DESLUMBRAMENTOS FATAIS

“No fundamental trata-se de retomar a ideia – que há muito tempo defendo – que, em qualquer mudança, a metamorfose que a suscita e caracteriza é mais interessante do que a crise que a revela e expõe. E de, nesta óptica, propor uma decifração das metamorfoses do nosso tempo, tomando como eixos centrais os que incidem, por um lado nas transformações da democracia e da esquerda, e por outro lado nas mutações do indivíduo e da cultura.

Esta decifração é essencial: sem ela, como mudar o que não se aceita? Sem ela, como intervir sobre o que, na verdade, não se conhece? Sem ela, como contornar a aceleração mediática que tudo bloqueia a pretexto de informar? A crise que hoje vivemos é, acima de tudo, uma crise de ideias e de valores, de reflexão e de debate. Sem se perceber bem porquê, o nosso destino colectivo tem sido cada vez mais entregue ao improviso e ao voluntarismo, ao imediatismo e ao marketing, cavando um imenso vazio estratégico que nos deixa paralisados.

Prova disso é o facto de, apesar de vivermos a maior crise do capitalismo desde os anos 30 do século passado, vermos a esquerda, tanto a radical como a democrática — e mesmo quando ganha eleições, o que tem sido raro — incapaz de propor aos cidadãos uma visão alternativa global e credível, que permita configurar um quadro diferente de respostas à crise, revelando assim bem o desarmamento ideológico que a atingiu nas últimas três décadas, e que se traduziu num triplo deslumbramento que se generalizou por todo o lado, com consequências devastadoras na Europa.

Este deslumbramento consistiu fundamentalmente num fascínio acrítico, em primeiro lugar, com todas as formas emergentes, mais ou menos fracturantes, de individualismo. Depois, com todas as modalidades de criatividade e de malabarismo do financismo. Por fim, com todas as promessas e ilusões das novas tecnologias. Com um individualismo que reivindicava cada vez mais direitos, com base numa matriz mais consumista do que cidadã. Com um financismo que garantia a todos um novo bem-estar através do crédito fácil e ilimitado, conduzindo assim à naturalização social da dívida. E com novas tecnologias que anunciavam uma sociedade do conhecimento e um novo mundo, ecrânico e autossuficiente, que na verdade se revelou gerador de novas formas de ignorância, bem como de modalidades inéditas de submissão e de controlo dos indivíduos.

E estas três formas de deslumbramento emergem e estruturam-se de um modo conjunto, articulado, solidário, reforçando-se constantemente umas às outras: o financismo não seria possível sem as novas tecnologias, o tecnologismo não seria viável sem o «caldo» individualista, o individualismo não seria concretizável sem o crédito infinito, etc.. Este ponto é decisivo: é por ele não ser compreendido que muitas vezes se apontam, como alternativas à ideologia hoje dominante, ideias que afinal são profundamente cúmplices com ela.

E esta espécie de convergência em espiral parece ter — como se tratasse de um «monstro doce», para referir o título de inspirado livro de Raffaelle Simone — literalmente embruxado o senso comum dos cidadãos e cegado a inteligência crítica das elites. Basta olhar para o modo como por todo o lado a esquerda, e nomeadamente a mais radical, têm assumido as causas mais liberais em matéria de costumes… O que não deixa de ser estranho, porque é justamente nisto, nesta inédita forma de «servidão voluntária» que decorre da convergência de individualismo, de financismo e de tecnologismo, que consiste o triunfo contemporâneo, e a hegemonia cultural, do tão vituperado «neoliberalismo»!…

É por tudo isto que mudar de vida não é agora fácil, como bem se tem visto. O capitalismo — tal como a democracia, é preciso ligar as coisas — entrou numa crise que não se resolverá com nenhum «regresso ao passado». Não se podem, por isso, continuar a adiar as questões mais difíceis, e essas questões apontam para perguntas muito precisas: como revitalizar a democracia, ultrapassando o generalizado paradoxo de uma liberdade individual que cresce, enquanto a capacidade coletiva diminui? Como libertar a sociedade do clientelismo partidário que a consome? Como ultrapassar as ilusões do socialismo da dívida e do consumo? Como reforçar o valor do trabalho e equacionar o tema da sua duração, como criar emprego e incentivar a produção? Como repensar a fiscalidade no quadro da globalização? Como libertar o ensino do garrote empresarial? Como contrariar o crime, em curso, contra as humanidades?

Ou ainda: como transformar o Estado-providência num Estado-estratega? Quais os novos parâmetros do contrato social para o século XXI? Como «civilizar» a finança? Como reformar a justiça, e contrariar o permanente crescimento das desigualdades? Como deixar de endeusar o livre-câmbio e de diabolizar o protecionismo? Como acabar com a retórica balofa da língua, colocando a cultura e a criação no centro de uma inovadora capacidade de projeção nacional? Como robustecer o papel do mar e dos recursos naturais, transformando a nossa periferia numa verdadeira centralidade estratégica? Como legitimar democraticamente uma (eventual) solução federal europeia? Como fazer das novas tecnologias instrumentos, não de sujeição, mas de emancipação individual e de afirmação coletiva? Como repensar a gratuidade?

Seremos capazes de assumir uma tal agenda? Não será fácil, mas trata-se de um verdadeiro imperativo intelectual e político, se o que se pretende é elaborar uma alternativa credível e mobilizadora aos impasses que dominam o nosso mundo. E há hoje muitas ideias e múltiplos contributos disponíveis na sociedade, nomeadamente na portuguesa, que têm dificuldade em chegar à política, aos partidos e aos cidadãos: acolhê-los, incentivá-los e dar-lhes consequência parece-me ser, justamente, um dos passos mais urgentes.”

(Excerto do “posfácio” à obra Pensar o Mundo (pp.687-689, Grácio Editor, agora em edição e-book), que escolhi por estar na génese da teoria do paradigma do ilimitado que seguidamente vim a desenvolver. Amanhã, no mesmo sentido, será a vez de “O endividualismo”)

 

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