ENTREVISTA AO “OBSERVATOIRE D’ÉTHIQUE UNIVERSITAIRE”

                                         WOKISMO VERSUS TRUMPISMO

                                 PIERRE-HENRI TAVOILLOT ENTREVISTA MANUEL MARIA CARRILHO

                                               (OBSERVATOIRE D’ÉTHIQUE UNIVERSITAIRE, 20.03.2026)

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https://www.decolonialisme.fr/wokisme-vs-trumpisme-nouvelle-guerre-des-idees/

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O mais recente ensaio, breve e incisivo, do filósofo Manuel Maria Carrilho, que foi o primeiro ministro da Cultura em Portugal (1995-2000), intitula-se A Nova Peste — da Ideologia de Género ao Fanatismo Woke. Trata-se de uma contribuição maior para a inteligibilidade do «wokismo» como ideologia coerente, a partir da sua génese filosófica. Mas esta obra distingue-se também pela preocupação de compreender as razões do «sucesso» do wokismo no quadro de uma modernidade «desnorteada». Procura igualmente – e é aí que reside a sua singularidade – pensar o seu devir na era do trumpismo. Espera-se uma tradução rápida em francês. Ela está anunciada. Pierre-Henri Tavoillot entrevistou-o no Porto para o Observatoire d’éthique universitaire.

PHT — Estaremos hoje condenados a um frente-a-frente algo desesperante entre o wokismo e o trumpismo, que alguns chegam a dizer ser um wokismo de direita? Uma das suas características comuns, diz, é a de «saturar» o espaço público.

MMC — Pode dizer-se que o trumpismo, tal como o wokismo, «satura» o espaço público — tal foi, com efeito, uma das principais características do wokismo —, mas trata-se, a meu ver, de dois fenómenos muito diferentes, e não penso que exista um wokismo «de direita». O wokismo da última década resiste, prossegue o seu caminho, doravante sem dúvida menos visível e menos explicitamente assumido, tendo em conta a amplitude mediática que o trumpismo adquiriu – ele que, como se sabe, o combateu. Mas o wokismo permanece vivo e operante enquanto concepção e instrumento fanático de censura e de cancelamento; ele continua fortemente incrustado, built-in, em múltiplos sectores e instituições do Ocidente.

Não partilho, portanto, a ideia segundo a qual se poderia ver no trumpismo um novo wokismo, desta vez «de direita» (cf., por exemplo, Guillaume Lancereau, Le Grand Continent, julho de 2025). Tal interpretação amalgama tudo e conduz, parece-me, a um duplo mal-entendido: por um lado, tende a branquear os traços censórios e persecutórios do wokismo da última década e meia; por outro, impede a compreensão daquilo que é realmente inédito no trumpismo – compreensão que me parece, no entanto, cada vez mais decisiva, mesmo vital. E, se me permite, gostava de desenvolver um pouco este último ponto, antes de regressar ao wokismo.

PHT – Claro, é da maior importância, continue.

MMC – Muito sinteticamente, penso que a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de novembro de 2024 traduziu uma dupla consagração: por um lado, o colapso do político como espaço de deliberação fundado no confronto e no debate de ideias e de propostas em torno dos problemas e das expectativas dos cidadãos e das sociedades, assim como das suas eventuais soluções. E, por outro lado, o apogeu da política como espectáculo, num espectro que vai do entretenimento mais anódino à exibição mais grotesca. Esta dupla consagração, aparentemente paradoxal, tem, contudo, origens longínquas. Resulta de um processo muito complexo, iniciado há muito tempo, mas que me não é possível desenvolver no quadro desta entrevista.

Ora, este «regresso do trumpismo» foi vivido pelos seus adversários (e não só por eles!) como um verdadeiro choque traumático, com três consequências: como algo que bloqueia a visão, que impede a compreensão e que paralisa a acção. E que favorece, como reacção, uma postura defensiva e sobretudo de negação, aspirando – ainda que inconscientemente – ao regresso à normalidade e ao conforto que, a todos os níveis, um tal regresso proporcionaria.

Acontece que o traumatismo, pela sua natureza sísmica, torna quase impossível toda a compreensão entre o antes e o depois, que é — como ensinam filósofos como Bergson ou Deleuze — precisamente a chave do acontecimento. Porque um acontecimento não é um simples facto, mas aquilo que marca uma ruptura, uma diferença na ordem dos factos entre o antes e o depois. Ele é a própria mudança em devir, aberta, impondo um confronto com o desconhecido, a descontinuidade, em suma, com a contingência. E é precisamente aí que a Europa se encontra desde janeiro de 2025: paralisada na ordem dos factos, entrincheirada atrás do ecrã da retórica, incapaz de compreender o acontecimento «trumpismo», que, no entanto, não cessa de nomear, num penoso ritual de exorcismo político-mediático. Uma Europa que adormeceu durante a presidência de Joe Biden, cuja vitória, em 2020, foi erradamente interpretada como o enterro definitivo do trumpismo.

A isto é preciso acrescentar um outro ponto que também considero decisivo na vitória de Donald Trump, e posteriormente no seu mandato, como vemos todos os dias: trata-se da sua estratégia inédita de propaganda e de ação política. Enquanto os jornalistas, os comentadores e os seus adversários se perdiam no labirinto dos factos alternativos e das controvérsias da pós-verdade, Trump enveredou por outra via, tornada possível e propulsionada pelas plataformas digitais e pelas redes sociais: a do condicionamento manipulador da própria perceção da realidade, sobretudo pela cascata torrencial de factos e de versões, da sua repetição e contradição constantes, e pela irresistível expectativa de novas transgressões da sua parte, num ritual tão atordoante quanto estereotipado, que aprisiona a consciência colectiva num registo que proponho designar por um verbo, impensar, um verbo que configura uma forma inédita da consciência contemporânea. Interrogo-me se se terá dado bem conta das consequências do facto de que, à exceção do «interregno papal» – morte do Papa Francisco e eleição do Papa Leão XIV -, Trump esteve, desde janeiro de 2025, presente todos os dias em todos os media do Ocidente… e muito para além dele…

PHT – Para si, a emergência do wokismo deve ser compreendida no quadro daquilo a que chama o «paradigma do ilimitado», isto é, a extensão de quatro dimensões da «hipermodernidade»: o individualismo, a financeirização, a globalização e a tecnologia. Em que é que estes quatro fenómenos convergem para produzir o wokismo?

MMC – Se o wokismo é uma doutrina – ou uma ideologia – que emergiu no quadro daquilo a que chamo o «paradigma do ilimitado», é porque atribui um poder sem desmesurado, sem limites, por um lado à linguagem, por outro à identidade. Este paradigma permite, a meu ver, caracterizar e compreender o mundo contemporâneo a partir daquilo que considero serem os seus quatro eixos fundamentais: a globalização, o hiperindividualismo, o financismo (ou a financeirização, última metamorfose do capitalismo) e o conjunto daquilo que se tem chamado as «novas tecnologias», cada vez mais articuladas com as plataformas digitais e com os desenvolvimentos da I.A.

Ora, estes quatro eixos – e este ponto é decisivo – convergem de uma maneira inédita, quase sem grandes fricções entre si. Pelo contrário, eles reforçam-se mutuamente, numa espiral de ilimitação que, na verdade, ninguém controla, alimentando a ideia de que nada tem limites: nem o consumo, nem a energia, nem a dívida, nem o crescimento, nem os direitos individuais, nem sequer a vida, como sustenta um certo pós-humanismo. Nem a Europa, permitam-me acrescentar, com a sua inexistência de fronteiras… E, no entanto, o que é certo é que todos estes domínios têm, cada um à sua maneira, limites intransponíveis.

É precisamente este paradigma que, a meu ver, alimenta o wokismo, tanto nas suas ambições ideológicas globais como nas suas variantes mais específicas, facilitado pelo motor que é o eixo do individualismo, o qual conheceu uma aceleração brutal desde meados do século XX, culminando na afirmação de uma subjectividade soberana, operando por uma forma inédita de performatividade, na realidade alucinatória, fundada na proclamação, que rapidamente se tornará slogan: «sou aquilo que digo que sou!».

É neste quadro que o wokismo aparece como uma idceologia – isto é, um discurso dogmático que pretende explicar tudo, impermeável a toda a objecção ou crítica -, fundamentalmente reactivo (sempre «contra», nunca «a favor» do que quer que seja), adoptando formas de pensamento e de acção essencialmente fanáticas: conflito, confrontação, hostilidade, denúncia, vitimização, agressividade, visando substituir, nas sociedades democráticas contemporâneas, todas as formas de diálogo, de argumentação e de convivialidade que caracterizaram globalmente o Ocidente.

PHT – Considera que o feminismo identitário ou a ideologia de género constitui a matriz do wokismo, no sentido muito preciso, diz, «em que ela transforma a subjectividade humana numa entidade dotada de poderes ilimitados». É esse, para si, o eixo central dessa ideologia?

MMC – Sim, mas aqui é importante estabelecer, antes de mais, uma distinção prévia entre a «ideologia» de género e a doutrina, ou teoria, do género. Foi a dissolução desta distinção que tornou possível a transformação a que alude: a da «subjectividade humana numa entidade dotada de poderes ilimitados». Esta dissolução é simultânea da adopção de uma noção que se encontra no cerne do wokismo: a noção de performatividade. Adopção que foi, na verdade, uma profunda distorção desta noção, tal como fora proposta pelo filósofo John Austin no seu livro How to do Things with Words, onde introduziu a distinção entre dois tipos de enunciados: os performativos e os constatativos.

Se analisarmos atentamente um certo tipo de enunciados – por exemplo: «juro ser-te fiel», «a sessão está aberta», «baptizo este avião Fernando Pessoa», «nomeio-te ministro da Educação» -, compreende-se facilmente que se trata de frases que não é possível dizer verdadeiras ou falsas. Um critério positivista rigoroso recomendaria, neste caso, declará-las «sem sentido», apesar do evidente absurdo de tal afirmação. Ora, diz Austin, o que acontece é que, com estes enunciados, não se descreve um acto, executa-se realiza-se uma acção.

Ora o conceito de performativo vai adquirir um sentido completamente diferente no quadro do neofeminismo, nomeadamente com Judith Butler. Ele vai tornar-se o conceito-sintoma do sistema butleriano, procedendo, como muito bem o disse Éric Marty no livro Le Sexe des Modernes, a uma extensão ilimitada do conceito de performativo. O que vai, entre outras coisas, permitir negar o carácter biológico da diferença sexual, assim como validar a hipótese de uma fabricação social dos géneros. Estamos, portanto, perante um verdadeiro salto epistemológico: a performatividade, de fenómeno particular do uso da linguagem corrente, que se manifesta nas ações que a própria linguagem realiza, como uma promessa, uma nomeação, etc., transforma-se num operador mágico de um uso da linguagem capaz de tudo transformar em… realidade.

PHT — A questão dos limites é um ponto decisivo do nosso tempo contemporâneo: eles parecem apagar-se por todo o lado, suscitando uma forma de angústia. Mas, em certos aspectos, todo o projecto do humanismo moderno consiste em alargar os limites, em nome de um homem «infinito». De quem Pico della Mirandola dizia (Da dignidade do homem, 1486) que fora dotado por Deus do poder de «se modelar e de se moldar a si mesmo» sem qualquer restrição. O wokismo ou o transumanismo não serão, no fundo, os frutos desse pensamento? E como conceber o critério que separa a perfectibilidade benéfica da hybris destrutiva?

MMC — Não penso que seja possível estabelecer um critério que permita traçar essa distinção de maneira estável, digamos intemporal, porque se trata de dimensões da vida humana que dependem fundamentalmente do contexto histórico, social e cultural que se considere. Hoje em dia, os limites parecem, como diz, «apagar-se por todo o lado», e é efetivamente isso que sucede. Isso suscita um sentimento de angústia – ou antes, de «atordoamento» – largamente difundido. A ausência de limites, qualquer que seja o domínio considerado, engendra um sentimento de irreversibilidade generalizada. É uma ideia que desenvolvi num outro livro, Sem Retorno, publicado em 2022, e à qual tenciono voltar.

PHT — No final do seu livro, apresenta a tábua dos «10 mandamentos woke»: que são interditos, ou até fatwas, contra o universalismo, as Luzes, a racionalidade, a ciência, a cultura e a história, a igualdade, a liberdade de expressão, o direito e a imparcialidade, a presunção de inocência, a democracia liberal. É isso que o leva a identificar o wokismo como um fanatismo, mais do que como um totalitarismo? E como compreender esta paixão da inquisição num Ocidente (bastante) pacificado e secularizado?

MMC — Dir-se-ia uma paixão masoquista… mas as suas raízes são muito profundas. Hesitei durante muito tempo sobre este ponto, e acabei por optar por considerar o wokismo, não como um totalitarismo, mas como uma modalidade de fanatismo. Sabe, mantenho-me muito fiel ao sentido específico que Hannah Arendt deu ao conceito de «totalitarismo», bem como ao elo que ela estabeleceu entre ele, o poder do Estado e o uso do terror. Ora não é esse, de todo, o caso do wokismo.

Optei, pois, pela linhagem que, apesar das suas muitas nuances, vai de Voltaire a Nietzsche, e que me levou a considerar o wokismo como um fanatismo, com base em quatro pontos: o primeiro está na sua pretensão de dispor, em toda e qualquer circunstância, de uma explicação global e dogmática, aplicável a todos os domínios, sejam eles sociais, sexuais, educativos, etc. O segundo decorre do seu estratagema de transformar toda a crítica que lhe é dirigida em motivo de acusação contra o seu autor. O terceiro consiste na sua natureza minoritária, seja à escala nacional ou mundial. E o quarto está na criação, digamos, de um «mundo paralelo», que tenta impor pela força, não apenas pela força do poder institucional – que não negligencia -, mas sobretudo pela do novo primeiro poder, aquele que hoje se pode qualificar como mediático-reticular (isto é, a convergência dos media tradicionais com as redes sociais e as diferentes plataformas digitais), poder que escapa a toda a regulação institucional ou controlo democrático. E se, como penso, for de facto assim, é enquanto forma de fanatismo que o wokismo deve ser considerado.

PHT — Como perspectivar o futuro, ou mesmo o fim do wokismo? Alguns assinalam o seu enfraquecimento; outros, a sua reconfiguração. Qual é o seu prognóstico a este respeito?

MMC — Creio que tudo conduz mais à sua reconfiguração do que ao seu enfraquecimento. Digo-o tendo presentes as imensas transformações civilizacionais e geopolíticas, sociais e culturais, que tem alterado profundamente todos os parâmetros do mundo actual, e que me parecem configurar um quadro propício à sua reconfiguração: quer se trate da progressiva fragmentação social, do descrédito da política, do esboroamento das grandes ideologias, do hiperindividualismo, da perda de todo o sentimento de pertença colectiva, da irrupção do homo fragilis, da judicialização generalizada das sociedades, da alucinação igualitária ou ainda do conformismo dos cidadãos. Mas talvez eu esteja enganado.

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