NA ESPIRAL DO ILIMITADO

DA INFORMAÇÃO AO INFOTERTENIMENTO

. Foi preciso a Rússia invadir a Ucrânia para que acabasse a histeria comunicacional que durante quase dois anos parasitou a pandemia da Covid-19, azucrinando-nos em permanência com tudo o que podia ter a mais pequena relação com ela, por mais episódico ou insignificante que fosse. Como inspiradamente disse Bárbara Stiegler, foi como se essa histeria comunicacional nos transportasse mesmo para um outro mundo, para um outro continente, o da Pandemia. Ou dito de outro modo, da pandemia fez-se um mundo – e tudo o mais desapareceu.

. Que isto é hoje uma evidência para quem tenha os olhos abertos e os neurónios a trabalhar – ainda que ao ralenti -, é o que indiscutivelmente veio provar o facto de vivermos actualmente na quase total ignorância da Covid-19 quando, na verdade, há agora, em maio de 2022, cerca de 27 vezes mais casos do que havia num ano atrás, em maio de 2021 (cf. Público, 08.05.222). O não é pouco, trata-se simplesmente de mais 733% de mortes e.… mais 2.587,2% de infetados por semana!

. Essa histeria comunicacional então ao rubro – e que agora “transumou” por inteiro para o tema da Ucrânia – deve fazer-nos compreender como nos nossos dias a manipulação se casou com o fait-divers dando origem ao infotertenimento, que é hoje o herdeiro e o sucedâneo da desaparecida informação que, em tempos idos, se esforçava por ser isenta e objetiva. Parece-me por isso urgente refletir sobre este inédito impensar que o infotertenimento constantemente instila e dissemina nas sociedades contemporâneas, raptando-nos toda a atenção disponível sob a forma de um autêntico tsunami, com consequências tremendas em todos os planos da nossa vida individual e coletiva.

. Mas atenção, não foi só a Covid-19 que entretanto quase desapareceu (nunca se sabe por quanto tempo!…) dos radares comunicacionais que hoje definem o espaço público em que vivemos. Não, desapareceram muitas outras coisas que, apesar de tudo, se iam – ainda que marginalmente – impondo á atenção dos cidadãos. Destaco, pela sua importância, apenas um deles, que sumiu instantaneamente como se de magia se tratasse – foi o que aconteceu ao grave e diversificado tema da crise da democracia, que vinha a ser intensamente discutido por todo o Ocidente.

. Debate que se tinha generalizado na sequência das múltiplas análises dos processos de deslegitimação, de decomposição e de desconsolidação que nos últimos anos atingiram os regimes democráticos, em paralelo com a emergência dos chamados populismos, de natureza e características muito variadas. Tudo isto desapareceu da noite para o dia, a 24 de fevereiro de 2022, dando imediatamente lugar a litanias sem fim às excelências da súbita e milagrosamente regenerada democracia ocidental.

. Passados três meses, que se completam por agora, sobre a criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia, muito haveria a dizer sobre o assunto, bem como sobre a nova histeria comunicacional que ela desencadeou. Mas também há muito a dizer sobre o que ela veio revelar – e é tanto que vale a pena ficar por aqui.

A EUROPA ENTRE O PACIFISMO E A IMPOTÊNCIA

. A invasão da Ucrânia pela Rússia ficará muito provavelmente a marcar o início de uma nova época na história europeia e não só, no sentido em que Bossuet dizia que se pode falar de uma nova “época” quando se trata de um período que é marcado por um grande acontecimento, em relação ao qual se passam a pensar todos os outros.

. Tal como o 11 de setembro marcou o fim da ideologia do fim da história, não tenho qualquer dúvida que a invasão da Ucrânia pela Rússia a 24 de fevereiro de 2022 marcará o fim da ilusão de outra ideologia, a do pacifismo indolente, dogma que tem caracterizado a União Europeia nas últimas décadas.  E em que consistiu esta ilusão? Fundamentalmente numa antropologia e numa visão da humanidade ingenuamente optimista, que acreditou que o crescimento económico supriria, por si só, todos os conflitos que tão pesadamente marcaram a história da Europa, ao proporcionar uma prosperidade que tornaria a política num mero dispositivo da gestão do quotidiano dos povos (ilusão que, note-se de passagem, tem muitos pontos de contacto e de semelhança com a ilusão comunista), dando deste modo origem à famosa “governança”.

. Esta ilusão tem vindo, contudo, a desabar como um castelo de areia, num processo que começou com a crise do euro de 2010 e se tem arrastado até aos nossos dias, num processo notavelmente explicado e documentado por Luuk van Middelaar (professor universitário holandês que foi conselheiro político e “plume” – ou ghoast-writer – do Presidente do Conselho Europeu, Herman van Rampuy) em alguns livros notáveis, com destaque para a obra Quando a Europa improvisa, já editada hoje em várias línguas. O capítulo sobre a “crise ucraniana” é de leitura obrigatória, pelo que está lá dito e previsto.

. Middelaar disseca bem o estado de negação em que a União Europeia tem sempre vivido em relação aos seus principais problemas, preferindo continuar a prática dos “saltos em frente” de natureza retórica, de resto a grande especialidade da actual Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, nisso seguida pela quase totalidade dos dirigentes políticos europeus. E mostra como tem sido a própria realidade que tem imposto à Europa uma política diferente, improvisando, através do que ele designa como política do acontecimento, em oposição à burocrática e bloqueadora política da norma da tradição bruxelense – e com resultados bem significativos, quando os houve.

QUE EUROPA-POTÊNCIA?

. Mas a velha Europa da norma resiste: foi assim que, num golpe de prestidigitação, se começou a identificar o seu destino com o da guerra da Ucrânia proclamando-se, ao mesmo tempo, o nascimento de uma nova Europa, a Europa-potência, sem contudo se dar um vislumbre que fosse do perfil estratégico dessa nova Europa e dos seus objectivos. Porque, afinal, o que pretende a Europa, para lá da intensa cortina retórica de defesa do país criminosamente invadido? Que relações pretende ela ter, no médio e longo prazo, com a Rússia e com a China, entre tantas definições de relações com outros países que se impõem? Que lugar estratégico pretende a Europa vir a ter, num mundo cada vez mais complexo e – sejamos claros – hostil, em que a Europa está cada vez mais só?

. Neste sentido, a Bússola Estratégica recentemente apresentada por Josep Borell, (Vice-Presidente da Comissão e Alto representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança), é um documento consistente e ambicioso. Mas ele supõe que a União deixe de enganar os europeus em dois pontos essenciais: em primeiro lugar, ao fazer crer que é possível uma Europa-potência sem uma forças armadas europeias à altura dessa ambição e, portanto, sem um investimento fortíssimo que certamente implicará a criação do correspondente imposto europeu ou algo semelhante.

. E, seguidamente, que se corte com a funesta ideia de uma Europa sem fronteiras definidas, de uma Europa ilimitada, territorialmente e geograficamente informe, sempre pronta para mais um “inevitável” alargamento. Sejamos claros: sem umas forças armadas credíveis e sem fronteiras claramente definidas, nunca a Europa conseguirá ter uma estratégia coerente ou ser uma potência credível.

 . Há anos que uma estratega com a experiência e a visão geopolítica de Hubert Védrine vem dizendo, com toda a razão, que “os europeus perderam os instrumentos mentais para perceber e pensar que a história é uma permanente competição de potências”. Que a pregação mais ou menos evangélica dos direitos do homem não constitui, por si só, uma política. Que a lamechice mediática é o oposto da determinação estratégica de que a União Europeia precisa. Que o estabelecimento de um princípio de limitação é a chave de tudo isto, pelo que as fronteiras da União Europeia têm que ser urgente e claramente definidas.

. É tendo presentes estes dados que se pode compreender o sentido do recente discurso de Emmanuel Macron, feito a 9 de Maio, em que ele sugeriu uma robusta reorganização da arquitectura institucional da U.E., defendeu a ideia de uma soberania estratégica da Europa, propôs o fim da paralisante regra da unanimidade e introduziu o tópico da criação de uma outra “união”, que sugeriu que se designasse “Comunidade de Política Europeia”, proposta esta que na verdade retoma a velha ideia da Europa a duas velocidades. Tudo ideias interessantes mas que, a meu ver, chegam tarde demais para terem ainda alguma utilidade política prática.

. Elas revelam, contudo, uma lucidez superior à da proposta de Mario Draghi de um “federalismo pragmático”, pragmatismo este de que ele não foi capaz – apesar de muito instado nesse sentido – de antecipar um único aspecto concreto. Pelo contrário, limitou-se a identificar esse novo federalismo como um federalismo “de ideais”, nos quais incluiu…o alargamento sem limites da União Europeia! Mas não admira, é que enquanto no reino “mágico” do financismo bastam certas palavras ditas no momento certo para enfrentar a situação (foi assim que Draghi, afirmando em Julho de 2012 que faria “whatever it takes” para salvar a moeda europeia, sossegou os mercados na mais grave crise do euro), no mundo da política as exigências são outras, aqui o pragmatismo implica mesmo acção…

UMA ESPIRAL FATAL?

. E aqui, insisto, temos que ser claros: a Ucrânia, tal como a Albânia, a Macedónia do Norte, a Sérvia, o Montenegro, a Turquia, o Kosovo, a Bósnia-Herzegovina, a Moldávia ou a Geórgia, não entrarão nunca na União Europeia, a não ser que seja para acabar o trabalho iniciado em 2004 quando imprudentemente se saltou de 15 para 28 membros (como os Estados-Unidos queriam), tornando assim a Europa num gigante…de impotência. O que de modo algum significa que aqueles países não possam vir a ter acordos de várias ordens com a União Europeia, o que é substancialmente diferente – e altamente desejável.

. A lição que está a ser muito difícil os dirigentes políticos europeus aprenderem (e explicarem aos seus povos, claro!), é que o “chapéu de chuva” americano, que durante décadas garantiu a segurança da Europa, tem os dias contados, está em vias de se fechar, dado que as prioridades que os Estados-Unidos têm vindo a definir desde a Presidência de Barak Obama são agora outras, bem diferentes. Apesar da Ucrânia, que não haja equívocos nem ilusões sobre isso.

. Ora, como foi a sua existência desse “chapéu de chuva” que permitiu à Europa não só sentir-se segura face à ameaça comunista e ao ambiente da Guerra Fria, como – aspecto não menos importante, bem pelo contrário – foi ela que permitiu à Europa canalizar meios financeiros astronómicos para a construção dos seus Estados Providência, sem quase gastar um cêntimo com a sua segurança e defesa, compreende-se a dificuldade europeia com a situação presente e com as perspectivas que, neste domínio, se lhe impõem.

. Mas “as coisas são o que são”. E por mais difícil que ela seja,  a opção dos responsáveis europeus não podia hoje ser mais cristalina: ou assumem a responsabilidade da sua segurança e defesa definindo ao mesmo tempo de uma vez por todas as suas fronteiras, acompanhando essa opção com o abandono da regra da unanimidade, ou o seu destino está escrito – será o de um definhamento progressivo num mundo em que a Europa contará cada vez menos, dando assim razão à intuição de Milan Kundera quando definiu o europeu não pelo futuro que ambiciona, mas pelo passado que viveu – como “aquele que tem a nostalgia da Europa”.

. Vivemos hoje, como escrevi no meu último livro, uma era “sem retorno”. Uma era impulsionada por uma lógica do ilimitado – da dívida, dos direitos, do consumo, da energia, da vida, também das fronteiras, etc. – que combinou, como factores decisivos da construção do nosso novo mundo, o financismo, a globalização, as novas tecnologias e o individualismo. Como sair disto, qual a margem de manobra que resta, são as questões que se deviam impor a todos os responsáveis. Mas infelizmente, como diz o meu amigo Daniel Innerarity, nunca os tempos e o mundo foram tão complexos, mas também nunca os líderes em função foram tão frustres e tão incapazes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *