ENTRE A CEGUEIRA E O CONFORMISMO

Il faut toujours dire ce que l’on voit.

Surtout il faut toujours, ce qui est plus difficile,

voir ce que l’on voit.

Charles Péguy

 

. Dir-se-ia que as lições a tirar destes últimos meses do Verão de 2026 relevam da maior evidência, seja no registo climático, seja na dimensão política, internacional como nacional. E, no entanto, tudo vai indicando precisamente o contrário, que aquelas lições chocam, ora numa granítica cegueira, no primeiro caso, ora num cocktail de impotência, irresponsabilidade e conformismo, no segundo caso.

. A ONU publicou há dias um relatório sobre a gravidade do aquecimento global do planeta, em que salienta que, para o manter nos 1,8 graus – já não nos 1,5 decididos no Acordo de Paris, de 2015 -, será necessário, até 2035, reduzir as emissões globais a metade, o que será impossível continuando na “procrastinação climática” em que se tem vivido. Com efeito, nunca como nestes meses as consequências das alterações climáticas se tinham feito sentir, e ver, com tanta frequência e intensidade por todo o mundo, tornando plausíveis as especulações catastrofistas do famoso livro de ficção científica The Ministry for the Future de Kim Stanley Robinson. Mas tal não foi suficiente para que os líderes políticos pusessem nas suas mais urgentes prioridades qualquer tipo de resposta política a esta situação, tudo se resumindo sempre a uma retórica encantatória, de que infelizmente a União Europeia é um constante e eloquente exemplo.

 DO ESPECTÁCULO À INVISIBILIDADE

. Como compreender esta situação? Tratar-se-á, como F. Samama sugere em The Enigma of Climate Inaction, de um enigma? Não creio, pelo menos na formulação que ele propõe. Porque, por um lado, a quantidade de dados sobre a crise climática cresce todos os dias, invade todos os tipos de informação, declina-se em inúmeros fenómenos que enchem os écrans: canículas, cheias, furacões, secas severas, desabamentos, degelo dos glaciares, etc., etc. Mas, por outro lado, o que passa é que isso acontece dando-se-lhes sempre a forma de eventos espectaculares, como se fossem meras séries que se vão desdobrando em cadenciados episódios, encapsulados num presentismo tão “voyeur” como angustiado, como se na sua origem não houvesse causas materiais.

. Ou seja, o frenesim informativo conduz, não à acção mas à inacção. E o que ele suscita, é uma inédita invisibilidadedaquilo mesmo que exibe, como se fosse algo que ocorre nos écrans, mas não acontecesse na realidade. Abre-se assim um abismo cada vez maior entre o que se vê e o que se sabe, entre a consciência e o saber, entre o que se conhece e aquilo em que se acredita, entre os consensos científicos e as convicções colectivas. Toca-se aqui num “paradoxo” central dos nossos dias:  os saberes difundem-se, mas não se transformam em convicções colectivas, como se a um conhecimento cada vez mais total e global correspondesse uma consciência cada vez mais limitada, minimal, quase inexistente.

. Algo que Ulrich Beck já tinha detectado no clássico A Sociedade do Risco, em 1980, ao alertar para o frequente equívoco de identificar o diagnóstico sobre um problema com a sua resolução. Intuição que, mais tarde, Jean-Pierre Dupuy aprofundou com a sua teoria do catastrofismo iluminado, que consiste em afirmar que, uma vez que hoje sabemos que a catástrofe é possível, mas não acreditamos efectivamente nessa possibilidade nem agimos de acordo com ela, a única solução será a de proceder como se a catástrofe já tivesse acontecido. Dito de outro modo, procurando contrapor à passividade da negação do “que se sabe”, a actividade de uma lúcida e exigente racionalidade.

A FÁBRICA DE IGNORÂNCIA

. Esta inteligente abordagem é contudo uma via difícil para combater a invisibilização a que acima me referi, de que se constantemente se multiplicam os indícios e os sinais, nomeadamente na linguagem política, com o recurso à retórica dos oxímoros (“crescimento sustentável”, etc.) ou à multiplicação de metáforas sobre a “transição energética”, que na verdade nunca acontece, mantendo-se sempre o regime da sua acumulação sucessiva, como Jean-Baptiste Fressoz detalhadamente explicou, no  seu livro Sans transition – une nouvelle histoire de l’énergie.

. De tudo isto decorre, a meu ver, que a invisibilidade se transformou nos dias de hoje no dispositivo central de uma contínua produção de ignorância da realidade, de incompreensão dos seus problemas e de bloqueio de qualquer solução que eles possam suscitar. Fenómeno a que já tenho aludido, na linha do que foi teorizado sob a designação de agnotologia (do grego agnōsis, “sem conhecimento”) por Robert Proctor, da Universidade de Stanford, para compreender esse tão descurado fenómeno que é a intencional produção de ignorância. Produção que pode tomar várias, desde a hábil transformação de sólidos consensos científicos em agitadas controvérsias públicas até à hoje cada vez mais frequente saturação mediático-reticular, que transforma a crise do clima e as suas consequências num mero carrossel de episódios espectaculares, sempre – ponto que é decisivo – desligados da exposição ou análise das suas causas.

SEM RETORNO

. Encontramos aqui mais uma das múltiplas astúcias que é vital reconhecer ao capitalismo, que percebeu que a sua continuidade e expansão dependem cada vez mais do dispositivo que garante a invisibilização das suas estratégias, dos seus dispositivos e procedimentos, separando a torrencial espectacularização dos acontecimentos da compreensão das suas diversas causalidades. E, assim sendo, a impotência e a inacção políticas de que todos se queixam não seria afinal um impasse do “sistema”, como tantas vezes se diz, mas antes a prova da sua enorme eficácia, num trajecto que se vai revelando sem retorno.

. A segunda lição a tirar fica para outra ocasião, mas não sem sinalizar o modo como o conformismo se vai generalizando, entre sofismas de irresponsabilidade e lamentos de impotência, crescendo tudo isto  à medida que a hipnocracia, nacional e  internacional, se consolida, propagando as formas de impunidade  dos vários poderes, estimulada pela permanente guerra de atrito entre os políticos e os media, com muitos deles a  comportarem-se cada vez mais como autênticas máfias, à luz de cujo modelo actual – se seguirmos a perspicaz análise de Roberto Saviano – parecem evoluir,  instaurando um espaço caótico em que os cidadãos, atordoados, oscilam entre a indignação mais colérica  e a indiferença mais atávica, como se tratasse das duas faces da mesma moeda.

. Talvez tudo sem retorno, também aqui.

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