A TENAZ DEMCRÁTICA

                                     “Sem um claro sentimento colectivo nenhum futuro é concebível

 

 A ERA DA HIPERPOLÍTICA

. As catástrofes revelam bem um dos traços mais comuns do atordoamento em que vivem as sociedades contemporâneas, que consiste em acusar sistematicamente a política de tudo, ao mesmo tempo que se lhe pede… igualmente tudo! Vale a pena aproveitar esses momentos para pensar nas metamorfoses que marcam hoje as relações dos cidadãos com a política, que ora é concebida em termos de poder, sempre considerado excessivo, ora de impotência, sempre vista como incompreensível.

. É uma situação que, num livro recente, Anton Jager designou como a “era da hiperpolítica”, acrescentando ao título, Hyperpolitics, o sub-título “Extreme Politization without Political Consequences”. A ideia é interessante, ela parte da constatação da enorme efervescência política que, contrariando um crescente apoliticismo das últimas décadas do século XX, começa no fim da primeira década deste século, a seguir à chamada crise do subprime, traduzindo-se não só em constantes manifestações e em violências diversas, mas também em mais iniciativas e numa maior participação política dos cidadãos, como aconteceu, entre muitos outros exemplos, com os movimentos  “Occupy  Wall Street”, nos EUA, os “Indignados” de Puertas del Sol, em Espanha, os “Hong Kong protests” ou os  “Gillets Jaunes” em França.

DO COLAPSO DO COLECTIVO AO DO FUTURO

 . Mas o que a abordagem de A. Jager tem de mais interessante é o facto de sublinhar que, apesar deste frenesim contestatário – nunca houve, diz ele, tantas manifestações como no período que vai de 2008 a 2025 -, e da correspondente intensificação tanto dos comportamentos adoptados como da linguagem usada, tudo isto ter acabado por se revelar inócuo, sem relevantes consequências práticas. Ou seja, que a conflitualidade política aumentou significativamente, sem que isso na verdade tenha afectado o curso da normalidade, das rotinas políticas. A explicação que este professor de Oxford propõe aponta para o facto de, neste mesmo período, ter ocorrido a erosão, por vezes até ao seu desaparecimento, das instituições que tradicionalmente acolhiam e alavancavam as reivindicações e os protestos dos cidadãos – nomeadamente os sindicatos, os partidos políticos, diversos tipos de associações a eles ligadas, etc. -, que tinham sido quem, até então, estruturava a conflitualidade política das sociedades, fazendo com que ela tivesse de facto consequências.

. A crise destas instituições foi, note-se, paralela ao agudizar de uma outra crise, a da representação política, agudizar que o movimento francês dos “Coletes Amarelos” ilustrou bem ao passar da crítica da representação – até então um dos tópicos mais centrais da contestação política, fosse em nome de uma melhor representação, de novas formas de deliberação ou de exigências participativas – para uma rejeição da própria representação, considerada uma pretensão política  ilegítima, a dissolver em formas de agitação que se pretendia que fossem permanentes e dessem origem a novas modalidades de organização política das sociedades.

. Mas se a “era da hiperpolítica” caracteriza bem a contradição entre a espiral contestatária e a sua ausência de consequências, não penso que tal se deva apenas, por importante que ela seja, à ausência de instituições capazes de articular essas duas dimensões, dando-lhes um efectivo sentido e alcance políticos. A esta explicação impõe-se acrescentar pelo menos mais dois pontos, que penso serem decisivos: o primeiro, é o esbatimento do sentimento colectivo,esmagado pelo apogeu do multifacetado individualismo contemporâneo e dos seus cada vez mais numerosos e imperativos direitos. O segundo – e aqui é muito estimulante a leitura de In the Long Run, de Jonathan White -, é o apagamento do sentimento de futuro, sem o qual nenhuma acção consegue motivar energias, ganhar lastro, conceber estratégias, alcançar objectivos.

. É esta, na verdade, a tremenda tenaz em que se encontra hoje a política, na sua forma democrática de “sociedade de indivíduos”, porque sem um claro sentimento colectivo nenhum futuro é concebível, o que condena as sociedades às mais diversas patologias do presentismo e do curto-prazismo – e é talvez aqui que reside a principal razão do impasse democrático em que hoje nos encontramos.

 UMA “IDEIA DE EUROPA”

 . Ao contrário do que escreve Teresa Violente (Expresso, 13.02.2026), o que falta é mesmo “uma ideia de Europa”. A não ser, claro, que se continue – como tem acontecido até aqui e com as consequências que estão bem à vista – a alimentar a ilusão que essa ideia se encontra no formalismo dos tratados e na jurisprudência que deles decorre. E a prova da ausência dessa ideia é que, se ela existisse, a alternativa “clara” que Teresa Violante refere, entre a democracia pós-nacional ou o regresso ao Estado nação, não se traduziria no catatónico impasse em que há anos vive a União Europeia, atolada numa retórica que fez do europeísmo, como bem escreveu Tony Corn, o “ópio dos europeus”. O que é preciso é pensar a Europa a partir das lições que esse impasse evidencia, não em ignorá-las ou em negá-las. Começando por compreender que nunca uma burocracia aceita transformar-se numa democracia – ou seja, ser despojada dos seus privilégios e dos seus dogmas – a não ser que a isso ela seja obrigada. É esta, na verdade, a raiz do problema europeu, qualquer vislumbre de uma efectiva e mobilizadora “ideia de Europa” passa por aqui.

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