ENTRE GUERRAS CULTURAIS E TRANSLAÇÕES POLÍTICAS

                                                                     (Portugal à Lupa – 3)

– É fundamental distinguir duas coisas: o alarido mediático desencadeado a propósito da publicação de um livro. E as especulações suscitadas pela sua apresentação por uma personalidade, no caso um ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, em acelerada rotação ideológica, a tentar apanhar a translação política que varre o mundo ocidental. Mas para isso ainda vai ter que andar muito…

– Claro que as coisas estão ligadas e a amálgama era muito provavelmente o objectivo de todos, embora com intenções diferentes. Mas quanto ao livro, para lá da habitual cacofonia túrgida do “comentariado” nacional, o que de mais importante se disse foi que ele viria abrir uma “guerra cultural” em Portugal, embora sem nunca se dizer entre quem, nem quais as posições em conflito, insinuando-se apenas – e percebe-se bem porquê – que será entre progressistas e reaccionários.

– Dos extractos mais divulgados do livro Identidade e Família, verifica-se que há de facto muitas ideias reaccionárias, mas que são banais, mais do que conhecidas, e com as quais qualquer democracia minimamente madura – a nossa, não tem 50 anos? – tem de saber conviver sem insultos nem anátemas, que só revelam as enormes fragilidades de quem os profere. E se nuns casos serão teses minoritárias, noutros tratar-se-á talvez de ideias maioritárias, foi sem dúvida isso – porque esse ponto fica agora em aberto – que levou a que se falasse em “guerra cultural”.

– Expressão esta que, curiosa e sintomaticamente, ninguém utilizou quando, muito recentemente, o Presidente da República vetou um diploma que, quase clandestinamente, sem debate ou discussão, o Parlamento anterior aprovou em Dezembro sobre “o direito à autodeterminação de género”, diploma que, entre outras normas delirantes, impunha a presença, em todas as escolas, de “olheiros” à procura de sinais de “disforia de género” entre alunos e alunas…

– O assunto terá agora, se voltar ao Parlamento, que ser objecto de um sério, alargado e fundamentado debate público, na linha do que aconselharam a seu tempo, tanto a Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida como o Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos.

– Mas o sinal ficou, e só não o vê quem não quiser: e o sinal é o de que o wokismo está já a dominar sectores muito significativos da vida nacional. Tal já era visível em várias Universidades e, ainda mais, em diversos media, com de resto tem acontecido em toda a parte, no mundo ocidental. E vamos vendo como ele se impõe também com inusitada facilidade em todas as esferas do poder, seja o legislativo, o executivo ou o judicial. É isto – e não as posições nostálgico-jurássicas que regularmente se farão sempre ouvir, na indiferença geral – que é importante perceber e debater.

– Quanto aos movimentos de rotação e de translação política em curso, que estão a alterar todos os parâmetros da acção política, não só em Portugal como em todo o Ocidente, é matéria que tem de ficar para outro dia. Só adianto que, a meu ver, é a combinação desses dois movimentos políticos, ideológicos e civilizacionais, que nos permite compreender o que está realmente a acontecer.

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