O REGRESSO DE MARCELO-GELATINA: O WOKISMO ATERROU NO 25 DE ABRIL DE 2024?

                                                                   (Portugal à Lupa – 5)

– O wokismo aterrou oficialmente e em grande em Portugal, no 25 de Abril de 2024. Pressentia-se que tal estava iminente, mas é lamentável que tenha sido pela mão do Presidente da República, e no contexto do cinquentenário do 25.04.1974, que tal tenha acontecido.

– A coisa andava por aí há muito tempo, entre os media e a política, a “cultura” e as universidades, eu já a tinha sinalizado aqui há mais de um ano, em “A peste ameaça a cidade” (01.02.2023). Agora que um dos principais temas wokistas viesse a ser assumido pelo Presidente da República é, no mínimo, penoso e confrangedor. Como o é o apoio que tal dislate logo teve de personalidades e de partidos de uma esquerda fandanga cada vez mais acéfala que, depois de perder o sentido e o apoio do povo se dedica a estas frivolidades reacionárias e anacrónicas – e a outras parvoíces conexas até mais graves.

– Como talvez alguns se lembrem, nunca me iludi com o político Marcelo Rebelo de Sousa. Que, nos tempos em que estive no governo – era ele líder do PSD, na oposição, já lá vão quase 30 anos – designei, em entrevista ao Expresso (05.04.1997), como “pura gelatina política”.  Com o tempo fui variando na minha avaliação e adjectivação da sua actividade política, mas esta foi sempre a principal matriz: Marcelo é pura gelatina política. O que não foi fácil, sobretudo nos seus períodos de pico de popularidade, em que o todos, com o comentariado nacional à frente, se ajoelhavam perante ele, numa manifestação de vassalagem tão provinciana como conformista, consagrando as “selfies” como o apogeu da política!…

– Nada mais direi, até porque já houve quem dissesse tudo o que de importante havia para dizer sobre os últimos dislates marcelistas, como por exemplo José Pedro Marques, a quem se devem na matéria intervenções de grande coragem e lucidez, e que agora escreveu certeiramente que, com as suas recentes declarações, o Presidente da República “vai no arrasto do wokismo que grassa nas sociedades ocidentais e que também toca certos sectores do mundo católico. Resta saber se Marcelo vai na onda por se ter convertido sinceramente ao wokismo ou apenas porque tem a irresistível necessidade de falar e de ser falado.” (Observador, 26.04.2024). Alternativa que, para um político de gelatina, na verdade não se põe, para ele é tudo a mesma coisa, um incontinente magma de tretas, sem coerência nem opções. Pela minha parte só acrescentarei que os factos, sobretudo os do último ano,  vão colocando o Presidente da República numa insólita situação de auto-destituição, num “match-point” em que tudo pode acontecer…

– E tudo pode acontecer porque:

. Em primeiro lugar, este novo ciclo político, decorrente das eleições de 10 de Março, começou muito mal, por um lado com as trapalhadas do Governo sobre o IRS, por outro com a aliança de facto PS/CHEGA na votação parlamentar sobre esta matéria. O que anuncia tensões partidárias que, muito provavelmente, exigirão a intervenção de um Presidente da República discreto, sagaz e eficaz, o que manifestamente não existe.

. Depois, porque a Europa caminha para a irrelevância global, como Emmanuel Macron há dias claramente explicou no seu longo e bem fundamentado  Discurso da Sorbonne, ao denunciar uma União Europeia afogada numa retórica balofa e num persistente bloqueio estratégico nas matérias mais decisivas ( energia, segurança, investigação, etc.). Mas por cá o que se discute são os e as cabeças de listas dos partidos, realmente mais nada, ainda não se ouviu uma só palavra sobre os tremendos problemas que a Europa enfrenta – e o que fazer para os ultrapassar.

. Por fim, porque, por muitas “avenidas da liberdade” que se encham em dias de justificadas festividades, o facto é que a democracia, como poder de acção colectiva do povo sobre as suas opções e o seu destino, recua aceleradamente por todo o lado, numa desafeição que é alimentada pelas desilusões com as promessas de uma representatividade desacreditada, de um crescimento impossível e de um carrossel de anúncios de transições sem fim – climáticas, industriais, digitais, etc. – nem, sobretudo, verdade.

– Quando é que se perceberá que a tripla identificação – recente, o fenómeno tem apenas algumas décadas -, no imaginário colectivo contemporâneo, da democracia com o fluxo comunicacional ininterrupto, com o crescimento contínuo e com uma prosperidade ilimitada, conduz o mundo para um abismo sem retorno?

Postscriptum – Bom começo de Aguiar-Branco, a sugerir o óbvio: que a Procuradora-Geral Lucília Gago deve ir ao Parlamento, como foram os seus antecessores Souto Moura, Pinto Monteiro e Joana Marques Vidal. O que em nada belisca a “separação de poderes”, tal como ela é praticada nos Estados verdadeiramente democráticos.

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