. É sempre pouco prudente e pouco inteligente confundir a árvore com a floresta. A notável vitória do democrata “socialista” Zohran Mamdani na última 3ª feira, para a presidência da Câmara de Nova York, corre o risco de, com a habitual sofreguidão acéfala dos media pela “novidade”, fazer isso mesmo, confundir a árvore com a floresta, esquecendo o sábio conselho que o filósofo americano Robert B. Talisse colocou como subtítulo do seu último livro: “Why Democracy Needs Distance”.
. Deixando de lado as idiossincrasias biográficas que nestas ocasiões proliferam, mas que pouca ou nenhuma importância têm no posterior exercício do poder, é bom ter presente que Nova York é há muito uma cidade robustamente democrata, onde Kamala Harris teve 68% dos votos, ainda assim o pior resultado dos últimos candidatos presidenciais democratas. E que, se é indiscutível que Mamdani teve um resultado importante, é contudo vital lê-lo no contexto e no conjunto dos vários triunfos democratas, em Nova Jersey, na Virgínia e na Califórnia, de cariz político muito diferente da vitória de Nova York. Uma diferença que anuncia, para o ano político que agora começa, uma guerra ideológica tão intensa no interior do Partido Democrata, como a que se desenrolará contra o Partido Republicano, com vista às eleições intercalares do próximo ano, em Novembro de 2026.
. Em 2024 Donald Trump não apostou só numa vitória eleitoral, ele apostou sobretudo numa ruptura maior, na criação de uma nova era, numa era trumpista que desse realidade ao seu slogan “Make America Great Again”. Foram muitos desde janeiro os sinais nesse sentido, com consequências e feitos que não se podem ignorar. Basta olhar, por exemplo, para o facto de, desde a sua posse, e com excepção do “interregno papal” – morte de Francisco, eleição de Leão XIV – ele ter estado presente todos os dias em todos os canais generalistas e “de informação” ocidentais (e não só…), às vezes durante horas e horas, ocupando as aberturas e o essencial do seu tempo noticioso, numa miscelânea cada vez mais inextricável e caótica de informação, faits-divers e comentário.
. Um tal facto, absolutamente inédito na história da política e da comunicação, consagrou a nova forma que as democracias têm vindo a tomar no Ocidente, a hipnocracia, de que já tenho falado aqui. E uma das suas componentes fundamentais é a espectacularização de tudo o que Donald Trump diga ou faça, sempre na previsão que ele ultrapasse os limites tradicionais da sua função, criando assim uma permanente expectativa de inéditas transgressões. É neste quadro que se deve entender o modo como, desde o primeiro dia do seu novo mandato, foram encenadas as reuniões de Donald Trump com todos os outros líderes mundiais na Casa Branca que, de diplomaticamente discretas, depois do formal aperto de mão para os media – como sempre aconteceu -, passaram a configurar-se como um bem preparado e manipulado, muitras vezes grotesco reality show. Já tínhamos o infotretenimento, passámos agora a ter também o diplotretenimento.
. Pode dizer-se que o trumpismo concluiu, assim, a derradeira metamorfose – a que infelizmente pouca importância se deu, mas que já vinha de longe – da política numa mera série televisiva, transformação que tudo indica que veio para ficar. Até porque todos os líderes mundiais, grandes ou pequenos, se submeteram docilmente ao insólito dispositivo criado pelo presidente americano, num exercício de contínua vassalagem que os tornou em meros figurantes da globalização do trumpismo – com um lamentável destaque para os líderes europeus -, que até agora só teve uma resposta à altura na intencional displicência com que o líder chinês Xi Jinping tratou Donald Trump no recente encontro na Coreia do Sul.
. Confirmando-se assim, em todos os planos, o cada vez mais incontornável império político do espectáculo, como um dos factores determinantes do “atordoamento global” que referi na última newsletter, atordoamento que se traduz sobretudo numa cólera que cresce por todo o Ocidente, e de que tanto Zohran Mamdani como Donald Trump são talvez, apesar do abismo que obviamente os separa, simultaneamente produtos e ícones.
