A AMERICANIZAÇÃO DO OCIDENTE
A palavra “vassalagem” designa o estado de submissão de quem se encontra sob a protecção e a dependência de alguém, em troca da prestação de tributos, de serviços e da garantias de obediência e de fidelidade. É uma evidência que é cada vez mais esta a situação em que se encontra a União Europeia face aos Estados Unidos da América, situação que se pode considerar o culminar de um longo processo, que começou no pós-guerra, em que o americano Way of Life se foi impondo por todo o Ocidente, nomeadamente na Europa, do cinema ao fastfood, da política ao fordismo, da tecnologia à musica, da roupa às séries, contaminando e colonizando todos os imaginários, tanto colectivos como individuais. Esta situação foi sendo sucessivamente iludida em toda a Europa, dadas as vantagens que o “chapéu de chuva” americano propiciava nos domínios da defesa e da segurança aos seus diversos países, que assim puderam canalizar meios financeiros astronómicos para a construção dos seus robustos Estados providência. (A propósito, pode ler-se o instrutivo livro de Louis Menand, The Free World: Art and Thought in the Cold War, – com tradução portuguesa, de 2023, da Elsinore -, ou a obra Américanisation – Une Histoire Mondiale, de Ludovic Tournès)
A RUPTURA TRUMPISTA
. O mundo, entretanto, mudou. E os EUA também foram mudando, nomeadamente nas suas relações com a Europa – o distanciamento começou com Barak Obama e nunca mais parou, embora com ritmos diferentes, entre 2016 e 2024, fosse com Donald Trump ou com Joe Biden – mas a Europa decidiu manter-se em “estado de negação”, situação em que se manteve até muito recentemente, e em grande medida ainda se mantém, de um modo que é alarmante. Cega pelas miragens do “paradigma do ilimitado” e pelos suas dinâmicas centrais – a globalização, a tecnologia, o financismo e o hiper-individualismo -, a Europa não viu, nem os abalos que a globalização transportava consigo, nem o modo com a tecnologia lhe escapava quase inteiramente, nem a forma como o capitalismo se transformava radicalmente num financismo inédito, nem como o novo individualismo lhe minava – associado ao wokismo – o chão em que ela se movia. Não viu nada disto, e por isso as consequências são agora tão pesadas.
. Só com a ruptura ressureiccional de Donald Trump, em 2024, é que a Europa começou a pressentir mudanças no horizonte. Mas alimentou ainda, embarcada no seu carrossel de sofismas, a ilusão de que poderia lidar com o trumpismo mantendo o essencial do seu status quo. Isso, enquanto se atolava não só numa confrangedora impotência na Ucrânia – confundindo, com as graves consequências que se tem visto, a ajuda que é devida a um país aliado que foi invadido, com a defesa de uma democracia que na realidade não existia nesse país -, mas também numa grave hipocrisia no Médio Oriente, aqui confundindo a defesa de valores universais com a conivência com ideologias e práticas condenáveis.
DE DESAIRE EM DESAIRE…
. A principal responsável por esta grave situação foi, sem dúvida, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como foi também ela a responsável por conduzir a União Europeia a um cada vez maior processo de vassalização perante os EUA. Primeiro, na cimeira da NATO, em Haia, em junho passado, onde – em obscena cumplicidade com Mark Rutte – Donald Trump impôs aos seus membros um aumento para 5% do respectivos pib, a atingir até 2035, para despesas de defesa e segurança, tendo Ursula von der Leyen então fantasiado tal imposição com o interesse europeu na sua re-industrialização militar, quando na verdade o que se pretendia era garantir meios mais substanciais para que a NATO pudesse comprar mais armamento americano, como já está a acontecer com o material militar que se pretenda enviar para a Ucrânia.
. E depois, na cimeira de Turnberry, no passado dia 27 de Julho, quando Ursula von der Leyen se deslocou a uma propriedade da Trump Organization, o Trump Turnberry Golf Resort, para aí reforçar a vassalização europeia face a Donald Trump. Bastam alguns dados para o confirmar: o aumento das tarifas aduaneiras de 1,5% para 15% para as exportações europeias para os EUA, o compromisso europeu de comprar 750 milhões de dólares em energia (GNL) aos EUA nos próximos três anos e, ainda, o de reforçar os investimentos europeus nos EUA em 600 milhões de dólares por ano. A isto acresce a garantia de comprar material militar aos EUA, nada se dizendo sobre as tarifas sobre o aço e o alumínio (que Trump fixara há meses nos 50%), e deixando-se pairar a confusão sobre o que acontecerá à indústria farmacêutica. Nada se dizendo naturalmente sobre o imposto proposto pela OCDE e adoptado pela União Europeia, de 15% sobre as multinacionais com um volume de negócios anual a partir dos 750 milhões de dólares, a aplicar até 31 de Dezembro de 2025 pelos países da União Europeia. Mas de cujo pagamento, no G7 de 26 de junho último, realizado em Paris, a União Europeia exonerou os EUA!
. Certo, certo, é que a União Europeia fixará sobre as exportações americanas para os seus membros uma tarifa de 0 %. Foi a completa capitulação da União Europeia face a um Donald Trump cada vez mais “imperial”, que entre algumas tacadas de golfe no seu privado Golf Resort, na Escócia – portanto, fora da União Europeia -, obteve o que quis de Ursula von der Leyen, levando-a a, na verdade, deitar para o caixote do lixo os tão enaltecidos relatórios de Enrico Letta e de Mario Draghi. Como já diversos especialistas sublinharam, este “acordo” não só põe em causa o essencial dos planos europeus em política energética como, no que diz respeito aos investimentos europeus, não se vê com quem, como ou com que meios, tal se concretizará. Mas, para lá de tudo isto, que é fundamental, impõe-se ainda uma outra pergunta: onde está a legitimidade de Ursula von der Leyen para assumir um tal acordo em nome da União Europeia? Nos tratados em vigor não é certamente…o estranho, muito estranho, é que neste ponto ninguém parece quer tocar – porque será?
PARA LÁ DA HUMILHAÇÃO
. A situação europeia é, pois, bem mais do que de mera humilhação, como Giuliano da Empoli afirmou na entrevista ao Público do passado dia 3 de agosto. Até porque a sua humilhação não é nova, o que é novo é a vassalagem em que ela se transformou, e que a meu ver sinaliza uma forte aceleração do declínio da Europa, que inevitavelmente porá em causa a própria existência da União Europeia, tal como existe hoje. E mais, também não se trata de um qualquer processo vassalização, mas, como inspiradamente afirmou o Presidente italiano Sergio Mattarella, de uma vassalização feliz.
. A ameaça que vem dos EUA, com a presidência de Donald Trump, mas que vai muito para lá dela é, contudo – como bem afirmou Pascal Lamy, antigo director da OMC –, de natureza eminentemente política. Ela apela à responsabilidade colectiva europeia sobre o que está a passar. São necessárias várias explicações, nomeadamente sobre como é que se assumiu um “acordo” sem texto formal que o substancie, nem se sabendo que forma jurídica ele terá ou em que bases legais ele se apoia. Como é preciso saber quais os papéis do Conselho Europeu e do Parlamento Europeu em todo o processo. São questões que, num registo democrático, como se pensa que seja o da União Europeia, são decisivas e incontornáveis, elas exigem respostas claras. Fechar os olhos a estas questões é dar razão a Tony Corn quando, há anos, definiu o europeísmo como o “ópio dos europeus”. E, se assim for, temos aqui a resposta à pergunta com que Sergio Mattarella terminou a sua intervenção sobre a vassalização feliz que ameaça a Europa, e que foi a de sabermos o que, na realidade, colectivamente queremos como europeus: ser protegidos ou ser protagonistas?
. HERBÍVOROS NUM MUNDO DE CARNÍVOROS?
. Será difícil fazer da União Europeia um protagonista com peso no mundo de hoje, desde logo dada a crescente divisão que existe entre os seus membros sobre diversas questões fundamentais. Mas a principal razão que torna esse desígnio muito improvável decorre, a meu ver, do seu “estado de negação” em que ela tem vivido sobre quase todas elas, multiplicando sem qualquer estratégia ou resultado, reuniões e relatórios. Tudo isto – e este ponto não é menor, bem pelo contrário – perante uma generalizada apatia dos europeus. Como há dias escreveu o embaixador Gérard Araud (Le Point, 29.07.2025), os europeus “continuam herbívoros num mundo de carnívoros, e recusam deixar o momento encantado que lhes permitiu viver o período de paz mais livre, mais próspero e mais seguro, desde a queda do Império Romano.” E conclui afirmando que, perscrutando as opiniões públicas europeias, as vê “adormecidas pelo conforto e determinadas a não acordarem. A única aspiração dos europeus é a preservação da sua qualidade de vida, no doce torpor de velhos povos esgotados pelas provações por que passou o seu continente, que assim se torna cada vez mais numa casa de repouso e num destino de férias.” Eis, sem dúvida, um outro modo de definir a vassalagem feliz.
