“Só a estratégia transforma a força em potência”
O BOOMERANG
. Muito se tem falado do perigo do eventual poder nuclear em mãos iranianas – mas será que, pelo que diariamente temos visto, devemos estar mais tranquilos com o facto de o poderoso arsenal nuclear americano estar nas mãos de alguém com as características político-psicológicas de Donald Trump?
. É altura de se ignorar a lengalenga globalizada do impensar mediático-reticular dominante que, afinal, tem sido um dos maiores “compères” do trumpismo, e de se avançar sem tabus com as perguntas mais difíceis, que são as únicas que verdadeiramente interessam e fazem pensar. Sobretudo agora, quando tudo parece indicar que a situação que Donald Trump criou com a sua espiral de improvisação caótica começa a transformar-se no boomerang que lhe pode ser fatal.
A HISTÓRIA
. Convém, para abordar com lucidez o que se passa com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, retomar alguns fios da história. E lembrar que as conturbadas relações dos EUA com o Irão, que remontam a 1979, conheceram uma promissora pausa em 2015 quando, sob a liderança de Barak Obama, se concluiu um acordo, o Plano de Acção Conjunta Global (Joint Comprehensive Plan of Action), conhecido pela sigla JCPOA, negociado entre o Irão e os Estados Unidos, com a participação do Reino Unido, da França, da Alemanha, da Rússia, da China, e a presença da União Europeia.
. O JCPOA tinha como objectivo impedir que o Irão viesse a desenvolver a arma nuclear, tendo-se aprovado então alimitação do nível de enriquecimento de urânio, a redução do stock de material nuclear, a realização de inspeções regulares pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) e o compromisso do Irão de não desenvolver armas nucleares. Tendo o Irão obtido, por sua vez, o levantamento de sanções económicas internacionais e a sua reintegração na economia global. Foi este importante acordo que Trump I, em mais um cego impulso anti-Obama, denunciou em 2018, tendo retirado os EUA do acordo de 2015 e reactivado as sanções ao Irão.
. E porquê? Bom, é bem conhecido o facto de Israel – que, note-se, tem armas nucleares, calcula-se que 90, não assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, nem permitiu alguma vez qualquer controlo do seu “estaleiro” nuclear por parte da AIEA – se ter sempre oposto ao acordo de 2015, tendo Benjamin Netanyahu feito pressão sobre B.Obama, D.Trump I e J.Biden para o rasgar e atacar o Irão. Só teve, contudo, sucesso com Donald Trump, que como referi abandonou unilateralmente o acordo em 2018.
. Seria só em Fevereiro deste ano que Netanyahu – que, com pequenas intermitências, tem mais de 15 anos de liderança de Israel (1996/7, 2009/2021 e desde 2022) – conseguiu de Trump o que há muito ambicionava. Apoiado no bárbaro ataque do Hamas a Israel de 7 Outubro de 2023, e percebendo que Trump estava, por um lado, enfraquecido pelos resultados económicos internos e abalado pelo desaire das suas ambições em relação à Gronelândia, mas, por outro lado, se encontrava em júbilo com o lance conseguido na Venezuela com a “Operação Maduro”, Netanyahu procurou convencer Trump a repetir a façanha no Irão, e conseguiu. Sabendo ele bem que isso seria impossível, mas também que, depois de lançado na aventura iraniana, Donald Trump não teria margem de recuo, o que se tem confirmado. (Sobre tudo isto, leia-se o excelente artigo de Jonathan Swan e Maggie Haberman, “How Trump Took The U.S. To War With Iran”, publicado no The New York Times de 07.04.2026. Jornalistas que anunciam para o próximo mês de junho um desenvolvido livro sobre o tema, cujo título promete: Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump).
. Os pretextos para o início da guerra foram sendo diversos, todos a combinar equívocos intencionais e falsidades várias, ora se tratava de apoiar os manifestantes anti-regime, ora de provocar uma efectiva mudança de regime – umas vezes anunciada como estando para breve, outras como já efectivada – , ora impedir o enriquecimento do urânio que capacitasse o Irão a fabricar a bomba atómica, tudo numa trapalhada de versões a lembrar o falso argumentário utilizado pelos EUA na invasão do Iraque, em 2004, tendo o último pretexto referido sido categoricamente contestado pela Agência Internacional de Energia Atómica, facto que não se pode ignorar.
. Mas foi ignorado, e porquê? Para Trump poder pôr em marcha, mesmo contra o insistente parecer da maioria dos chefes militares americanos, uma invasão que antecipou como uma repetição da “Operação Maduro” na Venezuela: em vez de raptar, agora o objectivo era liquidar toda a liderança iraniana, o resto desmoronar-se-ia por si, rapidamente, sob o controlo dos EUA e de Israel. E Trump não hesitou em fazê-lo, cínica e deslealmente, a meio das negociações com o Irão, então mediadas por Omã.
. O resultado é conhecido, e estamos longe do fim: um fiasco em toda a linha a revelar uma colossal ignorância sobre as realidades política e militar iraniana, uma completa ausência de estratégia, a traduzir-se num voluntarismo errático, um impasse de meses quando tinha garantiu uma operação militar rápida – uma “excursão”, disse então Trump -, tudo isto com, com pesadíssimas custos e consequências para a economia mundial, que se farão sentir durante anos. Fiasco que Trump procurou incessantemente disfarçar com um discurso contraditório e delirante, algo entre a alucinação psicotrópica e um compulsivo narcisismo balofo que – consta cada vez mais insistentemente – terá mesmo levado à produção de um video-fake (tipo “deepfake”) do resgate, entre 4 e 5 de Abril, de um militar americano que, contudo, até hoje ninguém viu, e de quem nada se sabe. E a ver vamos se o fiasco não conduziu, como tudo indica, a um “golpe de estado” no Irão, a garantir a supremacia do poder dos Guardas da Revolução.
A BOMBA
. Recuando agora um pouco, façamos uma outra pergunta: mas afinal, para lá de tudo o que ficou dito, qual é o problema de o Irão ter urânio enriquecido a mais de 60%, o que eventualmente lhe permitiria fabricar armas nucleares? Não é credível que se tema verdadeiramente o seu uso, uma vez que, se tal acontecesse, isso ignificaria não só a destruição do seu alvo, mas também, e imediatamente, a de quem a usasse, conclusão a que, em situação similar, a Coreia do Norte chegou rapidamente. Será, como afirmam alguns idiotas-úteis, por o Irão ter na sua Constituição como objectivo a destruição de Israel? Bom, nós também temos na Constituição Portuguesa o objectivo “de abrir caminho para uma sociedade socialista” … Será devido à razão “existencial”, que Israel invoca? Mas todos os beligerantes o fazem, a “existência” é tão vital como para os outros. Ou será antes para consagrar Israel como a grande potência do Médio Oriente, e a única a dispor, e sem qualquer controle ou escrutínio independentes, de armas nucleares?
. Tudo aponta hoje, com grande evidência, para que o acordo de 2015 era de facto o caminho certo, numa perspectiva de equilíbrio de poderes no Médio Oriente e de pacificação entre os seus diversos países. Era um acordo realista, viável, e que enquadrava e controlava o regime iraniano. E a comprová-lo está o facto de, agora, o que se pretende ser, no essencial, retomar o que dele constava. Quanto ao mais, penso que é tempo de deixar os problemas internos de cada país serem resolvidos internamente, conforme estabelece o princípio de não-ingerência da Carta da Nações Unidas, no seu art.º 2º, reforçado pela resolução de 24.10.1970. Princípio que só admite excepções – a de um controverso “direito de ingerência” – com mandato explícito da ONU, excepções que foram objecto de várias resoluções entre 1988 a 1999.
LIÇÕES
. Do caótico imbróglio criado por Trump, são várias as lições a tirar. Destaco apenas três: a primeira, é nunca se deve iniciar uma operação militar sem se estar muito bem preparado para o fazer, o que inclui acomodar a possibilidade de o pior poder acontecer. Ou seja, ter uma estratégia bem definida, porque só a estratégia transforma a força em potência.
. Seguidamente, que as relações de forças, com a globalização e a generalização da interdependência entre as economias e os Estados, não se situam hoje onde tradicionalmente se encontravam em termos de território, de pontos de atrito, etc., mas nos locais ou situações onde as interdependências são mais intensas e incontornáveis – basta, para compreender isto, pensar no que aconteceu no Estreito de Ormuz.
. Por fim, que a potência tem de ser pensada na base da sua assimetria, seja de dependências, de alianças, de pontos fortes e fortes, etc. Não o fazer tem como consequência transformar o ponto forte do mais fraco no ponto cego, eventualmente fatal, do mais forte: é precisamente o que temos visto nesta guerra dos EUA contra o Irão.

Agradeço a súmula, necessária.