PARADOXOS DO PODER

. Se há traço que marca hoje a política, é o das constantes exigências, tão imperiosas como contraditórias, que a atravessam, com uma frequência e intensidade que se revelam inversamente proporcionais à consciência que se tem de uma tal situação. O poder é um dos melhores exemplos desta situação, cada vez mais refém de um verdadeiro nó cego de paradoxos, que decorre de ele ser a instância a quem se pede tudo, em termos de segurança, de educação, de saúde, etc., ao mesmo tempo que ele se vê acusado de tudo, em termos de indiferença, de incapacidade, e sobretudo de impotência. Em suma, a política é hoje vista pela generalidade os cidadãos como baloiçando entre o poder, sempre concebido como imenso, e a impotência, sempre considerada como incompreensível.

. E não creio que isso vá mudar com nenhuma operação de “Epic Fury”, que certamente alterará muitas outras e substanciais coisas, que teremos ocasião de abordar proximamente. Seja como for, foi esse o tema há muito escolhido pelo BEIRA/Observatório de Ideias Contemporâneas Azeredo Perdigão (entidade que foi criada em Viseu, em tributo a este notável viseense, e que tem como seus membros fundadores a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal se Viseu), para a sua sessão de Inverno, que ocorre precisamente agora, dia 7 de março, em Viseu.

. Realizando uma sessão por cada estação do ano, as actividades do BEIRA iniciaram-se em 2024, tendo-se dedicado nesse ano a temas como A democracia – impasses e desafios (com Daniel Innerarity), Inteligência Artificial e inteligência Natural (com Maurizio Ferraris), Os novos fanatismos na era do hiperindividualismo (com Gilles Lipovetsky), As ideologias – em crise ou em desaparecimento? (com M.Poiares Maduro). O ano de 2025 começou com uma sessão sobre O transumanismo e os novos desafios à natureza humana (com Jean-Michel Besnier), seguindo-se sessões sobre As múltiplas crises da Europa (com Josep Borrell), Os novos Populismos- a caminho da populocracia? (com Ilvo Diamanti) e  As metamorfoses do espaço público (com Valeria Martino).

. O 3º ano das sessões do BEIRA começam agora, com uma intervenção do filósofo Pierre-Henri Tavoillot, que justamente abordará o tema que acima referi, “A política, entre o poder e a impotência”, que será seguida – como sempre acontece em todas as sessões sazonais do BEIRA – por um debate de diversos “pontos de vista” sobre o mesmo tema, desta vez com José Miguel Júdice, Helena Matos e Adalberto Campos Fermandes.  E estão já definidas as próximas sessões, a 23 de maio o tema do BEIRA/Primavera será A guerra dos sexos continua? – feminismo versus masculinismo, com Nathalie Heinich; o BEIRA/Verão será sobre O Ocidente, a Guerra e a Paz, com Nicole Gnesotto, a 12 de setembro; e o BEIRA/Outono debruçar-se-á, a 7 de novembro, sobre a problemática da Inteligência Artificial – Submissão ou Complementaridade?, com Luc Ferry.

. Poder-se-ia dizer que os paradoxos do poder atravessam, certamente de formas diversas, todos os temas de 2026. Mas é sobre o modo como eles marcam o campo político que, tendo presente o primeiro tema do ano, quero acrescentar três breves notas. A primeira, para destacar o modo como a espiral do individualismo atingiu uma intensidade tal que inviabiliza a compreensão, ou mesmo o simples reconhecimento, das suas próprias condições de possibilidade, isto é, a existência da dimensão colectiva – seja via sociedade, seja via Estado -, sem a qual o individualismo nunca se teria imposto com o pôde fazer. Embora vivamos no permanente recalcamento desta evidência, a verdade é que, se somos cada vez mais autónomos e mais livres como indivíduos, é porque o Estado providencia, nas suas várias modalidades, as excepcionais condições que tornam isso possível.

. A segunda nota é sobre a globalização, porque entretanto se tornou claro que aquilo que eram as suas vantagens, nomeadamente o baixo custo de produção, se tornaram num gigantesco problema, sobretudo na crescente ameaça de uma irreversível desindustrialização dos países que a tinham promovido, com as consequências sociais que tal facto acarreta.   O neoliberalismo é o hoje o resultado da convergência destes dois processos: por um lado, da desterritorializaçãoeconómica operada pela globalização e, por outro lado, do hiperindividualismo que transforma as comunidades humanas em meras sociedades “de indivíduos”, privando-as do sentimento colectivo que é sempre a indispensável condição de qualquer acção política consequente e eficaz.

E a terceira nota, retomando o que escrevi na anterior newsletter, é a crescente diluição da política, ora numa inércia conformista, ora num agitacionismo sem estratégia, que são a outra face da crescente despolitização dos indivíduos e das sociedades. E é nisto que estamos, agora num inédito contexto geopolítico global, que é previsível – para não dizer certo – que agravará todos os paradoxos do poder que têm marcado os últimos tempos.

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