MÁSCARAS IMPERIAIS: DE TUCÍDIDES A TODD

. Foi uma bela ocasião perdida, por Donald Trump, quando, na sua recente viagem à China, Xi Jinping esconjurou a “armadilha de Tucídides”, como se ela pudesse vir a ser favorável à posição chinesa. É um tópico que tem sido exaustivamente repetido, na esteira da expressão cunhada em 2012 por G. T. Allison, para referir a armadilha em que Esparta, a potência dominante no mundo grego, teria caído, ao iniciar uma guerra com Atenas, então uma potência em rápida ascensão.

. E foi uma “bela ocasião perdida”, pois um rudimentar conhecimento histórico por parte de Trump – ou de algum dos seus assessores – sobre a Guerra do Peloponeso, ter-lhe-ia permitido lembrar a Ji Xinping que a vitória final não foi de Atenas, mas de Esparta, que pôs fim ao império marítimo de Atenas, impondo-lhe um governo oligárquico, o dos “30 tiranos”. Mais – e este ponto teria suscitado algumas analogias incómodas – , que Esparta impôs então a Atenas, entre outras medidas draconianas, a destruição das suas próprias muralhas (as chamadas “Longas Muralhas”, determinantes para a sua defesa), que Xenofonte conta ter sido acompanhada ao som de flautas, que celebravam o acontecimento.

. Terá sido uma “bela ocasião perdida”, mas na verdade ela teria tido um efeito meramente retórico, no âmbito da encenação do encontro entre os dois presidentes, dos EUA e da China. Isto porque, na verdade, ao contrário dos estereótipos tão insistentemente referidos, não se trata hoje de nenhuma “armadilha de Tucídides”, uma vez que nem a situação global nem a disputa EUA-China se enquadram na teoria de G. T. Allison.

. Com efeito, a nova ordem que se tem vindo a impor no mundo desde o começo deste século é de outra natureza, trata-se de uma ordem pós-liberal, como bem sugeriu Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, quando denunciou no seu discurso de Davos em Janeiro passado, a ficção – a expressão é dele – de uma imutável e intemporal ordem mundial. E nesta nova ordem mundial que caracteriza o século XXI, os factores que contam são outros, sobretudo três: a força em prejuízo do direito, o crescimento do poder oligárquico e a impunidade da predação. E neste tabuleiro há que contar com o que Zaki Laïdi e Yves Tiberghien designam, num estimulante livro recente, The Hedgers, que de certo modo são hoje algo de análogo ao que foram os países não alinhados no século passado, combinando-se assim a actual bipolaridade EUA-China com uma nova multipolaridade em construção, num contexto em que, claramente, o modelo liberal-democrático perdeu atractividade para grande parte do mundo

. O facto é que a situação actual global revela o total colapso das ideias geopolíticas dominantes nas últimas décadas, em muitos casos revelando os logros em que elas se ancoravam. Neste ponto a situação da Europa é talvez a mais dramática, o seu apagamento político, a sua irrelevância geopolítica e a sua impotência estratégica são hoje a prova evidente dos equívocos e das ilusões em que tem vivido – e, infelizmente, persistido. Situação que já se tinha evidenciado com a guerra da Ucrânia, e se tem repetido e agravado com o conflito do Médio Oriente, reacendido a 7 de Outubro de 2023 pelo Hamas, com consequências que Israel e os EUA tornaram tão inaceitáveis quanto brutais.

. Gostaria de chamar a atenção para dois pensadores que de facto ajudam a pensar o nosso mundo, longe dos ventríloquos mediático-reticulares que – com raríssimas excepções – asfixiam hoje o espaço público com uma vazia, contínua e globalizada liturgia. Trata-se de Emmanuel Todd e de Peter Turchin.  Falarei deste último numa próxima ocasião, trata-se de um pensador que, no livro End Times, aborda de uma forma extraordinariamente pertinente e inovadora a “crise do mundo ocidental”, colocando no seu cerne uma combinatória explosiva: a progressão das desigualdades, o bloqueio de qualquer contrato social e a sobreprodução de elites.

. Hoje referirei apenas Emmanuel Todd, que em 2024 publicou o livro La Défaite de l’Occident – oportunamente traduzido em 2025 para português pela Principia Editora -, onde propõe um conjunto muito consistente de hipóteses que sustentam a tese do título, nomeadamente a do modo como o neoliberalismo, na era da globalização, conduziu a uma generalização do nihilismo que, de modos diversos, atingiu todo o Ocidente, mas colocou os EUA na “vanguarda” desse processo, que Todd, a partir de dados muito variados, mas sempre  objectivos, considera irreversível.

. Sendo uma obra impossível de sintetizar no quadro de uma newsletter, direi que as suas ideias nucleares são que o Ocidente, com os  EUA  à cabeça, vive um processo de decomposição interna que se traduz em fenómenos como a agudização da polarização interna, o crescente descontrolo financista, a perda da coesão nacional ou a fragilização institucional, em simultâneo com uma desindustrialização generalizada e sem alternativas reais, que tomou formas mais agudas nos EUA, tudo isto apontando, não para uma crise episódica, mas para uma autêntica transformação civilizacional, o que as elites ocidentais, confundindo narratretas morais com análise estratégica, têm sido incapazes de compreender.

. Neste quadro a situação da Europa torna-se particularmente grave, refém da sua vassalização face aos EUA, que a leva a, paradoxalmente, agir frequentemente contra os seus próprios interesses. E aqui é preciso ver que a configuração burocrática da União Europeia, cada vez mais longe dos imperativos democráticos que proclama, é um factor decisivo da sua inércia e impotência políticas. Bem como, penso, de resignação à sua progressiva “saída da história”. Os últimos anos têm sido um completo desastre para a União Europeia, conduzida pela incompetência autoritária da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen,  e pelo demissionismo irresponsável do Conselho Europeu, dos seus membros e do seu presidente, correntemente designado nos bastidores do Conselho como o seu “majordome”…

. Publicado antes da guerra do Irão, Todd considera que este conflito veio confirmar os seus diagnósticos e prognósticos, tendo ele entretanto salientado, em diversas intervenções, que se trata sobretudo da intensificação e da aceleração dos processos analisados no seu livro de 2024, classificando Donald Trump como o “presidente da derrota” – algo que, ao perfazerem-se agora três meses sobre a invasão do Irão, se revela cada vez mais como uma quase inquestionável evidência. É isso que leva Donald Trump a hiperbolizar constantemente o seu poder económico e militar – na verdade, tão inegável como declinante -, assim como as múltiplas dívidas da Europa (e não só) em relação aos EUA, numa parafernália de ininterruptas intervenções histriónicas, procurando criar “realidades alternativas” que, contudo, não passam de máscaras que revelam sempre o contrário daquilo que enunciam.

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