ASSIM NÃO, PACHECO PEREIRA!

. Pactuar com a confusão e a imprecisão das palavras que se usa, ou dos conceitos a que se refere, não é um bom serviço que um “intelectual público” preste aos seus leitores. Digo isto depois de ler os dois artigos que José Pacheco Pereira publicou recentemente no jornal Público (a 21 e 28 de junho), a pretexto do wokismo, sendo que em ambos a obnubilação sobre o tema pareceu grande. A tal ponto que me levou a adiar a newsletter em que estava a trabalhar sobre a “vassalização” da Europa, e a escrever o que se segue.

 CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

. Ora vejamos. O primeiro texto começa por caracterizar muito superficialmente o wokismo, indicando apenas algumas das suas consequências e ignorando completamente todas as suas causas, passando completamente ao lado do fundamental, ou seja, da especificidade mais marcante do wokismo. Das suas consequências, refere genericamente as censuras e os cancelamentos que ele impôs. Das suas causas, ignora que, no essencial, todas elas remetem para a essencialização” sexista e racista do homem branco, da heterossexualidade e de tudo o que se possa relacionar com o Ocidente, sempre apresentado como a causa de todos os males do mundo. Essencialização esta que se estruturou a partir da adopção do conceito de “interseccionalidade”, proposto pela jurista negra Kimberlé W. Crenshaw, ou seja, da ideia de uma convergência dos combates, da constituição de uma frente comum de luta, em nome de todas as alegadas “vítimas” do racismo, do sexismo, do patriarcado, etc.

 WOKISMO DE DIREITA?

 . De seguida Pacheco Pereira associa, aqui bem, o wokismo à esquerda, EUA aos democratas, mas para logo acrescentar adversativamente que: “ não há apenas um wokismo, há outro, reaccionário, de direita, radical, assente numa mescla entre a “tradição”, o machismo, o conservadorismo dos costumes, a ideologia da “família natural”, o anti-intelectualismo, a ignorância agressiva e um conjunto de ideias sobre o catolicismo integrista, raça, história e sobre aquilo que chamam “portugalidade” sem nenhuma sustentação histórica”(Público, 21.06.2025). E considera mesmo que a designação de wokismo “reacionário” é mais adequada para caracterizar este wokismo, que que a designação de “revolucionário” seria para designar o “outro” … wokismo.Ora, confundir o wokismo do século XXI com um reaccionarismo velho de décadas é um erro factualinaceitável. Mas, mais grave ainda, é que se trata de um erro que leva a que se ceda perante aquilo que se diz pretender combater: as novas formas de fanatismo ideológico que, com o wokismo, se multiplicaram por todo o Ocidente. Assim se confirma como é difícil, quando se tem o olhar fixado no retrovisor, compreender o presente e perscrutar o futuro,

BRANQUEAMENTO OU “MODISMO”?

. Penso que a obnubilação que tudo isto traduz decorre, por um lado, de se ignorar o que, desde o começo do século, e com uma grande intensificação do seu impacto desde meados da década passada, foi de facto, e continua a ser, o wokismo. E, por outro lado de, ao caracterizar-se um alegado wokismo “de direita”, apenas se enumerar um conjunto de características que há décadas configuram o mais banal reaccionarismo. Nestas circunstâncias, só vejo duas razões para se falar de wokismo “de direita”: ou para branquear todo o tremendo histórico daquilo que Pacheco Pereira designa como wokismo “revolucionário”, ou … por uma cedência a mais um “modismo” mediático.

. Para se compreender a novidade do wokismo, a sua emergência, a sua disseminação e o seu poder, devem deixar-se de lado velharias como a oposição esquerda/direita e, ainda mais, a oposição revolução/reacção. Sei bem que elas andam por aí e continuarão a andar, entre as narratretas mais correntes, a alimentar oimpensar das nossas “actualidades”, mas elas são mais um bloqueio do que um instrumento para a compreensão do nosso mundo, sobretudo do que nele é de facto inédito. E os anos que dediquei ao seu estudo permitem-me afirmar tranquilamente que com o wokismo se trata mesmo de outra coisa, irredutível a analogias formais e a anacronismos históricos, como de resto bem viu Yascha Mounk quando “profetizou” que iríamos ter wokismo durante décadas, como aconteceu com o marxismo, ainda que tal possa acontecer, utilizando a inspirada frase de Pessoa, na forma de “cadáveres adiados que procriam…”. Foi isso que me levou a optar pela metáfora da “peste”, no livro que publiquei sobre este tema.

DO WOKISMO AO TRUMPISMO

. E apesar do risco que sempre se corre ao escrever “em cima do acontecimento” ainda pude acrescentar a esse trabalho, que terminei em finais de 2024, um posfácio datado de fins de fevereiro passado, em que procurava sinalizar o que de mais inédito o trajecto do “wokismo ao trumpismo” trazia consigo, e antecipar alguns traços que se vieram a confirmar. Foi a isto que, mais coisa menos coisa, pensei que Pacheco Pereira chegasse, quando oito dias depois do primeiro artigo, ele voltou ao assunto. Mas não – apesar de afirmar que “o wokismo reaccionário, como o wokismo em geral, é um processo novo e que não se compreende se se apresentar como uma mera continuidade do passado”(Público, 28.06.2025), é precisamente isso que Pacheco Pereira faz, ao identificar esse “novo” com as afinal já bem velhas “guerras culturais” e com as “redes sociais”, sobretudo com os “mecanismos elitistas”, o “igualitarismo da locução” e a “ignorância agressiva” que elas incentivam.

O QUE, DE FACTO, É NOVO

. Novo isto? Não, de todo: dizê-lo é esquecer – facto que é fundamental – que o wokismo nasceu nas Universidades americanas, nas elites cosmopolitas, que ele se disseminou como uma epidemia pelas mais poderosas empresas, nomeadamente tecnológicas,  de todo o mundo, pelas  grandes fundações da mais diversa natureza, pela generalidade dos media, pelas centenas e centenas de séries televisivas, pelas opções – nomeadamente no plano da educação – de imensos governos ocidentais, dando assim origem a uma” ideologia” granítica que, essa sim, viria então a animar as redes sociais.

. É este o lastro que permite compreender a novidade wokista, que depois se impôs de um modo avassalador quando ela se entrosou com as plataformas digitais e com a sua imensa força algorítmica, com uma Inteligência Artificial que nos últimos dois anos tem vindo a mudar irreversivelmente o mundo, num processo que está apenas no seu começo… É para aqui que, agora, é preciso olhar, lendo os ideólogos mais inesperados – mas também mais influentes -, que vão de personagens como Peter Thiel – fundador com Elon Musk da PayPal, e hoje dono da Palentir, uma das empresas tecnológicas mais avançadas e mais poderosas do mundo (que tem sido decisiva para as recentes  performaces do exército israelita) – atébloguers libertários como Curtis Yarvin, aceleracionistas como Nick Land, ou inclassificáveis, como B.A.P.- Bronze Age Prevert .

. Em suma, penso que o wokismo foi, e continua a ser, uma novidade radical no mundo ocidental, e só nele, e que para o compreender é preciso conhecer a sua complexa e múltipla genealogia, as suas causas e consequências, sem facilitismos semânticos nem contorcionismos históricos. Só assim, de resto, se pode compreender como ele esteve já, numa significativa medida, na origem do triunfo do trumpismo, bem como nas suas posteriores e inesperadas combinações, alavancadas por um financismo que se reconfigura profundamente, por uma globalização que baqueia progressivamente e por um impetuosidade tecnológica que aparenta não conhecer quaisquer limites.

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