UM NIHILISMO PRESIDENCIAL

. O estado do mundo, a imensa gravidade de tantas situações até há pouco inesperadas, mesmo impensáveis, e a sua constante multiplicação, tudo convida fortemente a ignorar a “choldra” lusitana, nomeadamente as chamadas “presidenciais”. Eleições que, dados os limitados poderes constitucionais do Presidente da República, bem podiam, como já tem sido sugerido, ser substituídas por uma eleição no Parlamento, poupando assim o país – este é o ponto mais importante – ao lamentável espectáculo de um ano da mais obstinada charlatanice político-mediática.

. Mas lá fui “picando” as notícias, para ter uma ideia do que se ia passando. E “picar” é a palavra certa, porque não ouvi nada que justificasse mais do que isso, não vi nenhum candidato revelar a menor consciência do mundo em que hoje vivemos, ou apresentar o que quer que fosse de novo para enfrentar os inextrincáveis problemas actuais do país e do mundo. Mais, em geral nem sequer vi que fossem capazes de levar um qualquer raciocínio até ao fim, repetindo ad nauseam “diagnósticos” com décadas, gargarejando  palavras, palavras e mais palavras…sempre acompanhados, claro, por idêntico ritual (às vezes bem mais longo!) por parte do “comentariado” televisivo, contratado para o efeito, bem rodado “compère” deste infotretenimento, em que já todos antecipamos o que se vai dizer…

. Acontece que, sendo as coisas o que são, penso ser esta a altura de dizer algo sobre o tema – e mais não direi até ao próximo dia 18 de Janeiro. Fundamental é perceber que,  ao contrário do que muitas vezes se diz e repete, Portugal não é – se é que alguma vez foi – nem o “labirinto da saudade” das viúvas de Eduardo Lourenço, nem o país do “medo de existir” dos acólitos de José Gil. E que a estas visões, a primeira romântico-literária, a segunda pseudo-histórico e pseudo-psicanalítica, são hoje meros anestésicos do conformismo e da incompreensão que domina o país, a que urge contrapor uma visão política do que é – ou pode ser – Portugal. E Portugal é, continua a ser, um país atordoado, desvitalizado e rebocado, isto é, um país sem qualquer estratégia para o seu futuro, vivendo o dia-a-dia de impulsos avulsos e de remendos de urgência, de desânimo, de casos e escândalos, sempre pendurado nos milagrosos fundos europeus. (Talvez por isso os portugueses estejam no topo europeu dos povos com mais animais domésticos, nomeadamente cães e gatos, do que crianças – atenção, 9 vezes mais! -, como há meses se dizia no site de Le Grand Continent).

. Mas vamos às “presidenciais”. Num regime constitucional como é o português, um candidato presidencial deve preencher uma de duas condições: ser uma personalidade de projecção nacional indiscutível – o que não exclui, pelo contrário, que seja controversa -, carismática, que se propõe ao voto dos portugueses numa base de conhecimento, ou mesmo de familiaridade, deles com a sua visão do país, não só com os seusprincípios, mas também – são elementos distintos – com os seus valores. Salvo a excepção de Ramalho Eanes (por razões bem conhecidas) foi esse o caso  de todos os Presidentes eleitos depois do 25 de Abril de 1974, Mário Soares, Cavaco Silva, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa.

. Ou – é a segunda hipótese e é este o caso das próximas eleições presidenciais de Janeiro de 2026 – trata-se de alguém que, não beneficiando de um carisma fundado numa história singular de impacto nacional, tem de apresentar duas características: ter a ambição política da função, por um lado, e ter uma visão substancial e diferenciadora do país a que se propõe presidir, por outro.

. Quer isto dizer que, dado o desenho constitucional português das funções presidenciais, esse candidato deve ser alguém que avance, não com medidas singulares, com sugestões pontuais, com propostas concretas, etc. – tudo isso é missão do governo – , mas com causas, que é exactamente onde os princípios e os valores sempre confluem, causas que devem ser mobilizadoras, e que para o serem têm de ser poucas, bem escolhidas e bem fundamentadas. O que, no caso português, não se afigura difícil, elas são de uma evidência imediata e – atrevo-me a dizê-lo – a toda a prova.

.  Em primeiro lugar, a justiça, o poder judicial no seu corporativo conjunto, que é o cancro mais grave da nossa democracia, cujas metástases ameaçam avassaladoramente tudo e todos, o que em recentes estudos de opinião é reconhecido por mais de 70% dos portugueses. É preciso enfrentar com coragem a impunidade em que este poder vive, a

todos os níveis e em todas as suas componentes, impunidade que ficou bem ilustrada nas situações de corrupção detectadas – e ao nível das suas mais altas instâncias – no Tribunal da Relação de Lisboa em 2020 e nos anos seguintes, e que tem sido quotidiana e ostensivamente evidente na inqualificável actuação do Ministério Público nos últimos anos.

. Depois, a soberania, causa maior e cada vez mais imperativa dado a “revolução” – sim, é disso que se trata – geopolítica que vivemos, que ameaça liquidar a União Europeia actual – na verdade e em boa medida, esse processo já começou -, sem se perceber de todo o que se lhe seguirá e como “o que lá vem” afectará as nossas vidas e as de todos os europeus. A União Europeia está hoje nas mãos de um Directório ilegítimoque reúne, anuncia, decide, etc., tudo sem dar satisfação a ninguém, parlamentos, povos ou cidadãos. Como é isto possível? Talvez porque a União Europeia viva já sob Ocupação Americana, o que, agora com ameaças directas de guerra (a anexação da Gronelândia, região autónoma da Dinamarca, país fundador NATO!…) e punições macarthistas ad hominem ( Thierry Breton, entre outras, já decretadas por Trump), não é possível continuar a ignorar, como todos os invertebrados líderes europeus teimam em fazer.

. Um “Directório” que rasteja perante as intoleráveis exigências e provocações de Donald Trump, sem que nenhum líder europeu tenha a elementar coragem de responder à altura e à letra. Só um exemplo: como é que, depois do intolerável discurso de J.D.Vence em Munique em Fevereiro deste ano, a União Europeia não foi imediatamente a Washington ou Nova York dar lá – sim, lá -, em público, uma lição aos americanos, a Trump e a Vance, sobre liberdade de expressão, sobre pluralismo, sobre não- interferência na política interna de outros Estados, etc., etc.? E como é que se hesita na resposta ao “cancelamento” de Thierry Breton, que bem podia ser a de dar de imediato um idêntico tratamento a Elon Musk no espaço europeu, em cuja política interna ele tanto gosta de interferir? A explicação encontra-se na vassalização europeia perante Trump e os EUA, que os líderes da U.E procuram esconder com a invocação/diabolização de uma cada vez mais inverosímil “ameaça russa”.

. E por fim, last but not least, a qualificação – palavra infelizmente tão gasta quanto esquecida na prática – das pessoas, das instituições e do território. É um dos domínios decisivos em que se cruzam a educação e a cultura, a formação e a economia, com problemas que não se resolvem com cosméticas do tipo das socráticas “novas oportunidades”, desgraçadamente continuadas desde então, com meras variantes de ocasião, por todos os governos.

. Seriam causas para um verdadeiro candidato presidencial. Que, se eleito, poderia mudar muitas coisas, se soubesse ser um político singular capaz de assumir a diferença que lhe confeririam os seus mais de 50% dos votos, perante partidos que andam em cerca de metade desse valor, ou mais abaixo, de traduzir essa diferença num talento político feito de autoridade e de engenho, que viabilizasse uma presidência inédita. Ou seja, um Presidente com capacidade de “pesar” de facto sobre o Governo e sobre o Parlamento, assumindo a avaliação e monitorização das causas em nome das quais teria sido eleito pela grande maioria dos eleitores. Capacidade que deveria ser reforçada com a ousadia de, de um modo regular, formal e frontalmente, dar conta ao país dessa sua avaliação, fazendo-o não com tagarelice de rua (à Marcelo), mas com uma persistência de estadista, de modo a reforçar a identificação dos portugueses com as causas em nome das quais teria sido eleito.

. Olhando e ouvindo os principais candidatos – ou seja, ignorando os que se apresentaram por mera servidão ou ambição partidária, BE, PCP, CHEGA, etc. – , o que constato é que temos uma panóplia de candidatos tão medíocres que nem sei como designar…Repetem vezes sem conta o que já ouvimos milhares de vezes, prometem o que sabem que não poderão cumprir, comentam todas as insignificâncias do quotidiano, prestam-se a todas as vassalagens popularistas, entregam-se a todas as querelas de “fait-divers”, não tendo nenhum conseguido até hoje identificar-se com qualquer causa maior do país, ou falar do país no mundo, tudo num magma do mais completo conformismo, mais parolo do que propriamente provinciano. Transformando assim esta (pré)campanha presidencial numa saga verdadeiramente zombie, a dar forma a um nihilismo presidencial nunca visto.

. É mau? É, mas o pior pode ainda estar para vir. É que o país corre o risco de – a acreditar nos estudos de opinião entretanto realizados e divulgados – se estar a caminhar para uma situação de graves consequências políticas, que pode ser a de eventual consagração nacional do pior (falso e rasca) perfil presidencial que se apresentou a estas eleições, que, indo à 2ª volta, transformará automaticamente a sua derrota na verdadeira vitória política das próximas presidenciais, remetendo o eventual vencedor final para a  irrelevância de uma vitória por arrasto, sem mérito, marcada pelo ferrete do mal menor, contribuindo assim para a continuação do processo de desintegração da instituição “Presidência da República”, processo iniciado e laboriosamente prosseguido por Marcelo Rebelo de Sousa nos dez anos do seu mandato.

. O ano de 2025 fecha-se assim, em Portugal, marcado por um entorpecedor nihilismo. Preparemo-nos – realística e lucidamente – para um 2026 que porá duramente à prova o anestesiante conformismo lusitano, num contexto de indigente vassalização europeia e de persistente crise mundial.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *