O ATORDOAMENTO GLOBAL

. Este título foi-me inspirado pelo livro Entshittification, de Cory Doctorov, que dispensa tradução… É uma obra instrutiva, procura caracterizar diversos aspectos do mundo contemporâneo, particularmente focada na progressiva degradação dos espaços públicos actuais, às mãos da internet, das redes sociais, das plataformas tecnológicas e, evidentemente, do mundo mediático-reticular que delas resulta.

. Ele apareceu-me como a força de uma evidência no termo da “pausa de Verão” deste blogue, quando recapitulava o que aconteceu nos últimos dois meses, das torpitudes de Donald Trump à gelada duplicidade de Vladimir Putin, do complexo desenvolvimento dos conflitos na Ucrânia ou em Gaza ao zigzaguear das tarifas ou ao deslumbramento drónico, da paródica cimeira do Alasca à humilhante reunião da Escócia, da catatónica desorientação europeia liderada por Ursula von der Leyen à implacável estratégia de Xi Jinping, etc., etc. – para já não falar das querelas nacionais, cada vez mais moldadas, ora pela indigência ora pelo grotesco.

. O atordoamento global resulta, a meu ver, do crivo que impede de ver, e de compreender, o que está na raiz de tudo isto, bem como das imensas transformações civilizacionais e geopolíticas, sociais e culturais, que têm vindo a subverter todos os parâmetros do mundo actual, nomeadamente do ocidental, quer se trate da progressiva fragmentação social, do descrédito da política, do esfarelamento das ideologias, do hiper-individualismo, do fanatismo woke, da perda de qualquer sentimento de pertença colectiva, da irrupção do homo fragilis,  do cancro da generalizada judicialização das sociedades, da alucinação  igualitária ou do conformismo dos cidadãos.

. Trata-se de um processo relativamente recente, com cerca de três décadas, mas que neste breve período se impôs como uma realidade incontornável e de vocação global, capaz de condicionar, como nunca tinha acontecido na história, o quotidiano das sociedades e dos indivíduos. No cerne deste processo está um novo dispositivo, que começou por se afirmar como uma garantia de um acesso mais plural à realidade, mas que rapidamente se tornou no seu contrário, ou seja, no quase único e exclusivo acesso a ela. Trata-se da chamada informação-em-contínuo, que se impôs através de um fluxo de imagens e de palavras de tal modo torrencial e siderante, que é como se fora dele tivesse deixado de existir qualquer realidade. A ilimitada extensão do “domínio da informação” traduziu-se, deste modo, numa inédita e contínua redução, restrição, do próprio mundo.

. A Entshittification conduz assim à ignorância dos mais graves problemas do nosso tempo e das suas consequências, contrabandeados por um conjunto sem fim de biombos, de máscaras e de ilusões, assegurando-se deste forma, paralelamente ao domínio do pensamento único, a consagração de uma realidade também ela única. Este fenómeno é formatado por diversos factores, mas são de destacar dois: por um lado, o ubíquo modelo do entretenimento que tudo formata; por outro lado, pelo ininterrupto encadeamento de narratretas de todo o género: políticas, desportivas, sociais, etc.  Convergindo ambos na produção de uma atordoante e generalizada anestesia, que procura hoje federar as sociedades e os cidadãos numa inédita forma de servidão voluntária, e assim constituir o nosso novo mundo.

. Acompanhando a consagração do que tenho designado como o “paradigma do ilimitado” (e do seu reverso, o “paradigma do conforto”), este processo traduz o triunfo do infotretenimento, que teve a sua origem na multiplicação dos canais televisivos antes de se disseminar pelas redes sociais (cujo anonimato nunca foi, como devia ter sido, proibido e punido) e de ter sido poderosamente propulsada pelas plataformas tecnológicas mais diversas (cuja acção nunca foi, como devia ter sido, regulamentada), através de meios cada vez mais sofisticados e acessíveis, de que o smartphone se tornou o instrumento mais universal.

. Tudo isto conduz a que se ignore, passe o pleonasmo, a real-realidade, sempre coberta por um imenso manto de lérias, de imagens e de alacridades, cujo objectivo central é fazer com que se veja informação e debate onde, na verdade, o que existe é mero  infotrertenimento, seja na forma do ininterrupto fluxo das narratretas das actualidades, seja na forma da repetitiva ruminação comentarial dos acontecimentos – dimensões cuja complementar cumplicidade produz a intensa toxicidade que envenena, ao minuto, o quotidiano contemporâneo, dando forma à entshittification em que o mundo se encontra hoje.

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