A VERDADE É ESTA

                                                                    (Portugal à Lupa – 1)

A verdade é esta: entramos no mês dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, e depois de um período de altos e baixos entre 1974 e 2000, Portugal vive num declínio que chegou agora a um estado de generalizada indigência, jamais visto.

A verdade é esta: e os últimos anos, mas sobretudo os últimos seis meses, foram a cabal e quotidiana prova disto: políticos – a todos os níveis -, partidos, comentadores, juízes, procuradores, etc., todos eles contribuíram para fazer de Portugal um país desvitalizado e sem estratégia e uma democracia degradada e sem ideais, onde vale tudo e nada tem valor.

A verdade é esta: temos um Governo novo, com baixas expectativas. Temos uma maioria em minoria. Temos minorias a fazerem maiorias pontuais. Temos um Parlamento em “kidulting” (*). Temos uma conversa de “mercearia” a dominar o espaço público, com governo e oposições a falarem obsessivamente, e só, de um miraculoso “excedente”, como se a sobrevivência deles – mais do que a situação do país – dependesse de uns trocos orçamentais. O Estado-providência transformou-se num Estado-guichet: a fila vai crescendo, e ninguém esclarece que o “excedente” não é para ela, que ele só pode ser utilizado para abater na dívida, em mais nada.

– A verdade é esta: vamos chegar ao 25 de Abril de 2024 sem qualquer estratégia para o futuro do país, seja de que partido for e seja qual for a área que se considere: da educação à segurança, da agricultura à ciência, da cultura à economia, da energia às novas tecnologias, da Europa à lusofonia ou à globalização. A política tornou-se “comentário” político, seguindo o inédito modelo presidencial. A leitura dos programas eleitorais dos partidos, além de uma generalizada iliteracia, revela um sideral vazio de ideias. Aqui não há excedente, é tudo défice, um colossal défice.

A verdade é esta: vivemos nuns casos de remendos pontuais, noutros por arrasto alheio, leia-se europeu. E é tudo, quanto ao mais só se discute a disputa de cargos a ocupar e as fantasias do “excedente” a gastar. As forças políticas que dominam o país desde 1974 instalaram-se num conformismo que as senilizou, foram elas que na verdade inventaram e alimentaram a obsessão de um extremismo “de opereta” em que a encenação do grotesco e a gritaria substituíram a proposta de ideias e o seu debate, mas que cresceu a ponto de já poder ameaçar os seus criadores…

A verdade é esta. E porquê? Porque assim, inventando um inimigo, o que se procura é disfarçar a completa falta de ideias e a morte das ideologias (da social-democracia à democracia cristã, passando pelo liberalismo clássico, tudo “cadáveres que procriam”, como diria Pessoa) que sustentavam o status quo, entregando-se à ilusão neoliberal e ao seu extremismo de centro. Sim, sim, porque este extremismo também existe, ele revela-se mesmo cada vez mais forte e invisível, é lá que está o bloqueio a qualquer dinâmica regeneradora e revitalizadora de Portugal, da Europa – e da política.

– A verdade, a meu ver, é esta – 50 anos depois do 25 de Abril de 1974.

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(*) – “kidulting” é um termo muito em voga, composto pelas palavras kid+adulte, ele define uma tendência em expansão, em que os adultos se dedicam a actividades em geral reservadas a crianças. Existem já clubes de “kidulting” nos Estados-Unidos, na Alemanha, em Espanha, em Itália e noutros países. E acaba mesmo de ser publicado o The Kidult Handbook, que talvez seja útil aos novos parlamentares…   e não só.

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