A DEMOCRACIA NA ESPIRAL DA SUA DECOMPOSIÇÃO

                                   “Toda a resistência começa pelo conhecimento”

                                                                                                       Giuliano da Empoli

O VENTRÍLOQUO MEDIÁTICO

 . Somos muito melhores a explicar do que a compreender – digo-o há muito, e os últimos dias evidenciaram abundantemente este facto. Facto que tem sido muito incentivado pelo modo como o espaço público foi reconfigurado nos últimos anos, sobretudo em consequência de três factores:

– o esvaziamento doutrinal da política, que se tem entregado, entusiástica e suicidariamente, nas mãos do entretenimento e das tecnologias, condenando-se a um vazio sideral onde só podem crescer a ignorância balofa, a diatribe ofensiva e o insulto soez;

– a dupla transformação da informação, por um lado em infotretenimento, por outro lado em tagarelice-em-contínuo, torrencial, 24 horas por dia, ponto em que, per capita, Portugal detém o palmarés europeu;

a invasiva multiplicação das redes sociais e de tecnologias cada vez mais sofisticadas, nomeadamente com a veloz irrupção da I.A. em modalidades cada vez mais acessíveis, tornando realmente impossível identificar formas inéditas de manipulação ou distinguir, seja qual for a área, o falso e o autêntico, a verdade e a mentira.

. O espaço público tornou-se assim numa espécie de constante espectáculo de ventríloquos, numa barragem ao conhecimento, em que se fala interruptamente do que “se sabe”, mas sem se compreender nada do que realmente se passa. Espectáculo que cria um contágio mental que, ora desorienta, ora anestesia, a generalidade das pessoas, presas num transe insólito, mas que é, na verdade, a chave do sucesso dos programas de “actualidades”: ouvir explicações que não transmitem qualquer conhecimento ou compreensão sobre aquilo de que falam, numa miscelânea de episódios em forma de série – o Covid, a Ucrânia, as gémeas, Gaza, Trump, a Spinumviva, etc. – com os faits-divers do dia.

ETIQUETAS EM PUTREFACÇÃO

. Claro que houve razões objectivas e motivações subjectivas para os resultados eleitorais do passado dia 18, indispensáveis para um entendimento pontual, contextual, do que se passou. Mas a sua efectiva compreensão impõe que se olhe para outros parâmetros, mais estruturais e globais, que nos últimos tempos têm vindo a alterar completamente a vida política em todo o Ocidente, com diversas particularidades na Europa. São muitos, esses parâmetros, mas entre eles destacaria três:

o esboroamento de todas as ideologias minimamente federadoras de “massas” – a democracia cristã, o socialismo, comunismo, o liberalismo (sim, sim!), a social-democracia, o conservadorismo, o anarquismo, etc. -, todas sobrevivendo, no entanto, como meras etiquetas em putrefacção – umas mais do que outras, sem dúvida -, que se limitam hoje a animar as intensas lutas de interesses e de ambições, individuais e colectivas, que atravessam as sociedades ocidentais. Esboroamento que foi o que abriu caminho ao recurso a arcaísmos de diversos tipos, que as direitas mais radicais souberam habilmente transformar em eficazes simulacros ideológicos e, sobretudo, em valores crescentemente hegemónicos, tornando o debate político numa mera “polarização de crenças”, na expressão do filósofo americano Robert Tadisse, em Overdoing Democracy.

– a consagração do “homo economicus” como dimensão dominante dos indivíduos, num quadro de ambições ilimitadas, trate-se do que se tratar. Aqui a “construção europeia”, em paralelo com a globalização – de que ela foi um agente eminentemente activo -, teve um papel decisivo, que se teima em ignorar. Mas não pode: porque a União Europeia, para lá de uma desacreditada mas insistente retórica, tão vazia como perigosa, e de uma exibição de impotência política que os últimos anos têm permanentemente reforçado, consagrou na prática – e é isso que interessa – um “sistema” que conjuga o mais estricto economicismo tecnocrático com a mais agressiva burocracia autoritária, no quadro de um colossal déficitdemocrático;

– a decomposição democrática que a generalizada cumplicidade do mundo político com o mundo mediático e das redes sociais (cada vez mais co-produtores de eventos, uma vezes convergentes, outras antagonistas) reduziu, a um ritmo estonteante, a um simples gesto: o do voto. Abandonando assim quase inteiramente a substância e a vitalidade da democracia, ou seja, o efectivo pluralismo de convicções, o frontal debate de ideias, a liberdade de expressão. Dando desta forma origem a um fenómeno historicamente inédito, a uma espécie de cidadania não-democrática, assente numa cada vez mais débil legitimidade democrática, perigosamente semelhante, no fundo, à que praticam os regimes autoritários, como se tem vindo a ver – e a querer ignorar! – na generalidade dos processos eleitorais ocidentais.

REFLEXÃO SEM PENSAMENTO?

 . Os grandes derrotados do 18 de Maio reclamam agora um período de “reflexão”. É um mantra habitual, um linguajar tribal depois das derrotas políticas, em geral inútil a não ser pelo que revela que faltou antes do desaire. Daí que raramente saia o que quer que seja destes ditos períodos de “reflexão”, em geral curtos, e que na verdade são um mero ritual sem autêntico pensamento, que é aquilo que verdadeiramente se deveria impor nas actuais circunstâncias, nacionais como globais.

. Um ponto central é o de se compreenderem bem as consequências de a política ter trocado – sobretudo desde finais do século passado – a sua exigente relação com o conhecimento por uma turva cumplicidade com a comunicação, conduzindo ao triunfo de múltiplas formas de impensar, que diversas fábricas de ignorância e de fanatismo hoje oferecem constantemente a todos.

. Um outro, é o de se compreender que, apesar de tudo, os povos se têm vindo a aperceber do facto que os dirigentes políticos “instalados” – que constituem o que tenho designado como o extremismo de centro – não têm de facto soluções para os problemas das sociedades em que vivemos, que eles passam o tempo a “empurrá-los com a barriga” e a recorrer a precários remendos e a expedientes de ocasião. E que é aqui – nesta política que se alicerça no ilusório pressuposto elitista da “estupidez do povo” – que está o principal combustível de todos os chamados populismos, e de todas as formas de radicalização política em curso.

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