E nada disto é de agora, desde os anos 70 do século passado temos tido alertas para o facto de ser preciso mudar de vida. Mas se já então era difícil agora, garrotados pelo paradigma do ilimitado e do conforto, ainda é muito mais. Nós vivemos, diria que “esquizofreneticamente”, uma bifurcação mental entre o que sabemos, o conhecimento que existe, e aquilo em que acreditamos, recalcando sempre o que se sabe quando isso põe em causa o nosso conforto individual e coletivo. É mais uma vez o presentismo, vive-se como se só existisse o agora, uma atualidade alimentada pelo infotretenimento torrencial das televisões, deixando “o que lá vem” para os que depois cá estiverem…. Repare como as gerações futuras desapareceram dos nossos radares, elas vivem numa clandestinidade estranha, silenciadas pela apologia cínica de um juvenilismo completamente balofo.

Destaca o medo como o motor para o fim do mundo como o conhecíamos. Se os nossos antepassados sobreviveram perante as calamidades que os atingiram porque não nós? 

Não, não digo que seja o motor, mas que é um fator determinante. O medo tem hoje outro estatuto nas nossas sociedades, simplificando muito podemos dizer que antes ele era algo natural, face às tais calamidades também naturais. Hoje ele é instigado e encenado pelo poder, como um elemento poderosíssimo de reforço da sua impunidade.

Acusa o sistema capitalista de se beneficiar de uma “folga” ao usar a Ásia como plataforma para aumentar o lucro. A “globalização feliz” tem um fim à vista?

Não é uma acusação, é uma constatação. A “globalização feliz” foi uma expressão de Alain Minc nos anos 90 do século passado, que traduzia bem as ilusões com que ela foi vista por muita gente durante muito tempo, mas que hoje já ninguém se atreve a utilizar… E o que eu digo é que se tratou de uma forma de o capitalismo ultrapassar os limites que marcavam então a relação trabalho/salário, que mais uma vez o ilimitado abriu caminhos que ninguém sabia onde conduziriam…

Esperava pela devastação verificada a nível mundial na Cultura no último ano e meio, ou ela mais não é senão o dano colateral necessário para a “democratização” do acesso imposta pelas novas tecnologias e as redes sociais?

O abalo pandémico no âmbito da cultura foi tremendo, as novas tecnologias e as redes sociais foram um mero recurso, mas que não tem nada a ver com a sua democratização. Claro que a tecnologia – as redes sociais são outra coisa – é um instrumento poderoso, cujo papel é muito importante, é decisivo nas transformações por que passam hoje todos os setores da cultura e da criação. Mas os tempos têm sido duros, muito duros para a cultura, que sairá muito abalada desta pandemia sanitário-comunicacional. Em todo o lado, claro, mas em Portugal será pior dado o lastro de incompetência e de negligência com que a cultura já vinha sendo tratada, sobretudo desde a devastação socrática, que este governo infelizmente não foi capaz de inverter, limitando-se a sucessivos paliativos sem imaginação.

O jornalismo, que sempre foi visto como um poder corretor, deixou de ter este papel ao ser substituído pela vox populi e a ausência do escrutínio tão do interesse dos poderes? 

Sim, deixou porque foram duas, a meu ver, as principais transformações do jornalismo nos últimos tempos: a sua cumplicidade com o poder, multiplicando as formas de coprodução político-mediática. E a sua submissão às redes sociais. O jornalismo, na verdade, foi há muito tempo engolido pela “comunicação” e as suas ilimitadas ilusões.

No contexto em que o país se encontra depois do chumbo do Orçamento de Estado e de novas eleições, o que pensa da situação nacional e como vê a sua evolução. Também aqui vê uma situação “sem retorno”?

Quase apetecia começar por aqui, não é? Sim, creio que vivemos uma situação “sem retorno”, que decorre antes do mais de termos vivido durante seis anos numa extravagante ficção com a chamada geringonça, na verdade uma “engenhoca” sobretudo com vista a uma hábil conquista do poder. Nunca houve nenhum verdadeiro programa, qualquer estratégia ou uma qualquer nova visão para o país. Isso é que teria sido uma novidade política, o que houve foi apenas uma aliança mais ou menos cosmética assente em – justíssimas, deixe-me acrescentar – “reparações”. E agora o tombo foi à medida da ficção criada, é isso que abre uma situação “sem retorno”, com algumas nuances que vale a pena referir…

O que é que não tem retorno?

A credibilidade, a confiança, a motivação, tudo isso desapareceu. Tal como as ideologias, que desapareceram, todas elas, substituídas por um repetitivo confronto de siglas e de slogans. Ou os parâmetros tradicionais do tipo direita versus esquerda, que na desorientação geral aparecem aos cidadãos como umas oportunas “boias de salvamento” para manter a conversa sem conteúdo, as promessas sem verdade e os ruminantes comentários em que a política se tornou. Mas em compensação haverá o “eterno retorno” do tacticismo, com a mais total submissão da política à comunicação, ao presentismo, ao curto prazismo… como é que pode haver projetos – que na política são sempre coletivos – se a dimensão do futuro desapareceu? Como? Se a tudo isto juntar a incapacidade e a incompetência da maior parte dos nossos protagonistas políticos, o “sem retorno” da nossa situação parece-me evidente. O país sobrevive, de episódio em episódio, cada vez mais atordoado, cada vez mais desvitalizado e, claro, cada vez mais a reboque de uma União Europeia que se tornou no multibanco de todas as nossas aflições.

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