UM PRESENTISMO FATAL
. Para compreender o que acontece, o lance mais decisivo é sempre o de relativizar o presente, analisando-o na sua contingência. E isto é particularmente verdade no domínio da política, nacional ou internacional. Sem esse passo, e as perspectivas que ele abre, o presente torna-se tão opressivo como opaco, ele fica refém de uma falsa necessidade e dessa “paixão triste” que sempre a acompanha, a da fatalidade.
. Fatalidade que é precisamente o que hoje alimenta o torrencial infotretenimento quotidiano, oleando as narratretas dos reality shows das “actualidades” em que elas encapsulam, quase sem excepção, todos os acontecimentos, num presentismo de vocação totalitária, que anestesia as sociedades, privando-as de facto da liberdade que deveria marcar o pensamento, bem como a acção humana no mundo.
. Vem isto a propósito da actual situação da União Europeia, cujo principal obstáculo se encontra na sua incapacidade de assumir que o mundo em que ela nasceu, cresceu e viveu até aqui, desapareceu. Sim, desapareceu na enorme voragem de uma inversão geopolítica que a história sugeria como possível, talvez provável, mas sem dúvida imprevisível, situação essa em que o direito da força se impôs, uma vez mais, à força do direito.
. Mais: em que não só desapareceu o conforto com o proteccionismo americano quanto à sua segurança, como desapareceram também a fonte de energia acessível oriunda da Rússia ou o fácil acesso ao mercado da China para muitos dos seus produtos. Tudo isto implica transformações imensas, que se pressentiam há muito, mas que se aceleraram bruscamente devido ao facto de Donald Trump ter erigido como objectivo estratégico dos EUA o domínio territorial de todo um hemisfério (e não só…), a par com o controlo dos seus mercados, ao mesmo tempo que trocava as tradicionais formas de cooperação com a Europa por agressivas modalidades de ameaça e de predação.
. É disto que agora se trata, e é isto que é preciso compreender. A leviana facilidade com que o sistema político-mediático tem vindo a falar de um novo imperialismo, para caracterizar a política de Donald Trump, induz em vários equívocos, ela revela bem não só a ignorância histórica e geopolítica dominante, mas sobretudo a sua evidente incapacidade para analisar o ineditismo da situação actual, numa confusão frustre de duas coisas muito distintas: o comportamento imperial do Presidente americano, por um lado e, por outro lado, a política imperialista de uma potência, de que se conhecem muitos exemplos históricos, de que os mais recentes terão sido o nazismo e a URSS.
. Os EUA eram e são ainda uma superpotência, mas é justamente esta sua dimensão que as últimas décadas têm vindo a pôr em causa, fundamentalmente em consequência do processo de globalização que os próprios EUA desencadearam nas últimas décadas do século passado. Se, como sugeriu Marcel Gauchet, há um “momento Trump” na recente política dos EUA, esse momento é o de um despertar ofensivo da potência americana face à evidência crescente de um mundo que lhe escapa, facto que é precisamente o que a patológica fanfarronice trumpiana procura constantemente escamotear e iludir.
. É neste contexto, nesta complexa conjuntura internacional que se foi tramando desde a posse de Donald Trump no começo do ano passado, que se têm multiplicado os cada vez mais pungentes apelos a que a Europa resista, ou melhor, reaja, se afirme, se bata. O último, e sintomático, apelo nesse sentido veio esta semana de Davos, e de um americano, o governador da Califórnia – e pressentido candidato democrata às eleições presidenciais de 2028 – Gavin Newsom, que admoestou duramente a falta de coragem dos líderes europeus face a Donald Trump. Trump que também foi a Davos fazer mais um patético número de brutalismo político-mediático, mentindo sem escrúpulos, inventando “acordos infinitos” sobre a Gronelândia, sem documentos nem parceiros, atacando “à Vance” a Europa, tudo isto perante uma plateia siderada por tal tresvario.
. Mas esses apelos já vinham de trás, eles intensificaram-se com o momento de vassalização protagonizado por Ursula von der Leyen em Turnberry, na Escócia, em 27 de julho do ano passado, onde assinou um ignóbil acordo com Donald Trump, ele ampliou-se com o espectáculo de submissão dos principais lideres europeus na Casa Branca, a 18 do mês seguinte, agudizou-se com as constantes tergiversações de Trump em relação à Ucrânia, processo que continuou com a captura de Nicolas Maduro em Caracas e a sua prisão nos EUA.
. O mais patético, em relação a este último acontecimento – e aqui prefiro ignorar o grotesco imenso do que se passou à volta do Nobel da Paz, com a inclassificável cumplicidade de Maria Corina Machado -, foi a insistência dos líderes europeus em que o rapto de Maduro fosse acompanhado por uma sem dúvida imperativa “mudança de regime” na Venezuela. Quando o que na altura o que eles deviam ter percebido, era que a “mudança de regime” mais importante já estava em curso, não na Venezuela, mas em Washington… Só com as ameaças em relação à anexação da Gronelândia pareceram começar talvez a percebê-lo, a ver vamos…, as conclusões do Conselho Europeu desta última 6ª feira ficam muito longe do que a situação exigia, a exemplo do que fez em Davos o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, assumindo corajosa e inspiradamente a irreversibilidade das rupturas em curso, e apelando à construção de outra ordem internacional, de cooperação de potências médias.
UM IMPOSSÍVEL FEDERALISMO
. A verdade é que ninguém diz o que é que a União Europeia deveria fazer, que iniciativas políticas ou medidas concretas ela deveria tomar. A única ideia que nestas ocasiões acaba sempre por surgir, é a do federalismo. É uma que ideia parece uma evidência, que se avança como se de uma palavra mágica se tratasse, mas que na verdade não passa de uma ilusão. E a prova disso é que nunca se diz como, nem com quem, é que esse federalismo se poderia concretizar. Ora, sem se avançar no como e no com quem, é o mesmo que nada dizer, ou melhor, é como pedir a um amputado que caminhe…
. O federalismo europeu nunca foi uma ideia fácil, contudo ela teve o seu tempo, a sua janela de oportunidade, que a meu ver se situou nos finais do século passado, quando a sua urgência chegou a ser um tema recorrente entre alguns líderes europeus. Mas apesar do ritual garantia mil vezes repetida que “sem aprofundamento não haveria alargamento”, foi justamente esse o caminho seguido para dobrar a União Europeia às pressões americanas a partir de 2002, como referi na última newsletter. Só um cego não percebia então que o alargamento era a tranca definitiva contra quaisquer aspirações federalistas: se o consenso sobre a dificuldade de governar a U.E. a 15 membros era já um facto, a 28 tal tornar-se-ia – como penosamente se tem visto – numa paralisante cacofonia. E ainda há quem fale em continuar…
. E é nisto que estamos agora, numa armadilha que objectivamente impede qualquer acção eficaz conjunta dos membros da União Europeia, entalada entre “impérios” e sem margem de acção eficaz, para lá do registo …simbólico! A tudo isto é preciso ainda acrescentar um outro ponto muito importante, que é o de que o design, a configuração institucional da União Europeia, nas suas metamorfoses desde 1958, não só não a ter preparado para as contingências que hoje enfrenta, como – o que é ainda mais grave – a ter manietado num colete de forças feito de ilusões sobre a paz, a democracia, o direito, a ordem internacional, sem a prudência que tudo, na sua história, vivamente aconselhava, nomeadamente em relação à fragilidade estrutural de todas aquelas ilusões.
. Tudo isto desabou. É talvez tarde demais para isso, mas só assumindo na sua integralidade este facto é que se pode ainda vislumbrar algum futuro à União Europeia, e o único – e muito estreito – caminho que permanece aberto é, não o do federalismo, mas – o que é bem diferente – o da confederação. Confederação que só pode nascer da visão do “núcleo duro” de alguns países – entre 9 e 12 -, que decidam cortar com o garrote actual e avançar em conjunto multiplicando e aprofundando alguns parâmetros comuns fundamentais (moeda, segurança, cultura, tecnologia, produção), apostando nos domínios onde, como há dias lembrava Jacques Attali, a Europa é forte, e assumindo rapidamente aqueles em que incompreensivelmente ela se deixou ficar para trás, nomeadamente no plano tecnológico, onde um esforço de recuperação é de absoluta urgência.
. Uma confederação que seja mais democrática do que é hoje a União Europeia, nomeadamente sobrepondo à importante defesa dos direitos individuais, os direitos decorrentes da soberania dos povos e dos seus poderes colectivos. Voltarei, em breve, a este delicado, mas decisivo, tema.
