TRUMPISMO/WOKISMO – DUAS FACES DA MESMA MOEDA?

 

“DEUS RI-SE DAQUELES QUE SE QUEIXAM DAS CONSEQUÊNCIAS DAS CAUSAS QUE ELES MESMOS ACARINHARAM”

                                                                   BOSSUET

 

                                                  

 

O TRUMPISMO, NA ESTEIRA DO WOKISMO

 . O trumpismo aí está, em todo o seu anunciado esplendor disruptivo, feito do mais sinistro ressentimento, de inéditas e poderosíssimas alavancas tecnológicas, aprisionando a atenção de todo o mundo, sobretudo do Ocidente, num temor tão atordoado como impotente. Como já aqui argumentei noutros textos – mas nunca é demais insistir neste importante ponto – Donald Trump não teria certamente sido eleito nas eleições presidenciais americanas de Novembro de 2024 se não tivesse tido o trunfo do wokismo, que lhe foi insistentemente oferecido pelos democratas. Todos os estudos, sem excepção, apontam nesse sentido.

. Infelizmente, os wokistas continuam em estado de negação, procurando agora fazer do trumpismo um biombo atrás do qual procuram esconder as suas pesadas responsabilidades no que aconteceu, e vai continuar a acontecer, nos EUA, procurando hipocritamente fazer-se passar por vítimas, a sua grande especialidade patológico-política. A vitimização, digo-o há muito, vai acabar – se não o é já – por se tornar no sucedâneo das grandes ideologias que outrora prevaleceram no Ocidente, a revelar bem a rapidez e a intensidade da decomposição dos seus valores.

Pois é, leia-se Bossuet!

 

INDIELISBOA OU INDIEWOKISTA?

. Yascha Mounk, o credenciado politólogo e professor da Universidade Johns Hopkins, a quem se deve, em 2023, um longo, minucioso e pedagógico estudo sobre o fenómeno woke, com o livro The Identity Trap, já traduzido pela Relógio d’Água, antecipou há tempos algo que cada vez me parece mais configurar a realidade dos próximos anos, quando afirmou que “o wokismo vai estruturar a vida intelectual nos próximos trinta anos, tal como a contestação ou defesa do marxismo estruturou a sociedade durante décadas.”

E infelizmente Portugal não escapa a esta previsão, persistem entre nós múltiplos sinais de um wokismo fanático e persecutório, cada vez mais intersticial na generalidade dos media, que faz do cancelamento a sua arma mais frequente. É o que acaba de acontecer ao realizador Ico Costa que, com base numa mera denúncia anónima, viu cancelados dois filmes seus programados para serem exibidos no Festival IndieLisboade 2025, a decorrer entre os próximos dias 1 e 11 de Maio, numa rastejante exibição de subserviência wokista e do mais total desprezo pelo princípio de presunção de inocência, base de qualquer Estado democrático. Façamos um breve experimentum mentis: e se aparecesse por aí algum “Trump lusitano” – o que não é impossível -, que decidisse cancelar o Festival IndieLisboa com base em argumentos semelhantes, na sua arbitrariedade, ao agora invocado, o que é que se diria, como é que se contestaria uma tal decisão?

Pois é, leia-se Bossuet!

 

 TEMPOS DE CÓLERA

. A propósito, olhemos para Harvard, para a grande Universidade de Harvard. É evidentemente condenável e intolerável a chantagem de Donald Trump em relação a esta Universidade privada! O assunto já foi muito falado, mas creio que vale a pena acrescentar dois pontos: o primeiro, para sublinhar o modo, que estes factos evidenciam bem, como – ao contrário das constantes litanias liberalóides – o privado é afinal, nos EUA e não só, constantemente financiado pelo dinheiro público, e em montantes muitíssimo substanciais, por vezes mesmo colossais. O segundo, é para perguntar onde estavam os que agora tanto protestam quando, como aconteceu recentemente, a Universidade de Harvard foi dirigida por uma reitora negra, Claudine Gay, cuja permanência no cargo defenderam dogmaticamente, apesar da assumida perseguição a diversos professores – por vezes atá à sua expulsão – que não se enquadravam nos seus dogmas wokistas. Apesar da permanente desvalorização dos critérios de mérito na selecção dos candidatos, sempre em benefício de quotas das minorias mais diversas. Apesar de ter chegado a substituir no já controverso DEI – diversidade, equidade, inclusão – a noção de “equity” por uma alegadamente mais radical, “belonging”, e nomeado uma reitora-associada, Sheree Ohen, para fazer respeitar o novo tríptico. Apesar da alegação de vários plágios de diversas das suas obras, (foram indicadas dezenas de situações de plágio em oito dos principais trabalhos académicos de Claudine Gay, tendo-se concluído que ela violou as normas de Harvard sobre plágio e sobre integridade profissional.Apesar da sua defesa, depois do ataque terrorista do 7 de Outubro em Gaza, da generalização do feroz antissemitismo que surgiu na Universidade, que promovia a invasão de aulas, a ocupação de espaços comuns, ameaçando – mesmo fisicamente – os “dissidentes”. Em suma, onde estavam então os que agora tanto protestam contra as ameaças de Trump, com toda a razão e fundamento, mas com escassa ou nenhuma autoridade?

Pois é, leia-se Bossuet.

 

REFORMA DE QUÊ?

Num trabalho que fiz há uns tempos identifiquei, e li, dezenas de livros sobre a reforma de justiça. Foi há dias publicado mais um, Para uma Reforma da Justiça (Edição Bertrand), a dar um sinal de vida ao moribundo “Manifesto dos 50” (50 subscritores para comemorar o cinquentenário do 25 de Abril), lançado há cerca de um ano, que entretanto vegetou pelos bastidores dos vários poderes, sem sequer promover um único debate público – ou vários, como naturalmente se impunha se o objectivo fosse efectivamente de natureza reformadora, já que são 72% os portugueses que fazem uma avaliação muito negativa do estado da justiça em Portugal. Para lá da publicação do “manifesto” original, cerca de 95% do livro é constituído por artigos de jornal, publicados entre 2017 e 2024, e agora republicados, e quase tudo o que lá se pode ler, que é naturalmente de valor e interesse muito diverso, já foi contudo dito e redito, sem que, entretanto, tenha tido quaisquer consequências. O que não deve surpreender, afinal trata-se de um “manifesto” promovido por uma maioria de antigos membros de vários governos que, quando podiam, nada disseram ou fizeram. Devem agora ficar à espera do centenário do 25 de Abril…

Pois é, leia-se Bossuet

 

(Na última newsletter o patrão da Palantir, Peter Thiel, apareceu – por lapso – nomeado como Paul)

 

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