“Ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, mas ser seu aliado pode ser fatal”
Henry Kissinger
“Avançar às arrecuas” – esta expressão idiomático-popular tem-me ocorrido como a que melhor descreve o comportamento de Donald Trump, sobretudo desde que ele decidiu há 20 dias, em coligação com Israel, iniciar uma guerra contra o Irão, anunciando que a concluiria rapidamente, com a habitual fanfarronice que a mediocracia dominante tem transformado num … estilo político! Mas se de estilo se pode falar, é no “avanço às arrecuas” que ele se encontra, no modo como ele tem lidado com os carrosséis de tarifas, com as suas ambições de territoriais (Gronelândia, Canal do Panamá, Canadá, Cuba, etc.) ou com as diversas guerras em curso. Tudo avança, para depois recuar, tudo garante para depois hesitar, transformando as melhores expectativas em verdadeiras fraudes, como se viu na Venezuela. Os media gostam, claro, Donald Trump oferece-lhes um inédito, permanente e gratuito reality show.
. Contudo, mais depressa do que muitos teriam pensado, Donald Trump começou a revelar-se, não como um grande vencedor, mas cada vez mais como o rosto do fim do império americano. O que não admira, porque por trás da imensa retórica MAGA, foi sempre um inconfessável pânico face ao declínio do poder e influência dos EUA no mundo, o que na verdade esteve na origina do trumpismo. A sua verdadeira mola foi – juntamente com a imigração e com o wokismo – o inesperado boomerang de uma globalização tão gananciosa nas suas ambições como cega na avaliação das suas consequências.
. Aliado a um primeiro-ministro de Israel que, em fuga à justiça, conseguiu pôr quase todo o mundo contra a causa judaica, Donald Trump – ao arrepio de todas as suas promessas, feitas vezes sem conta, de cortar com o intervencionismo militar americano no mundo – avançou contra o Irão movido por uma húbris cada vez mais alucinada, fugindo ao Congresso, mentindo a todos, abrindo uma guerra no Médio Oriente de tremendas consequências globais.. E fê-lo sem qualquer estratégia clara, sem timings definidos, sem ponderação de alternativas, como se de um incontrolável capricho hiper-narcísico se tratasse – e tal bastasse, à luz do que diz ser a sua “moral”! E não foi a primeira vez que o fez, como por vezes se diz, é bom ter presente que este não-intervencionista já desencadeou nove operações militares, seis das quais no Médio Oriente!
. Há, contudo, que perguntar como é que o exército mais poderoso do mundo, aliado a um fortíssimo exército como é o de Israel, não conseguiu ainda dominar um país cujas lideranças foram quase todas decapitadas e é ininterruptamente bombardeado há três semanas? São muitas as respostas possíveis, mas todas convergem para o crepúsculo do império americano. E se o seu poder nos ares continua indiscutível, tal já não acontece com o poder nos mares, de que a situação no Estreito de Ormuz tem sido uma cabal ilustração. Com cerca de 300 minas (que representam cerca de 5% do seu arsenal), o Irão bloqueou a navegação através daquele estreito, vital para a economia mundial, impondo aos EUA, pela primeira vez no último século, a perda do domínio dos mares.
. Manipulando os americanos e o mundo com as suas performances mediático-circenses, pretendendo assim alardear e reafirmar o poderio dos EUA como super-potência mundial incontestável, Donald Trump conseguiu o contrário: fazer prova de que os EUA são, de uma forma cada vez mais evidente aos olhos de todo o mundo, uma super-impotência que exporta a sua instabilidade para todo o lado, que chega a implorar ajudas aos países que afirma desprezar, a ameaçar abandonar organizações que garantiu defender, e a preparar uma intervenção militar no terreno ( é o que acontece no momento em que escrevo, com a invasão da ilha de Kharb), que, a concretizar-se, lançará os EUA num novo pântano de que será difícil sair. Até porque, agora são os iranianos que se recusam a suspender o combate, deslocando-o do plano militar para o económico e generalizando-o a vários países da região. O desnorte tornou-se total, confirmando a máxima militar que diz que “quem começa com vitórias tácticas acaba com derrotas estratégicas”, situação que certamente os americanos não deixarão de avaliar nas eleições intercalares do próximo mês de Novembro.
. Neste contexto, o que é preciso compreender – e a Europa, que além da retórica de ocasião, tem dado constantes provas da mais completa indigência política, tem de o fazer urgentemente – é que transitámos já para um outro mundo, que pouco tem a ver com o que herdámos do século XX, quer em termos económicos, quer em termos políticos. Politicamente, basta olhar para a recente e contínua progressão no mundo do número de regimes autoritários, por um lado, e para a decomposição das democracias, por outro lado. Como ainda há dias o destacou o Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo, que há muito segue o tema, ao assinalar a veloz desclassificação dos EUA, num só ano, de democracia liberal para os mínimos do que designa como democracia eleitoral (patamar que se aproxima do autoritarismo, e que é, note-se, onde também coloca Portugal). E em termos económicos, em que são inúmeros os factores de instabilidade e disrupção, e aqui o mais decisivo é compreender as consequências do processo de globalização – ou seja, a irreversível desindustrialização, o brutal desequilíbrio dos rendimentos, o consumismo sem freio, etc. -, globalização que passou, em escassos 20/30 anos,de milagre a desastre, condenando a América, mas também o Ocidente em geral, ao declínio, ao mesmo tempo que viabilizava a aspiração chinesa de regresso a um estatuto imperial no decurso do século XXI.
. São outros os tempos que vivemos, são os tempos do capitalismo de apocalipse (Quinn Slobodian), são sobretudo, a meu ver, os tempos do capitalismo de finitude (Arnaud Orain). E, também, o tempo das previsões de Emmanuel Todd, a revelarem-se no essencial certeiras no seu La Défaite de l’Occident. São ainda tempos em que cresce o perigoso abismo entre a despolitização dos dirigentes políticos e novas formas de politização das sociedades, um abismo onde se multiplicam as maiores incógnitas sobre o nosso futuro.
