CONTRA O ANONIMATO, PELA RESPONSABILIDADE

A GUERRA DOS SEXOS

 . Vivemos uma época em que quase todos os temas se definem, e cada vez mais, não pelas ideias em que se baseiam ou pela argumentação que desenvolvem, mas pela polarização que suscitam, pelo atrito que provocam, pelos conflitos que alimentam, dando origem a formas inéditas de sociedade, a – como diz Jonathan Curiel – sociedades histerizadas.

. É no quadro deste processo que frequentemente se coloca o tema da “guerra dos sexos” nas sociedades ocidentais contemporâneas, assumindo ele formas extremas justamente numa época em que –  e o paradoxo merece uma cuidada análise – a igualdade os sexos nunca foi tão grande, o que infelizmente não impede que se continuem a tricotar  conversas de uma indigência cínico-pueril, como ainda há dias se podia ler no jornal Público.

. É este o tema da próxima sessão do BEIRA / Observatório de Ideias Contemporâneas Azeredo Perdigão, que ocorrerá em Viseu, no próximo sábado, dia 23. A “Conferência de Abertura” será proferida por uma das mais notáveis sociólogas contemporâneas, Nathalie Heinich, e será seguida por um debate de diversos “pontos de vista”, moderado por Henrique Monteiro e com a participação de Catarina Marcelino, Manuel S. Fonseca e Raquel Abecasis. (*)

A SOCIEDADE DA POLARIZAÇÃO

 . A “guerra dos sexos” é, sem dúvida, um dos mais evidentes exemplos de polarização das sociedades histerizadas  em que vivemos, em que a negociação das distâncias – que está na base de todas as formas de convivialidade, seja ela pessoal, social ou profissional – tem progressivamente desaparecido, substituída pela espiral das invejas e dos ressentimentos, dos ódios e rancores, que cada vez mais caracterizam as nossas sociedades e a sua obsessiva necessidade de produzir inimigos,  apostando na vacuidade dos slogans e diabolizando a coragem da nuance.

. Espiral que, por sua vez, é alimentada por um despótico paradigma da dominação que se tem procurado impor como a grelha única de interpretação e análise das complexas sociedades actuais, nomeadamente com a electrização dos conflitos entre “eles” e “nós” ou entre as vítimas e os carrascos, com a torrencial multiplicação de bodes expiatórios ou a generalização do wokismo, etc. Tudo estratagemas de redução das várias formas de identidade e de diferença, de igualdade e de desigualdade, de singularidade e de conformismo, a modalidades de um permanente, intenso e incontornável confronto, que visa sempre impor uniformizações de matriz totalitária, com um progressivo empobrecimento, não só da actividade crítica como da própria linguagem, cada vez mais estrangulada por estereótipos de intencional embrutecimento mental.

 O ANONIMATO

. Processo naturalmente apoiado e alavancado pelas poderosas redes mediático-reticulares (isto é, pela convergência dos media tradicionais com as redes sociais e as plataformas tecnológicas), que se ocultam cada vez mais, e de modos cada vez mais sofisticados, atrás dos biombos de irresponsabilidade e de cobardia que só cederão quando houver coragem política – porque é disso que se trata – para, neste âmbito, acabar com o anonimato, permitindo naturalmente o uso legítimo, e minimamente regulado, do “pseudonimato”.

. Dito de outro modo, pseudónimo sim, anonimato nunca. A não ser – e aqui a excepção justifica-se inteiramente – em situações em que não exista liberdade de expressão, como acontece nas ditaduras e nos regimes autoritários, quando o anonimato se revela uma arma legítima de protecção individual e de combate pela liberdade e pela democracia. A não ser neste âmbito, o anonimato não deve ser permitido, porque ele é simultaneamente o instrumento intensificador e o carburante passional de todas as modalidades de conflitualidade, de todas as suas patologias e dos seus derivados: do ressentimento à cólera, da inveja à calúnia, etc. E consegue fazê-lo imunizando-se contra quaisquer exigências de responsabilização, mesmo as mais elementares, criando assim um mundo em que qualquer um pode reinar com a mais completa impunidade.

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 (*) – As iniciativas sazonais do BEIRA prosseguem a 12 de Setembro, com o tema “O Ocidente, a Guerra e a Paz”, a cargo de Nicole Gnesotto, e a 7 de Novembro, com o tema “Inteligência Artificial – Substituição ou Complementaridade?”, com Luc Ferry.

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