TRÊS NOTAS

1 – SEM THYMÓS

. O meu voto amanhã será, como creio que será o da maioria dos portugueses, um voto óbvio. Mas esta evidência não resulta, como seria desejável, de qualquer entusiasmo, mas de uma resignação conformista – em grego, diria sem thymós. Na verdade, Portugal continua – digo-o há anos – um país desvitalizado, rebocado, sem qualquer estratégia. Que vive os seus graves problemas sem uma bússola que lhes dê sentido, e sem qualquer magnetismo que impulsione a sua resolução. Um país que vive atordoado por uma crise cuja natureza e amplitude não quis, ou não soube, prever e compreender – e que, agora, não vislumbra como enfrentar e superar. E como se vive a folhetinizar todos os acontecimentos, entre catástrofes e efemérides, escândalos públicos e vidas privadas, escapa­‑lhe tanto o sentido da história que explica, como o pressentimento do futuro que mobiliza. Estamos nisto! Quanto ao mais, já disse o que penso no meu recente texto “Um Nihilismo Presidencial”.

 2 – TRUMP ESTARÁ LOUCO?

 . Depois desta breve “nota do dia”, passemos ao que mais interessa e que, como Miguel Monjardino tem insistido nas suas crónicas no Expresso, passa completamente ao lado dos responsáveis políticos nacionais, de todos eles, num provincianismo político que é a outra face do nosso consolador estatuto de protectorado euroamericano, que persiste na “recusa em compreender que a bifurcação na ordem internacional já aconteceu, é irreversível e terá importantes implicações para os nossos interesses permanentes”, Expresso, 30.01.2026) .

. Alteração que os lideres europeus continuam a viver como um trauma e não como um acontecimento, e que agora tem vindo a suscitar uma leitura do trumpismo de tipo psi, entre o psicológico e o psiquiátrico.  Os rumores são já de há muito, mas foi um texto publicado recentemente, em janeiro, no conceituado site POLITICO que, com dados aparentemente credíveis, os trouxe para a ribalta, de onde é de prever que não mais deixará de ir aparecendo regularmente. Até porque ele traz já um forte lastro do primeiro mandato de Donald Trump, como o confirmam as análises publicadas nas 544 páginas do livro The Dangerous Case of Donald Trump, publicado em 2017, com o sub-título “27 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President”. Análises que foram retomadas e desenvolvidas mais recentemente, em 2024, em The More Dangerous Case of Donald Trump, agora com o sub-título “40 Psychiatrists and Mental Health Experts Warn Again”.

. A esta abordagem juntou-se agora a psicanalista Elisabeth Roudinesco, a quem – a propósito do burlesco episódio em que Trump exibe a medalha de Maria Corina Machado como se fosse o “seu” Nobel – Gilles Gressani, no site Le Grand Continent, perguntou se considerava que “Trump está louco”. E. Roudinesco afirmou ver neste episódio, à imagem de muitos outros, a expressão de um delírio, com traços shakespeareanos (referia-se ao Rei Lear, suponho), delírio que ela situou na linha limite do habitual comportamento de Donald Trump, linha que instala uma realidade paralela que se desdobra numa multiplicação de delírios grotescos, em geral delírios de grandeza, que se baseiam num permanente culto hiper-narcísico do seu ego. Mas, acrescento eu, lembrando Freud, de um ego tão colossal como vazio, que é onde se esconde a fragilidade deste tipo de força, e que o leva a depender de uma permanente confirmação dos outros, seja do seu círculo mais próximo, seja do “auditório” global.

.  Pode dizer-se que Trump assume, como ninguém numa democracia desde meados do século passado, a ambição política do ilimitado em todas as suas vertentes, recusando todos os limites, insinuando ou concretizando todas as transgressões, de linguagem e de gestos, de actos e de decisões, seja qual for o seu registo: sexual, político ou geopolítico. Encontra-se aqui, diz E.Roudinesco, o verdadeiro perigo deste comportamento, uma vez que põe o imenso poder dos EUA ao serviço de uma inédita egopolítica – para usar a inspirada designação de J.P.Teixeira Fernandes, cf. Público, 22.01.2026 -, o que levanta a questão mais importante, talvez, como ela diz, “a mais estrutural: porque é que todo o sistema aceita funcionar no modo do delírio narcísico de Trump?” Ou, dito de outro modo, como é que as estruturas políticas, as mais diversas instituições americanas, mas não só – lembremos os vários e repetidos momentos de vassalização europeia – tornam esta “loucura” possível? É esta, a meu ver, a pergunta que mais nos interpela hoje, esboçando um sinistro retrato do que lá pode vir…

3 – DE VOLTA AO TEMA DA CONFEDERAÇÃO

. Deixei na última newsletter uma alusão final ao tema da confederação, como alternativa ao que considerei o “impossível” federalismo europeu. É um tema cada vez mais discutido, mas ele não é novo, ele vem já de longe e já foi analisado por múltiplos autores, tendo sido ele que esteve, embora de um modo tão discreto como confuso, na origem da Iniciativa Europeia de Intervenção (IEI) que, orientada para o sector da defesa, juntou 9 países em 2018 (entre os quais Portugal), assim como da sugestão de criação da Comunidade Política Europeia, avançada por Emmanuel Macron em Maio de 2022 e concretizada ainda nesse ano.

. Muitas coisas se têm passado entretanto, impossíveis de sintetizar aqui.  Por isso quero apenas referir, pela sua importância no contexto que actualmente vivemos, a desenvolvida e muito fundamentada obra de Christian Saint-Étienne que, na senda de múltiplos trabalhos que publicou nos últimos anos, apresentou recentemente, no livro Trump et Nous – Commemnt Sauver la France et l’Europe, uma proposta de cooperação de tipo confederal, de 9 países europeus ( nos quais inclui Portugal ), que representam 12,8% do PIB mundial, 74% do PIB chinês e 56% do PIB americano, e que, diz C. Saint Étienne “ se tornaria num dos três grandes actores geoestratégicos mundiais.”(p.174)

. E que o tema está mesmo na ordem do dia prova-o a apresentação do “Plano Klingbeil” (é o nome do ministro alemão das finanças), feita há pouco, no passado dia 27 de Janeiro, que visa, no quadro de uma Europa assumidamente a duas velocidades, a constituição de uma “Europa dos 6” (França, Alemanha, Espanha, Polónia, Países Baixos e Itália), que representa 70% do PIB europeu. Distanciando-se da apatia e lentidão da Comissão Europeia,  Klingbeil defende que se avance rapidamente, tendo sido claro nas declarações que fez ao jornal Die Welt: “Nós os 6 queremos passar a ser o motor” da União Europeia. Aguardemos… será desta vez que alguma coisa muda?

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