O MOMENTO DA VERDADE

                                            Sabemos que eles mentem, eles também sabem que mentem,

                                            eles sabem que nós sabemos que eles mentem,

                                            nós também sabemos que eles sabem que nós sabemos,

                                            e, no entanto, eles continuam a mentir.

                                                                                             Alexander Soljenítsin

LARVATUS PRODEO

. É uma evidência cada vez mais forte que estamos hoje a ser, em boa e significativa parte, governados por políticos psicopatas, e que a psicopatologia se vem declinando numa forma inédita de estilo político. E o mais grave é que a maior parte deles, talvez os mais perigosos, talvez não sejam os que todos identificamos e se exibem como tal, mas os que, como diria Descartes, “avançam mascarados”, sob uma trabalhada imagem de equilíbrio, de moderação e de boa-vontade.

. Nesta perspectiva, um bom caso de estudo é o do presidente francês Emmanuel Macron, que tem vindo a adoptar, sobre a guerra Rússia-Ucrânia, uma linguagem cada vez mais belicista, num desaustinado crescendo com que procura iludir o que tem sido o maior desastre político da Vª República francesa, que o atirou para uns máximos 12% de aprovação pública, enquanto cerca de 70 % dos franceses pedem a sua saída e a realização de novas eleições presidenciais.  Mas ele não é, longe disso, caso único, este tipo de líderes são hoje mato, no mundo como, lamentavelmente, na União Europeia.

 A TAGARELICE EUROPEIA

. Depois de quase quatro anos de tagarelice europeia em relação à guerra Ucrânia/Rússia, aproxima-se, todavia, o momento da verdade. E aqui é preciso reconhecer que, para lá da bazófia, tantas vezes patética, de Donald Trump, num ponto ele teve sempre razão – esta guerra, decorrente da brutal invasão da Ucrânia pela Rússia, podia e devia ter sido evitada, como de resto o disseram, entre outros, Henry Kissinger, Hubert Védrine ou Jeffrey Sachs. Podia e devia, e se tal não aconteceu, isso deveu-se sobretudo à incontinência belicista e à sobranceria geopolítica da equipa Biden, cuja raiz se encontrava já, no entanto, na liderança de Barak Obama quando, ao valorizar a China como principal adversário dos EUA, decidiu tratar, ao mesmo tempo, a Rússia como uma mera “potência regional”, entre outros mimos do género.

. Mas a guerra aconteceu, e se já há um perdedor claro neste conflito, esse perdedor é evidentemente a União Europeia, dirigida por um conjunto de (ir)responsáveis políticos mais preocupados com a defesa dos faustosos privilégios da nomenclatura instalada na “cidadela bruxelense”, do que com os problemas e o destino dos povos europeus, a quem – ponto que é da maior relevância – nem sequer se sentem obrigados de dar quaisquer satisfações ou explicações sobre as decisões que tomam, e muito menos a consultá-los sobre elas, como era sua elementar obrigação democrática, em certos casos até constitucional, fazê-lo.

. Afinal, quem é que os mandatou para tomarem as gravíssimas medidas que anunciam? Ninguém, mas a criação da espiral do medo está em curso como boia de salvação de muitos líderes políticos. Só isto pode levar a insinuar-se que Putin, cujo exército passa meses sem fim para conseguir conquistar algumas aldeias ucranianas, poderá estar em breve – em 2030, talvez mesmo já em 2028!… – às portas de Paris, como a mando de E. Macron veio afirmar, em cerimónia pública do maior impacto, o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Fabien Mandon.

A POLÍTICA É UMA RELAÇÃO DE FORÇAS

. Sempre assim foi e assim será: a política é uma relação de forças. Se se tiver esta evidência geopolítica e histórica presente, compreender-se-á a enorme facilidade com que o trumpismo se impôs no mundo ocidental, sobretudo numa Europa que hibernava há anos num misto de indolência estratégica e de pacifismo autoritário, a revelarem a sua progressiva irrelevância – para não dizer inexistência – política.

. O que Donald Trump veio lembrar, com uma grosseria muito mais comum nos EUA do que se imagina, foi que a política é sempre, como há muito ensinou Maquiavel, uma relação de forças – e que ela se mede em poder real, não em retórica alambicada. É esta perspectiva que está na origem dos seus “planos de paz”, por mais conturbados e fantasistas que eles se revelem. E é ela também que o leva a dizer que nunca a Ucrânia conseguirá derrotar a Rússia, nem recuperar um quilómetro dos territórios perdidos, a não ser que os EUA interviessem, “com botas no terreno”, a sério, nessa guerra, ao lado da Ucrânia.

. Que o façam os europeus, diz friamente o presidente americano, que é na Europa que se situa a Ucrânia, um Estado que o Banco mundial acaba de antecipar que entrará em falência completa em janeiro de 2026, a não ser que consiga 60 mil milhões de dólares até ao fim do ano. A conversa do “indefectível apoio” à Ucrânia, de António Costa, de Ursula von der Leyen e de Kaja Kallas – para já não falar da patusca “Coligação de Vontades” -, tem, pois, para ser levada a sério, que responder à questão de como é que a Europa, consumando-se o afastamento dos EUA do processo, vai concretizar esse apoio, que em média foi de cerca de 70 mil milhões de euros por ano desde 2022 (170 da U.E. mais 115 dos EUA).

. Sem meios financeiros para o continuar a fazer, a U.E. persiste na tentação do “saque” aos depósitos dos oligarcas russos depositados na Bélgica. Mas o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, em carta à presidente da Comissão Europeia que a revista Politico divulgou, recusa categoricamente esse estratagema, afirmando que “no caso muito provável de que a Rússia, no fim, não seja oficialmente a parte perdedora, ela irá, como a história já demonstrou noutros casos, reivindicar legitimamente a devolução dos seus activos soberanos” (Politico, 27.11.2025).

. E De Wever salientou ainda – com elementar prudência, diga-se – que um tal saque, ainda que na forma de um sempre pouco canónico “empréstimo, desencadearia o caos nos mercados financeiros da União Europeia e exporia os contribuintes europeus a terem de reembolsar o montante total caso os activos fossem devolvidos à Rússia.” E seguindo o que G.Sorgi escreveu nesse Politico da última 5ª feira, o primeiro-ministro belga foi mesmo mais longe, tendo sugerido que a Comissão Europeia, “em vez de recorrer às reservas russas, emitisse 45 mil milhões de euros em dívida conjunta para cobrir as necessidades financeiras da Ucrânia em 2026 – uma ideia impopular entre a maioria dos governos da U.E. porque implica o uso de dinheiro dos contribuintes”.

. Seja qual for a origem, ou o destino, das propostas do plano de Trump, é bom compreender-se que é desta situação que decorre a força dos EUA e o seu manifesto desprezo pela Europa: os seus líderes falam, falam, falam…, mas não fazem, não concretizam nada. Passam o tempo a saltar para o comboio quando Donald Trump o põe em marcha, para rapidamente ficarem fora dele num qualquer apeadeiro. E já se compreendeu que as suas bravatas não passam de lérias para consumo interno dos respectivos países, com que procuram compensar a sua crescente impopularidade e o seu descrédito.

A CORRUPÇÂO UCRANIANA

. Talvez nenhum ponto revele melhor a hipocrisia dos líderes europeus, e dos seus serventuários mediáticos, do que a sua recente reacção à exposição pública da corrupção ucraniana. Já em 2022, no meu livro A Democracia no seu Momento Apocalíptico, toquei nesse ponto (cf. cap. 4), que agora se confirma com a “operação Midas”, com a denúncia de um desvio na ordem dos 100 milhões de dólares, organizado pelo braço direito de Zelensky, Timur Mindich, e com a cumplicidade de vários outros altos dirigentes, inclusive ministros, ucranianos. E se falo de hipocrisia, é porque logo se desencadeou um processo de branqueamento da responsabilidade de Volodymyr Zelensky no caso, alegando que, depois dos protestos populares contra a decisão de amputação e controlo das duas agências ucranianas de combate à corrupção (a NABU e a SAPO), ele propôs ao Parlamento que se recuasse e deixasse cair essas medidas.

. O que assim se tem procurado esconder, é que tinha sido o próprio presidente Zelensky, a propor as tão contestadas medidas, alegando querer limpar aquelas agências da “influência russa”,  e impondo a sua subordinação a um Procurador-geral da sua confiança, antes – e certamente para a evitar – da publicitação das denúncias de corrupção entretanto conhecidas. E tudo se complicou agora ainda bem mais, com o anúncio que os serviços ucranianos de combate à corrupção estão, com base em elementos muito comprometedores, a investigar, Andriy Yerman, o chefe de gabinete de V. Zelensky desde 2020.

. Se a isto acrescentarmos o estrangulamento democrático em que vive a Ucrânia, em que todas as estações de televisão estão concentradas num único canal, sob férreo controlo governamental – o United News“Telemarathon”, de que os canais independentes ou de oposição foram, entretanto, excluídos – só se podem considerar como politicamente grotescas as tantas vezes repetidas afirmações de que na Ucrânia se jogaria o destino da.… democracia. Mas talvez o objectivo dessas declarações seja outro, nomeadamente o de não se ver como ela, a democracia, tem vindo a desaparecer da própria União Europeia. Mas isso abre outra conversa, lá iremos em breve.

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