. Uma coisa é o risco, que aponta para o que é previsível. Outra coisa é a incerteza, que nos abandona às vagas da mais completa contingência – a clássica distinção de Frank Knight aplica-se bem ao ano de 2025, em que passámos da primeira para a segunda, com múltiplas e profundas rupturas em quase todos os planos. Há quem lhe chame o regresso da História, depois da miragem do seu termo em finais do século XX, e não andará longe da verdade…São por isso muitos os temas que se nos impõem, hoje escolhi dois. O primeiro, cumprindo a promessa feita na minha penúltima newslettwer, é o dos riscos que a União Europeia corre de se estar a transformar numa oligarquia. O segundo, é o da consolidação de um inédito dispositivo de poder, um sistema político-mediático capaz de produzir incessantemente uma “nova” realidade que condiciona, e controla, quase todos os aspectos da vida das sociedades e dos cidadãos.
UNIÃO EUROPEIA – A CAMINHO DA OLIGARQUIA?
. Esta é a questão vital, e tem de ser enunciada com frontalidade: a União Europeia não é uma democracia, apesar de cultivar alguns sinais exteriores de que o é, como é o caso do sufrágio para o Parlamento Europeu. Mas na verdade, se se olhar bem para o seu funcionamento, para a sua composição, para os seus privilégios, para a sua ineficácia, para as suas iniciativas, etc., rapidamente nos confrontamos com uma mera cosmética daquela pretensão.
. E se considerarmos o modo como a U.E. tem vindo a gerir o “dossier ucraniano”, logo se percebe que estamos cada vez mais sujeitos a um poder oligárquico: todas as decisões, por vezes da maior gravidade para os povos europeus – seja em termos políticos, financeiros ou estratégicos -, têm sido tomadas por um Directório sem legitimidade política, que se constituiu e impôs sem qualquer debate ou justificação, sem consulta a esses povos, quer directamente, quer através dos seus respectivos Parlamentos, o que seria um imperativo mínimo a esperar dos líderes europeus!
. E nem a recente confirmação do gigantesco polvo da corrupção ucraniana, a atingir brutalmente o coração do clã dirigente do presidente V. Zelensky, os fez parar e pensar para onde eles estão a arrastar os povos da União Europeia. Povos que agora ficaram responsáveis por um “empréstimo” de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, que evidentemente nunca recuperarão, garantindo o New York Times que um terço dos apoios financeiros à Ucrânia vai directamente para os bolsos… “do costume”! E é esta Ucrânia que, ao completo arrepio de todos critérios de adesão à U.E. (os “Critérios de Copenhague”, definidos em 1993), há quem pretenda integrar na U.E., havendo mesmo quem defenda que tal deve acontecer já em 2027?
. Mas o que faz o Directório, que ora aparece como um triunvirato – França, Inglaterra e Alemanha – ora se transfigura na liderança de uma irrelevante “Coligação de Vontades”? Na verdade, nada. Limita-se a reunir, falar, prometer, especular, nunca concretizando o que quer que seja, exibindo uma confrangedora ausência de estratégia – para não falar da sua cínica duplicidade em relação ao conflito no Médio Oriente -, bem manifesta nestes quase quatro anos do conflito, apenas abanada, aqui e ali, pelos lances de Donald Trump, que embora trazendo o caos à política mundial, teve pelo menos o mérito de confrontar finalmente o mundo europeu com a sua pesporrência, desorientação e impotência.
MUDAR DE LENTES
. Mas para compreender o que se passa é preciso mudar de lentes. E aqui talvez seja de lembrar e retomar a original tese de Peter Mair, que sugeriu, a partir de uma muito detalhada análise do funcionamento político da União Europeia – era ele então professor do Instituto Europeu de Florença – uma outra perspectiva sobre as razões das tão repetidas, e a seu ver fundamentadas, críticas ao funcionamento pouco ou nada democrático da União Europeia, que foram convergindo no diagnóstico de um forte défice democrático, ligado às questões da representatividade, da legitimidade, da “accountability, etc.. Tema oportunamente desaparecido do espaço público europeu, primeiro com a eclosão da pandemia do Covid, depois com a invasão da Ucrânia pela Rússia, tendo o tema do défice democrático dado lugar, e de um modo cada vez mais intenso, aos temas do medo e da insegurança, criando assim enormes margens de manobra para os poderes instalados.
. Mas Peter Mair foi mais longe, no livro Ruling the Void (2013) ele levantou o véu sobre a origem desta situação europeia, afastando como secundárias as questões formais ou de eventuais reformas, para a colocar em termos de uma intencionalidade estratégica. Ou seja, pergunta Peter Mair, não se terá mesmo, com a construção da União Europeia, querido criar, e com uma intenção bem clara, um dispositivo institucional que, justamente, permitisse contornar as tradicionais exigências democráticas, mas simulando sempre – com elucubrações de uma retórica por vezes impenetrável – o seu cumprimento?
. É uma hipótese forte, a que, todavia, o tempo tem vindo a dar cada vez mais força e credibilidade, nomeadamente com o aumento da letargia do Conselho Europeu, com a crescente irrelevância do Parlamento Europeu e com a bonapartização da Presidência da Comissão Europeia. E tudo isto ignorando sempre o grande problema de fundo, que nunca se quis pensar, ou melhor, que tudo se fez para ignorar, que é o da inexistência política de um povo europeu. Inexistência que, por si só, basta para tornar completamente inviável – para não dizer delirante! – a eventual constituição de um exército europeu, que seria na história o primeiro exército… sem povo!
O SISTEMA E A “NOVA REALIDADE”
. Mas esta ignorância acompanha o modo como, no Ocidente, a realidade tem vindo a desaparecer, como que subsumida num espesso, opaco e contínuo infotretenimento, que a aliança do mundo político com o dispositivo mediático-reticular tem vindo a constituir e a impor. Se, como já referi atrás, no fim da década passada a Europa vivia com inusitada intensidade o debate sobre o seu “défice democrático”, com a pandemia do Covid, em 2020, e depois com a invasão da Ucrânia, em 2022, ele foi persistentemente varrido para debaixo do tapete, talvez com a esperança que ele assim desaparecesse de vez.
. E, ao mesmo tempo, foi-se instalando progressivamente um sistema político-mediático (sim, o sistema existe, o que não implica nenhuma forma de “conspiracionismo”) que se apodera de todos os acontecimentos, sobretudo dos bélicos e dos sanitários, como se de um novo reality-show se tratasse, impondo um fluxo torrencial de “actualidades”, animado – com meritórias, mas muito raras, excepções – por pivots aparvalhados e comentadores ignoro-ruminantes, que deste modo foram dando forma e consistência a uma realidade paralela, multiplicando terríveis perigos e ameaças iminentes – tudo imaginário, claro! – com um único objectivo: disseminar o medo e a insegurança nos cidadãos, para assim garantir a sua servidão voluntária.
. O sistema pôs toda a gente, literalmente, a “viver na televisão”. E fê-lo substituindo o regime da controversa verdade política por outro regime: o da anestesiante narrativa mediática, oferecendo catadupas de narratretas e de debates onde nada, rigorosamente nada, se discute, o registo é sempre o da léria e o da conversa de café. Realidade que se deve interpretar à luz da hipnocracia dominante, conceito de que já aqui falei no ano passado, e que ilumina como poucos a novidade da situação actual.
. Percebe-se bem que os líderes europeus estão paralisados, bloqueados entre três espectros: o de um trumpismo que os surpreendeu e com que não conseguem lidar a não ser num registo de vassalização. O de um putinismo tão impiedoso como imperial, que durante anos menosprezaram com uma negligência incompetente. E o de uma China estratégica, que transforma todas as fraquezas alheias num aumento da sua força e influência, visando restaurar a sua imensa grandeza passada.
. E mais bloqueados poderão ainda ficar, quando enfrentarem os movimentos e as forças políticas que estão a varrer os poderes instalados por todo o lado, o que torna o próximo ano numa estimulante incógnita: depois das eleições municipais em França, já em Março, temos as legislativas na Hungria em Abril, as municipais em Inglaterra em Maio, as legislativas na Suécia em Setembro e na Dinamarca em Outubro, mês em que também haverá eleições legislativas em Israel e presidenciais no Brasil. E este ciclo fechar-se-á com as “midterm elections” americanas, em que, além de diversas eleições estaduais e de 36 governadores, estarão em disputa um terço dos lugares do Senado e a totalidade dos membros da Câmara dos Representantes. O ano de 2026 promete: haverá riscos que permanecerão, mas será a incerteza que vai dominar.

Caro Professor,
Sigo com atenção os seus artigos e li várias obras suas.
Continua a ser para mim um dos poucos (contam-se com uma mão) pensadores e intelectuais Portugueses de nível mundial. Parabéns pelo seu trabalho. Tenho pena de o nosso Pais não ter mais politicos e académicos do seu nível. Votos de um feliz Ano Novo.
Caro Vitor Trigo, Muito obrigado pela sua leitura e pelas suas palavras de estímulo, um Bom Ano de 2026 também para si, cordialmente,
mmcarrilho