. Vivemos como se fosse possível que as causas da crise se pudessem recombinar milagrosamente, de modo que elas próprias resolvessem os problemas que provocaram.
. Vivemos na ilusão de que as sociedades ocidentais tivessem, por um misterioso privilégio, saído da História e pudessem planar naturalmente acima de todas as contingências e vicissitudes, deixadas aos outros.
. Vivemos o imperativo da mudança sob o signo de uma modernidade cada vez mais vazia, até descobrirmos que afinal quem mudou foram os outros. E que tudo mudou tanto, que nós agora queremos é conservar o que temos. Nós falávamos de mudança, mas foram os outros que a fizeram.
. Vivemos como se de repente descobríssemos pertencer a uma espécie de aristocracia condenada. Que, talvez pela primeira vez na História, não tem a mais pequena ideia de quem, ou do que, se lhe seguirá.
. Vivemos desde a transição do século agarrados a um mundo que, por mais que se critique, na verdade ninguém quer trocar por aquilo que se pressente no horizonte.
. Vivemos sem acreditar naquilo que sabemos, e sem verdadeiramente conhecermos aquilo em que acreditamos. As nossas informações, convicções, sentimentos e conhecimentos não combinam nem convergem, produzindo um pequeno caos quotidiano na cabeça de todos.
. Vivemos numa sociedade de ficção que reduz o coletivo ao mercado, o indivíduo ao consumidor, que deixou de se querer aperfeiçoar e apenas quer durar. Em que todos os valores têm cada vez mais um traço comum, o de não terem valor nenhum.
. Vivemos entre a excitação e o medo, entre o arrebatamento dos futebóis e a estupefação vulcânica, entre os imperativos do vício consumista (sempre mais e mais vezes) e a multiplicação dos princípios de precaução que transformaram a vida na antecâmara de todos os pânicos.
. Vivemos com líderes que trocaram o conhecimento da História e a visão do futuro pelo «curto-prazismo», entre anúncios sem efeito e fugas em frente pelas quais depois ninguém responde.
. Vivemos mais, na Europa, à procura de bodes expiatórios do que da raiz dos nossos problemas. Vivemos a queixar-nos da Alemanha, sem querer ver que, se há aqui arrogância, ela não é senão a outra face da desorientação europeia e da sua incapacidade estratégica.
. Vivemos sem querer apurar as causas, nem as consequências, do nosso tísico crescimento, comparado com a vitalidade que vai pelo mundo emergente. E sem assumir que, além das óbvias vantagens, a moeda única trazia consigo responsabilidades e constrangimentos. E sem querer reconhecer que, até hoje, nenhuma união monetária sobreviveu sem união orçamental e política.
. Vivemos cegos ao facto de que as dinâmicas da globalização e da moeda única dificilmente não se tornariam divergentes e que, como Emmanuel Todd avisou com uma fórmula forte em 1998, no seu notável L’illusion économique, o «euro se podia tornar no protecionismo dos imbecis».
. Vivemos, enfim, no labirinto que criámos: perdemos os élans nacionais sem nos dotarmos de um sentimento comum. Perdemos soberania sem perceber para onde ela foi ou vai: para a Comissão, o Parlamento Europeu, o Conselho, a Presidência tricéfala ou mesmo o governo económico de que tanto se fala, mas não aparece. Perdemos as fronteiras, sem que se consiga compreender onde ficam os limites da Europa, ou mesmo se há, ou alguma vez vai haver, limites. E cada dia que passa, tudo é menos projeto e mais nostalgia.
. Vivemos assim – mas não devíamos!
(In PENSAR O MUNDO, Vol. II, pp. 518-519)
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