O ENDIVIDUALISMO

“Esta sociedade é hoje atravessada, de uma ponta à outra, pelo que designo como «endividualismo», que é o elemento novo que deu forma, tanto ao ultraliberalismo como ao mini-socialismo do nosso tempo. O endividualismo é o novo tipo de individualismo de massas que nas últimas décadas mudou todas as regras do jogo político. Foi ele que inculcou por todo o lado valores e aspirações comuns, tornando as diferenças ideológicas muitas vezes indiferentes, quando não insignificantes.

É justamente por isso que agora, mesmo quando há mudanças, tudo muda tão pouco. E que se enfatizam tanto as variações de estilo, ao contrário do que acontece com a substância e com o conteúdo. E que, por mais cómicos que apareçam a fazer de políticos (como Beppe Grillo (*), em Itália), e públicos a fazer de massas – como os «indignados», um pouco por todo o lado -, pouco ou nada verdadeiramente se altera.

O populismo é, deste ponto de vista, um fenómeno que revela bem a situação paradoxal em que nos encontramos. Porque ele tanto traduz um apelo veemente ao povo, como a categórica rejeição desse apelo. Razão tem, pois, Pierre Rosanvallon quando associa o populismo às derivas da democracia contemporânea, sinalizando nele uma tripla simplificação — sociológica, institucional e de visão da sociedade — a que urge contrapor, mais do que denúncias expeditas, respostas verdadeiramente consistentes, capazes de responder à erosão da legitimidade que atinge as sociedades contemporâneas.

O endividualismo de que falo é o resultado da última metamorfose do indivíduo moderno, do processo da sua afirmação e expansão ilimitadas. É o produto da sua profunda cumplicidade com o paradigma do ilimitado que marcou todo o século passado, sobretudo a segunda metade, garantindo a todos uma energia inesgotável, um consumo interminável e um crédito sem fim, num abismo de ilusões em que todos nos precipitámos.

Ele aparece hoje como o apogeu jubilatório do indivíduo que se realiza pelo crédito, isto é, pela dívida. Ele tornou-se, no mundo de hoje, no pilar mais generalizado – e talvez no mais resistente! – deste paradigma em crise. Ele decorre da afirmação sem limites dos direitos dos indivíduos, da progressiva identificação do direito, de todo o direito, com a proteção da esfera do privado, e da rasura sem precedentes das referências a valores ou convicções de ordem colectiva. As chamadas agendas fracturantes têm aqui, como já tenho dito, a sua mais do que óbvia origem, bem como a principal razão do seu frenético élan.

Mais: o endividualismo aconselha talvez a olhar com outra atenção para a intuição de Nietzsche, expressa no seu livro A Genealogia da Moral, de que a sociedade não se funda (como acreditou A. Smith, mas também K. Marx) na troca, mas no crédito. E que a assimetria entre o crédito e a dívida estão na base de toda a vida social, por um lado produzindo uma humanidade capaz de prometer, e por outro criando mecanismos coercivos do cumprimento das promessas feitas. E, nesta perspetiva, a memória e a culpa teriam origem numa inesperada teia com raízes bem remotas.

Seja como for, é preciso ter em conta que o endividualismo acabou por ser muito estimulado – ao contrário do que em geral se diz e por mais paradoxal que tal pareça – pela poderosa afirmação de um Estado social que, libertando pela primeira vez na história os indivíduos da necessidade de terem de preparar o seu futuro e o dos seus – garantindo-lhes reformas, educação, saúde, etc. -, o tornou num soberano cada vez mais narcísico e centrado em si próprio. Ele acelerou, de um modo tão inédito na forma quanto incerto nas consequências, o processo de desarticulação interna das democracias, cavando um abismo cada vez maior entre a afirmação da liberdade individual dos cidadãos e a sua capacidade de acção coletiva: mais livres, sim, sempre — mas também mais impotentes!

Por isso, o endividualismo acabou por se tornar no ponto cego das esquerdas. Como se, face ao ultraliberalismo, o socialismo estivesse condenado a formas de sobrevivência minimalistas. É neste impasse que a esquerda, toda a esquerda, mas sobretudo a de índole partidária, está hoje mergulhada. Porque o verdadeiro desafio é o de uma dificílima batalha das ideias para a qual não se vislumbram hoje, ao nível político, capacidade intelectual ou instrumentos analíticos à altura dos problemas do mundo contemporâneo, seja no plano dos valores, seja no âmbito da estratégia, seja no registo dos instrumentos de ação.

Tudo isto se deve, em boa parte, ao facto de a esquerda ter permitido nas últimas décadas – e quase sem resistência, como já referi – a consagração do ultraliberalismo, assistindo primeiro deslumbrada, depois atordoada, e agora talvez arrependida, ao triunfo simultâneo e solidário do financismo, do tecnologismo e do individualismo. Agora é de autênticas alternativas que se precisa, é nessa linha, na de nos municiarmos de novo no plano dos valores e da estratégia, que é preciso pensar o mundo.”

      (*) – Entretanto, os “cómicos multiplicaram-se a um ritmo alucinante…

                                  (In Pensar o Mundo, Vol. II, pp. 691-693)

                

                                 Vol.I                                                   Vol.II

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