“Uma divindade trágica que detém o poder absoluto, mas que carece de compreensão, foi nisso que nós, seres humanos, nos tornámos no século XXI. E se esse é o nosso Deus, estaria explicado porque é que o caos e a irracionalidade se transformaram, de repente, em caminhos para entrarmos no mundo.
Benjamín Labatut
. As ficções existem. E elas são decisivas, seja como expectativas das nossas ambições, seja como ideias reguladoras do nosso comportamento, individual e colectivo. Bons exemplos disso são, no primeiro caso, o progresso ou o crescimento, e no segundo a paz ou a democracia. Cada época tem as suas ficções dominantes – as ideologias, no fundo, foram e são apenas ficções mais estruturadas, resistentes e mobilizadoras -, que duram o que durarem os factores que as fizeram surgir e que as alimentam. Mas como acontece com tudo, elas têm um fim, ora como metamorfose ora como colapso.
. Este é um corolário central da hipnocracia, que é a melhor teoria e o mais eficaz instrumento de que hoje dispomos para sairmos do impensar dominante. O pós-guerra produziu, a partir de 1945, ficções poderosas, todas contribuindo para a consolidação de uma ideia de Ocidente como ficção-mestra desse período: a da eternidade do comunismo – e, em paralelo, a da Guerra Fria -, a generalização da democracia como consequência do progresso e do seu feliz acasalamento com o mercado, a ordem internacional e a conquista de uma paz “perpétua”, entre diversas outras. Todas estas ficções decorreram da ficção-mestra de um Ocidente coeso e homogéneo – no essencial formado pelos EUA e pala Europa, com mais alguns apêndices pelo mundo -, coesão e homogeneidade muito impulsionadas então pela existência de um inimigo comum, a URSS e o comunismo, que também se alargou a outras áreas do planeta.
. Esta ficção-mestra rapidamente tomou a forma de um americanização global do Ocidente, tanto pelo poder económico que ela assumia como, e determinantemente, pelo domínio conseguido sobre o imaginário dos povos: da música à moda, da alimentação ao cinema – e depois às séries -, do culto do dinheiro ao mito do self-made men, do politicamente correcto ao wokismo, num triunfo sem limites, imperialista, do american way of life.
. Naturalmente que estas ficções conheceram atritos e crises, sempre provocadas pelos desafios da dura realidade, que no século passado se acentuaram com o abalo cultural, social e societal dos anos 60, com a crise petrolífera dos anos 70, com o fim do comunismo entre finais dos anos 80 e começo dos anos 90, que é também o momento da eclosão e da expansão de uma nova globalização, que teve um momento decisivo com a entrada da China na OMC (Organização Mundial de Comércio) em Dezembro de 2001.
. Entretanto, o começo do século XXI trouxe consigo o desmoronar do mundo ficcional até aí dominante, desmoronar que faz lembrar a descrição da crise feita por Thomas Khun no seu famoso livro sobre A Estrutura das Revoluções Científicas. Na ciência é o paradigma dominante que deixa de ser capaz de resolver os novos problemas que surgem, aqui é a ficção-mestra que se revela incapaz de criar novas expectativas ou ideias-reguladoras capazes de enquadrar os novos acontecimentos do mundo, que cada vez mais lhe escapam.
. Foi o ataque às Torres Gémeas a mostrar a vulnerabilidade dos EUA; foi o aparecimento do euro, que para surpresa geral “nasce” mais forte do que o dólar; foi a reacção americana a esta situação investindo milhões de dólares na propaganda a favor do alargamento “mimético” da União Europeia, enxameando-a de antigos países do Leste que pouco ou nada tinham a ver com a sua matriz, tornando-a assim literalmente ingovernável; foi a sobranceria americana, mas também europeia, em relação a “derrotada” Rússia, reduzida por Barak Obama a mera “potência regional”; foi a colossal ignorância dos líderes ocidentais sobre as riquíssimas histórias imperiais russa e chinesa, agora em luta pelo seu regresso à ribalta da História.
. E enquanto este caldeirão ficcional fervia, os Europeus continuavam a viver no mundo das velhas ficções da paz, da coesão, do multilateralismo, do consumismo, em suma, na ilusão do mais inebriante conforto. Os sinais de alarme foram muitos, mas sempre ignorados: a crise dos subprime em 2008, a crise do euro a partir de 2010, a crise da imigração em 2015, o Brexit em 2016, a eleição de Donald Trump nesse mesmo ano.E muitos foram também os alertas americanos de que o tempo do “chapéu de chuva” americano na segurança europeia estava por um fio: já com G.Bush Jr., mais com Barak Obama, decisivamente com Trump 1. Mas tudo foi ignorado por uma U.E. cada vez mais burocrática, mais tecnocrática e mais autoritária, incapaz de se enxergar nos seus escassos 1,2 mil milhões de habitantes, num mundo que já ultrapassa os 8 mil milhões, indiferente ao recuo do seu PIB mundial de 25% para 14 % nos últimos 40 anos.
. E, entretanto, uma nova ficção irrompeu e se impôs, a Word Wide Web, em 1989/90, com tudo aquilo que se sabe que se lhe seguiu, vindo a criar um mundo parametrizado pelo crescente potencial dos smartphones, pelas redes sociais de todo o tipo, pelo Youtube, por múltiplas e variadas plataformas digitais, por uma Inteligência Artificial em constante expansão. E, aqui, os europeus nada viram, aconchegados no seu conforto, vivendo na fatal ilusão que lhes basta serem o “maior mercado do mundo”, quando na verdade já vivem quotidianamente sob a férrea ocupação tecnológica dos EUA e do seu imenso poder neste domínio.
. São estes alguns dos elementos essenciais do grande conflito ficcional do nosso tempo, que se trava entre, por um lado, a ficção tecnológica de um poder libertário, sem regras nem limites, defendida por Elon Musk, Peter Thiel e diversos bloguistas marados do Dark Enlightenment, como Yvan Curtis, Nick Land, entre alguns outros. E, por outro lado, a ficção soberanista de Estados que ainda tentam viver de antigas, e cada vez mais desamparadas e frágeis, ilusões (soberania, território, direito, etc.), como penso ser o caso de Donald Trump.
. É este, a meu ver, o núcleo da crise actual, que atingiu o seu pico com Trump II porque – e este é sem dúvida o ponto decisivo – ele se revelou totalmente incapaz de resolver (talvez mesmo de compreender) qualquer dos problemas em nome de cuja solução ele foi eleito: a re-industrialização dos EUA, o aumento do poder de compra, a solução da guerra da Ucrânia em dois dias, a completa recusa do intervencionismo militar americano, etc. Resta-lhe a imigração, é certo, e ainda assim parcialmente, mas é o fracasso em tudo o mais que o leva a recorrer à ficção da superpotência, permanentemente exibida, tanto externa como internamente.
. Acontece que a globalização é um processo histórico objectivo, que veda inteiramente a Trump qualquer possibilidade de concretizar o seu slogan “Make America Great Again”. Há muito que tal facto se revelou fatal para a ganância ocidental, iludida no seu conformismo consumista, e é essa mesma fatalidade que exaspera actualmente o voluntarismo de Trump, levando-o à constante repetição das mais patéticas e inverosímeis litanias de grandeza.
. O que é importante compreender, é que a globalização, que foi uma iniciativa ocidental, se tornou na mais poderosa arma de des-ocidentalização em curso no mundo. Agora o momentum é outro, ele pertence o Sul Global, aos BRICS, sobretudo obviamente à China, que tudo aposta num século de consagração mundial, com uma supremacia já indiscutível em múltiplos domínios decisivos, tendo como objectivo final uma prudente, mas determinada des-dolarização da economia mundial, equipando-se para o conseguir com ficções cada vez mais adequadas a esse objectivo, muitas delas recicladas do anti-colonialismo histórico.
. Enquanto isso, tudo leva a supor que o actual apogeu belicista dos EUA é a outra face do seu estertor histórico, num processo que poderá ser mais ou menos lento mas é inexorável, e que muito provavelmente arrastará consigo a União Europeia, a não ser que ela sacuda a tempo a sua ignóbil vassalização face aos EUA e a sua acefalia estratégica. Quanto à Rússia, ela continuará certamente a ser, depois de terminada a sua “aventura ucraniana”, uma potência média – nuclear, é bom não esquecer – mas cada vez mais condicionada e subalternizada pela China. E não é impossível, bem pelo contrário, que, por paradoxal que tal agora possa parecer, venha a ser com ela que a Europa poderá ainda encontrar algum revigoramento no futuro: as ficções são assim, elas tecem teias capazes de acolher os mais inesperados acontecimentos.
