. É surpreendente a escassez de interesse e de bibliografia que certos temas suscitam, a quase clandestinidade a que as formas da nossa cultura os votam apesar do papel que desempenharam no decurso dos tempos e da relevância que, individual e coletivamente, continuam a ter. Um deles, e dos mais significativos, é o da estupidez. Trata-se, penso, de algo de que todos temos experiência pessoal e social, contemporânea e histórica, real e ficcional: e, contudo, ela permanece sempre, um pouco como acontecia com o sexo antes de Freud, do lado de lá do analisável — ou mesmo do dizível.
. Há, aqui, alguma responsabilidade da filosofia, que insistentemente traçou um quadro das faculdades humanas em que a estupidez não tinha qualquer lugar. Sendo as faculdades – a razão, a vontade, a imaginação, etc. – os vários modos de exercício do pensamento, era deste que logo se excluía a estupidez, como se se tratasse de um pensar que não pode ser pensado, traçando-se nesta impossibilidade a negatividade radical do próprio pensamento.
(…)
. Poder-se-á pensar que algo está a mudar ao ler-se, por exemplo, a Teoria Geral da Estupidez (Livros Horizonte) de V. J. Rodrigues ou As Leis Fundamentais da Estupidez Humana (Celta Editora) de C. M. Cipolla. V. Rodrigues pretende lançar as bases da estupidologia, ou seja, da ciência da estupidez, entendida esta não como falta de inteligência, mas como resistência à inteligência, como uma faculdade que tem por essência o que ele designa como estreitamento mental: o estúpido, diz, é «precisamente alguém que, para resistir à inteligência, estreita a mente, ignora informação, fecha-se em si mesmo. Retrai-se perante toda a dilatação de horizontes induzida pela inteligência» (p. 15). Concepção que, afinal, se combina facilmente com o lastro de exclusão e de negatividade a que a tradição nos habituou, apenas beliscado pelo empenho fenomenológico do autor na descrição de várias formas de estupidez.
. Menos ambicioso, mas, sem dúvida, mais pertinente é o esforço de Cipolla para definir as leis da estupidez. Ele abandona o ponto de vista das faculdades, interessando-se antes pelo comportamento estúpido e pelos tipos que ele induz. Assim, temos cinco leis que estabelecem: que é geral a subavaliação que se faz do número dos indivíduos estúpidos, que a probabilidade de alguém ser estúpido não tem nada a ver com outras características da pessoa considerada, que estúpido é aquele que prejudica os outros sem obter benefícios para si, que a nocividade da estupidez é devastadora e que este aspeto é sempre desprezado pelos… não-estúpidos, pelo que o perigo que os estúpidos representam é, de facto, imenso. E estas leis conduzem, de acordo com o comportamento que descrevem, à consideração de quatro tipos humanos: o crédulo, que, ao promover ganhos alheios, sofre perdas com a sua ação; o bandido, que, pelo contrário, assegura ganhos próprios prejudicando outrem; o inteligente, que, ao conseguir vantagens para si as alarga também aos outros; o estúpido, que, provocando danos a outras pessoas, não tira disso qualquer vantagem podendo mesmo, ainda, recolher prejuízos.
. O mais interessante, no breve ensaio de Cipolla, é o modo como dessubstancializa a estupidez mostrando como ela irrompe na teia da acção humana como um dos seus factores, ou mais exatamente, como uma das suas consequências. Ao fazê-lo, ele convida-nos a pensar as faculdades apenas como o nome que damos à orientação das várias articulações possíveis das disposições humanas, conforme os meios de que se dispõe e os propósitos que se pretendem atingir.
. De outro modo: o que se deve é abandonar a concepção do pensamento como resultado da convergência de várias faculdades, substituindo-a pela perspectiva de uma atividade atravessada por várias paixões. Não a paixão singular dos românticos, mas a paixão plural (a calma e a cólera, a vergonha e a indignação, o desprezo e o temor, etc.; lembremos que Aristóteles enumerava catorze paixões na sua Retórica) com que permanentemente nos definimos ao exprimirmo-nos. É a expressão da nossa passionalidade que está na base da intersubjectividade: as paixões, na sua multiplicidade e mobilidade, caracterizam melhor o homem do que as faculdades; e elas traduzem de um modo notável as combinatórias das capacidades da espécie, das disposições dos indivíduos e dos propósitos que dão forma à vida dos homens. A alternativa que, na linha de Cipolla, se pode esboçar, é não só de ordem pragmática uma vez que valoriza o registo da ação e a avaliação das suas consequências, mas também de índole topológica, uma vez que sustenta que a estupidez não deve ser pensada como o negativo do exercício do pensamento, mas como um dos seus efeitos: aquele em que se instala uma total opacidade entre o sujeito e os efeitos da sua própria ação.
. É sobre este fundo que melhor se pode compreender o que Kundera disse em 1985 no seu «Discurso de Jerusalém», onde afirmou que o século XIX não foi só o século da invenção da locomotiva ou da descoberta, por Hegel, do espírito da história, mas também o da descoberta, que se deve a Flaubert, da «bêtise» humana, vista não como uma característica psicológica ou cognitiva, mas como um dos mais significativos resultados da combinatória passional que define o homem contemporâneo, como algo «que não se apaga face à ciência, à técnica, ao progresso, à modernidade; que, pelo contrário, com o progresso, também progride».
. É este o ponto. Se a noção de um progresso linear, constante e direcionado para um mundo melhor faz já, em boa medida, parte das ilusões que o século XX foi abandonando, é, todavia, ainda obscuro o modo como alguns dos seus corolários sobrevivem, como lapas, no discurso e no pensamento do nosso tempo. Compreender que a estupidez aumenta com a inteligência permite sem dúvida sacudi-los e, mais do que isso, conduz-nos a uma outra compreensão da contemporaneidade que aposta não nas contradições entre os seus elementos e nas suas redentoras superações, mas no poder dos paradoxos e nas suas imprevisíveis metamorfoses: é a televisão que embute o espírito mas que também aumenta o sentido crítico, é a escola que bestializa e instrói, é a democracia que aumenta a intervenção dos cidadãos limitando a sua participação, é a cultura que enriquece pela diversidade que oferece e raquitiza pela passividade que suscita, é a informação que se anula ampliando-se sem cessar.
. O nosso tempo não é certamente o tempo do triunfo da inteligência, como ainda pensam alguns apóstolos do iluminismo. Mas também não é, como repetem os crispados discursos apocalípticos, o da vitória da estupidez. E simplesmente o tempo dos paradoxos que, entre uma e outra, se tecem, desafiando permanentemente o sentido que se atribui à vida, ao tempo, à história. Porque um paradoxo é algo que, precisamente, instaura a suspensão do sentido do que se afirma. E talvez seja esse todo o seu sentido: parece estúpido, mas não é.
NOTA INTEMPESTIVA – 2
(In PENSAR O MUNDO, Vol. I, pp. 651-653)
