A NORMALIZAÇÃO DO GROTESCO
. Era uma experiência que nos faltava, a da liquidação à distância dos líderes adversários políticos, seguida da glorificação pública do feito por parte de chefes de Estado, que depois enunciam, publicamente e um a um, os assassínios cometidos. A civilização está assim a sofrer golpes colossais, às mãos do belicismo de Netanyahu, de Donald Trump e dos seus acólitos, em que se destaca a criatura primária e abjecta do ministro da Guerra americano, Pete Hegseth. O combate ao terrorismo – porque o Irão vive de facto sob um regime brutal que o fomenta há décadas – aparece assim conduzido por um terrorismo de certo modo simétrico, agora assumidamente “de Estado”, e por um Estado que era até há pouco uma referência democrática no mundo civilizado.
. Como chegámos aqui? Sem uma resposta a esta pergunta não conseguiremos sair do medonho labirinto a que Donald Trump conduziu o mundo – e, de que, de momento, ninguém sabe como sair. Mas enquanto não se alcança esse “fio de Ariana”, fixemo-nos em alguns dados que, quem sabe, talvez ajudem a chegar lá. Ora vejamos. Olhando para a realidade que as fanfarronices de Donald Trump procuram “obliterar” constantemente, a verdade é que a guerra que os EUA desencadearam no passado dia 28 de Fevereiro se saldou, até ao momento, num arrastado fracasso em todos os planos, seja eles o militar, o económico ou o político. Desencadeada traiçoeiramente, a meio de negociações que, com a mediação de Omã, estavam então em curso, a guerra dos EUA – e de Israel – contra o Irão, conduziu até ao momento ao seguinte:
a) – à subida do preço do barril Brent do petróleo, de 72 dólares para cerca, certos dias bem mais, de 100 dólares;
b) – ao fim da estabilidade dos países do Golfo Pérsico (sobretudo do Kuwait, da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos), que levará anos a recuperar;
c) – à traição à anunciada ajuda à “libertação” do povo iraniano (“vamos a caminho”, garantiu Trump aos manifestantes, em Janeiro), que em vez disso sujeitou a um indiscriminado bombardeamento e, mais tarde, à ameaça de liquidar integralmente a civilização iraniana;
d) – ao prolongado bloqueio do Estreito de Ormuz e ao seu controlo pelo Irão, com consequências tremendas para a economia mundial;
e) – à alteração das dinâmicas políticas internas no Irão, incentivando cada vez mais a sobreposição de um sentimento de defesa nacional ao de oposição ao regime;
f) – ao aprofundar do fosso que se tem vindo a cavar entre os EUA e os seus aliados tradicionais, nomeadamente com a Europa, e com a NATO, abrindo caminho à quase inevitável implosão a prazo desta organização;
g) – ao forte reforço da aliança CRIC, que se solidifica entre a China, a Rússia, o Irão e a Coreia do Norte, decisiva para a concretização da comum ambição de avançarem no sentido da des-dolarização da economia mundial, bem como à consagração cada vez mais evidente da China como a superpotência do século XXI.
. Bastam estes factos – a que é indispensável acrescentar o pesado descrédito global que tudo isto lança sobre a própria ideia de democracia – para, não só se avaliar a dimensão do fiasco em que se tem traduzido a guerra iniciada a 28 de fevereiro, como para se perceber o alucinado voluntarismo político, a evidente impreparação estratégica e o imenso desconhecimento histórico que estiveram na sua origem, num novelo de causas que resultam do chamado efeito Dunning-Kruger, isto é, do estado em que a ignorância, sobre um assunto ou uma situação, dá mais segurança a quem fala ou age, do que o respectivo conhecimento. Note-se que é também este poderoso efeito que alimenta o “comentariado” quotidiano sobre esta guerra (e não só…), dominante nos canais de informação, onde – com raríssimas excepções – reina uma tóxica tagarelice de banalidades, que é vital para anestesiar o pensamento crítico e alimentar a sideração quotidiana do caos trumpista, como se de um mero reality show se tratasse.
. Tudo aponta assim, com esta guerra, para a normalização do grotesco, guerra cujos objectivos começaram por ser ajudar à libertação do povo iraniano, depois passou a ser a liquidação da liderança mollah, a seguir foi o enriquecimento de urânio e a questão nuclear, no mínimo para encontrar os supostos 400 kg de urânio enriquecido – a propósito, vale a pena lembrar as idênticas ameaças de Trump em Agosto de 2017, no seu primeiro mandato, à Coreia do Norte, que enfrentaria um ataque “com fogo e fúria jamais visto no mundo” – tudo, como se sabe, sem qualquer efeito posterior, a Coreia do Norte é hoje uma potência nuclear.
. Mais tarde foi a mudança de regime, por fim impôs-se o desbloqueio do Estreito de Ormuz, cuja soberania os EUA, na sua espiral belicista, ofereceram ao Irão, que fez dela…a sua bomba atómica. Embora referindo sempre, cínica e simultaneamente, que há “negociações em curso”, que “correm muito bem”, e outas tretas do género, é de resto nisso que estamos agora, a 10 de abril, enrolados nem singular acordo de versões “desacordadas”, a anunciar uma surpreendente, embora talvez precária, vitória do Irão – e de Israel -, mais do que dos EUA.
. Foi precisamente o tipo de comportamento de D.Trump que, recorrendo a uma expressão de Alfred Jarry, Michel Foucault designou como grotesco, para caracterizar “a maximização dos efeitos do poder a partir da desqualificação de quem os desencadeia ou induz”. Não é possível caracterizar melhor o ímpeto belicista do trumpismo a que temos assistido e, de um modo mais geral, tudo o que temos visto desde o dia 20 de janeiro de 2025, com a posse do novo Presidente dos EUA, que inaugurou nesse dia – como já tenho dito e creio ser decisivo compreender – um inédito regime de poder, a hipnocracia, perspectiva que permite cortar com as estereotipadas interpretações psico-patologizantes de Donald Trump que tanto se têm vulgarizado, mas que na verdade não passam de uma outra face do próprio dispositivo político do trumpismo.
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. Um breve apontamento final, mais conexo do que pode parecer com os tópicos atrás referidos. É sobre o wokismo, tema da entrevista publicada na última newsletter, onde sublinho o equívoco – na verdade, o embuste – que consiste em falar de wokismo “de direita”. Como José Pacheco Pereira voltou a invocar essa noção (cf. Público, 28.03.2026, entretanto “acompanhado” por textos de Manuel Carvalho e de Irene F. Pimentel), limito-me a transcrever o que então afirmei: “Não partilho da ideia segundo a qual se poderia ver no trumpismo um novo wokismo, desta vez «de direita» (…) Tal interpretação amalgama tudo e conduz, parece-me, a um duplo mal-entendido: por um lado, tende a branquear os traços censórios e persecutórios do wokismo da última década e meia; por outro, impede a compreensão daquilo que é realmente inédito no trumpismo – compreensão que me parece, no entanto, cada vez mais decisiva, mesmo vital.” Dito de outro modo, o uso da expressão wokismo “de direita” conduz a que se ignore, na sua especificidade, tanto a história como a actualidade. (A propósito, permito-me sugerir a leitura de dois livros muito esclarecedores: Trump again? How Could America Let this Happen?,(2025), de Sean Dempsey, e La France au Miroir de l’Amérique – Quand les progresistes font triompher le populisme, de Aquino Morelle, publicado no início deste ano.)
